Terceira rodada – 31 de maio de 2026
Investigação qualitativa sobre opinião pública, preferências eleitorais e percepção política de eleitores “pendulares”.
Método
Tríades etnográficas
Público
Eleitores Pendulares
Foco
Percepções Eleitorais
INSIGHT CENTRAL
O caso Dark Horse/BolsoMaster deixou de ser apenas uma crise de conhecimento e passou a exigir prova: mesmo eleitores ainda inclinados a Flávio cobram documentos, contratos e explicações. A tentativa de mudar a pauta – via Casa Branca, Trump, PCC e CV – é percebida como cortina de fumaça e gesto eleitoral.
Ao mesmo tempo, o colapso percebido da segurança pública abre uma zona ambígua: a decisão norte-americana de classificar PCC e Comando Vermelho como terroristas desperta medo de submissão, espionagem e perda de soberania, mas não é descartada por completo por eleitores que vivem a insegurança no cotidiano. Lula mantém vantagem em políticas sociais e laborais, mas segue visto como frágil e pouco concreto na segurança pública.
Escopo
A investigação se concentra em eleitoras e eleitores “pendulares”, ou seja, aqueles que oscilam entre Lula e Flávio Bolsonaro na disputa presidencial de 2026. A análise dialoga com a agenda factual, com os relatórios Semanais DX e boletins especiais sobre narrativas políticas e integridade democrática, deslocando o foco do ambiente digital para a recepção qualitativa de temas políticos no eleitorado.
Nesta terceira rodada, a pesquisa seguiu avaliando a repercussão do caso Dark Horse/BolsoMaster e testou a leitura dos participantes sobre a visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca e a decisão do governo norte-americano de classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas.
PERÍODO:
31 de maio de 2026
GRUPOS:
2 grupos focais em formato de tríades etnográficas
COMPOSIÇÃO:
Grupo 1: homens | Grupo 2: mulheres
PERFIL:
30-50 anos, ensino médio, renda familiar de 3 a 7 salários-mínimos
REGIÃO:
Preferencialmente eleitores das Regiões Metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador (“swing states”)
TRAJETÓRIA ELEITORAL:
Votou em Jair Bolsonaro em 2018; votou em Lula em 2022; está indefinido para 2026
CRITÉRIO POLÍTICO:
Não rejeita Lula nem Flávio Bolsonaro
CRITÉRIO INFORMACIONAL:
Rescaldo Dark Horse/BolsoMaster; escala 6×1; visita à Casa Branca; PCC/CV como organizações terroristas; segurança pública; Lula x Flávio
Sumário executivo visual
Dez leituras estratégicas para decisão política e comunicação
Explicação virou prova
Flávio não precisa apenas “se explicar melhor”: precisa apresentar documentos. Mesmo eleitores inclinados a ele cobram contrato, destino do dinheiro e coerência das versões.
Cortina de fumaça reconhecida
A ida à Casa Branca é lida como tentativa de mudar a pauta após Vorcaro. Pode gerar visibilidade, mas reforça a suspeita de fuga do tema central.
Balança da corrupção estabilizada
“Todos são corruptos” segue como amortecedor para Flávio e como alívio parcial para Lula/PT, pois retira da direita o monopólio moral da anticorrupção.
Ventos de mudança ainda salvam Flávio
O desejo de renovação continua sendo a principal boia de salvação de Flávio. O voto nele aparece menos por confiança e mais por cansaço de Lula e busca de alternativa.
Segurança subsume corrupção
A fronteira entre crime, política e dinheiro ilegal ficou borrada e a agenda de segurança pública, com as operações associadas ao crime organizado, se sobrepuseram à agenda anticorrupção ao redor do caso Dark Horse.
Lula: social forte, segurança fraca
Políticas sociais e laborais são bem avaliadas, ainda que pouco conhecidas. Na segurança, Lula é visto como pouco concreto e deixa a desejar.
Trump assusta
Participantes veem Trump como errático, belicista e interessado em recursos naturais. A aproximação de Flávio com ele desperta o temor de submissão brasileira.
