Ana Elisa Santos Silva (PT-MG) foi eleita deputada federal no primeiro turno, em 4/10, com 524.219 votos. Aos 21 anos, ela é a deputada federal mais jovem já eleita no país e a segunda candidata mais votada do estado, atrás apenas de Nikolas Ferreira (PL-MG). Com uma base de milhões de seguidores, foi convidada a integrar a estratégia digital da campanha de Lula para o segundo turno.
Em 8/10, Nikolas Ferreira compartilhou uma publicação atribuída à nova parlamentar Ana Elisa, na qual ela supostamente pediu a Lula que fechasse igrejas. Ana Elisa afirmou que a imagem era uma montagem, negou a autoria da publicação e anunciou que levaria o caso ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por disseminação de informação falsa. O episódio intensificou os ataques à parlamentar, e sua equipe desativou o perfil dela no X diante do volume de ameaças. Parlamentares aliados e veículos de imprensa classificaram o conteúdo como falso, enquanto perfis de extrema-direita o repercutiram como verdadeiro e ironizam a desativação do perfil.
A deputada relatou ameaças de morte, de estupro e de teor racista. Ela também relatou o vazamento de seus dados pessoais, como endereço e documentos, e passou a contar com segurança armada contratada pelo partido.
A notícia falsa contra Ana Elisa teve volume, mas não alcance. O eixo montagem das igrejas e tweets antigos reúne 11% das publicações, com 82% de extrema-direita, mas apenas 2% das interações. O ataque quase não saiu da bolha que o produziu.
O ataque se intensificou depois que o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) compartilhou a montagem. O volume de publicações disparou nos dias 8 e 9 de outubro. No dia 9, a extrema-direita respondeu por 63% das mensagens.
Ainda assim, a peça não alcançou o engajamento obtido pelas publicações de denúncia e de solidariedade, que tiveram um alcance maior. O eixo das ameaças de morte, de estupro e de teor racista reúne 13% das publicações e 23% das interações, mostrando que a gravidade dos ataques repercutiu além do campo progressista.
Essa dinâmica aparece no tom das publicações sobre Ana Elisa. Embora as menções negativas tenham predominado (37%), as positivas também ocuparam espaço expressivo no debate (26%). Esse percentual reflete a mobilização em defesa da deputada e mostra que a repercussão foi marcada tanto por manifestações de ataque quanto de apoio, e não por uma reação negativa unilateral.
A imprensa ampliou a repercussão do caso, respondendo por 17% das publicações, mas concentrando 43% das interações. A cobertura se voltou principalmente à eleição e à nova onda de ataques à parlamentar, eixo de maior repercussão, responsável por 38% do engajamento total.
A esquerda conduziu o volume e a direita ficou isolada no ataque. O campo progressista responde por 56% das publicações e 49% das interações, e a extrema-direita a 28% das publicações.
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No período de 5 a 9 de outubro, o debate digital sobre Ana Elisa reuniu 1,2 milhão de publicações de 277,9 mil perfis, totalizando 13,9 milhões de interações, números que mostram um episódio de dimensão nacional. O volume de conteúdo sobre o episódio cresceu a cada dia até o pico na noite de 8 de outubro, quando a deputada eleita denuncia as ameaças.
O debate registrou picos diários de publicações, concentrados no fim da tarde e à noite, com crescimento ao longo da semana. O maior pico ocorreu na noite de 8 de outubro, quando foram registradas 54 mil publicações por hora, coincidindo com a divulgação das ameaças pela deputada e a intensificação do confronto com Nikolas Ferreira. Ao todo, o dia 8 concentrou 381 mil publicações, evidenciando uma repercussão crescente, impulsionada por diferentes desdobramentos do caso, e não apenas por uma reação negativa unilateral.
Ao contrário de um alvo que concentra rejeição, Ana Elisa dividiu a conversa, com 37% de publicações negativas e 26% positivas. A fatia positiva, alta para um caso de ataque, vem da mobilização de apoio que cresceu em resposta às agressões.
