Período da análise: 01 a 08 de junho de 2026
Highlights
Síntese dos principais eventos, métricas e dinâmicas relevantes do debate político digital nas redes sociais no Brasil esta semana.
Tarifaço virou disputa doméstica sobre soberania e responsabilidade política
O eixo Política Externa concentrou 63% das publicações e 67% das interações, puxado pelo tarifaço de Trump sobre produtos brasileiros. Sozinho, o tarifaço respondeu por 92% do debate sobre a interferência, a cobertura factual sobre tarifas, comércio e negociações, e a disputa política sobre quem deve ser responsabilizado pela crise.
Economia segue como principal território discursivo da esquerda
Em uma semana dominada pela agenda externa, a esquerda foi maioria apenas em Economia (66%), a pauta material em que mantém maior capacidade de mobilização.
Esquerda aponta Flávio Bolsonaro como culpado pela taxação
Esquerda engajada na responsabilização de Flávio pela nova taxação de produtos brasileiros pelos EUA, por submissão ao governo Trump e por colocar o PIX em perigo em favor de empresas de transações financeiras estadunidenses, mobilizando o termo Tariflávio. A inclusão do financiamento do filme ‘Dark Horse’ na proposta de delação de Vorcaro foi muito utilizada pela esquerda para desgastar o pré-candidato da extrema‑direita.
Direita tentou deslocar a culpa para Lula e manter Trump como ativo político
A agenda relacionada aos EUA continua como tema principal da direita. Por um lado, o segmento atuou de forma defensiva sobre as novas tarifas, tentando deslocar a narrativa de responsabilização, defendendo o Pix como vitória do governo Bolsonaro e relacionando a culpa pela medida ao governo Lula pela “censura” das redes sociais e falhas no combate à corrupção e ao crime organizado. Por outro lado, continuam na ofensiva sobre o tema da segurança pública, relacionando Lula à defesa do crime organizado e dando protagonismo a Flávio Bolsonaro na classificação do PCC e CV como organizações terroristas.
Para direita, Trump segue como fiador de Flávio Bolsonaro
A direita explorou novas ações dos EUA, como a indicação de um novo embaixador “linha dura” e a exclusão do Brasil da lista de países amigáveis, como mais um sinal de influência e alinhamento entre Trump e Flávio, o que denotaria a derrota de Lula nas relações diplomáticas com o país.
Marcha para Jesus como parte da disputa pelo eleitorado evangélico
A participação de Flávio Bolsonaro na Marcha para Jesus ganhou destaque entre a direita, disseminada como sinal de relação próxima e alinhamento com a religião. O segmento enquadrou a ausência de Lula como desconsideração e teceu fortes críticas à participação de Jorge Messias como politicamente motivada.
O que publicam os (pré-)candidatos?
Lula adota trend; Flávio Bolsonaro oscila entre defesa e ataque; Caiado segue na agenda de segurança pública; Renan Santos radicaliza a agenda.

Entre os pré-candidatos à presidência analisados, Flávio Bolsonaro esteve na liderança de visualizações com reel que continha o novo jingle de campanha, publicado em collab com o perfil do Partido PL. Nos outros conteúdos, o senador oscilou entre argumentos de defesa sobre ser responsável pelas taxas aplicadas pelos EUA a produtos brasileiros e ataques ao atual governo por seus posicionamentos em relação aos políticos norte-americanos e à classificação do PCC e CV como organizações terroristas.

Lula, em seguida, obteve repercussão ao aderir à trend ‘six-seven’, ao lado de estudantes; ao publicar vídeo de sua rotina de exercícios; e ao defender o Pix.


Ronaldo Caiado permanece mobilizando a agenda da segurança pública, colocando Goiás como exemplo a ser seguido e tecendo críticas ao governo sobre o tema. Segurança pública foi pauta do reel de maior alcance de Renan Santos: o pré‑candidato mencionou o assassinato de um publicitário em São Paulo para argumentar que criminosos não teriam rendição com prisões e deveriam ser mortos. Santos veiculou trecho da entrevista de Eduardo Girão a um podcast, quando o político teria admitido que houve acordo sobre a retirada de assinaturas da CPI da Lava Toga para enfraquecer as investigações de rachadinhas que recaíam sobre Flávio Bolsonaro.