Soberania versus desespero
A medida dos EUA é vista como risco à soberania, mas o desalento com a segurança faz parte dos entrevistados cogitar, ainda que com desconfiança: “já que nada deu certo, vai que ajuda…”.
Proximidade territorial importa
Quem vive mais perto do impacto cotidiano de facções, especialmente no Rio, tende a considerar a medida com mais ambivalência e menor rejeição absoluta.
Terceira via desejada
A avaliação final mostra decepção com Lula e Flávio. Há resignação ao segundo turno, mas desejo claro por outro nome no primeiro turno. Movimento pendular deve seguir até as eleições conforme a evolução do noticiário.
Mapa de percepções
Como os participantes organizam Lula, Flávio e alternativas

FRASE SÍNTESE
👉 O eleitor pendular não absolve Flávio; pede provas.
👉 Não confia em Trump; teme a perda de soberania.
👉 Mas também não vê Lula como solução para a segurança.
Entre corrupção, medo do crime e desejo de mudança, a disputa se organiza em torno de quem parece capaz de proteger a vida cotidiana sem entregar o país nem fazer o eleitor de bobo.
Achados qualitativos
Temas, interpretações e aspas selecionadas
Dark Horse: de “explicação” a “apresente os documentos”
Na terceira rodada, o caso Dark Horse/BolsoMaster não desaparece da percepção do eleitor pendular. A novidade é que, entre participantes ainda inclinados a Flávio, o caso deixa de produzir apenas dúvida abstrata e passa a gerar uma demanda concreta por comprovação documental. O eleitor que ainda considera votar em Flávio não necessariamente o condena de saída, mas tampouco aceita apenas a narrativa verbal de que se trataria de financiamento privado legítimo.
Essa é uma mudança qualitativa relevante: o problema de Flávio passa a ser menos “comunicar melhor” e mais “provar”. A mentira ou contradição sobre conhecer Vorcaro aparece como sinal de que há algo estranho, mesmo para quem procura preservar o benefício da dúvida.
“Pelo que eu ouvi foi algo meio que legal porque foi um contrato estabelecido, mas o cara estava preso, né? Não vejo tanta corrupção por isso, mas então o dinheiro foi para o filme? Teria que comprovar isso. Ou foi para o irmão dele?”
PARTICIPANTE G, GRUPO 2
“Eu acho que o dinheiro foi para o filme, mas tem que mostrar os dados, porque parece que tem muita gente envolvida. Ele teria que apresentar documentos, enfim, ser questionado… mas tem essa coisa de que ele disse que não conhecia o Vorcaro, é ruim isso, ele mentiu.”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
Leitura estratégica
O Impasse de Flávio: A blindagem discursiva de Flávio depende agora de evidência material. Sem contrato, fluxo de recursos e explicação convincente, a tentativa de virar a página pode ser lida como fuga. Seguir falando do tema sem apresentar documentos pode manter o caso vivo; tentar mudar a pauta sem explicar pode reforçar a suspeita.
A balança da corrupção segue equilibrada:
ruim para a bandeira moral, útil como amortecedor
A tendência observada nas rodadas anteriores se consolida: a corrupção deixa de ser atributo diferencial do PT e passa a ser percebida como traço generalizado da política. Isso produz efeito ambíguo. Para Lula, desativa parcialmente a força do ataque moral tradicional da direita. Para Flávio, impede que o caso Dark Horse/BolsoMaster produza abandono automático entre eleitores ainda desejosos de mudança.
“Os dois lados estão envolvidos em corrupção, olha o filho do Lula.”
PARTICIPANTE P, GRUPO 2
“Ah, o PT também tem coisa muito grande de corrupção, político é tudo corrupto.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 1
Leitura estratégica
A narrativa “todos são corruptos” continua sendo o principal colchão moral de Flávio, mas cobra um preço: ele perde autoridade para liderar uma campanha centrada em “acabar com a corrupção do PT”. A disputa anticorrupção fica menos assimétrica e mais pantanosa para todos.
