Sétima rodada — 29 de junho de 2026
Investigação qualitativa sobre opinião pública, preferências eleitorais e percepção política de eleitores “pendulares”.
Método
Tríades etnográficas
Público
Eleitores Pendulares
Foco
Percepções Eleitorais
INSIGHT CENTRAL
A sétima rodada mostra a enorme precisão do vídeo de Michelle Bolsonaro, pelo menos entre eleitores pendulares, em se conectar com os principais elementos que estavam na origem da recente deterioração da imagem pública de Flávio Bolsonaro. Catalisou e deu contorno familiar, moral e emocional a um problema que já vinha sendo sedimentado desde o caso Dark Horse: a percepção de que o senador é contraditório, hipócrita, pouco firme, permanentemente envolvido em rolos e ainda incapaz de apresentar propostas concretas para melhorar a vida das pessoas.
O episódio reorganiza a disputa dentro do próprio campo bolsonarista: a madrasta, ainda que tenha seu cálculo político reconhecido, aparece como “a adulta na sala” frente ao enteado, com postura serena e presidenciável, enquanto o primogênito de Jair sai menor, mais desgastado e mais vulnerável no contraste com a madrasta. Ao mesmo tempo, o presidente Lula conseguiu, ao menos por enquanto, amortizar o caso Jaques Wagner ao afastá-lo da liderança do governo no Senado e preservar a imagem de que as investigações seguem sem “passada de pano”.
Escopo
Nesta rodada, as atenções se concentraram no impacto pré-eleitoral do vídeo de Michelle Bolsonaro criticando seu enteado Flávio Bolsonaro e da resposta pública do senador. De forma complementar, a rodada também testou a recepção do caso Jaques Wagner, em especial a decisão do presidente Lula de afastá-lo da liderança do governo no Senado. O objetivo foi observar como esses fatos recentes da agenda pública reorganizam percepções sobre caráter, família, coerência, preparo, credibilidade e voto entre eleitores pendulares.
A rodada confirma uma hipótese acumulada nas semanas anteriores: entre esses eleitores, o voto permanece altamente sensível à agenda factual. Cada episódio é lido como teste de biografia moral e: quem diz a verdade, quem se contradiz, quem protege os seus, quem demonstra preocupação e apresenta propostas para o povo e quem parece capaz de governar.
PERÍODO:
28 de junho de 2026
GRUPOS:
2 grupos focais em formato de tríades etnográficas
COMPOSIÇÃO:
Grupo 1: homens | Grupo 2: mulheres
PERFIL:
30-50 anos, ensino médio, renda familiar de 3 a 7 salários-mínimos
REGIÃO:
Preferencialmente eleitores das Regiões Metropolitanas de São Paulo,
Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador (“swing states”)
TRAJETÓRIA ELEITORAL:
Votou em Jair Bolsonaro em 2018; votou em Lula em 2022; está indefinido para 2026.
CRITÉRIO POLÍTICO:
Não rejeita Lula nem Flávio Bolsonaro
MATERIAL TESTADO:
Edição de pouco mais de 5 minutos do vídeo de Michelle Bolsonaro, seguida do vídeo de resposta de Flávio Bolsonaro
Sumário executivo visual
Dez leituras estratégicas para decisão política e comunicação
“Game of Thrones” pelo espólio de Jair
A crise é lida como disputa familiar e sucessória dentro do bolsonarismo, não apenas como desentendimento pessoal.
Michelle ganha estatura política
Antes vista como “pau mandada” de Jair, Michele aproveita o episódio não só para desmoralizar Flávio publicamente como para regenerar sua imagem Passou a ser percebida como serena, firme, preparada e mais crível do que Flávio, ainda que todos reconheçam cálculo eleitoral em seu gesto.
Flávio em seu labirinto
O episódio reforça os rótulos pós-Dark Horse: contraditório, sem firmeza e permanentemente enrolado e sem propostas.
A resposta de Flávio não convence
O vídeo dele soa protocolar, ensaiado, demagogo, orientado por marqueteiro e incapaz de recompor confiança.
Dark Horse virou lente interpretativa
Tudo que acontece com Flávio passa a ser lido à luz da ressignificação de sua biografia, articulando Master, rachadinha e da ausência de explicações plausíveis.
Michelle aumenta mas não inventa. E isso não a invalida.
Os participantes entendem que há estratégia e que sua ação compromete o bolsonarismo, mas avaliam que o cálculo político não anula a veracidade da denúncia.
Lula amortiza Wagner
O afastamento do líder do governo no Senado, acompanhado da ausência de declarações do Presidente elogiosas ao seu velho amigo, são saudados como gestos institucionais e impedem, por hora, que o caso contamine Lula diretamente.
O voto segue relacional
Quanto mais Flávio se desgasta, mais o eleitor se permite ouvir Lula e reavaliar políticas sociais, educação, renda e trabalho.
Flávio está grogue, mas não nocauteado
Apesar do desgaste, o eleitor pendular ainda espera propostas, debates e novos fatos antes de rejeitar definitivamente.