Ameaças à integridade democrática
Intervenção dos EUA nas eleições brasileiras
Apesar da circulação de conteúdo direto sobre possível intervenção dos EUA nas eleições brasileiras não apresentar alto volume, foram identificados vídeos (1, 2, 3) que afirmam que Donald Trump “protegerá as eleições brasileiras” de alegadas fraudes por parte de Lula e do Judiciário, mobilizando instituições e tecnologia do país para tal.

Fique de olho
Suspensão de pesquisa eleitoral pelo presidente do TSE
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, determinou a suspensão da divulgação de uma pesquisa eleitoral do Instituto Atlas/Intel que indicava queda nas intenções de voto do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Na prática, a decisão tem efeito limitado, já que o levantamento foi realizado e amplamente divulgado no mês passado. A liminar (íntegra), que será analisada hoje pelo plenário do TSE, atende a um pedido do PL, que questionou a metodologia da pesquisa feita após a divulgação de áudios envolvendo o pré-candidato e o empresário Daniel Vorcaro. Na decisão, Nunes Marques apontou indícios de possível indução dos participantes.
Métricas e vocabulários mais utilizados
Foram coletadas por meio do Data Lake do Instituto Democracia em Xeque 187.394 publicações, compondo a base empírica desta análise. A partir desse conjunto, os vocabulários mais recorrentes foram processados com base na ocorrência de termos nos conteúdos [2]Clusterização hierárquica descendente com método Reinert., o que permitiu identificar padrões discursivos e organizar os dados em eixos de discussão. Esse procedimento resultou na delimitação de três eixos narrativos, que estruturam o debate e expressam diferentes narrativas.Nota da tabela: O termo extrema-direita utilizado no relatório comporta e subordina também os perfis de direita, tendo em vista a participação amplamente minoritária da direita neste campo quando se trata de audiência digital.

O debate desta semana concentrou‑se em Política Externa, que reuniu 63% das publicações e 67% das interações, devido ao tarifaço dos EUA sobre produtos brasileiros, que organizou tanto a reação política interna sobre soberania quanto o noticiário comercial do conflito. Esse mesmo debate também incorporou a discussão sobre a classificação de facções como organizações terroristas. A Política Nacional representou 25% das publicações, abrigando o debate político de bastidores, a repercussão dos áudios de Flávio Bolsonaro a Vorcaro, o filme Dark Horse e a mobilização da Marcha para Jesus. Por fim, o eixo Economia respondeu por 12% dos posts, sustentado pela pauta de saúde, educação, direitos trabalhistas e a escala 6×1. O perfil político dividiu-se na mesma linha das semanas anteriores, em que a extrema-direita foi maioria nos eixos de disputa institucional e externa, com 57% das publicações em Política Externa e 54% em Política Nacional, enquanto a esquerda concentrou-se na pauta material de Economia, em que reuniu 66% das publicações.

O volume diário ilustra a concentração da semana em Política Externa, que liderou em todos os dias. O pico ocorreu em 02 e 03/06, quando o tarifaço de Trump combinou cobertura midiática intensa e reação política interna. O eixo Política Nacional manteve-se como segundo tema ao longo da semana. Economia ficou em terceiro em todos os dias, o que indica uma pauta de base constante mas sem capacidade de disputar a dianteira em uma semana dominada pela agenda externa.
Análise especial:
Interferência dos EUA no Brasil

A interferência dos EUA foi o tema mais debatido durante a semana, com a extrema-direita à frente em todos os dias, mas com oscilações que acompanham a natureza do debate em cada momento. Para detalhar esse processo, o gráfico abaixo ilustra a distribuição diária do cluster Política Externa pelas categorias políticas acompanhadas.
🔎 Na semana passada, foi registrada maior presença da esquerda no debate sobre o tarifaço e sobre a articulação de Flávio Bolsonaro no exterior, a partir da busca por dois termos de referência – Tarifaço e Tariflávio. A movimentação mais à direita observada agora não deve ser lida como uma reversão deste quadro.