Escala 6×1: política positiva, mas campo oposicionista confuso
A redução da escala 6×1 continua sendo vista como positiva. Mesmo quando os participantes reconhecem timing eleitoral, a medida é interpretada como coerente com a trajetória social e laboral de Lula: “ele sempre cuidou disso”. O PL, porém, aparece confuso e pouco confiável no tema. Parte dos entrevistados não sabe como o partido votou; outros suspeitam que o eventual apoio de Flávio seria apenas cálculo eleitoral.
“O PL foi contra a escala 6×1? Eu não sei, fiquei sabendo que teve gente que votou contra.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 1
“Eu acho que Flávio é a favor do fim da escala 6×1 porque ele sabe que perderia um monte de votos, sabe disso, mas no fundo a gente sabe que ele é contra.”
PARTICIPANTE A, GRUPO 1
“O Flávio disse que era a favor do fim da escala 6×1, eu acho positivo, mas acho que ele falou por coisa totalmente eleitoreira; mas o fato de ser eleitoreira não quer dizer que seja ruim.”
PARTICIPANTE P, GRUPO 2
Leitura estratégica
A escala 6×1 permanece como avenida narrativa para Lula disputar trabalho, tempo, família e dignidade. Para Flávio e o PL, o tema é defensivo: apoiar pode parecer oportunismo; rejeitar pode afastar trabalhadores e famílias de renda média.
Casa Branca: Flávio tenta virar a pauta, mas o eleitor percebe a manobra
A visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca é lida por participantes dos dois grupos como gesto eleitoral e tentativa de deslocar o foco do escândalo Vorcaro. O movimento pode sinalizar que Flávio “levou a sério” a candidatura, mas não é percebido como iniciativa orientada primordialmente a melhorar a vida dos brasileiros. A ideia de “cortina de fumaça” aparece de forma direta.
“Foi um momento bem inoportuno, depois do escândalo de Vorcaro, ficou meio parecendo uma tentativa de fuga porque ele não tinha esclarecido bem o que tinha acontecido, tipo tirar o foco de escândalo.”
PARTICIPANTE A, GRUPO 1
“Acho que é interesse político de se posicionar, é importante estar próximo de líderes mundiais. Mas acredito que também tem a ver com esse escândalo com o Vorcaro, ser cortina de fumaça, né?”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
“É, agora começou a guerra política e surgiu muito escândalo, então tem que apaziguar isso, mas é pelos dois lados, cada um está usando o que pode.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 2
Leitura estratégica
A aposta internacional de Flávio pode render visibilidade, mas também cristaliza uma suspeita: quando pressionado por corrupção, ele troca o tema. Sem resposta documental para Dark Horse, a agenda externa não fecha a ferida; apenas a cobre provisoriamente.
PCC e CV como terroristas: alto conhecimento e ambivalência moral
Diferentemente de outras medidas governamentais pouco conhecidas, a classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas aparece como tema de alto conhecimento e circulação social. Os participantes ouviram falar na imprensa, nas redes, em conversas familiares e no ambiente de trabalho ou estudo. O tema entrou no repertório cotidiano.
“Eu não li, mas as pessoas comentaram comigo. Todo mundo falava sobre isso, tipo: olha só como o filho do Bolsonaro está querendo chamar a atenção, transformando o PCC e o CV em grupos terroristas.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 1
“Eu vi pelas redes sociais e também houve discussão com meus colegas de faculdade sobre isso.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 2
A avaliação, porém, é ambígua. A medida é vista como eleitoreira, vinculada a Flávio e ao desejo de mudar a pauta, mas a sensação de abandono na segurança pública impede uma rejeição absoluta. A lógica dominante é: é perigoso, mas talvez ajude; é ruim envolver Trump, mas algo precisa ser feito.
Leitura estratégica
A pauta de segurança altera a gramática da soberania. Em condições normais, a interferência externa seria rejeitada sem matiz; diante do medo cotidiano, parte do eleitor pondera a hipótese de ajuda externa, ainda que indesejável, poderia ser um último recurso. Esse é o achado mais delicado da rodada.
