Highlights
📌 Flávio virou a pauta
Desde sua ida à Casa Branca em 26 de maio, o senador foi construindo uma cortina de fumaça para oferecer uma pauta alternativa ao tema “Dark Horse”.
🔎 De Vorcaro a Trump
O debate teve início com uma disputa equilibrada entre esquerda e direita pelo enquadramento dado à foto do pré-candidato do PL na Casa Branca e os efeitos da visita.
💣 PCC e CV levam direita à ofensiva
Na quinta-feira, 28 de maio, com a classificação de PCC e CV como organizações terroristas, a direita foi à ofensiva, levou o debate para o campo da segurança pública e manteve a disputa pelo enquadramento equilibrada, animando sua base.
💸 Então veio o “tarifaço”
O debate saiu da agenda de segurança pública e se deslocou para a responsabilização do “tarifaço”, a soberania e a interferência dos EUA nas eleições brasileiras, com o anúncio do USTR, na madrugada desta terça, 02 de junho.
👉 E a direita perde o enquadramento
A partir daí, o total de menções que atribuem culpa a Flávio pelas tarifas foi quase 10 vezes maior que as que responsabilizam Lula.
🤔 Versão de Flávio não “colou”…
Desde então, a direita não conseguiu separar o novo “tarifaço” da figura de Flávio Bolsonaro, e a tentativa de tratar a sobretaxa como ação exclusivamente externa e legítima esbarrou na narrativa, então dominante nas redes, de que a medida tinha envolvimento de atores brasileiros e custo nacional.
…e arrastou toda direita… 👉
Ao reproduzir a narrativa do senador de que a culpa do tarifaço seria “do Lula”, alinhando-se ao senador, a acusação de entreguista direcionada a Flávio se expandiu para o resto da direita. As falas de outros presidenciáveis sobre o episódio foram lidas pela esquerda como alinhamento subordinado aos interesses dos EUA.
…que ainda busca narrativa coesa.
Atores alinhados à direita do espectro político não fixaram uma narrativa única e passaram o período na defensiva, dividida entre atacar a política externa de Lula e tentar separar o “tarifaço” de Flávio. Nenhuma das duas frentes pegou.
🎯 Esquerda emplaca enquadramento…
A esquerda conseguiu tornar dominante o enquadramento que trata a defesa do Pix e o “tarifaço” como reação ao “entreguismo” de Flávio Bolsonaro em troca do apoio de Trump em outubro, fazendo a alcunha TariFlávio viralizar.
…embalada por Trump e Eduardo.
O vínculo de Eduardo Bolsonaro ao “tarifaço” anterior e o timing das decisões em cadeia da Casa Branca nas últimas 24h (tarifa do USTR, declaração de Marco Rubio no Senado e foto de Trump do encontro da semana anterior) favoreceram a hegemonia do enquadramento oferecido pela esquerda.

Contexto
Inicialmente, a semana foi marcada pela continuidade do debate sobre a visita de Flávio Bolsonaro à Donald Trump e sua relação com a classificação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas por parte do Departamento de Estado dos EUA. Com isso, atores à direita conseguiram deslocar momentaneamente o debate sobre o “caso Dark Horse” para a agenda de segurança pública e ações contra o tráfico de drogas.
Nas últimas 24 horas, com a escalada da pressão externa dos Estados Unidos sobre o Brasil, a discussão sofreu uma transformação, em que a agenda de segurança pública “auxiliada” pelos EUA passam a compor o mesmo campo que o novo “tarifaço” e ataques à soberania nacional pelo governo Trump.
A escalada foi articulada em três frentes, que circularam de forma conectada nas redes. A primeira foi o “tarifaço” de 25% aos produtos brasileiros anunciado por Donald Trump, associado nas postagens à articulação política da família Bolsonaro nos dias anteriores. A segunda é composta por outros aspectos da investigação comercial conduzida pelo USTR sob a Seção 301, com menções a práticas comerciais, propriedade intelectual, desmatamento e o PIX. A terceira foi a movimentação diplomática centrada na declaração de Marco Rubio sobre o Brasil feita no Senado dos EUA e a divulgação da visita de Flávio, Eduardo e Paulo Figueiredo ao Salão Oval da Casa Branca nas contas oficiais de Trump, reabrindo o debate sobre soberania e risco de interferência estadunidense sobre as eleições brasileiras.

