Painel Narrativo Semanal

Quinta rodada — 14 de junho de 2026

Investigação qualitativa sobre opinião pública, preferências eleitorais e percepção política de eleitores “pendulares”.

Método
Tríades etnográficas

Público
Eleitores Pendulares

Foco
Percepções Eleitorais

Escopo

A investigação se concentra em eleitoras e eleitores “pendulares”, ou seja, aqueles que oscilam entre Lula e Flávio Bolsonaro na disputa presidencial de 2026. A análise dialoga com a agenda factual, com o relatório semanal e boletins especiais do Instituto DX sobre o debate público digital e com os resultados da última pesquisa Quaest, deslocando o foco do ambiente digital para a recepção qualitativa de temas políticos neste eleitorado chamada a ser decisivo nas eleições de 2026.

Nesta quinta rodada, a pesquisa buscou compreender a sedimentação das percepções depois de um mês de eventos sucessivos e de forte disputa narrativa. O objetivo foi menos medir a lembrança factual de cada episódio e mais identificar quais valores, medos, imagens de candidato e disposições eleitorais permaneceram após a sequência Banco Master/Dark Horse, Flávio/Eduardo Bolsonaro na Casa Branca, decisões de Trump, tarifaço, PIX e variações nas pesquisas.

PERÍODO:
14 de junho de 2026

GRUPOS:
2 grupos focais em formato de tríades etnográficas

COMPOSIÇÃO:
Grupo 1: homens | Grupo 2: mulheres

PERFIL:
30-50 anos, ensino médio, renda familiar de 3 a 7 salários-mínimos

REGIÃO:
Preferencialmente eleitores das Regiões Metropolitanas de São Paulo,
Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador (“swing states”) 

TRAJETÓRIA ELEITORAL:
Votou em Jair Bolsonaro em 2018; votou em Lula em 2022; está indefinido para 2026.

CRITÉRIO POLÍTICO:
Não rejeita Lula nem Flávio Bolsonaro

EIXOS TESTADOS:
Valores; família; honestidade; autenticidade; corrupção; segurança; prosperidade; soberania; medos; religião e política; voto; terceira via

Sumário executivo visual

Dez leituras estratégicas para decisão política e comunicação

1

A quinta rodada mostra a sedimentação do último mês: o desejo de mudança não se foi, mas se condicionou à agenda factual, em especial ao caso Dark Horse/BolsoMaster, levando eleitores pendulares, neste momento, mas para perto de Lula

2

Flávio é mais associado a igreja, família tradicional e valores religiosos, mas o caso Master mancha essa imagem, especialmente por haver mentido reiteradamente. A pergunta passa a ser: quem prega valores vive esses valores?

3

Flávio fala mais de família; Lula é percebido como quem faz mais por famílias pobres e trabalhadoras. Mães solteiras dizem não se ver representadas no modelo de família bolsonarista. Flávio defende muito (valores), mas faz pouco (concretamente) pelas famílias pobres. Lula faz muito pelas famílias pobres, mas capitaliza pouco (comunicacionalmente) o que faz. 

4

Antes, Flávio podia representar honestidade para parte dos pendulares. Depois de Dark Horse, a balança se aproxima do “todos são iguais”, com dano adicional à imagem pessoal do senador.

5

Lula é visto como mais verdadeiro e mais próximo do povo, mas gafes e falas sobre roubo de celular ou facções produzem ruído e rejeição neste público.

6

Flávio parece mais disposto a enfrentar PCC/CV, mas sua proximidade com radicais, armas e militarismo assusta, especialmente entre mulheres.

7

Flávio é associado a grandes empresários e ao empreendedorismo. Lula aparece como melhor para trabalhadores, pequenos empreendedores e famílias que dependem de políticas de alívio.

8

O termo soberania não é plenamente incorporado, mas a proteção do PIX, a relação com Trump e a defesa do Brasil contra subordinação tornam o tema mais inteligível.

9

Com Lula, medo de perda de “pique” do presidente, empresas retraídas e descontinuidade de benefícios. Com Flávio, medo de elitismo, extremismo, falta de equipe técnica e submissão familiar/pai.

10

Há desejo de alternativa, mas pouca informação. Caiado aparece apenas de forma vaga no eixo segurança; Zema e Michelle são lembranças periféricas, sem densidade consolidada.