Trump assusta: guerra, recursos naturais, espionagem e soberania
A figura de Trump é percebida com preocupação. Os participantes o descrevem como errático, belicista e interessado em vantagens econômicas. A associação com Venezuela, Irã, petróleo, minérios e Amazônia produz temor de que a medida contra facções seja apenas porta de entrada para interesses norte-americanos no Brasil.
“Eu vejo em perspectiva negativa analisando as ações do governo Trump, que ele só invade países e declara guerra. Me deixa preocupada que tenha algum tipo de intervenção no país, traria mais mortes e mais violência.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 1
“Com certeza finalidade econômica do Trump, quer se fazer de bonzinho, de que vai ajudar o Brasil, mas ele quer os minérios, petróleo…”
PARTICIPANTE G, GRUPO 1
“Eu acho que Trump pode explorar as riquezas do Brasil porque ele não vai fazer nada de graça aqui, ele não quer simplesmente ajudar aqui e o Flávio facilitaria isso.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 2
O vínculo dos Bolsonaro com Trump agrava essa percepção. A família Bolsonaro aparece como deslumbrada, submissa ou excessivamente disponível aos interesses do governo norte-americano. Lula, por contraste, é percebido por alguns como mais capaz de colocar freios a eventuais excessos.
Leitura estratégica
A pauta internacional que poderia funcionar como ativo de Flávio também abre flanco: o eleitor pendular distingue alinhamento externo de subordinação.
A imagem de “facilitador de Trump” pode ser especialmente tóxica se conectada a soberania, Amazônia, petróleo, minérios e PIX. Trump já se mostrou um mal cabo eleitoral em eleições recentes pelo mundo.
“Quem sabe sai algo positivo”:
o desespero com a segurança relativiza a soberania
Apesar do medo de Trump e da preocupação com soberania, parte dos participantes admite que a classificação de PCC e CV como terroristas, no limite, poderia produzir algum benefício. Essa aceitação não é entusiasmo ideológico; é desalento desconfiado. A vida cotidiana em territórios mais afetados pelo crime organizado parece aumentar a disposição para considerar medidas excepcionais.
“É difícil a gente avaliar porque não sei também o interesse do Trump, mas é que os EUA devem também ficar impactados por essas drogas ou mulas do PCC e do CV, não é? E quem sabe a gente tira alguma coisa de positivo aqui no RJ.”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
“Pode tentar ferir nossa soberania pelo negativo, mas pelo lado positivo pode ajudar a gente acabar com a criminalidade, porque eles estão em todo território brasileiro.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 2
“Eu sou do Rio e está muito complicado, então é uma medida porque são grupos terroristas, sim, e ajudaria a pegar os políticos patrocinados por grupos criminosos.”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
“Por mais que passe na televisão, só quem mora aqui sabe o que acontece no dia a dia, precisa urgente de alguma medida.”
PARTICIPANTE GI, GRUPO 1
Leitura estratégica
A proximidade com o problema parece modular a avaliação. Quanto mais o crime organizado atravessa a vida cotidiana, mais a defesa abstrata da soberania convive com a pergunta pragmática: “e se funcionar?”.
Segurança pública: Lula é visto como ausente; Flávio divide opiniões
A segurança pública é a lacuna mais crítica para o governo Lula. A maioria não identifica medidas concretas do governo federal, do PT ou da esquerda. Quando anúncios são lembrados, aparecem como confusos, superficiais ou pouco comentados. A percepção dominante é que Lula olha para economia e social, mas deixa segurança nas mãos dos estados.
“É que ele tem um foco econômico e deixa muito na mão do governo estadual, porque acho que ele tem um pouco de receio de se meter com isso e os governos de Estado não têm capacidade.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 1
“A questão do PT é que não tem espaço para essa discussão. Não teve acerto neste tema, eu acho, por ele ser desse lado da esquerda mesmo. Por que o pessoal da esquerda não está do lado da polícia?”
PARTICIPANTE P, GRUPO 2
“Confesso que esse programa que ele anunciou não consegui perceber ações que fossem muito claras nem muito objetivas, ainda parece ser um pouco confuso.”