A agenda factual continua mandando
Eleitor pendular continua se mostrando altamente suscetível à agenda factual, podendo alterar a inclinação de seu voto até o último minuto
Mapa de percepções
Como os participantes organizam Lula, Flávio Bolsonaro e zonas de disputa

FRASE SÍNTESE
A sétima rodada confirma que Flávio não perdeu apenas pontos de intenção de voto; perdeu controle sobre a narrativa da própria biografia. O vídeo de Michelle transforma a crise do Banco Master em crise familiar, moral e sucessória. Lula, por sua vez, não entusiasma, mas aparece como opção mais estável enquanto conseguir preservar distância institucional dos escândalos, mantiver comedimento em suas falas públicas (evitando gafes e bravatas) e se concentrar em entregas concretas.
O eleitor pendular segue indeciso, mas sua indecisão já não é neutra: hoje ela pesa contra Flávio e abre uma inclinação frágil, pragmática e contingente em direção a Lula.
Achados qualitativos
Temas, interpretações e aspas selecionadas
A disputa familiar vira disputa sucessória pelo espólio de Jair Bolsonaro
A primeira recepção do vídeo de Michelle foi menos doméstica do que política. Os participantes compreenderam o episódio como uma espécie de “Game of Thrones” bolsonarista: uma disputa pelo lugar simbólico e eleitoral de Jair Bolsonaro. A ausência da figura central abre uma briga por herança, liderança e legitimidade dentro do próprio clã, entre enteados e madrasta. Se há um mês Flávio parecia o “filho moderado” e Michele a “pau mandada” do marido, com Dark Horse primeiro e o vídeo de Michelle depois, o enquadramento mudou: a madrasta aparece agora como a adulta que fala com mais firmeza e serenidade e alcança mais visibilidade; Flávio aparece como o menino mimado que desrespeita, menospreza e vive enrolado tentando escapar de problemas.
“Assisti, vi ela falando que ele não apoiou ela, que ele menosprezou ela pelo tema do Ciro, mas ela disse que tem o apoio do marido…e ouvi que Flávio não ia se pronunciar porque era dia de jogo. Eu assisti o vídeo dele e vi o repórter falando do dele.”
PARTICIPANTE L, GRUPO 1
“Eu também vi sobre essa aliança do Ciro, e ela se sentiu desrespeitada… Assisti o vídeo dela que apareceu no Reels, a vi em várias páginas, Choquei e tal, mas o vídeo dele eu não vi, não apareceu, não vi nas páginas.”
PARTICIPANTE C, GRUPO 1
“Eu assisti o vídeo completo, bem longo, ne? O que mais me chamou a atenção foi essa rachadura na família, que ele maltratou ela, né? Fiquei bem chocada…dele vi só um comunicado, né?
Mas não vi vídeo.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 1
“Eu vi nos grupos de whatsapp o vídeo dela rapidamente, e o tema central foi os ataques que ela teria recebido, mas o assunto realmente é disputa do poder na ausência da figura central que seria o pai. Eu assisti também o dele, mas eu tive bem mais informação sobre o vídeo dela.”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
“Eu vi o vídeo dela também, ela parecia bem magoada, mas se fazendo de vítima, né? Disputa deles. E sobre ele vi uma postagem, mas não vi vídeo dele. Acredito que ela tenha bem mais visibilidade.”
PARTICIPANTE F, GRUPO 2
“Eu assisti os dois vídeos, mas foi bem mais visto o que ela falou. Acredito até que por isso ela seja até melhor candidata do que ele, mas é disputa do poder, na ausência do Jair.”
PARTICIPANTE A, GRUPO 2
“Já vi que ele quer sair do problema comentando que é dia de jogo, né? Mas não acho que essa fala dele é sincera, a família Bolsonaro são assim, né? São machistas, grosseiros. Para mim isso de ter esposa, filhos, não muda. Vai saber como trata esposas e filhos dentro de casa.”
PARTICIPANTE L, GRUPO 1
Leitura estratégica
A crise interna da família Bolsonaro interessa ao eleitor pendular porque torna visível uma pergunta de fundo: se Flávio não consegue ordenar a própria casa política, teria firmeza e equilíbrio para governar o país?
O vídeo reforça Flávio como hipócrita, machista e moralmente contraditório
O efeito mais forte do material de Michelle é reativar e ampliar a percepção negativa construída desde o caso Dark Horse. A palavra “hipocrisia” aparece como eixo de organização moral do episódio. Flávio é visto como alguém que fala de família, valores e respeito, mas age de modo agressivo ou desrespeitoso quando esses valores são testados dentro da própria família. Para as mulheres, a dimensão machista do episódio é particularmente relevante: o desrespeito a Michelle é lido como indício de conduta mais ampla diante das mulheres.
“Soa como machismo o dele, como se uma mulher não tivesse capacidade.”
PARTICIPANTE L, GRUPO 1
“Eu não votaria numa pessoa que maltrata uma mulher, né? Não é uma pessoa para ser presidente.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 1
“A questão do desrespeito, vindo dos homens Bolsonaro, a gente já está acostumado, mas essa aliança com Ciro. Se você diz o tempo todo sobre minha família e bate no peito, depois tem uma aliança com alguém que desrespeita sua mãe? Meio contraditório, né?”
PARTICIPANTE C, GRUPO 1
“Soa muito como uma hipocrisia. Se ele passa por cima dela imagina o que ele não faria com o povo brasileiro.”