Mapa de percepções

Como os participantes organizam Lula, Flávio e alternativas

Achados qualitativos

Temas, interpretações e aspas selecionadas

1

Quando provocados a falar sobre valores, os participantes identificam Flávio Bolsonaro como o candidato mais associado ao ecossistema religioso, a igrejas, encontros evangélicos e defesa da família tradicional. Essa associação, porém, não opera mais como blindagem. O caso Master/Dark Horse introduziu uma dúvida moral: se o candidato prega valores cristãos, sua conduta privada precisa corresponder à imagem pública.

A tensão central não é apenas entre religião e política, mas entre discurso e prática. Para participantes religiosos, especialmente cristãos, a honestidade passa a funcionar como critério de coerência. O caso Master mancha a imagem de Flávio porque coloca em suspeição justamente a dimensão ética que deveria sustentar sua vantagem no campo dos valores :”não mentirás” e “não roubarás”.

“Eles (os Bolsonaro) são sempre ativos nos encontros evangélicos, shows, tal, sempre divulgam, a gente vê que eles propagam os valores, eles estão presentes nas igrejas. Mas quando a gente escutou o áudio ele já perdeu os valores deles e já deixou a imagem dele como cristão, ser honesto, ele já deixou essa imagem um pouco duvidosa. Ele mentiu. Eu como cristão avalio dessa forma.”

“Eu sou espírita e acredito que ele segue alguns ideais em termos de religião, ele está sempre em igreja e tal, mas também, com certeza, penso que nem o colega acho que essa imagem dele ficou bem manchada com a coisa do Master.”

“Eu sou crente e concordo muito com a opinião deles.”

“Eu sou católica. O Flávio não representa muito meus valores muito, não, essa coisa da violência da família, apoiar as manifestações aquelas de Brasília, não vai tanto com meus valores. Do Lula eu soube de falas dele tipo que estava todo bem roubar um celular e que pobre roubava celular roubado, nossa, isso eu não concordo, na maioria das vezes os pobres que estão sendo roubado. Será que ele falou sem pensar ou queria ter o apoio dos ladrões?”

O campo religioso continua sendo ativo potencial de Flávio, mas deixou de ser território seguro. Se novas informações sobre Dark Horse avançarem, o conflito entre valores cristãos e suspeita de desonestidade (mentiras) pode produzir custo moral também junto a eleitores religiosos. 

2

O tema da família revelou uma distinção decisiva. Flávio é percebido como quem fala mais de família, moral e tradição. Lula, por outro lado, é percebido como quem produz políticas que chegam às famílias, sobretudo as mais pobres. A disputa deixa de ser apenas simbólica e passa a ser também material: de quem fala de família e de quem melhora a vida das famílias. Ambas as dimensões permanecem importantes.
Entre as mulheres, especialmente, apareceu uma crítica ao modelo de família associado ao bolsonarismo: pai, mãe, filhos, empresários, alta renda e padrão tradicional. Mães solteiras não se sentem representadas por esse modelo. Ao mesmo tempo, políticas como Bolsa Família, Pé-de-Meia, auxílio gás, Desenrola, Farmácia Popular, combate à fome e escala 6×1 apareceram como exemplos de proteção familiar concreta.

“Eu acho que Lula porque os projetos de Lula são mais elaborados, voltados para a família. Pelo que eu vejo o Flávio ele fala umas besteirinhas de vez em quando então, não sei.”

“O Flávio pega aquela parte da sociedade com poder aquisitivo maior, então não pega tanto as famílias. Eles falam, mas eles não agem de acordo. Na verdade manipulam, mas não pegam o povo na prática.”

“Acho que Flávio porque eles pregam muito isso, mas a questão da parte do Lula ele faz pela população mais pobre. Na eleição do Jair eles pregavam muito a família, o apoio à moral, Lula é mais a questão da pobreza então… No final acho que Lula faz mais pelas famílias, né? Os benefícios que ele dá, as famílias pobres, tipo o Pé de Meia para os filhos, né?”

“Eu acho que Flávio fala mais sobre família, mas parece mais propaganda, né? E a família deles é pai e mãe, empresários e filhos, pessoas de alto padrão, mas Lula apoia mais e ele dá mais oportunidades, tipo o Desenrola, o auxílio gás, farmácia popular.”

“Flávio prega muito família, porém eu não vejo fazer de maneira explícita colocando algo que eu me sinta representada como família. Já Lula é voltado para famílias mais carentes porque ele traz benefícios, tem o Bolsa Família, combate à fome.”

“E como se a gente que é mãe solteira não tivesse muito valor pro Flávio, porque não somos a família tradicional.”