PARTICIPANTE A, GRUPO 1
Flávio divide opiniões. Para alguns, a direita e a família Bolsonaro teriam maior proximidade com militares e ações policiais, o que poderia indicar firmeza. Para outros, o caso Master, o improviso e a falta de confiança pessoal reduzem sua capacidade de liderar uma política nacional complexa, que exigiria inteligência, coordenação e investigação de longo prazo.
“Eu não sei se confio, o Flávio parece meio desesperado depois da coisa do Master, não sei se Flávio teria capacidade e inteligência; você precisa de organização, de investigação.”
PARTICIPANTE A, GRUPO 1
“Então, ele já demonstrou que tem capacidade, sim, já conseguiu essa medida. Acho que é a pessoa indicada, o partido dele já tem políticos a favor de ações policiais, então isso traz um pouco de conforto para a gente, eu sou do Rio e vejo isso.”
PARTICIPANTE P, GRUPO 2
Leitura estratégica
A segurança pública é um terreno aberto. Lula tem déficit de credibilidade e comunicação; Flávio tem vantagem temática, mas déficit moral e de confiança.
O vencedor narrativo será quem, além de não se enredar (mais) nas investigações do Caso Master, conseguir combinar: firmeza, inteligência, coordenação federativa e proteção das famílias, sem soar improvisado ou submisso.
Riscos da medida dos EUA:
limites constitucionais, PIX e operações militares
Os riscos percebidos concentram-se em quatro dimensões: bases militares na Amazônia, espionagem, operações militares em território urbano e eventual pressão sobre o PIX. A invasão ou instalação de bases aparece como risco residual, mas simbolicamente poderoso. Espionagem é considerada mais provável. Operações militares em comunidades dividem os participantes. O PIX, por sua vez, é visto como consolidado, mas qualquer ameaça a ele gera indignação imediata. A Certeza é que os EUA vão se aproveitar para obter vantagens econômicas, sobre tudo em petróleo e minérios.
“De verdade não acho que seja impossível isso. É muito preocupante, e sempre seria o interesse deles, né? É claro que eles iam querer ter nossas riquezas naturais.”
PARTICIPANTE A, GRUPO 1
“Com certeza ele deve aproveitar para nos espionar, sim, a gente já inclusive discutiu isso, de ter gente deles aqui com dados privilegiados.”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
“Nossa, terrível, é a soberania do povo. Nós somos soberanos, nós que temos que cuidar do que está aqui.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 1
“O PIX facilita muito nossa vida e é uma forma segura e inclusive de fiscalizar, então acho terrível isso acontecer.”
PARTICIPANTE A, GRUPO 1
Leitura estratégica
A soberania ganha concretude quando se traduz em Amazônia, minérios, petróleo, espionagem, operações em comunidades e PIX. O tema ser tratado apenas como princípio jurídico abstrato, é de baixa compreensão. Como proteção da vida cotidiana e dos recursos nacionais, é mais facilmente compreendido.
Avaliação final:
decepção com ambos e desejo de terceira possibilidade
A rodada termina com forte decepção em relação a Lula e Flávio. Lula preserva inclinação de voto por políticas sociais, laborais e percepção de estar mais próximo da população; perde força pela percepção de ausência ou insuficiência na segurança. Flávio mantém votos potenciais por desejo de mudança, mas decepciona pelo escândalo Dark Horse, pela aproximação com Trump e pela sensação de risco de que Jair Bolsonaro governe por trás.
“Hoje votaria no Lula porque ele está mais do lado da população. Eu me sinto mais segura com ele. Já o Flávio é mais pelos empresários, pela elite.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 1
“Pelas últimas atitudes, Flávio com Vorcaro, com Trump, não sei, decepcionou bastante. Ele parecia querer ser uma pessoa mais distante da família Bolsonaro, mas agora essas coisas me deixaram bastante decepcionada, então agora votaria no Lula.”
PARTICIPANTE A, GRUPO 1
“Eu ainda votaria no Flávio porque precisamos de uma visão diferente, optaria por uma certa mudança mesmo correndo o risco de ser o pai dele quem estiver governando por trás.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 2
“O que me acontece é que eu sinto falta de uma terceira possibilidade, o Flávio não.”