A clusterização é refeita a cada edição, e nesta semana os termos do tarifaço foram agrupados junto a um vocabulário mais amplo de responsabilização do governo federal, de perfil predominante à extrema-direita. O percentual desta edição descreve a composição desse agrupamento, e não permite comparação direta com o recorte da semana anterior, que reunia outros termos.
No dia 01/06, a extrema-direita concentrava 64% dos posts, ainda relacionado à visita de Flávio Bolsonaro ao presidente Trump e a classificação do PCC e CV como terroristas pelos EUA. No dia 02/06, quando o tarifaço foi anunciado, o debate teve sua maior abertura, com a extrema-direita concentrado 51% dos posts, enquanto esquerda (33%) e imprensa (16%) alcançaram seus maiores patamares. Essa janela de pluralidade se estende a 03/06, com a imprensa ainda em 16%, dias em que o tema circulava como notícia em desenvolvimento e a disputa de sentido estava em aberto. À medida que a semana avança e o anúncio cede lugar ao processamento político da medida, o debate se fecha em torno do campo que tinha mais interesse em sustentá-lo. A esquerda mantém presença constante na faixa dos 28% a 35%, o que indica engajamento contínuo com o tema.
🔎 Narrativas mobilizadas
O assunto que organizou o debate da semana foi a interferência dos Estados Unidos no Brasil, mobilizada a partir de dois enquadramentos com pesos muito diferentes. O tarifaço – a sobretaxa anunciada por Trump sobre produtos brasileiros – concentrou 92% do volume do especial e se dividiu em duas camadas principais. A primeira foi a do processamento político interno, marcada pela disputa em torno da soberania nacional. Nesse eixo, de um lado, apareceram acusações de “traição” contra os atores que teriam articulado o tarifaço no exterior, em especial Flávio Bolsonaro, cujo envolvimento no caso deu origem ao apelido “Tariflávio”. De outro, houve a tentativa de responsabilizar o governo federal brasileiro pelos impactos da medida.
A camada de cobertura factual tratou do conflito em si, tarifas, produtos, comércio, o noticiário das negociações, e teve o perfil mais equilibrado de toda a semana. O gráfico abaixo demonstra essa distribuição.
A camada política do tarifaço foi a base do debate em todos os dias. Seu volume cresceu do anúncio até o pico de 1.918 posts em 03/06, sustentado pela disputa sobre soberania, a acusação de traição dirigida a quem articulou a medida no exterior e, por parte da direita, a responsabilização do governo brasileiro frente ao incidente. A cobertura factual do tarifaço acompanhou esse pico nos mesmos dias, quando o tema era notícia em desenvolvimento e o noticiário das tarifas, dos produtos e das negociações comerciais estava no auge. A partir de 04/06 as duas camadas recuam, mas em ritmos distintos. O que se observa é o processamento político doméstico sobre quem responde pela interferência e como reagir a ela.
A classificação de facções como organizações terroristas seguiu uma dinâmica própria. Com 739&bsp;posts no total e o perfil mais concentrado do recorte (85% de extrema-direita), é um debate de pouca circulação e quase sem contraditório, em que a pauta de segurança pública doméstica se conecta à agenda externa pela via da pressão norte-americana sobre o tema. A combinação das três camadas indica que a presença dos EUA no debate brasileiro operou em duas frentes simultâneas: a do tarifaço, mais ampla e com momento de cobertura plural no anúncio, e a securitária, restrita mas alinhada a um único campo.
A separação por camada revela três perfis distintos dentro de um mesmo eixo. A camada política do tarifaço é de maioria da extrema-direita (59%), com a esquerda em posição de contestação (34%), em que os dois campos disputam o sentido da soberania e da responsabilidade pela interferência. A cobertura factual tem o perfil mais equilibrado e a maior presença de imprensa de toda a semana (34%), com debate menos polarizado pois é mais noticioso que opinativo. Já a segurança pública apresenta a maior concentração do recorte, sendo 85% de extrema-direita, contra 11% da esquerda e 4% da imprensa.