Dados, métricas e narrativas mobilizadas
📊 PUBLICAÇÕES COM MENÇÃO AOS TERMOS AO LONGO DO TEMPO


Fonte: Instituto Democracia em Xeque, via Talkwalker.
Os dados apontam que a narrativa do TARIFAÇO OU “TARIFLÁVIO” concentrou 563,1 mil publicações e 4,7 milhões de interações, enquanto a tentativa de atribuir a culpa a Lula alcançou 58,9 mil publicações e 606,4 mil interações.
Esta disparidade indica que a narrativa de responsabilização da família Bolsonaro conseguiu engajar a conversa pública com mais força, conectando a tarifa de 25%, a ofensiva contra o PIX e a aproximação entre Flávio Bolsonaro e Trump entendida como traição aos interesses nacionais.
Já o eixo de defesa de Flávio e transferência da culpa para Lula circulou em escala menor, sustentado pela ideia de que a tensão comercial resultaria da hostilidade do governo brasileiro aos EUA e de que Flávio atuaria como interlocutor capaz de reverter a crise.
A disputa nas redes foi movimentada pelas tentativas de responsabilização política pelo ocorrido, discussão sobre soberania, PIX e custo econômico da relação entre bolsonarismo e trumpismo, mais do que pela medida tarifária em si.

Análise das métricas da lista fechada
Dados coletados pelo Data Lake DX
📊 Clusters de vocabulários mais utilizados por atores políticos
O acompanhamento registrou 6.216 posts e 97.767.249 interações no período, distribuídos em cinco clusters temáticos. O debate foi dominado pelo cluster TARIFAÇO OU “TARIFLÁVIO”, que sozinho concentrou 51% dos posts e 54% do engajamento, indicando que a agenda da interferência externa foi discutida nas redes a partir de sua tradução em disputa política interna entre diferentes atores.
A distribuição por campo mostra equilíbrio entre direita (42%) e esquerda (37%) em quantidade de atores envolvidos. A direita liderou o volume agregado, mas a esquerda superou a direita dentro do cluster mais relevante do período, o do “tarifaço”, sinalizando que o campo progressista encontrou no tema da soberania um terreno de mobilização ofensiva.
O cluster TARIFAÇO OU “TARIFLÁVIO” representou mais da metade de todo o debate nesse período. O eixo da discussão foi a atribuição da responsabilidade pelo “tarifaço” a Flávio Bolsonaro, e a defesa do Pix. A esquerda repercutiu esse enquadramento com volume superior ao da direita dentro do cluster, fixando a leitura de que a articulação da sobretaxa partiu de um agente interno, que se comporta de forma entreguista para tentar ganhar o apoio de Trump nas eleições presidenciais de outubro. O custo político recaiu sobre o campo conservador, que viu a associação entre “tarifaço” e Flávio se consolidar nas redes.
O enquadramento transbordou para o cluster do PRONUNCIAMENTO DOS PRESIDENCIÁVEIS DE DIREITA, em que a esquerda também liderou. As declarações dos pré‑candidatos conservadores sobre o episódio foram lidas como “antipatriotas” e “entreguistas”, estendendo aos demais nomes da direita o passivo que se concentrava em Flávio. O efeito foi a generalização da pecha de entreguismo para o conjunto do campo, e não só para Flávio Bolsonaro.
A direita operou na defensiva ao longo de todo o período. Suas frentes foram o ataque à política externa de Lula e a tentativa de desvincular a imagem do tarifaço de Flávio Bolsonaro. Nenhuma narrativa reverteu o enquadramento dominante de que o senador estaria associado às ações de Trump. A repercussão da foto que Trump publicou ao lado de Flávio circulou no campo como gesto de prestígio internacional, mas reforçou, na prática, o vínculo entre o presidenciável e a origem da sobretaxa da qual o campo tentava se dissociar.
👉 Distribuição do debate
👉 O que foi assunto em cada categoria
A distribuição dos temas dentro de cada campo aponta que, na esquerda, o tema do “tarifaço” como obra de Flávio Bolsonaro concentrou 72% das publicações, o que mostra um campo unificado em torno de uma única chave de leitura: a da responsabilização interna pela sobretaxa. A direita operou de forma mais fragmentada, com 46% no tema do tarifaço e 28% na tentativa de atribuir a tarifa a Lula, divisão que expõe a dificuldade do campo em fixar uma narrativa única e a necessidade de se dissociar da autoria da medida. A imprensa apresentou uma distribuição mais equilibrada entre os cinco temas, sem concentração superior a 26% em um único eixo, o que reflete cobertura de natureza factual e ausência de adesão a um enquadramento específico.