PARTICIPANTE A, GRUPO 1
“Se tivesse opção de ter um outro candidato que não fosse Flávio Bolsonaro, eu toparia.”
PARTICIPANTE P, GRUPO 2
Leitura estratégica
A disputa Lula x Flávio segue estruturada por resignação. Lula é continuidade com benefício social e lacuna de segurança; Flávio é mudança com custo moral e risco de submissão. A terceira via é desejada, mas ainda não organizada na cabeça do eleitor.
Fique de olho
Pontos de atenção para as próximas semanas.
DESAFIOS PARA O GOVERNO
👉 Segurança pública como prioridade visível: o governo precisa transformar medidas dispersas em narrativa simples: integração, inteligência, combate a facções, proteção das famílias e presença federal sem improviso.
👉 Soberania concreta: a crítica à medida dos EUA deve evitar abstração. É preciso falar de Amazônia, recursos naturais, espionagem, PIX e operações em comunidades.
👉 Família e trabalho: a escala 6×1 segue positiva. Deve ser vinculada a tempo, cuidado, renda e vida familiar, não apenas a pauta trabalhista.
👉 Explicar o que já fez: o desconhecimento sobre políticas sociais e segurança segue alto. Medidas só produzem efeito se forem conhecidas e conectadas ao cotidiano.
👉 Evitar parecer inerte no crime: se o governo não ocupar a pauta de segurança, a direita captura o medo, mesmo com soluções arriscadas ou submissas aos EUA.
👉 Futuro e terceira via: a decepção com Lula e Flávio abre espaço simbólico para alternativas. Lula precisa falar de legado, sucessão e projeto de longo prazo.
DESAFIOS PARA A OPOSIÇÃO
👉 Provar ou sangrar: Flávio precisa apresentar documentos. Sem isso, a tentativa de virar pauta pode ser lida como fuga e manter Dark Horse vivo.
👉 Casa Branca como risco: a aproximação com Trump pode gerar prestígio entre convertidos, mas produz temor de submissão, entrega de riquezas e perda de soberania entre pendulares.
👉 Segurança pública com credibilidade: a direita tem vantagem inicial no tema, mas Flávio precisa mostrar inteligência, organização e idoneidade, não apenas agressividade.
👉 Todos são corruptos: a crença ainda protege Flávio parcialmente, mas também destrói sua superioridade moral e enfraquece a bandeira anticorrupção.
👉 Escala 6×1: a oposição deve decidir se apoia, rejeita ou redefine a pauta. Ambiguidade e contradição podem afastar trabalhadores pendulares.
👉 Plano B continua latente: a vontade de trocar Flávio não desapareceu. A ausência de nome forte o protege, mas também mantém sua candidatura vulnerável a novo escândalo.
Nota metodológica
Tríades etnográficas e deep stories
Esta rodada foi realizada por meio de dois grupos focais qualitativos no formato de tríades etnográficas. O desenho amostral buscou observar eleitores e eleitoras em situação de indefinição eleitoral, definidos aqui como “pendulares”, com trajetória de voto cruzada entre os campos políticos ao longo dos últimos oito anos.
As tríades etnográficas são conversas qualitativas em pequenos grupos, geralmente compostas por três participantes, conduzidas por moderação especializada. Diferenciam-se de grupos focais tradicionais maiores porque favorecem maior intimidade, maior tempo de fala por participante e maior possibilidade de observação de narrativas pessoais, hesitações, contradições e deslocamentos de opinião.
A análise também se apoia na perspectiva de deep stories, isto é, na reconstrução das narrativas profundas pelas quais os participantes organizam sua experiência política. Uma deep story não é apenas uma opinião sobre um candidato ou tema; é uma história moral sobre justiça, merecimento, traição, esforço, família, corrupção, mudança, medo e esperança.
📌 O que o método permite observar: sentimentos, percepções, raciocínios, afetos, justificativas morais, ambivalências, linguagem espontânea, mudanças sutis de posição e conexões entre escândalos, políticas públicas, segurança e soberania.