“Isso, nós que somos mães solteiras não nos sentimos representadas por eles. É como se a gente fosse invisível por essa família deles e ai acho que Lula traz mais benefícios para a gente.”

Há uma avenida discursiva relevante para Lula: disputar a família pelo cuidado, renda, tempo, alimentação, educação e proteção de mães reais. Para Flávio, o desafio é transformar retórica familiar em políticas concretas e ampliar sua noção de família para além do modelo tradicional idealizado.

3

Nenhum dos dois candidatos é percebido como plenamente honesto. No entanto, a rodada confirma uma mudança importante: Flávio, que antes podia ocupar posição relativamente mais favorável no tema da honestidade, perdeu essa vantagem após o caso Master/Dark Horse. A “balança da honestidade” se aproxima da “balança da corrupção”: ambos carregam suspeitas, mas Flávio passa a sofrer dano pessoal mais recente e mais biográfico. 

Lula segue marcado por corrupção, prisão e Lava Jato, mas é percebido por alguns como mais verdadeiro e mais próximo do povo. Flávio, ao contrário, passa a ser descrito como menos confiável, mais cínico, mais calculista e mais preso à sombra do pai. A autenticidade de Lula convive com gafes; a serenidade de Flávio convive com suspeita de cálculo.

“Eu acho que Lula um pouco melhor nisso (honestidade) porque acho que ele dá os benefícios para os trabalhador de verdade, e esses conflitos que envolve a família Bolsonaro também não ajuda. O Lula fala mais de verdade.”

“Acredito que Lula também porque ele faz de verdade, né? Acho que ele age mais com princípios e valores, não 100%, mas mais do que o Flávio.”

“Nenhum dos dois tem índole 100%. Então acho que eu puxaria mais para o lado do Flávio nessa coisa da honestidade. Eu acreditava mais no Flávio, mas depois do Master, imagina, a gente descobriu tanta coisa debaixo de tapete, mas o Lula já foi preso então imagina.”

“Da honestidade não colocaria em nenhum dos dois.”

“Meio difícil acreditar que eles queiram acabar com a corrupção, mas agora com o caso do Banco Master não dá para acreditar que Flávio queira acabar.”

“Acho que Lula acaba sendo mais autêntico porque ele acho que faz as coisas de verdade, já o Flávio acho que está muito nas coxas do pai, acho que ele é a sombra do pai.”

“É o pensamento do Lula é dele, né? O do Flávio é o do pai.”

Dark Horse não apenas arranhou Flávio: retirou dele a possibilidade de se apresentar com superioridade moral no tema. Não só a defesa anticorrupção se tornou inviável, como do ponto de vista pessoal, o eleitor já incorpora o caso como parte de uma biografia em reconstrução negativa.

4

A segurança pública segue como tema favorável à direita. Flávio é percebido por alguns participantes como alguém mais rígido, mais próximo de uma agenda de enfrentamento ao PCC e ao CV e mais disposto a falar sobre crime organizado. A classificação das facções como terroristas reaparece espontaneamente e, entre parte dos participantes, ainda produz a esperança de algum efeito positivo.

Mas essa vantagem se mantém acompanhada de receio. Entre as mulheres, especialmente, há medo de radicalização, militarismo excessivo, armas, extremismo e consequências negativas para brasileiros no exterior ou no cotidiano. A aproximação de Flávio com grupos radicais e a imagem de uma família associada a manifestações violentas dificultam uma adesão plena.

“Acho que depois que o Lula assumiu diminui um pouco a questão de roubos, né? Teve aquela operação no Rio de Janeiro. Já vejo os Bolsonaro falando muito dessas coisas de militar, não sei, acho que não é bom isso.”

“Acho a parte do Jair essa parte de ser muito militar, esse jeito deles não é bom. Agora tem essa coisa de PCC e do CV agora é muito negativo, eu acho porque vai complicar as coisas para os brasileiros lá fora.”

“Acho que Flávio seria mais rígido com a segurança, mas acho que sairia do controle, muito militar, muito porte de armas, muito extremo, né? Pode ficar algo muito radical e, assim, essa coisa do terrorismo talvez poderia trazer alguma coisa de positivo para ter mais prisões, mas fica pior para a gente como brasileiros, nossa imagem lá fora.”