PARTICIPANTE L, GRUPO 1
“Caiu um pouco, não sei, um pé atrás? Fico uma ponta muito solta. Seria uma pessoa farsante, uma pessoa que se maquia embaixo de aquela maquiagem tem algo totalmente diferente.”
PARTICIPANTE C, GRUPO 1
“Por causa da política, vale até colocar sua família em jogo? Se faz isso com a família, o que você não faria com nós brasileiros?”
PARTICIPANTE C, GRUPO 1
“O que mais me chocou foi que, em ano de eleição, ela é muito importante para eles, né? Ela é uma pastora, né? Essa rachadura na família até me traz desconfiança, né? É meio hipócrita, né? Eu não vejo perfeição ali.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 1
“Dá para unir as duas coisas e pensar que ele é cômico, né, farsante, que leva o dinheiro acima de tudo, que leva a política acima de tudo, e como dá para confiar numa pessoa dessas, mentiroso, sem escrúpulos.”
PARTICIPANTE L, GRUPO 1
“Aí é o cinismo, né? Quando a pessoa quer chegar no poder vai até às últimas consequências. É dinheiro, é passar por cima da família, falso, cínico.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 1
Leitura estratégica
A crise interna da família Bolsonaro interessa ao eleitor pendular porque torna visível uma pergunta de fundo: se Flávio não consegue ordenar a própria casa política, teria firmeza e equilíbrio para governar o país?
Michelle “aumenta, mas não inventa”:
cálculo político não anula veracidade percebida
Os participantes reconhecem que o vídeo de Michelle é uma peça política. Ninguém o interpreta como gesto puramente espontâneo ou desinteressado. Reconhecem inclusive que pode ter efeitos em seu grupo político e para o país, mas entendem como consubstancial ao período eleitoral. Assim, a avaliação dominante é que a estratégia não invalida o conteúdo. Michelle pode ter exagerado, calculado o momento e buscado capitalizar a crise, mas sua fala é percebida como parcialmente verdadeira, serena e coerente com tensões familiares já imaginadas pelos eleitores.
“Não passa credibilidade, mas ela sim passou credibilidade, passou tranquilidade, como se tivesse consciência e paz com os atos dela.”
PARTICIPANTE L, GRUPO 1
“A fala dela é bem incisiva, ela traz uma verdade, passa firmeza? E la põe a cara a tapa então se ela traz tudo isso à tona, para mim é totalmente, fico sem confiança nele.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 1
“E no vídeo ela parece uma mulher bem segura, bem equilibrada, né? Se mostrou capaz de arcar com qualquer coisa que ela vir, se mostrou equilibrada emocionalmente, forte, ela parece mais equilibrada 1000 vezes do que ele.”
PARTICIPANTE F, GRUPO 2
“Depois do banco Master, acredito que o nome da Michele traz aquele bolsonarismo raiz e pode ser uma forma de resgatar isso.”
PARTICIPANTE A, GRUPO 2
“Algumas frases realmente parecem verdadeiras, principalmente a questão do desrespeito, e ela é presidenta do PL Mulher. Tem um pouco de verdade e um pouco ela criou para parecer um pouco mais vitimada, mas isso que ela fala é bastante ofensivo, né? Chantagem emocional que ele fez com ela, né? Acho que ela pegou uma coisa que era verdade, mas aumentou talvez em favor dela.”
PARTICIPANTE F, GRUPO 2
“A gente sabe que os filhos de Bolsonaro não têm essa relação de respeito com ela e provavelmente ela se aproveitou disso para externalizar a pauta dela e do feminismo, né?”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
“É disputa de poder pelo lugar do Jair, mas tem um pouco de verdade no que ela diz, né? Porque na política ninguém tem santo, né? E dentro dos contextos familiares que a gente sabe, é bem possível ter uma relação assim entre madrasta e enteado e disputa entre todos.”
PARTICIPANTE A, GRUPO 2
“Com certeza ela deve estar testando isso como uma estratégia de mídia para ver quem mais tem mais visibilidade, mas o que ela fala, mesmo sendo estratégia, ela fala verdade, sim.”
PARTICIPANTE F, GRUPO 2
“Eu não sei se o PL tem uma estratégia definida, mas, ela poderia vir em lugar do Flávio. Não me surpreenderia se o PL colocar ela como candidata. Pode ter sido um teste, uma sondagem para ser candidata porque depois do Bando Master o Flávio caiu muito.”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
“O tema do Máster deu abertura para a Michelle, né? A gente viu que o Flávio ficou muito desgastado com a hipocrisia e isso a Michelle está sendo rota alternativa acho que ela teria um desempenho melhor e a entrada dela pode angariar votos perdidos, de repente mulheres mais moderadas, pessoas que não queriam o Flávio por conta do desgaste do Master.”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
Leitura estratégica
A sofisticação do achado está justamente na comparação combinada entre cálculo e credibilidade: Michelle é vista como calculista, mas não necessariamente falsa; Flávio é visto como calculista e falso.