O contraste é entre a coesão da esquerda em torno de um único tema e a dispersão da direita entre a defesa e a tentativa de transferência de responsabilidade, assimetria que ajuda a explicar por que o campo conservador não conseguiu reverter o enquadramento dominante no período.

Análise de narrativas
👉 Principais temas da direita
📌 Em resumo, na direita, houve a tentativa de atribuir a Flávio Bolsonaro a decisão de classificar PCC e CV como organizações terroristas e descolar sua imagem da taxação estabelecida para produtos brasileiros. As imagens publicadas por Donald Trump, de seu encontro com Flávio Bolsonaro, foram lidas como sinal de prestígio do senador.
Lula em foco
Políticos e influenciadores do segmento fizeram críticas e ironizaram a reação de Lula sobre a decisão estadunidense de considerar CV e PCC como organizações terroristas. Jeffrey Chiquini, Sóstenes Cavalcante e Renato Araújo alegaram que o presidente teria atacado Flávio Bolsonaro, dizendo que o pré‑candidato mereceria “ser enforcado em praça pública” ou que estaria incentivando seu assassinato.
Outra narrativa endereçada a Lula sugere que o governo defende criminosos, protege o narcotráfico (1; 2; 3) e que surtaria ao ver a foto publicada por Donald Trump, de seu encontro com Flávio Bolsonaro. Outra publicação veiculou vídeo de IA ironizando o presidente.
Cenas de violência associadas às facções criminosas foram utilizadas pelo segmento para reforçar o argumento de que se trata de terroristas e reforçar ataques a Lula (1; 2). Oswaldo Eustáquio publicou imagens de uma faixa atribuída ao PCC, argumentando que a facção teria ameaçado Evo Morales e desafiado Donald Trump. Allan dos Santos disse que o CV planejaria matar Flávio Bolsonaro em Minas Gerais.
Tarifaço é responsabilidade do governo
Perfis se articularam em torno da defesa de que as tarifas anunciadas por Donald Trump não deveriam ser atribuídas à visita de Flávio Bolsonaro a Donald Trump, mas à má gestão e conduta do governo Lula e do ministro Alexandre de Moraes (Marcel van Hattem; Romeu Zema; Partido Novo). Houve o reforço desse argumento a partir de menções ao relatório publicado pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) (1; 2; 3; 4). Paulo Figueiredo e Bradock Show, por exemplo, salientaram que o documento cita decisão do ministro Dias Toffoli relacionada à Odebrecht.
Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo chegaram a negar que os EUA taxariam o Brasil, enquanto Flávio Bolsonaro disse, em suas redes sociais, que sempre defendeu empresas brasileiras e que teria pedido expressamente a Donald Trump para não aplicar as tarifas. A publicação foi veiculada no perfil oficial do PL. Mario Frias, Giovani Cherrini e Auri Verde deram destaque à carta que o senador e pré‑candidato à presidência teria escrito endereçada a Marco Rubio, pedindo para que os EUA poupassem o Brasil.
Foto postada por Trump como registro de sucesso
O campo comemorou a publicação de Donald Trump com imagens de seu encontro com Flávio Bolsonaro, argumentando que seria um sinal de prestígio e da boa relação entre o pré-candidato e o presidente estadunidense (Carlos Jordy; Tarcísio de Freitas; Hora Política; Karina Michelin; Canal Patriota), destacando os elogios dirigidos ao senador.
👉 Principais temas da esquerda
📌 Em resumo, na esquerda, houve uma tentativa de tratar a classificação das facções como organizações terroristas e o novo “tarifaço” como resultado da atuação de Flávio Bolsonaro contra o Brasil, seja para obter apoio externo durante as eleições de outubro ou para ajudar os Estados Unidos a atacar o PIX em benefício de suas empresas de cartão de crédito.