“Eu vejo que Flávio tem mais projetos pelo menos de atacar os grupos do crime organizado, o PCC, o CV, que ninguém quer derrubar. Lula falou essa coisa de que “os nossos criminosos” Foi uma fala errônea. Tanto que os EUA estão querendo intervir e aí Eduardo e Flávio estão tentando mexer com isso. Acho que essa medida de terroristas pode ajudar alguma coisa. A gente não conseguiu combater então, quem sabe, talvez com a ajuda de EUA a gente consiga melhorar alguma coisa.”

“Eu acho que nenhum. A segurança está devastada. A gente sempre sai com medo e contando com a sorte. O Flávio eu não acredito porque fala, fala, mas nada se resolve.”

A segurança continua sendo uma lacuna importante para Lula e uma oportunidade para Flávio, mas a direita não converte automaticamente firmeza em confiança. O eleitor quer enfrentamento ao crime, mas teme guerra social, excesso de armas, radicalismo e soluções que piorem a vida cotidiana.

5

A prosperidade divide os grupos em duas chaves. Na primeira, Lula é associado a programas que facilitam a vida de trabalhadores, pequenos empreendedores e famílias endividadas: Desenrola, queda do desemprego, políticas sociais e fim da escala 6×1. Na segunda, Flávio é associado ao imaginário empresarial, ao empreendedorismo e a uma visão de mercado mais próxima de grandes negócios. 

Quando a categoria “empreendedor” é desagregada, surge uma distinção importante: Flávio parece mais próximo de grandes empresários; Lula, mais próximo dos pequenos, de quem quer começar, trabalhar, sair da dívida ou preservar renda. 

“Eu vejo Lula com alguns projetos que nem o Desenrola, isso favorece pequenas e médias empresas. O fim da escala 6×1 também ajuda para ter mais descanso e, portanto, mais produtividade.”

“E abriram também novas vagas e o desemprego diminuiu com o Lula.”

“Para empreendedores vejo que talvez o Flávio porque o pensamento dele é mais de empresário então para ter o próprio negócio acho que Flávio seria mais qualificado.”

“Acho que Flávio apoia mais grandes empreendedores, mas Lula é melhor para os pequenos, quem quer começar seu próprio negócio.”

A disputa sobre economia pode ser organizada pela pergunta “prosperidade para quem?”. Flávio precisa provar que sua agenda empresarial também alcança trabalhadores e pequenos negócios. Lula precisa comunicar que além de suas políticas sociais e trabalhistas também gera produtividade e promove e apoia empresas e investidores.

6

Quando convidados a nomear seus valores centrais, os participantes falaram de respeito, família, honestidade, trabalho e combate à pobreza. Esse eixo revela uma lacuna: nenhum dos dois candidatos encarna plenamente o conjunto de valores desejado. Lula aparece mais associado ao respeito pelos humildes e à luta contra a pobreza; Flávio aparece ligado à família tradicional e à mudança, mas prejudicado por Master, elitismo e extremismo. 

O resultado é um sentimento de desamparo valorativo. O eleitor pende, recua, reconsidera e compara custos. A decisão deixa de ser adesão positiva e passa a ser ponderação entre falhas.

“Lula está à frente porque Lula abraça o povo brasileiro, a direita de Bolsonaro me parece mais egoísta.”

“Lula representa mais os mais humildes.”

“Acho que o respeito pelas pessoas Lula representa mais.”

“Respeito, família, honestidade, são meus valores e quem representa esses valores mais. Está difícil. Estava indo mais no Flávio por ser um candidato novo, aí aparece essa coisa do Máster e aí me voltei para o Lula mas aí ele fala sobre a questão dos pobres e o celular roubado.”

“Os meus acho que família, trabalho, respeito. E, entre Lula e Flávio, é bem complicado. Flávio apoia mais os ricos, mas os dois têm escândalos à vontade. O Flávio a coisa do Máster, o Lula da Lava Jato e já foi preso. Então a gente não sabe o que opinar.”

A disputa pelo eleitor pendular não será vencida apenas com ideologia ou ataque. Ela passa por demonstrar coerência entre valores proclamados e vida concreta: respeito, trabalho, família, honestidade e proteção dos mais vulneráveis.

7

A palavra soberania ainda aparece como conceito difícil e pouco estabilizado. Quando traduzida em PIX, Trump, tarifas, invasão, empresas, dólar e investimentos, porém, torna-se mais compreensível. Entre os homens, houve maior abertura à ideia de que a proximidade de Flávio com Trump poderia favorecer empresas, investimentos e mercado. Entre as mulheres, apareceu mais fortemente a percepção de que Lula protegeria melhor o Brasil, sobretudo no caso do PIX e diante de riscos de submissão externa.
O eleitor não deseja ruptura com os Estados Unidos. Quer parceria, comércio, negociação e boa relação. Mas rejeita a ideia de baixar a cabeça, aceitar tarifaços ou permitir que disputas internas brasileiras sejam resolvidas por pressão externa.