Os dados dessa semana demonstram que a interferência dos EUA não circulou como um tema único, mas como três debates de naturezas distintas reunidos sob a mesma pressão externa. O tarifaço concentrou quase todo o volume e teve seu momento mais plural no anúncio, em 02/06, quando esquerda (33%) e imprensa (16%) alcançaram seus maiores patamares; passada a novidade, o tema se converteu em disputa política doméstica sobre soberania e responsabilização, terreno em que a extrema-direita foi mais ativa (56%) em relação à esquerda (61%). A classificação de facções como organizações terroristas, ao contrário, manteve-se restrita e alinhada à extrema-direita. O que une os três debates é a origem comum na ação norte-americana, e o que os separa é o grau de abertura à disputa. A semana sugere que a pressão dos EUA sobre o Brasil funcionou menos como uma pauta em si e mais como um ponto de partida que cada campo acionou conforme seu próprio interesse.
Temas relevantes por eixo ideológico

ESQUERDA
Novas tarifas dos EUA e ataque ao PIX: a culpa é do Flávio
O anúncio do novo tarifaço gerou indignação seguida de mobilização do segmento governista contra Flávio Bolsonaro, a quem foi atribuído um suposto pedido de sanção ao Brasil, fenômeno que circulou sob a alcunha de “TariFlávio”. Conforme a semana avançou, o assunto saiu da figura de Flávio e passou a se concentrar na defesa do PIX, citado 20 vezes no documento do novo tarifaço. O conteúdo das mensagens com maior engajamento no segmento de esquerda remete ao corte de uma fala do presidente Lula no qual aponta que Flávio Bolsonaro apelou a Trump (repetindo o que fez seu irmão Eduardo em 2025) para tentar ganhar a eleição, mas que os principais prejudicados pela atuação dele são o empresariado e o povo brasileiro. O segmento ainda classificou o presidenciável da direita como um “falso patriota”.
A ofensiva contra o senador teve engajamento em mensagens que tentaram responsabilizá-lo, junto ao seu irmão Eduardo, por possíveis ataques ao Pix em detrimento de empresas de cartões estadunidenses. Neste tópico, o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad enquadrou as posições antagônicas entre esquerda e direita brasileira como aqueles que defendem a soberania nacional enquanto o último segmento defenderia interesses estrangeiros. Fernanda Melchionna ainda questionou se esses “conspiradores” continuariam a ter liberdade para punir o povo brasileiro.
Outras mensagens com alto alcance foram utilizadas para comprovar as intenções pró-EUA dos irmãos Bolsonaro: um perfil engajado publicou um vídeo com uma fala de Eduardo na qual, dentre outras coisas, diz que o Brasil poderia adotar o ‘Zelle’, o “PIX dos Estados Unidos”.
Vorcaro delatou Flávio
A informação de que Daniel Vorcaro teria incluído o financiamento do filme “Dark Horse” em sua proposta de delação gerou diversas mensagens que tiveram alto engajamento no segmento da esquerda. Os influenciadores Thiago dos Reis [Link 1, Link 2] e Prof. José [Link 1; Link 2] sugeriram em suas mensagens que Flávio Bolsonaro estaria desesperado com a possível delação e que seu destino certo seria a cadeia.
Marcha para Jesus
Em contraponto à participação de Flávio Bolsonaro na ‘Marcha para Jesus’, o segmento progressista engajou uma mensagem na qual o presidente Lula fala, por meio de uma ligação, que não participa de eventos religiosos em ano eleitoral para não parecer que ele está tentando se beneficiar de algo sagrado para ganhar votos.

DIREITA
Novas tarifas dos EUA: “a culpa é do Lula”
Buscando reverter a relação da família Bolsonaro com a investigação e novas tarifas dos EUA ao Brasil, o segmento desenvolveu algumas narrativas centrais. Eduardo Bolsonaro reivindicou o Pix como criação de seu pai, que teria tido coragem de agir contra o interesse dos bancos para isso. A narrativa foi disseminada por outras figuras políticas, como Carol de Toni e Sóstenes Cavalcante, que reforçaram o Pix como uma conquista do governo anterior.