O recorte reúne publicações dos perfis monitorados entre 1º e 9 de outubro de 2026, identificadas a partir de termos relacionados a Ana Elisa. Ao todo, foram registradas 1.297 publicações e 44.074.167 interações, distribuídas em seis eixos por proximidade de vocabulário. A esquerda respondeu por 56% das publicações e 49% das interações; a extrema-direita, por 28% e 8%, respectivamente; e a imprensa, por 17% e 43%. Embora a extrema-direita tenha concentrado parte dos ataques à deputada, suas publicações tiveram menor participação nas interações. A maior repercussão ficou concentrada nas denúncias, na resposta de Ana Elisa e na cobertura jornalística.
| Cluster | % do total | Perfil político | Descrição | Exemplos de termos |
|---|---|---|---|---|
| Apoio, voto e a resposta de Ana Elisa | 36% | Extrema-direita 28% Esquerda 70% Imprensa 2% |
Apoio à deputada, o pedido de voto da campanha e a sua resposta aos ataques, com a repercussão de sua ida a Brasília e das falas em defesa própria. | ana, elisa, voto, apoio, lula, resposta, campanha, defesa |
| A eleição e a nova onda de ataques | 21% | Extrema-direita 19% Esquerda 43% Imprensa 38% |
Eleição de Ana Elisa com 524 mil votos e a nova onda de ataques após o post de Nikolas Ferreira, com forte presença da imprensa na cobertura. | eleita, votos, ataques, nikolas, deputada, minas, onda, recado |
| Quem é Ana Elisa, a mais jovem eleita | 15% | Extrema-direita 9% Esquerda 61% Imprensa 30% |
Perfil da deputada, aos 21 anos a mais jovem já eleita no país, influenciadora e segunda mais votada de Minas Gerais, e a mobilização que a elegeu. | minas, votos, jovem, influenciadora, seguidores, divinópolis, história, eleita |
| Ameaças de morte e a denúncia | 13% | Extrema-direita 19% Esquerda 65% Imprensa 16% |
Ameaças de morte, de estupro e de teor racista recebidas pela deputada, o vazamento de seus dados pessoais e a denúncia à polícia, com o email que menciona a Ku Klux Klan. | ameaças, morte, estupro, racistas, dados, denúncia, violência, polícia |
| Fake das igrejas e os tweets antigos | 11% | Extrema-direita 82% Esquerda 17% Imprensa 1% |
A montagem, desmentida pela deputada, de que ela pediria o fechamento de igrejas, amplificada por Nikolas Ferreira, e a recuperação de supostos tweets antigos, que levou o perfil dela a sair do ar. | fake, igrejas, tweets, antigos, nikolas, perfil, montagem, censura |
| Nova geração no Congresso e Lula | 3% | Extrema-direita 5% Esquerda 56% Imprensa 39% |
Nova geração de parlamentares da esquerda no Congresso e o encontro com Lula, com a presença de deputados do PSOL e do PT. | geração, congresso, lula, psol, parlamentares, jovens, brasília |
| Eixo | Total de posts | % de posts | Total de interações | % de interações |
|---|---|---|---|---|
| Apoio, voto e a resposta de Ana Elisa | 464 | 36% | 9.993.220 | 23% |
| A eleição e a nova onda de ataques | 277 | 21% | 16.923.513 | 38% |
| Quem é Ana Elisa, a mais jovem eleita | 195 | 15% | 5.679.929 | 13% |
| Ameaças de morte e a denúncia | 172 | 13% | 10.012.862 | 23% |
| O fake das igrejas e os tweets antigos | 148 | 11% | 1.066.670 | 2% |
| Nova geração no Congresso e Lula | 41 | 3% | 397.973 | 1% |
| Total | 1.297 | 100% | 44.074.167 | 100% |
O eixo com maior tração no volume de publicações é o de “Apoio, voto e a resposta de Ana Elisa”, que concentra 36% dos conteúdos produzidos. Contudo, observa-se que essa predominância de conteúdo não se traduz proporcionalmente na mobilização: apesar de ser o tema mais publicado, ele responde por apenas 23% das interações totais.
Em contrapartida, os picos de repercussão e viralidade estão concentrados nas narrativas de embate e violência política. O eixo “A eleição e a nova onda de ataques” atua como o grande motor de mobilização da rede, capturando 38% de todas as interações com apenas 21% das publicações. O mesmo padrão se repete em “Ameaças de morte e a denúncia”, por onde circularam as denúncias dos ataques, a resposta da deputada e a cobertura da imprensa, que mobilizou 23% do engajamento baseando-se em apenas 13% dos posts. O eixo “O fake das igrejas e os tweets antigos” representa 11% do volume de postagens, mas gerou somente 2% das interações. A peça foi produzida e repetida pela extrema-direita, mas não encontrou público além desse campo.