Flávio sai mais desgastado porque tudo passa a ser lido pela lente do Master
O vídeo de Michelle não cai sobre uma página em branco. Ele se soma ao Banco Master, à rachadinha e à percepção acumulada pós-Dark Horse de que Flávio vive envolvido em escândalos, polêmicas e explicações insuficientes. Por isso, o episódio familiar não aparece como fato isolado: ele se conecta a um “contínuo” de rolos e amplia a imagem de um candidato que não consegue sair da defensiva nem apresentar agenda propositiva. Pior, Flávio transparece sem firmeza.
“É, sempre sai por escândalos, a gente nunca ouve nada de bom vindo dele. Então uma pessoa que só tem rolo, só escândalo, eu não tenho confiança, não me passa credibilidade.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 1
“Sempre envolvimento em polêmica, né? Não sabem se impor por outra coisa, é complicado você dar seu voto para uma pessoa assim. O que ganha meu voto são propostas, é postura, a pessoa já começou a candidatura desse jeito? Só vai para baixo… é só podre. E não está sendo fake News, né? Quanto mais mexe mais descobre.”
PARTICIPANTE C, GRUPO 1
“O Flávio com essas polêmicas envolvendo o nome dele, parece aquele político que fala que vai resolver, mas está sempre envolvido em escândalo, em esquema, aquele escândalo da rachadinha, do Máster…Acho que hipócrita pode definir bem.”
PARTICIPANTE A, GRUPO 2
“Primeiro o Máster, depois a Michelle, isso vai desgastando bastante e vai perdendo credibilidade. Ele é envolvido em tanta coisa.”
PARTICIPANTE F, GRUPO 2
“A imagem dele já está muito desgastada depois do Máster a também com os escândalos passados, a rachadinha lá atrás, né? A imagem que passa para mim é hipocrisia, ele mesmo contradiz as informações o tempo todo.”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
“Juntando o episódio do Banco Master com as coisas da Michele acho que ele não vai precisar chegar nem ao debate para ele se dar mal porque o histórico dele, nossa, está se enrolando todo. A imagem dele é totalmente fake, né? A pessoa que faz tudo por causa do dinheiro e da política.”
PARTICIPANTE C, GRUPO 1
Leitura estratégica
Dark Horse virou lente interpretativa e ressignificou a biografia de Flávio. Depois dele, cada novo episódio tende a confirmar a biografia negativa, mesmo quando o fato pertence a outra dimensão da vida pública ou familiar.
A resposta de Flávio piora o contraste: Michelle soa vivida; ele, ensaiado
Quando expostos ao vídeo de resposta de Flávio, o senador não conseguiu soar verdadeiro nem transmitir empatia. Os participantes reagiram de forma unanimemente negativa. O material é descrito como formalidade, peça de marketing, tentativa de “colocar panos quentes” e encenação orientada por campanha. O discurso pró-família, em vez de recompor a imagem do senador, soou demagógico e oportunista. O contraste é decisivo: o vídeo de Michelle é percebido como preparado, mas ela transmite verdade; o vídeo de Flávio, além de preparado, soa artificial.
“Não passou firmeza, não. Foi mais aquela ação de colocar panos quentes. Foi mera formalidade. Alguém chegou, instruiu, faz o vídeo, encerra o caminho e vida que segue. Parece que a pessoa que coordena a campanha está querendo pisar em ovos, apaziguar, mas nesse caso não está passando firmeza, confiança.”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
“Não passou nem um pouco de confiança. Parece que ele foi obrigado a falar, meio que se justificar, a pessoa que coordena a campanha mandou gravar o vídeo porque ele já estava queimado, mas não passou verdade. Ele parecia um ator atuando.”
PARTICIPANTE F, GRUPO 2
“Concordo, era simplesmente uma forma de tentar minimizar porque a imagem dele já está muito desgastada.”
PARTICIPANTE A, GRUPO 2
“Já vi que ele quer sair do problema comentando que é dia de jogo, né? Mas não acho que a fala dele é sincera, a família Bolsonaro são assim né? São machistas, grosseiros na fala, para mim isso de ter esposa, filhos, não muda. Vai saber como trata esposas e filhos dentro de casa.”
PARTICIPANTE L, GRUPO 1
“Não cola, deve tratar a mulher dele bem pior, ele é assim, né? Ele tem posturas problemáticas.”
PARTICIPANTE C, GRUPO 1
“Para mim isso de ter mulher não significa nada, parece homem que bate na mulher e diz que ama ela.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 1
Leitura estratégica
A resposta de Flávio não encerra a crise; ela a confirma. O vídeo reforça a dificuldade do senador em transmitir firmeza, verdade e serenidade, três atributos que o eleitor pendular vem demandando desde as rodadas anteriores.
Em ano eleitoral, nada é inocente — mas isso beneficia mais Michelle do que Flávio
Ao serem provocados sobre a dimensão eleitoral do episódio, os participantes reconheceram cálculo político em todos os movimentos. A rodada mostra, no entanto, que o eleitor pendular é capaz de distinguir cálculo de mentira. Michelle é vista como alguém que usa um fato real para se posicionar politicamente; Flávio é visto como alguém que usa a comunicação para disfarçar, minimizar ou escapar.