Contudo, o eixo narrativo central foi de desatrelar a família Bolsonaro das novas tarifas e transmitir sua responsabilidade para o governo Lula. Mario Frias relembrou que a investigação já estava em curso desde julho de 2025, reforçando que os motivos reais para as novas tarifas seriam a censura às redes sociais, a falha no combate à corrupção e os recordes de desmatamento. Flávio Bolsonaro afirmou que “a tarifa é do Lula”, atrelando as novas taxações à suposta incompetência do governo atual em negociações com os EUA. A narrativa foi reproduzida por outras figuras como Marcel van Hattem, que adicionou o STF à pauta da suposta censura. Na mesma linha, Romeu Zema deu saliência ao impacto da nova tarifa de 25% a empresários e trabalhadores. O segmento ainda comentou tarifas extras que seriam aplicadas devido ao uso de trabalho forçado na produção de bens exportados pelo Brasil, com publicações afirmando que “a culpa é do Lula”. Outras postagens buscaram explicar que a reunião de Flávio com a equipe de Trump teria tratado apenas do tema da segurança pública e não de relações comerciais, o que seria atribuição do presidente Lula.
Além disso, foi explorada a fala de Lula que se refere aos filhos de Jair Bolsonaro como traidores da pátria e compara ao enforcamento de Tiradentes, sendo retratada como ameaça e violência política contra Flávio.
Donald Trump: da relação frágil com Lula ao alinhamento a Flávio Bolsonaro
Ainda em torno da visita de Flávio Bolsonaro aos EUA, o segmento repercutiu alguns movimentos dos EUA para reforçar a narrativa de que Flávio Bolsonaro tem influência e é reconhecido pelo governo Trump, ao contrário de Lula. Perfis como de Carlos Jordy e Bruno Zambelli divulgaram a foto e elogios de Trump ao senador como sinal de alinhamento do presidente norte-americano com a sua pré-candidatura e de que a suposta boa relação com Lula não era sólida. foi comentada a indicação de Daniel Perez, aliado Republicano da Flórida, como novo embaixador dos EUA no Brasil, com o deputado Giovani Cherini salientando que o fato ocorreu logo após a visita de Flávio aos EUA e Deltan Dallagnol destacando o perfil de Perez como sinal de endurecimento das relações diplomáticas e derrota para Lula. Bruno Zambelli deu destaque à declaração de Marco Rubio de que o Brasil não está na lista de países aliados ou “amigáveis” dos EUA. Os fatos mencionados são enquadrados como retaliação e “guerra” de Trump e Marco Rubio ao governo Lula.
Lula e o crime organizado
Ainda relacionado às narrativas anteriores, diversas publicações continuam salientando a indignação do presidente brasileiro, com a classificação de PCC e CV como grupos terroristas, como sinal de que apoia o crime organizado. Guilherme Derrite parabenizou Flávio Bolsonaro, colocando o senador em posição de protagonismo pela medida. Diversas publicações, inclusive de Flávio Bolsonaro, utilizaram vídeos e imagens que retratam a violência das facções para reforçar sua classificação como organizações terroristas, além de mencionar que a maioria da população aprova a medida. Nesse contexto, perfis como de Eduardo Bolsonaro e Revista Oeste reforçam as críticas de Lula à classificação como sinal de apoio e alinhamento ao crime organizado, enquanto Flávio, em oposição, se colocaria em lugar de proteção da população na agenda da segurança pública.
Marcha para Jesus e a disputa pelo eleitorado evangélico
A participação de Flávio Bolsonaro na Marcha para Jesus, no dia 4 de junho em São Paulo, teve grande repercussão. Foi comentado que o senador carregou uma bandeira de Israel, pediu orações para seu pai em seu discurso e foi ovacionado durante o evento, enquanto Lula teria sido vaiado. Nesse tópico, também ganharam destaque as presenças de Tarcísio de Freitas, André Mendonça e Jorge Messias. Messias, que recentemente teve sua indicação rejeitada pelo Senado para o STF, foi amplamente criticado e vaiado no evento, por ter evitado falar sobre o Supremo e por ter realizado um discurso considerado pelo campo como “oportunista” ao promover Lula e criticar Flávio Bolsonaro. Mario Frias reforçou haver uma relação intrínseca entre o conservadorismo e a religião, enquanto Sóstenes Cavalcante deu visibilidade à fala de Flávio Bolsonaro sobre a existência de uma “guerra espiritual” no Brasil, reforçando o apoio dos evangélicos ao candidato. Além disso, páginas de mídias alinhadas ao segmento reforçaram que Lula teria ignorado o “maior evento evangélico do Brasil” e optado por não comparecer sem justificar sua ausência.