Flávio em foco
Diante da classificação de PCC e CV como organizações terroristas pelo governo Trump, a presidência da República, políticos, influenciadores e mídia progressista se engajaram para discutir a atuação de Flávio Bolsonaro de diferentes formas. Com denúncias de possíveis ligações do presidenciável com políticos acusados de serem membros do crime organizado, como os deputados TH Joias (Mídia Ninja, Sâmia Bomfim) e Rodrigo Bacelar (Thiago Resiste), com direito ao anúncio de uma denúncia junto à Interpol realizada por Lindbergh Farias e um pedido de prisão solicitado por um influenciador progressista.
Nota oficial do governo 1 – Brasil Soberano
A narrativa institucional foi apresentada por uma nota do governo compartilhada pelo presidente Lula sendo os principais pontos: i) o reconhecimento dos efeitos nocivos das facções nos territórios; ii) elas buscam lucro via crime, mas não agem por convicções político-ideológicas ou religiosas; iii) a família Bolsonaro age para promover intervenção estrangeira no Brasil; iv) o Brasil é soberano e rejeita qualquer tentativa de intervenção em seu território.
“TariFlávio”
O anúncio do novo tarifaço imposto pelos EUA contra o Brasil gerou indignação seguida de mobilização do segmento governista contra Flávio Bolsonaro, a quem foi atribuído um suposto pedido de intervenção/sanção ao Brasil. Se aproveitando do lastro discursivo relacionado ao primeiro “tarifaço”, quando seu irmão Eduardo admitiu que trabalhou por sanções e as 20 citações ao PIX no documento do novo tarifaço, perfis de mídia, políticos (Lindbergh Farias 1, 2; Tabata Amaral; Glauber Braga; Gleisi Hoffmann; Alencar Santana) e influenciadores (Henrico Barboza) progressistas articularam a responsabilização de Flávio Bolsonaro pelas articulações com Donald Trump, das quais o tarifaço seria parte.
Outro elemento importante mobilizado foi a ameaça ao PIX brasileiro por parte do governo dos EUA, com anuência de Flávio. A narrativa explica que o principal interesse por trás das últimas medidas do governo Trump seria pressionar o Brasil para acabar com a gratuidade (ou “monopólio) do PIX e assim beneficiar as grandes empresas de cartão de crédito estadunidenses (Chico Alencar; Rick Azevedo; Leonel Guterres; Fernanda Melchionna).
Nota oficial do governo 2 – Flávio, o sabotador
Por meio de uma nota, também compartilhada por Lula, o Governo criticou a nova taxação e acusou Flávio de: i) agir contra os interesses nacionais; e ii) sabotar o trabalho de diálogo, feito por Lula junto a Trump, priorizando interesses “eleitorais e familiares”. O segmento reproduziu os principais pontos da linha narrativa do Governo, com elogios à postura firme e de defesa da soberania nacional (Mídia Ninja).
Deste modo, o seguimento de esquerda alinhado ao governo, articulado com alguns perfis do progressismo mais amplo, conseguiu mobilizar um discurso bem sucedido até o momento, de um “nós”/soberanos versus “eles”/entreguistas e traidores da pátria.
Nota metodológica
Para a realização desta pesquisa, foi utilizado o Talkwalker e o Data Lake do Instituto Democracia em Xeque, com dados coletados e armazenados utilizando APIs públicas das plataformas Facebook, Instagram, YouTube, X/Twitter e TikTok.
A base de observação do Instituto é composta por uma lista de atores ligados ao debate político, entre eles políticos, influenciadores, mídia de referência e mídia partidária. A coleta de conteúdos é realizada a partir de perfis no Facebook e Instagram, canais do YouTube, perfis no X e no TikTok, com no total mais de 16 mil perfis.
Em 04/09/25, os dados quantitativos passaram a contabilizar como interações a soma de curtidas, comentários, compartilhamentos e visualizações das postagens em todas as redes sociais. A inclusão da quantidade de views nos vídeos do Instagram resultou no aumento significativo deste total.
Expediente
Câmara aprova fim da Escala 6×1
03 de junho de 2026
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Como citar este relatório: Chiodi, A.; Capone, L.; Souza, P., Vasques, B. EUA acirram a interferência externa no Brasil. Instituto Democracia em Xeque, 2026. Disponível em: <https://institutodx.org/publicacoes/tariflavio/>
Equipe do relatório
Diretores: Beto Vasques e Letícia Capone
Coordenadores: Alexsander Chiodi e Paulo Souza
Projeto gráfico: Moara Juliana