“Acho que ela fez o vídeo porque talvez queria vir a se candidatar, pode ser que queira mesmo destruir tanto Flavio como filho, pode ser marketing, não sei, mas me passa verdade porque ela tem uma fala forte, não está nervosa, está tranquila, ela sabe falar.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 1
“Se eles quisessem que o poder ficasse com a família ela não iria publico expor um podre dele. Se ela espalhou acredito que ela tem interesse político, que ela venha com uma candidatura, ela é forte. Acho que ela falou a verdade, mas tem interesse político. A jogada política não invalida o que fala sobre Flávio.”
PARTICIPANTE C, GRUPO 1
“Foi uma jogada, mas ela transmite confiança, sim. Ano de eleição é tudo político, mas o que ela disse é válido.”
PARTICIPANTE L, GRUPO 1
Leitura estratégica
O eleitor pendular não é ingênuo: ele sabe que há estratégia. O ponto decisivo é se a estratégia parece revelar uma verdade ou ocultar um problema.
“Ganha Michelle, perde Flávio”: o saldo interno é percebido como assimétrico
Quando estimulados a avaliar quem ganha e quem perde no episódio, os participantes foram unânimes: Michelle ganha, Flávio perde. A assimetria se explica por quatro fatores: maior alcance do vídeo dela; associação automática de Flávio ao caso Master; biografia relativamente limpa de Michelle diante de uma biografia já marcada de Flávio; e contraste entre a coerência percebida dela e a contradição atribuída a ele.
“Ele perde e ela ganha ainda mais nesse caso que ele pediu o dinheiro para o banqueiro, junta tudo contra ele e ele fica com credibilidade baixa então ela fica acima, viu?”
PARTICIPANTE L, GRUPO 1
“Acho que pelo histórico dele ela ganha. Ela não tem histórico de escândalo, ela é envolvida com pastorado, com libras, tem mais bônus do que ônus, ele já tem coisa de antes, a rachadinha, o Master agora então que tem problema é ele.”
PARTICIPANTE C, GRUPO 1
“Concordo, mas a gente vive num país machista e eu vi muitas pessoas apoiando o Flávio e o bolsonarismo é muito fanático, né? Para mim ele ganha, mas pensando nos bolsonaristas ele ganha porque ela é madrasta, uma intrusa para eles, né?”
PARTICIPANTE G, GRUPO 1
“Michelle ganha, sim, ganha visibilidade com o bolsonarismo, como ela produziu o vídeo, certamente teve o aval do Jair, não foi algo feito de forma com raiva, foi pensado de forma estratégica, para exaltar o nome dela e o Flávio acaba saindo menor, né?”
PARTICIPANTE A, GRUPO 2
“Com certeza Michelle teve mais visibilidade, ela criou mais braço forte com o vídeo, tanto o número de pessoas que assistiu o vídeo, ela se colocou como candidata, né? Imagina se o partido chegar a lançar ela como candidata. A forma dela de intervir é boa. Agora, eu não sei se teve aval do Jair, não, não sei.”
PARTICIPANTE F, GRUPO 2
“Com certeza Michelle teve mais visibilidade, ela criou mais braço forte com o vídeo, tanto o número de pessoas que assistiu o vídeo, ela se colocou como candidata, né? Imagina se o partido chegar a lançar ela como candidata. A forma dela de intervir é boa. Agora, eu não sei se teve aval do Jair, não, não sei.”
PARTICIPANTE F, GRUPO 2
“Fortaleceu muito a Michele e desgastou ainda mais a imagem do Flávio. Mas eu acho que não foi uma ação independente dela. Não, ela teve orientação de alguém, pode ter sido o Jair, pode ter sido o alto escalão do PL, mas creio que esse fato serviu para fincar o nome dela, ela era a esposa do Jair e agora pode ser possível candidata, agora ou uma eleição futura.”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
Leitura estratégica
A crise abre uma rota alternativa dentro do bolsonarismo. Michelle passa a ser imaginada como possível substituta ou como nome com densidade própria, enquanto Flávio fica mais dependente do sobrenome e menos capaz de sustentá-lo sozinho.
Michelle é ressignificada: de “pau mandado” a possível candidata
Uma das mudanças mais relevantes da rodada é a ressignificação positiva da biografia política de Michelle. Nas rodadas anteriores, ela podia aparecer como extensão de Jair Bolsonaro ou figura subordinada ao clã. Agora, passa a ser lida como alguém com voz, postura, serenidade e potencial de candidatura. A ausência de escândalos conhecidos opera como ativo comparativo decisivo diante do histórico de Flávio.
“Eu votaria a depender das propostas, poderia votar. A questão do caráter, ela me transmite melhor do que Flavio. Num primeiro momento ela não traz manchas, até agora, e Flávio já traz várias manchas grandes, né? Ela tem essa grande vantagem.”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
“Michelle esteve mais fora da política, né? Ela era bem reservada. Então isso pode ser uma coisa boa. Dependendo das propostas eu votaria, sim.”
PARTICIPANTE 2, GRUPO 2
“Ela não esteve tantos nos holofotes, né? Então não tem nada de sujo. A princípio não votaria nela, mas vejo ela que a imagem dela não está manchada.”