📌 O que o método não permite afirmar: não produz representatividade estatística nem estima proporções populacionais. As falas citadas expressam percepções situadas dos participantes e não verificação factual dos eventos mencionados.
📌 Limite desta rodada: há inconsistência no documento-base sobre o critério de segmentação dos grupos por propensão eleitoral. A análise preserva o conteúdo substantivo e não infere além do material disponível.
Síntese estratégica final
A terceira rodada confirma que Flávio Bolsonaro não conseguiu encerrar o dano produzido pelo caso Dark Horse/BolsoMaster.
A novidade é que, entre eleitores que ainda preservam alguma inclinação a seu favor, a questão passou a ser menos “acredito ou não acredito” e mais “mostre os documentos”. O benefício da dúvida continua existindo, mas deixou de ser gratuito.
A tentativa de deslocar a pauta para a Casa Branca, Trump e a classificação de PCC e CV como organizações terroristas é percebida como movimento eleitoral e cortina de fumaça. Ao mesmo tempo, a pauta não é descartada por completo, porque encontra um eleitorado profundamente desalentado com a segurança pública. A insegurança cotidiana cria uma zona de tolerância a medidas excepcionais, ainda que os riscos à soberania sejam reconhecidos com clareza.
Lula segue melhor posicionado nas agendas sociais e laborais, especialmente quando as medidas são conhecidas e conectadas à vida concreta. A escala 6×1 mantém força simbólica por falar de trabalho, tempo e família. Mas o governo aparece vulnerável na segurança pública: os participantes conhecem pouco suas iniciativas, consideram os anúncios pouco objetivos e associam a esquerda a uma abordagem excessivamente social e insuficientemente firme diante do crime organizado.
Flávio, por sua vez, conserva o ativo dos “ventos de mudança”. Parte do eleitorado ainda quer alternância, renovação e outro caminho. Mas essa mudança vem cada vez mais carregada de riscos: corrupção sem explicação, submissão a Trump, sombra de Jair Bolsonaro, falta de preparo e ausência de confiança pessoal. O voto em Flávio aparece, nessa rodada, menos como adesão e mais como aposta desconfortável.
Quem apresenta provas e não apenas versões?
Quem enfrenta o crime sem entregar a soberania?
Quem protege minha família no trabalho, na renda e na segurança?
Quem garante mudança sem submissão externa?
Quem consegue agir contra facções com inteligência, coordenação e firmeza?
Quem oferece futuro para além de Lula e Flávio?
CONCLUSÃO
Nesse universo de percepção, o eleitor pendular continua buscando coerência, proteção, benefício concreto e uma história política crível.
A terceira rodada acrescenta um novo dilema: diante do medo do crime, até soluções percebidas como perigosas podem ser consideradas; diante da corrupção, até candidatos desejados como mudança passam a depender de provas para não parecerem apenas mais do mesmo.
Expediente
Painel Narrativo Semanal: Percepções Qualitativas e Estratégicas
ESTE RELATÓRIO ESTÁ LICENCIADO SOB A LICENÇA CREATIVE COMMONS CC BY-SA 4.0 BR. Essa licença permite que outros remixem, adaptem e criem obras derivadas sobre a obra original, inclusive para fins comerciais, contanto que atribuam crédito aos autores corretamente, e que utilizem a mesma licença.
TEXTO DA LICENÇA: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/legalcode
Como citar este documento
VASQUES, Beto; SOLANO, Esther. Instituto Democracia em Xeque (DX). Painel Narrativo Semanal: Percepções Qualitativas e Estratégicas DX, 01 jun. 2026. Período de campo: 31 de maio de 2026. Disponível em: <https://institutodx.org/semanaldx/painel/20052026/>.
Equipe do relatório
Beto Vasques
Diretor de Relações Institucionais do Instituto DX
Esther Solano
Professora da UNIFESP, pesquisadora em Ciências Sociais e conselheira do Instituto DX
Projeto gráfico: Moara Juliana e Júlia Cristofi