“Mesmo ele (Flávio) não estando no poder conseguiu ter impacto com o Trump, uma influência com ele. Vejo que quando o Flávio está à frente nas pesquisas é bom para Bolsa, para o dólar, vejo que para as empresas e o investimento estrangeiro seria bom com essa parceria com EUA. Essa parceria do Flávio com o Trump é importante.”

“Por um lado, colocaria o Lula porque ele defende mais as pessoas, mas para as empresas vejo o Flávio.”

“Eu já acho que o Lula porque olha a questão do PIX já a família Bolsonaro apoiara que o Trump invada países e aumente as tarifas só porque não gostam de Lula. Eu já acho que Lula não baixou a cabeça.”

A narrativa mais promissora não é antiamericanismo, mas autonomia pragmática: negociar com altivez com os EUA sem se submeter. Flávio pode ganhar com acesso internacional, mas perde se esse acesso for percebido como dependência de Trump ou risco ao interesse brasileiro. Lula é visto como quem tem defendido os interesses do país, mas preocupa a possibilidade de que deixe a negociação e parta para a briga com Trump.

8

Os medos associados a Lula e Flávio são diferentes. No caso de Lula, aparecem dois receios centrais: impacto negativo sobre empresas, investimentos e empregos; e perda de vigor político, físico ou psicológico para manter programas voltados aos mais pobres. A idade e a hipótese de último mandato alimentam a dúvida sobre continuidade e energia.
No caso de Flávio, os medos concentram-se em elitismo, ausência de equipe técnica, dependência de apoiadores, favorecimento dos ricos, radicalismo, armas e piora da vida das mulheres. O candidato do PL é percebido como pouco rodeado de pessoas técnicas e muito associado a polêmicas, escândalos e lealdades familiares.

“As empresas vão ficar preocupadas, vão segurar um pouco a contratação, porque a esquerda não favorece muito os empresários. Os empresários serão afetados e talvez invistam menos e contratem menos e isso acaba impactando no trabalhador.”

“A minha preocupação Lula ganhando é ele não fazer mais coisas boas para Brasil porque já seriam como seus últimos quatro anos então meio que tanto faz para ele.”

“Eu sinto que ele está cansado, não está tendo o pique de antes, então meu medo é que ele não esteja preparado tão psicologicamente ou fisicamente para lidar com essas questões e a gente não tenha o mesmo padrão de que ele faz.”

“Ah, eu acho que aí os empresários ficarão ganhando, mas para os trabalhadores ficará preocupante.”

“Preocupa-me a equipe de ministros dele, porque não sei se vai querer favorecer pessoas pelos valores e pelo que sabem o quem patrocinou a carreira dele ou ajudou o pai. Porque eu não vejo ele muito próximo de pessoas mais técnicas, com capacidade, com mais conhecimento, pessoas com experiência e com propostas que a gente escute. Talvez essas pessoas não querem atrelar a imagem delas ao Flávio talvez pelos escândalos que tem acontecido, né? Porque eles podem ser afetados negativamente.”

“Eu fico com medo por essa coisa da radicalidade, do extremismo, né? Esses apoiadores meio radicais e para as mulheres acho que pioraria.”

“Eu penso mais em relação aos preços subirem, as coisas se tornarem mais caras, ele não teria tantas políticas voltadas aos trabalhadores, que nem o Lula agora diminuiu a escala.”

Lula precisa demonstrar energia de futuro, ânimo em continuar fazendo mesmo num último mandato e estabilidade econômica. Flávio precisa demonstrar equipe técnica, autonomia em relação ao pai, compromisso com trabalhadores e distância de extremismos.

9

Os participantes veem como compreensível que igrejas se aproximem de Flávio por valores, família tradicional e costumes. Mas a corrupção aparece como limite moral. O caso Dark Horse gerou mal estar e incômodo entre esses eleitores. Se novas informações ou investigações confirmarem práticas desonestas, parte dos entrevistados considera que igrejas deveriam retirar apoio, porque roubo e traição ao povo não combinam com valores cristãos. 

Também há forte cansaço com a mistura entre religião e política. O presidente é visto como alguém que deve governar para todos, independentemente da religião. Entre mulheres, apareceu ainda crítica à instrumentalização religiosa que diminui mulheres, mães solo ou modelos familiares não tradicionais.