Presidenciáveis (Top Reels)
Análise de narrativas dos presidenciáveis e parlamentares segundo campo ideológico e com maior relevância no Instagram ao longo da semana.
A base de dados desta seção foi extraída em 08/06 às 16h.

@lulaoficial 14,7 mi seguidores
Na última semana, Lula obteve mais de 4,6 milhões de visualizações em reel publicado ao lado de estudantes, quando visitou o Instituto Federal em Catalão, fazendo a trend do ‘six-seven’.
O segundo reel de maior alcance, com 4 milhões de visualizações, é um vídeo com rotina de exercícios do presidente. No texto que acompanha a publicação, Lula salienta que “Domingo é dia de cuidar da saúde”.
Em terceiro, com 3,7 milhões de visualizações, Lula publica vídeo na ocasião da inauguração do Hospital Universitário da UFCAT, quando carrega um cartaz com os dizeres “O PIX é do Brasil!”.

@flaviobolsonaro 10,6 mi seguidores
O reel de maior alcance publicado por Flávio Bolsonaro na última semana, com 10,3 milhões de visualizações, foi publicado em collab com o perfil do Partido Liberal (PL). Trata-se de um jingle de pré-campanha, com a mensagem ‘vem com Fé que o Brasil vai melhorar’.
No segundo reel, com 7,8 milhões de visualizações, o pré-candidato publica vídeo alegando que estão fazendo com ele o que fizeram com seu pai anteriormente, argumentando que “defensores do PCC e do Comando Vermelho” farão vídeos mentirosos e manipulados contra ele. Flávio Bolsonaro acusa o PT, na publicação, de veicular vídeo de uma de suas falas de forma descontextualizada, se defendendo dos argumentos que o colocam como responsável pela taxa implementada pelos EUA a produtos brasileiros.
Em outro reel, com 4,3 milhões de visualizações, o senador faz críticas a Lula por sua fala sobre Marco Rubio, dizendo que o presidente brasileiro teria xingado o secretário norte-americano, o que, de acordo com a visão do pré-candidato, atrapalharia as negociações sobre tarifas, já que é Rubio quem decide sobre a questão.

@ronaldocaiado 2,1 mi seguidores
Os três reels de Ronaldo Caiado com maior alcance na última semana abordaram a agenda de segurança pública. O governador de Goiás veiculou trechos de sua entrevista ao Canal Livre, alcançando 766 mil e 668 mil visualizações em dois reels. No primeiro vídeo, argumentaou que o atual governo “colocou fermento” no crime organizado e que, se eleito presidente, irá “usar o Exército, a Marinha e as forças estaduais para resgatar a soberania brasileira”. No segundo reel, salientou que encontrou “Goiás quebrado, bloqueado no Tesouro e comandado pelas facções” e transformou no “estado mais seguro do país”.
No terceiro reel de maior alcance da semana, com 452 mil visualizações, Caiado reage a uma matéria do programa Balanço Geral com alegações de que o Comando Vermelho teria tomado “dois condomínios na Pavuna e está cobrando R$300 por mês de 800 famílias”. O pré-candidato cobra medidas de Lula, alegando que “complacência com o narcotráfico tem nome e tem partido”.

@renansantosmbl 1,6 mi seguidores
Renan Santos passa a integrar o acompanhamento de presidenciáveis a partir desta edição. Pré-candidato à presidência pelo Partido Missão e um dos fundadores do MBL, somou nesta semana 5,1 milhões de visualizações em três reels, mais de três vezes seus 1,6 milhão de seguidores, a maior proporção de difusão entre os presidenciáveis acompanhados. O alcance de seu conteúdo para além da própria base sustenta o acompanhamento contínuo de suas publicações nas próximas edições
O reel de maior alcance publicado por Renan Santos na última semana, com 1,9 milhões de visualizações, faz a defesa da morte de criminosos. O pré-candidato diz que precisará diminuir o slogan que sempre usou, “prendeu, matou” para “matou”, usando como argumento o assalto seguido de assassinato de um publicitário, na Zona Sul de SP, mesmo depois de a vítima entregar seu celular aos bandidos. De acordo com seu posicionamento, o assaltante, que estaria foragido, já deveria ter passagens anteriores pela polícia e não haveria “salvação para uma pessoa que executa a outra” pelo modelo de celular.