Publicações por dia, por eixo
A evolução temporal do debate aponta para uma divisão em duas fases distintas, marcadas pela transição de um cenário eleitoral com a celebração da vitória de Ana Elisa para um ambiente de elevada tensão e ataques. Nos primeiros dias do recorte (1 a 7 de outubro), a conversação manteve-se em volumes contidos, impulsionada essencialmente pelo resultado das urnas. Este momento inicial foi dominado pela apresentação pública da candidata, com o eixo “Quem é Ana Elisa, a mais jovem eleita” a atingir o seu pico a 5 de outubro, operando em conjunto com as discussões sobre o resultado da eleição e mensagens de apoio. A dinâmica sofreu uma inflexão nos dias 8 e 9 de outubro, concentrando, em uma janela de 48 horas, mais da metade de todo o volume do período analisado. A escalada foi desencadeada pela amplificação coordenada de publicações atribuídas à parlamentar e o eixo “O fake das igrejas” teve grande aumento, com participação sobretudo da extrema-direita, que chegou a representar 63% das publicações. Em reação direta à ofensiva, houve mobilização em torno da denúncia sobre os ataques, com apoio à nova deputada.
Composição política de cada eixo
O eixo “O fake das igrejas e os tweets antigos” concentra 82% de publicadores da extrema-direita, a maior participação de um único segmento no recorte. Já os eixos “Apoio, voto e a resposta de Ana Elisa” e “Ameaças de morte e a denúncia” apresentam predomínio da esquerda, com 70% e 65%, respectivamente, concentrando manifestações de defesa e solidariedade à deputada. A imprensa registra sua maior participação nos eixos “Eleição e a nova onda de ataques” (38%) e no perfil da parlamentar (30%), nos quais o caso ganhou cobertura jornalística. A extrema-direita é majoritária apenas no eixo da montagem e das publicações antigas, justamente o de menor engajamento.
Publicações antigas como retrato das posições de Ana Elisa: A principal ofensiva tentou transformar Ana Elisa em símbolo do que a campanha de Lula estaria escondendo do eleitor. Perfis resgataram supostas publicações atribuídas à deputada sobre igrejas, aborto, empresários, pessoas brancas, escolas e regulação das redes (1). Um dos conteúdos de maior circulação acusou-a de odiar pobres e brancos, além de defender o “kit gay” e o fechamento de igrejas. Na mesma linha, outra postagem afirma que a entrada de Ana Elisa na campanha teria exposto posições que Lula evitaria assumir.
Ódio ao cristianismo: Perfis de direita repercutiram uma postagem falsa atribuída a Ana Elisa para apresentá-la como hostil aos cristãos e questionar sua participação na campanha. A acusação apareceu em vídeos que afirmavam que a nova integrante da equipe de estratégia de Lula defende a censura e o fechamento de igrejas. Em tom irônico, outra postagem sugeriu que a esquerda trata como falso o print de Ana Elisa, mas como verdadeiro aquele em que Nikolas Ferreira supostamente teria dito que a Virgem Maria foi estuprada.
Feia e feminista: A deputada eleita foi alvo de ataques à sua aparência. Além disso, perfis a apresentavam como feminista e defensora do aborto, questionando a estratégia de Lula de incluí-la na campanha (1; 2; 3; 4; 5).
Ana Elisa como novo passivo eleitoral de Lula: Publicações afirmaram que Lula teria buscado em Ana Elisa uma solução para sua dificuldade nas redes sociais e acabou gerando um novo problema. A crítica aparece na avaliação de que a campanha imaginou que ela salvaria a candidatura e em relatos de eleitores que teriam desistido de Lula após conhecer as posições atribuídas à deputada. Publicação de grande engajamento afirmou que suas falas sobre raça, igrejas e empresários estariam afastando eleitores do presidente.
Desativação da conta do X como admissão de culpa: Perfis associaram a decisão de Ana Elisa de desativar sua conta à circulação de posts antigos, interpretando o ato como uma tentativa de apagar evidências. Outros perfis montaram arquivos e threads com capturas das publicações para impedir que o conteúdo desaparecesse.
Ameaças tratadas como tentativa de inverter a controvérsia: Perfis de direita reagiram às denúncias de violência política feitas pela deputada. O argumento foi que Ana Elisa denunciava ataques enquanto ela própria teria publicado conteúdos ofensivos.
Incêndio na UFPE: Ao comentar o incêndio em um prédio da UFPE, Ana Elisa associou o episódio a um ambiente de violência política e ao risco de uma vitória de Flávio Bolsonaro. Perfis de direita afirmaram que ela teria culpado bolsonaristas antes de qualquer conclusão da perícia, e usaram o caso para apresentar a nova colaboradora de Lula como alguém que atribuiria crimes à direita sem provas.