“Acho que as igrejas defendem os valores da família tradicional e por isso que elas apoiam o Flávio Bolsonaro, mas se aparecer mais coisas de corrupção, mais delação, as igrejas não deveriam apoiar o Flávio porque roubo Deus não apoiaria, jamais, ainda tirando do povo brasileiro que trabalha diariamente. Seria uma traição ao povo, né?”

“Deveriam tirar o apoio caso saírem mais informações, com certeza.”

“Positivo por questão da fé, mas negativo por questão do idealismo, dos bispos e pastores querem às vezes se beneficiar para a igreja, mas a gente não só vive na igreja, é difícil ir só pelo lado da fé. Os pastores dizem, ah, mas o Lula roubou, sim, mas fez pela gente e o Flávio acho que também roubaria, olha o pai dele preso, mas não se preocupa pela gente.”

“Eu não concordo com essa coisa de religião e política porque presidente é para todos, independente da religião. Eu não gosto dessa coisa de diminuir as mulheres, que a mulher tem que baixar a cabeça, maltratar, violência, que Deus é esse? Eu também sou mãe solteira, e sou família.”

“Eu também discordo de envolver tanto a política com igreja, cada religião tem que ser respeitada.”

A religião não funciona apenas como canal de voto conservador; também pode operar como régua ética. A perda de credibilidade de Flávio na honestidade impacta no apoio religioso, tornando-se mais custoso e até incoerente para lideranças que reivindicam valores cristãos.

10

Na avaliação final, nem Lula nem Flávio geram empolgação ou convicção plena entre os eleitores pendulares, embora o pêndulo, neste momento, se incline na direção do petista. 

Lula tem como vantagem ser percebido como quem faz “pela gente”, com políticas sociais, trabalhistas e experiência. Seus pontos negativos são as falas mal recebidas, a possível perda de vigor e, com ela, o medo de descontinuidade de programas populares. 

Flávio tem como principal ativo o desejo de renovação. Mas seu voto aparece condicionado a três exigências: apresentar um programa popular, distanciar-se do pai e da família, cercar-se de gente técnica e explicar de forma convincente o caso Dark Horse

A terceira via permanece desejada, mas pouco estruturada; Caiado aparece no grupo masculino apenas de forma difusa, associado à segurança pública em Goiás.

“Votaria no Flávio por representar os valores de família tradicional, a segurança pública, as empresas.”

“Eu estou mais inclinado para Lula pela defensa dos trabalhadores e se preocupar pela gente, mas poderia votar no Flávio caso ele viesse a propor alguma coisa positiva para a população.”

“Se o Flávio representar uma proposta muito melhor que a do Lula para o povo brasileiro eu poderia votar no Flávio, mas nesse momento votaria no Lula.”

“Votaria no Lula pelos benefícios que ele implementou, ele está fazendo questões para a gente, a gente está vendo benefícios e também ele pode ter mais capacidade para fazer, para fazer com outros países, acho que Flávio não teria esse cacife hoje não. Ele precisaria apresentar o que vai fazer.”

“Acho que Lula impõe mais respeito fora e dentro, né? Com os trabalhadores e com os países lá fora. O Flávio ainda não sabemos se vai fazer pelo povo. Tá preocupado com as empresas e com a família dele, mas não mostrou nada pra nós.”

“Não votaria no Lula se ele continuasse com essas falas sobre pobre comprando celular roubado eu poderia desistir e se o Flávio saísse da sombra do pai e falasse mais o que pretende fazer. Porque ele só está envolvido em polêmica.”

“Se Lula fizesse alguma coisa negativa em relação às famílias pobres, ou deixasse de fazer programas para o povo, aí eu desistiria. E o Flávio, não sei, precisa ter claro e mais firmeza no que ele propõe.”

“Eu desistiria de votar no Flávio e eu descobrir mais coisas em relação a corrupção ai eu tiraria meu voto e votaria no Lula eu acho.”

“Caiado, Zema são fortes candidatos. Acho que Caiado, né? Porque em Goiás ele melhorou muito a segurança. Vejo que as pessoas que moram lá têm falado bem, que realmente trouxe melhorias louváveis nesse quesito, então por conta disso eu daria uma chance a ele. E aí talvez se o Flávio for afastado a Michelle se tornaria a principal do PL, né? Acho que ela poderia ser candidata, né? Tem bastante apoio das mulheres, poderia favorecer o lado delas.”