O outro reel, em collab com Kim Kataguiri e com o perfil do Partido Missão, traz trecho de entrevista de Kataguiri sendo questionado pelo jornalista sobre denúncias envolvendo Renan Santos, como tráfico de influência, lavagem de dinheiro e quebra de empresas. O parlamentar defendeu seu colega, dizendo que não existem denúncias contra ele, já que teria sido absolvido após julgamento. Alega, ainda, que as acusações teriam sido feitas por um bolsonarista e teriam sido rejeitadas pelo juiz. No terceiro reel de maior alcance, com 1,3 milhões de visualizações, Renan Santos ironiza entrevista de Eduardo Girão a um podcast, quando afirma que o governo Bolsonaro teria pressionado parlamentares a retirarem assinaturas da CPI da Lava Toga. O pré-candidato salienta que Girão, um bolsonarista, teria confirmado que houve um acordo para ‘livrar’ Flávio Bolsonaro das investigações sobre as rachadinhas, reforçando que seu oponente ao pleito seria, na verdade, um aliado do STF, corte “que ele finge combater”. Santos, relembra então, de ações de ministros que teriam beneficiado o filho do ex-presidente
Imprensa
Acompanhamento da cobertura dos principais veículos de imprensa, mídias alternativas (reframe) e influenciadores por campo ideológico.
📌 Os temas com mais engajamento na mídia foram aqueles relacionados aos novos desdobramentos pós-encontro de Flávio Bolsonaro com Donald Trump: o novo “tarifaço” e o incômodo crescente do governo dos EUA contra o Pix e as reações do presidente Lula e do próprio senador fluminense.
Lula e aliados responsabilizam Flávio pelo novo Tarifaço
Diversas mensagens com alto engajamento produzidas pela mídia de referência continham declarações do presidente Lula, trazendo: i) a declaração reativa e dura do presidente, que acusou Flávio Bolsonaro de pedir intervenção nas eleições brasileiras em favor dele (Metropoles; SBT News) e a quem atribuiu o novo tarifaço (g1), o que foi reproduzido pelo ministro José Guimarães (SBT News); ii) a leitura, por Lula, de uma mensagem antiga de Flávio elogiando a taxação realizada por Trump em 2025; e iii) uma cobrança pública do petista por uma nova reunião entre o presidente brasileiro e o estadunidense para referendar as negociações de suas equipe. Em outra oportunidade, Lula classificou os irmãos Bolsonaro como “traidores da Pátria”.
A postagem de Donald Trump com fotos e elogios a Flávio Bolsonaro, publicada logo após o anúncio das novas taxas, teve grande repercussão e acabou por referendar na opinião pública que, tanto o tarifaço, quanto a classificação de facções como organizações terroristas, foram consequência da visita do pré-candidato de extrema-direita ao mandatário dos EUA.
Notícias sobre a reação de Flávio Bolsonaro geraram alto engajamento: uma mensagem do portal g1 reportou que o pré-candidato do PL responsabilizou Lula e enviou uma carta ao governo Trump solicitando que as novas tarifas não sejam aplicadas. O UOL Notícias ainda compartilhou a informação com um vídeo de Flávio.
Entre as mensagens com opiniões sobre o ocorrido, destaque para: i) a publicação do jornalista Octavio Guedes que afirmou que Flávio Bolsonaro seria submisso a Trump e que a carta com o pedido de não-aplicação das tarifas não significaria nada; ii) a opinião de Natuza Nery que analisou a ofensiva contra o Pix como uma guerra corporativista de Trump, por um lado, mas um capital político valioso de disputa entre Lula e Flávio; iii) e a crítica de William Waack a Lula e à oposição, por ambos não entenderem os termos de negociações de Trump (imposição de coerção) e a carência de um projeto nacional de grande alcance nas últimas décadas.