PARTICIPANTE A, GRUPO 1
“Eu votaria nela, sim, é pastora, vejo nela verdade, representa as mulheres e também não tem escândalo, né? Pelo menos a gente não sabe de nada e acredito que não tenha, é uma mulher que prega pela família, o PL mulher, já o Flávio está muito desgastado.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 1
Leitura estratégica
Se Dark Horse ressignificou a biografia de Flávio para baixo, o vídeo ressignifica a biografia de Michelle para cima. A disputa interna do bolsonarismo deixa de ser apenas sucessória e passa a ser também biográfica.
Lula amortiza Jaques Wagner com afastamento, discrição e coerência institucional
A maioria dos participantes tinha pouco conhecimento sobre o afastamento de Jaques Wagner da liderança do governo no Senado. Quando informados ou estimulados a comentar o episódio, reagiram positivamente à decisão de Lula. A leitura dominante é que o presidente fez o que deveria fazer: afastou, não defendeu publicamente, não passou pano e permitiu que as investigações sigam. A atitude é lida como coerente com a narrativa de autonomia das instituições externada anteriormente pelo presidente. Que Lula não tenha se pronunciado publicamente em defesa ou solidariedade de alguém entendido como um velho amigo, também foi visto como conduta adequada de um chefe de Estado.
“Eu escutei alguma coisa no JN, alguma coisa com alguém no PT, né? …Se realmente isso aconteceu, e ele foi afastado, foi a atitude que o presidente teria que ter, era a atitude que nós esperávamos, Seria muito pior que ele colocasse panos quentes para o amigo.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 1
“Acho que é a postura que se espera do presidente, né? Deixar os interesses do lado. Afastar e deixar que a polícia faça o trabalho deles, pelos menos aparentemente a postura foi correta.”
PARTICIPANTE C, GRUPO 1
“Concordo que a postura foi positiva, deixar que a lei investigue.”
PARTICIPANTE L, GRUPO 1
“Acho que Lula manteve o discurso e afastou a pessoa. Achei que foi mais positivo porque não houve passada de pano. Não ouvi declaração de Lula insinuando inocência dele. Afastou e pronto.”
PARTICIPANTE A, GRUPO 2
“Acho que foi a atitude de um líder, fez o que era certo. Ele tinha que se afastar, colocar ele a par da justiça e acredito que fez um bom papel com isso.”
PARTICIPANTE F, GRUPO 2
“Acho que essa atitude foi positiva. A atitude mais correta é afastar a pessoa para que seja investigada.”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
Leitura estratégica
O caso Wagner não desaparece, mas fica amortizado. A condição para que não vire bola de ferro é Lula manter a linha: firmeza institucional, distância pública, nenhuma defesa antecipada e investigação até o fim.
A inclinação pró-Lula cresce, mas segue frágil, pragmática e sem entusiasmo
Ao final da rodada, todos permanecem indecisos no primeiro impulso, embora explicitem inclinação, sem empolgação e pragmaticamente, em direção a Lula. A motivação não é paixão, mas comparação: Lula, ao menos, aparece associado a algumas entregas sociais e a algum senso de estabilidade; Flávio aparece associado a desgaste, ausência de propostas, Trump, escândalos e falta de firmeza. A inclinação é real, mas frágil e contingente.
“Estou indecisa ainda, mas vai saber, né? Se não aparecer nada de errado na parte dela, né? Tudo pode mudar. Não descarto nada ainda. Não gostei de saber tanto do banco como do jeito que tratou ela, mas ainda não vou dizer que jamais votarei nele, mas ele está um ponto a menos comigo…hoje eu votaria no Lula porque no Lula não apareceu escândalo, né? Não vê ele maltratando as mulheres, né?“
PARTICIPANTE L, GRUPO 1
“Pensei sim em votar nele no começo por conta da segurança especialmente, isso me preocupa muito, mas hoje estou bem, estou mais para não, porém não diria totalmente não que votaria nele. Acho que se fosse hoje estou mais para o lado de Lula porque já tem uma nevoa de coisas negativas, então deixa o que está lá e também tem algumas coisas positivas dele, como a educação, vejo isso pelos meus filhos, agora a saúde caiu, ele viaja demais, isso não gosto.”
PARTICIPANTE C, GRUPO 1
“Eu estou indecisa, né? Eu quero ver debate, que eu gosto para tomar uma decisão, teria que ver propostas, mas o Flávio ainda é o último, mas não digo que não votaria. Mas hoje votaria no Lula porque ele fez bastante coisa, né? A educação, o pé de meia, eu tenho uma adolescente e é muito bom, né? Tem o FIES…”
PARTICIPANTE G, GRUPO 1
“Pensei em votar nele no começo, sim, fica tudo muito solto, a gente não está tendo debate, propostas. Eu não vou dizer que eu não votaria de jeito nenhum porque tem muita coisa para acontecer, mas hoje digamos que tenho muito menos carinho hoje do que em outro momento. Hoje votaria no Lula por conta do desgaste do Flávio. Embora a gente não possa apagar tudo o que acontece no campo da esquerda de negativo, mas não tem nada concreto contra o Lula. E o governo dele também tem pontos positivos, a economia das pessoas poderia estar melhor, entretanto voltou a crescer, a questão da distribuição de renda, não concordo com o assistencialismo totalmente, mas reduz a desigualdade.”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
“Eu não vi nenhuma proposta do Flávio, mas também não rejeito totalmente, mas atualmente, pela longa trajetória de propostas eu diria que no Lula. Eu vejo mais o Lula a favor das pessoas, Flávio é fanático do Trump, mas não vejo ele tão preocupado com o voto brasileiro.”