O voto pendular permanece aberto. Lula recupera espaço não por entusiasmo, mas por comparação: parece mais preocupado com povo e trabalhadores. Flávio conserva potencial não por confiança plena, mas por desejo de mudança. A disputa pelo eleitor pendular se inclina em direção a Lula neste momento, mas continua aberta e tende a ser altamente sensível à agenda factual até a véspera da eleição.

Triangulação metodológica

Qualitativo, debate digital e pesquisas quantitativas

Esta rodada reforça a leitura do Painel Narrativo Semanal DX como produto de inteligência em três camadas: a escuta qualitativa das tríades etnográficas; o acompanhamento do debate público digital nos relatórios Semanais DX e boletins especiais; e a leitura quantitativa das pesquisas de opinião, especialmente Quaest desta semana, em diálogo com as análises do LABOP/FESPSP.

Fique de olho

Pontos de atenção para as próximas semanas.

pouco explorada comunicacionalmente por Lula, conectando Bolsa Família, Pé-de-Meia, auxílio gás, Desenrola, Farmácia Popular, fim da escala 6×1 e combate à fome a uma narrativa de proteção familiar, sobretudo para mães solo e famílias trabalhadoras.

👉 Cuidar das falas: gafes sobre roubo de celular, pobres ou facções têm alto custo neste eleitorado. A autenticidade de Lula pode ser vantagem, mas sem parecer condescendência com crime ou desrespeito aos trabalhadores pobres.

👉 Mostrar vigor e futuro: a percepção de perda de “pique” aparece como medo real. Seja pela idade ou pela perda de estímulo com um eventual último mandato. É preciso demonstrar energia, equipe, continuidade, sucessão e capacidade de execução.

👉 Falar com pequenos empreendedores: Lula pode disputar prosperidade mostrando crédito, renegociação, consumo, redução de desemprego e produtividade associada à qualidade de vida.

👉 Ocupar segurança sem perder identidade: o governo segue vulnerável se a direita monopolizar PCC/CV e crime organizado. A resposta precisa combinar firmeza, inteligência, proteção das famílias e respeito às comunidades.

👉 Negociar soberania sem antiamericanismo: o eleitor quer boa relação com os EUA, mas não quer submissão. A fórmula é parceria com independência. 

👉 Valores precisam sobreviver à prova da conduta: Flávio pode falar de família e religião, mas Dark Horse abriu uma contradição entre valores pregados (“Não mentirás”, “não roubarás”)  e valores vividos (áudio Vorcaro). Novas revelações podem afetar também seu apoio religioso.

👉 Família tradicional não basta: mães solteiras e famílias populares não se veem plenamente representadas no modelo bolsonarista. Flávio precisa traduzir a família em políticas concretas e inclusivas.

👉 Apresentar programa popular: o desejo de mudança ainda existe, mas o eleitor pede proposta para o povo, trabalhadores e pequenos empreendedores, não apenas para empresários.

👉 Distanciar-se da sombra do pai: Flávio ainda aparece como dependente do pensamento, da família e da estratégia de Jair Bolsonaro. A autonomia é condição para ampliar a confiança.

👉 Equipe técnica e preparo: há desconfiança sobre quem governaria com Flávio. O candidato precisa sinalizar quadros técnicos, experiência e capacidade de governar além da família.

👉 Dark Horse segue pendente: documentos, explicações e ausência de novos fatos são condições mínimas para conter o dano. Se aparecer mais corrupção, o voto pendular pode se deslocar para Lula.

Nota metodológica

Tríades etnográficas e deep stories

Esta rodada foi realizada por meio de dois grupos focais qualitativos no formato de tríades etnográficas. O desenho amostral buscou observar eleitores e eleitoras em situação de indefinição eleitoral, definidos aqui como “pendulares”, com trajetória de voto cruzada entre os campos políticos ao longo dos últimos oito anos. 

As tríades etnográficas são conversas qualitativas em pequenos grupos, conduzidas por moderação especializada. Diferenciam-se de grupos focais tradicionais maiores porque favorecem maior intimidade, maior tempo de fala por participante e maior possibilidade de observar narrativas pessoais, hesitações, contradições e deslocamentos de opinião. 

A análise também se apoia na perspectiva de deep stories, isto é, na reconstrução das narrativas profundas pelas quais os participantes organizam sua experiência política. Uma deep story não é apenas uma opinião sobre candidato ou tema; é uma história moral sobre justiça, merecimento, traição, esforço, família, honestidade, religião, trabalho, soberania, segurança, medo e esperança. 