Lula critica governo dos EUA
A CNN Política teve uma mensagem com alto engajamento. Nela, o presidente Lula afirma que Marco Rubio “não gosta da América Latina e muito menos do Brasil” e atenta contra a soberania de países latino-americanos, enquanto o Brasil tenta fortalecer as relações institucionais do Brasil com os Estados Unidos.Por outro lado, teve grande repercussão a publicação do portal g1 na qual Marco Rubio declara que o Brasil é, ao lado de Nicarágua, Cuba, Venezuela e Colômbia, um dos poucos países não considerados “aliados e amigos” dos EUA na América Latina.
Nota metodológica
Os dados apresentados neste relatório foram coletados por meio do Data Lake do Instituto Democracia em Xeque, que realiza acompanhamento contínuo do debate público digital em plataformas como Facebook, Instagram, X, YouTube e TikTok.
Clusterização:
📌 A clusterização é um procedimento estatístico que organiza o conjunto de publicações coletadas na semana a partir dos termos que compõem os conteúdos.
A técnica utilizada é a clusterização hierárquica descendente pelo método Reinert, que agrupa os textos pela coocorrência de palavras, em que termos que tendem a aparecer juntos nas mesmas publicações são reunidos em um mesmo grupo, ou cluster. Cada cluster corresponde a um vocabulário que circulou de forma articulada ao longo da semana, e é a leitura desses vocabulários que permite nomear os eixos de debate (Política Externa, Política Nacional, Economia).
Por se basear nos termos efetivamente mobilizados em cada período, a clusterização é refeita a cada edição. Os agrupamentos variam de uma semana para outra, de forma que um mesmo tema pode aparecer isolado em uma edição e, em outra, reunido a um conjunto maior de termos relacionados, conforme o que circulou no debate público naquele intervalo. Por isso, os percentuais de perfil político associados a cada eixo descrevem a composição do agrupamento daquela semana específica e não devem ser comparados diretamente entre edições, já que o conjunto de termos que define cada eixo muda a cada coleta.
Do total de posts analisados, 15.691 foram classificados nesses eixos narrativos, concentrando 182.648.525 interações. A diferença entre o volume total e o subconjunto clusterizado decorre da aplicação de critérios de consistência semântica, que priorizam conteúdos com densidade temática suficiente para compor agrupamentos interpretáveis.
Sobre a seção de presidenciáveis:
A seção de presidenciáveis foi construída a partir do monitoramento de conteúdos em formato Reels no Instagram. A base de dados foi extraída em 08/06/26 às 16h, e reúne os conteúdos com maior volume de interações publicados por presidenciáveis e parlamentares com projeção nacional, organizados por campo ideológico. A análise não busca representar a totalidade da atuação digital dos atores, mas capturar os conteúdos que alcançaram maior visibilidade e impacto no ecossistema do Instagram ao longo da semana.
Expediente
Semanal DX (09.06.2026) – Período da análise: 01 a 08 de junho de 2026
ESTE RELATÓRIO ESTÁ LICENCIADO SOB A LICENÇA CREATIVE COMMONS CC BY-SA 4.0 BR. Essa licença permite que outros remixem, adaptem e criem obras derivadas sobre a obra original, inclusive para fins comerciais, contanto que atribuam crédito aos autores corretamente, e que utilizem a mesma licença.
TEXTO DA LICENÇA: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/legalcode
BERNARDI, Ana Julia; CAPONE, Letícia; CHIODI, Alexsander Dugno; COSTA, Andressa Liegi; ABRANTES, Natália; GARRIDO, Fabiano; SANTOS, João Guilherme dos; SOUZA, Paulo Roberto de. VASQUES, Beto. Instituto Democracia em Xeque (DX). Semanal DX, 09 jun. 2026. Período da análise: 01 a 08 de junho de 2026. Disponível em: <https://institutodx.org/semanaldx/02062026>.
Equipe do relatório
Diretores: Ana Julia Bernardi, Fabiano Garrido, Beto Vasques, João Guilherme dos Santos e Letícia Capone.
Coordenadores: Alexsander Dugno Chiodi e Paulo Roberto de Souza.
Pesquisadores: Andressa Liegi Costa e Natália Abrantes.
Projeto gráfico: Moara Juliana e Júlia Cristofi