PARTICIPANTE F, GRUPO 2
“Também acho que votaria no Lula porque a gente vê reflexo de ações, algumas melhorias, aumento de salário-mínimo, fim da escala 6×1, pautas que trazem benefícios para o povo brasileiro.”
PARTICIPANTE A, GRUPO 2
Leitura estratégica
A sétima rodada reforça a tese do voto relacional: Flávio tem sido, indiretamente, um dos maiores promotores das políticas de Lula entre pendulares. Quanto mais ele se desgasta, mais o eleitor procura razões para se convencer a aceitar a continuidade.
Para ter nova chance, Flávio precisa recuperar firmeza, verdade e propostas
Quando perguntados sobre o que poderia reabrir uma oportunidade para Flávio, os participantes foram claros: ele precisaria parar de se envolver em polêmicas, demonstrar firmeza, coerência, serenidade e verdade, além de apresentar propostas concretas para a maioria da população. O contraste com Jair Bolsonaro segue ambivalente: o pai era bruto, mas autêntico; Flávio se aproxima da brutalidade, mas se distancia da autenticidade.
“Eu desconfio que ele consiga ter uma postura séria, né? você já veio um tom irónico, não sei se ele vai ser capaz de mostrar outra postura.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 1
“Se ele tiver uma assessoria muito boa, ele vai ver que a batata dele está assando então acredito que ele possa a vir a mudar um pouco, mas não sei, será maquiagem, né? Ele já tem mostrado o que ele é? Se ele vir com postura diferente será para ludibriar, uma manipulação.”
PARTICIPANTE C, GRUPO 1
“Acho que talvez ele vai ter mais postura do que proposta, acho que ele apreendeu com os erros de postura do Jair, um tom mais moderado. Mas é uma jogada, sim, porque o Jair pelo menos era autêntico, melhor alguém mais desaforado mas autêntico do que uma encenação. Acho o Flávio muito encenação. Ele deveria estar trabalhando com propostas.”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
“Ele tem que parar de se meter em confusão. Ainda não é capaz de ter uma postura de presidenciável nem apresentar o que pode fazer pela povo.”
PARTICIPANTE A, GRUPO 2
Leitura estratégica
O problema de Flávio não se resolve apenas com reposicionamento comunicacional. Se a mudança parecer maquiagem, ela pode reforçar a imagem de encenação.
As linhas vermelhas contra Flávio: novos escândalos,
Trump e aprofundamento do Master
Os participantes não fecham completamente a porta para Flávio, mas indicam gatilhos que poderiam consolidar rejeição: novos escândalos, brigas familiares, piora no caso Master, ausência de propostas, radicalização em debates e subserviência a Trump ou aos Estados Unidos. A soberania volta a aparecer como linguagem concreta quando associada a tarifa, dependência externa e capacidade de defender o Brasil.
“Aparecer mais escândalos, né? Esse tipo que já apareceu. E também um comportamento dele polêmico nos debates, sem propostas. Se realmente é um comportamento que procede. Gostaria de ver os planos dele e não gostaria de ver quebração de pão, brigalhada, né?”
PARTICIPANTE L, GRUPO 1
“Se na campanha ele vier com alguma coisa de aliança com Trump, eu não admito, nós somos um país soberano, né? E não pode vir ninguém mandar na gente e , claro, outros escândalos a mais.”
PARTICIPANTE C, GRUPO 1
“Mais escândalos, né? E eu também quero ver o comportamento dele agora, e as propostas.”
PARTICIPANTE G, GRUPO 1
“Se ele tiver uma postura mais extrema e se aproximar muito do Trump, taxação, né? A família Bolsonaro traz muitos problemas com ela e eles vão prejudicar o povo.”
PARTICIPANTE A, GRUPO 2
“Ah, ele continuar se curvando aos EUA. A gente não depende deles para viver. Somos um pais soberano, né? A gente mora aqui, não nos EUA. Quem não o irmão dele, eu rejeito ele totalmente porque parece que para ele a gente é totalmente dependente dos EUA, sempre se rebaixando.”
PARTICIPANTE F, GRUPO 2
“Para mim o avanço das investigações, se confirmar ainda interações maiores do Flávio com o caso Master.”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
Leitura estratégica
Flávio está grogue, mas não nocauteado. Sua sobrevivência depende menos de atacar Lula e mais de evitar novos fatos que confirmem a biografia negativa já instalada.
Triangulação metodológica
Qualitativo, debate digital e pesquisas quantitativas
Esta rodada reforça a leitura do Painel Narrativo Semanal DX como produto de inteligência em três camadas: a escuta qualitativa das tríades etnográficas; o acompanhamento do debate público digital nos relatórios semanais e boletins especiais do Instituto DX; e a leitura quantitativa das pesquisas de opinião, em diálogo com as análises do LABOP/FESPSP.

FRASE SÍNTESE
A sexta rodada sugere que a campanha entra em uma fase de prova moral e institucional.