Ana Elisa como resposta à dificuldade digital da campanha de Lula: O principal enquadramento apresentou sua chegada à campanha como renovação da estratégia de comunicação. Seu desempenho eleitoral e sua presença nas redes foram usados como argumento de que a esquerda poderia aprender com uma geração que domina o ambiente digital (1; 2; 3).
Exposição de Flávio Bolsonaro como estratégia para o segundo turno: Ana Elisa defendeu que a campanha deixasse de depender apenas das realizações de Lula e apresentasse ao eleitor o histórico de Flávio Bolsonaro. Esse enquadramento ganhou força com a afirmação de que o antipetismo impediria parte da sociedade de enxergar quem é Flávio Bolsonaro. A proposta envolve recuperar temas como Banco Master, rachadinhas e relações com milícias. Ana Elisa também argumentou que existe espaço para dialogar com eleitores de direita que rejeitam o bolsonarismo, leitura incorporada à estratégia do segundo turno.
Ataques contra Ana Elisa como reação ao seu crescimento político: Depois da circulação dos posts e dos ataques de Nikolas Ferreira, a esquerda passou a interpretar a ofensiva como sinal de que Ana Elisa havia se tornado ameaça para o bolsonarismo. A leitura aparece na afirmação de que a mobilização contra ela demonstraria que sua atuação estaria incomodando a direita. O contraste entre Ana Elisa e Nikolas também ganhou importância por ambos terem recebido as maiores votações para deputado federal em Minas Gerais.
Ameaças como violência política de gênero e raça: A reação da esquerda apresentou o episódio de ameaças contra ela como violência contra uma mulher negra que conquistou espaço político. A responsabilização de Nikolas aparece com força em mensagens que afirmam que sua publicação teria funcionado como “apito de cachorro” para ataques contra a deputada. Em outro conteúdo, ele é apontado como responsável caso algo aconteça com Ana Elisa. As ameaças anteriores à entrada dela na campanha foram denunciadas à Polícia Civil e levaram o PT a providenciar segurança.
Supostos prints apresentados como campanha de desinformação: A esquerda também passou a disputar a autenticidade das publicações atribuídas à deputada. O suposto post sobre fechar igrejas recebeu maior reação, com conteúdos afirmando que o print seria falso.
Ana Elisa vira aposta da campanha para recuperar terreno nas redes: A cobertura apresentou a deputada como parte da reorganização de Lula depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro. Sua ida a Brasília e as reuniões com a equipe presidencial foram associadas ao esforço para ampliar a comunicação digital. A cobertura destacou que Ana Elisa passou a colaborar com a estratégia de redes e que Lula começou a adotar formatos mais próximos daqueles defendidos pelo grupo, como vídeos gravados pelo próprio presidente.
Eleição de Ana Elisa como fenômeno político e digital: Outro enquadramento se concentrou em sua trajetória. A imprensa destacou a idade, os 524.219 votos e a capacidade de converter audiência digital em resultado eleitoral. Sua eleição foi apresentada como exemplo de uma nova geração que chegou à Câmara a partir das redes.
Disputa entre Ana Elisa e Nikolas ganha dimensão nacional: Com a entrada de Ana Elisa na campanha de Lula, a rivalidade entre os dois deputados mineiros passou a integrar a disputa presidencial. A imprensa acompanhou a troca de ataques entre Ana Elisa e Nikolas e a circulação de posts antigos.
Ameaças e segurança da deputada entram no centro da cobertura: Os relatos de violência receberam cobertura depois da entrada de Ana Elisa na campanha. Veículos destacaram ameaças de morte, estupro e ataques racistas, além da exposição de dados pessoais. A denúncia ganhou repercussão depois de sua entrevista na GloboNews, em que afirmou temer pela própria vida. A cobertura contextualizou o episódio dentro do crescimento da violência política contra mulheres durante as eleições.
Incêndio na UFPE amplia a discussão em torno de Ana Elisa: Veículos registraram que Ana Elisa relacionou o episódio ao ambiente de tensão política após protestos favoráveis a Lula, enquanto autoridades ainda investigam a origem do fogo. A imprensa passou a destacar a diferença entre os relatos de ameaças anteriores e a ausência de confirmação de que o incêndio tenha sido provocado.
Ataques a Ana Elisa e violência política de gênero
09 de outubro de 2026
COMO CITAR ESSE DOCUMENTO:
Ataques a Ana Elisa e violência política de gênero. Instituto Democracia em Xeque, 09 de outubro de 2026. Disponível em: <https://institutodx.org/eleições2026>
Equipe do relatório
Alexsander Chiodi
Tiago Borges
Vivian Mannheimer
Caroline Pecoraro
Projeto gráfico: Moara Juliana