O método permite observar sentimentos, percepções, raciocínios, afetos, justificativas morais, ambivalências, linguagem espontânea, mudanças sutis de posição e conexões entre escândalos, políticas públicas, economia, segurança, valores e soberania. 

O método não permite afirmar representatividade estatística nem estimar proporções populacionais. As falas citadas expressam percepções situadas dos participantes e não verificação factual dos eventos mencionados.

📌 O que o método permite observar: sentimentos, percepções, raciocínios, afetos, justificativas morais, ambivalências, linguagem espontânea, mudanças sutis de posição e conexões entre escândalos, políticas públicas, segurança e soberania.

📌 O que o método não permite afirmar: não produz representatividade estatística nem estima proporções populacionais. As falas citadas expressam percepções situadas dos participantes e não verificação factual dos eventos mencionados.

📌 Limite desta rodada: há inconsistência no documento-base sobre o critério de segmentação dos grupos por propensão eleitoral. A análise preserva o conteúdo substantivo e não infere além do material disponível.

Síntese estratégica final

A quinta rodada mostra que, depois de um mês de eventos intensos, o eleitor pendular não voltou ao ponto inicial.

A sequência de escândalos, tarifaço, PIX, Trump e debates sobre segurança não produziu uma conversão definitiva, mas sedimentou novas suspeitas e reposicionou valores.

Flávio Bolsonaro continua carregando o ativo da mudança. Parte do eleitorado quer renovação, alternância e alguém diferente de Lula. Mas esse desejo passou a conviver com um custo moral mais alto: Dark Horse/BolsoMaster, dependência do pai, dúvidas sobre honestidade (mente? rouba?), falta de programa popular, elitismo, radicalismo e receio sobre sua equipe. 

Lula, por sua vez, ganhou terreno como candidato mais associado ao povo, aos trabalhadores, aos pobres e às famílias concretas. Seus programas aparecem como proteção material: renda, comida, crédito, escola, trabalho, gás, farmácia, tempo e combate à fome. Mas não há entusiasmo pleno. Pesam as gafes, a idade, a percepção de cansaço, o medo de perda de “pique” e dúvidas sobre sua relação com empresas, segurança pública e futuro. 

A disputa de valores é mais complexa do que uma simples oposição entre conservadorismo e progressismo. Flávio fala mais de valores, mas é cobrado por vivê-los. Lula fala menos de religião, mas é reconhecido por fazer mais pelas famílias pobres. A honestidade está nivelada por baixo, mas a imagem pessoal de Flávio sofreu dano recente. A família tradicional mobiliza, mas não representa mães solo. Segurança favorece a direita, mas extremismo assusta. Prosperidade favorece Flávio entre grandes empresários, mas Lula entre pequenos e trabalhadores. 

O que fica, portanto, é uma eleição ainda aberta e deve seguir assim até o final, ao sabor da agenda factual. Como mostrou a última pesquisa da Quaest, nesta quinta rodada os eleitores pendulares se aproximaram de Lula. O eleitor pendular não está decidido por entusiasmo; está escolhendo entre medos. A lógica da guerra de rejeições ou medos se evidencia. De um lado, teme que Lula esteja cansado, fale demais e perca capacidade de seguir entregando. De outro, teme, ainda mais neste momento, que Flávio esteja comprometido com Vorcaro, governe para os ricos, dependa do pai, se rodeie de radicais e transforme a mudança em risco.

Quem representa meus valores, mas vive de acordo com eles?

Quem fala de família e quem realmente ajuda a minha família?

Quem protege trabalhadores, mães solo, pequenos empreendedores e famílias pobres

Quem combate o crime sem radicalizar ou piorar a vida cotidiana?

Quem negocia com os EUA sem baixar a cabeça?

Flávio é mudança real ou apenas continuação da família Bolsonaro?

Lula ainda tem energia para entregar ou seu tempo já passou?

Quem oferece futuro sem me fazer escolher apenas o menos pior?

Baixe a versão em PDF:

Diretores Participantes:

Direção de Relações Institucionais

Conselheiros Participantes:

Professora da UNIFESP e pesquisadora em Ciências Sociais

Pesquisadores Participantes:

Coordenação de Arte e Comunicação
Utilizamos cookies para analisar e personalizar conteúdos e anúncios em nossa plataforma e em serviços de terceiros.

Operação realizada com sucesso!