Dark Horse reorganizou a imagem de Flávio como candidato contraditório, pouco transparente e sem proposta clara.
Jaques Wagner reorganiza a cobrança sobre Lula: não basta dizer que as instituições são autônomas; é preciso agir de modo compatível com essa autonomia.
A disputa deixa de ser apenas sobre quem está envolvido no Banco Master e passa a ser sobre quem esclarece, quem pune, quem apresenta documentos e quem tenta transformar crise em credibilidade.
Integração analítica
A sétima rodada aprofunda a linha de interpretação construída desde o caso Dark Horse. O problema de Flávio deixou de ser apenas uma acusação específica e passou a funcionar como matriz de leitura de sua biografia. Rachadinha, Master, versões contraditórias, ausência de documentos, ausência de propostas, conflito com Michelle e resposta protocolar passam a compor uma narrativa de continuidade: alguém que fala de valores, mas se contradiz; fala de família, mas briga com a família; fala de renovação, mas aparece preso aos vícios da velha política; fala de povo, mas não apresenta propostas concretas.
O episódio também mostra que o campo bolsonarista não é percebido como bloco plenamente ordenado. A disputa pelo lugar de Jair Bolsonaro aparece como guerra de sucessão, e Michelle emerge como figura capaz de organizar uma alternativa simbólica: mais limpa, mais serena, mais feminina, mais religiosa e menos contaminada por escândalos. Isso não significa adesão automática, mas indica que, para o eleitor pendular, a hipótese Michelle se tornou plausível.
Do lado de Lula, a rodada registra um alívio tático. O caso Jaques Wagner não foi apagado pelo vídeo de Michelle, mas foi administrado com um gesto que os participantes reconhecem como correto: afastar, não defender e deixar investigar. A vantagem de Lula, portanto, segue menos baseada em entusiasmo e mais em estabilidade, mais palácio e menos palanque, entregas sociais e comparação com o caos adversário. O risco permanece: qualquer sinal de proteção a aliados pode e corroer a inclinação frágil hoje observada e empurrar eleitores pendulares para Flávio por representar a renovação: ruim por ruim, troque-se.
Fique de olho
Pontos de atenção para as próximas semanas.
👉 A possível consolidação de Michelle como rota alternativa no bolsonarismo ainda para 2026.
👉 A capacidade de Flávio de sair da agenda defensiva e apresentar propostas concretas antes que sua imagem se fixe definitivamente como “enrolado”.
👉 A manutenção, por Lula, de uma postura institucional no caso Wagner: afastamento, silêncio prudente, apoio à investigação e ausência de defesa corporativa.
👉 A centralidade crescente de temas de soberania quando conectados a Trump, tarifas e subordinação externa.
👉 A força do pacote de políticas públicas como justificativa pragmática para o voto em Lula, especialmente educação, renda, salário-mínimo e escala 6×1.
👉 A reação de mulheres pendulares ao eixo família, machismo e respeito, que pode se tornar uma vulnerabilidade relevante para Flávio.
👉 A agenda factual como principal variável de volatilidade: novos escândalos, debates, vídeos, investigações ou movimentos de Trump podem alterar rapidamente a inclinação desse eleitorado.
CONCLUSÃO
A sétima rodada indica que o eleitor pendular continua longe de uma decisão definitiva, mas não está no mesmo lugar de semanas atrás.
O desejo de mudança segue existindo, porém está moralmente encarecido. Flávio ainda representa alternância e possibilidade de troca, mas carrega uma biografia cada vez mais pesada que leva a que seja visto como uma “mudança sem segurança”: Master, contradição, família em guerra, ausência de propostas e risco de subordinação a Trump. Lula não desperta paixão, mas aparece como continuidade mais administrável, sobretudo quando age institucionalmente, não comete gafes nem faz bravatas e suas políticas públicas voltam a ser percebidas como proteção concreta.
O achado central é que a disputa já não se organiza apenas em torno de ideologias e identidades. Ela se organiza também em torno de biografias morais em teste permanente. Michelle fez sangrar a ferida que o Dark Horse já havia aberto: a dificuldade de Flávio de convencer esse eleitor de que sua mudança é segura, ordeira, verdadeira e orientada ao povo. Lula, por sua vez, ganha enquanto conseguir parecer menos envolvido, mais institucional e mais concreto. A vantagem, porém, permanece frágil e contingente: neste eleitorado, quem manda é a agenda factual, que tende a ser volátil até o dia das eleições.
Expediente
Painel Narrativo Semanal: Percepções Qualitativas e Estratégicas
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Como citar este documento
VASQUES, Beto; SOLANO, Esther. Instituto Democracia em Xeque (DX). Painel Narrativo Semanal: Percepções Qualitativas e Estratégicas DX, 22 jun. 2026. Período de campo: 22 de junho de 2026. Disponível em: <https://institutodx.org/semanaldx/painel/22062026/>.
Equipe do relatório
Beto Vasques
Diretor de Relações Institucionais do Instituto DX
Esther Solano
Professora da UNIFESP, pesquisadora em Ciências Sociais e conselheira do Instituto DX
Projeto gráfico: Moara Juliana e Júlia Cristofi
