Painel Narrativo Semanal

Oitava rodada

Investigação qualitativa sobre opinião pública, preferências eleitorais e percepção política de eleitores “pendulares”.

Método
Tríades etnográficas

Público
Eleitores Pendulares

Foco
Percepções Eleitorais

A oitava rodada confirma que o eleitor pendular permanece com dúvidas, mas sua indecisão não se distribui de maneira neutra. Neste momento, ela continua se inclinando, como nas últimas semanas, ainda de forma frágil e relacional, em direção a Lula. Isso devido, menos por entusiasmo com o presidente e mais pelo acúmulo de ruídos produzidos pela candidatura de Flávio Bolsonaro: escândalos, contradições, ausência de propostas, submissão a Trump, polêmicas familiares e dificuldade de reagir com firmeza a falas machistas de aliados.

A carta a Trump aprofunda uma vulnerabilidade que já vinha sendo observada desde as rodadas anteriores: o eleitor pendular aceita a necessidade de boa relação com os Estados Unidos, mas reage mal quando percebe que a Família Bolsonaro coloca seus interesses eleitorais acima dos interesses nacionais. O pedido de congelamento das tarifas até depois da eleição, a menção ao Pix e as críticas ao Mercosul reforçam a sensação de cálculo, oportunismo e entrega de soberania.

Lula, por sua vez, tem seu ganho condicionado. Volta a se beneficiar do contraste: é lembrado por programas sociais e por uma posição vista como mais favorável ao Brasil na disputa com os Estados Unidos, embora sua animosidade com o governo dos norte-americano seja criticada. A independência para que a PF investigue e o afastamento de Jaques Wagner da liderança do senado são elogiadas, mas seus gestos de proximidade com o senador baiano reabrem dúvidas sobre eventual proteção a aliados. Também criticam as falas dissonantes do presidente, com gafes e bravatas. Assim, Lula avança porque Flávio se desgasta, mas não consolida essa adesão.

Escopo

Nesta rodada, as atenções se concentraram em dois eixos da agenda factual recente. O primeiro foi o impacto da carta de Flávio Bolsonaro ao governo norte-americano, especialmente nos trechos referentes ao pedido de congelamento das tarifas por 180 dias, às menções ao Pix e às críticas ao Mercosul. O segundo foi a sedimentação da disputa aberta no interior do bolsonarismo entre Flávio e Michelle Bolsonaro, incluindo a percepção sobre a fala de Paulo Figueiredo contra o voto feminino, a reação de Flávio ao aliado e a réplica posterior de Figueiredo.

A rodada também retomou o caso Jaques Wagner, agora à luz do encontro público entre Lula e o senador em Salvador, buscando compreender se o afastamento da liderança do governo no Senado continuava amortizando o dano ou se gestos de proximidade do presidente voltavam a alimentar dúvidas entre eleitores pendulares.

O objetivo foi observar como esses fatos reorganizam percepções sobre soberania, patriotismo, vínculo com os Estados Unidos, machismo, família, coerência, postura presidenciável, propostas concretas e voto entre eleitores que continuam sem decisão consolidada para 2026.

PERÍODO:
04 de julho de 2026

GRUPOS:
2 grupos focais em formato de tríades etnográficas

COMPOSIÇÃO:
Grupo 1: homens | Grupo 2: mulheres

PERFIL:
30-50 anos, ensino médio, renda familiar de 3 a 7 salários-mínimos

REGIÃO:
Preferencialmente eleitores das Regiões Metropolitanas de São Paulo,
Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador (“swing states”) 

TRAJETÓRIA ELEITORAL:
Votou em Jair Bolsonaro em 2018; votou em Lula em 2022; está indefinido para 2026.

CRITÉRIO POLÍTICO:
Não rejeita Lula nem Flávio Bolsonaro

MATERIAL TESTADO:
Fragmentos traduzidos da carta de Flávio Bolsonaro ao governo norte-americano;
resposta de Lula; atualização do caso Jaques Wagner; vídeos de Paulo Figueiredo,
Flávio Bolsonaro e réplica de Figueiredo.

Sumário executivo visual

Onze leituras estratégicas para decisão política e comunicação

1

O pedido de congelamento das tarifas por 180 dias é interpretado como cálculo eleitoral: não impedir o dano ao Brasil, mas adiá-lo para depois da eleição.

2

A defesa de interesses de cartões norte-americanos frente ao Pix por parte de Flávio é lida como tentativa de favorecer empresas estrangeiras contra uma inovação percebida como brasileira.

3

Os participantes não querem ruptura com os Estados Unidos, mas defendem relações com Europa, China, Mercosul e múltiplos mercados. Por isso, desprezo de Flávio com Mercosul, ainda mais num contexto de acordo com União Europeia, é visto como mais um equívoco de sua parte.

4

O senador perde autonomia simbólica e passa a ser confundido com o clã (Eduardo, Jair, Carlos, Michelle) e suas polêmicas.

5

Pela terceira semana seguida, a agenda do senador é organizada por polêmicas, explicações insuficientes e suspeita de que sempre há algo sendo escondido.

6

O eleitor pendular diferencia a relação pragmática com os EUA de submissão aos interesses norte-americanos.

7

Lula é percebido como correto ao defender o Brasil, mas parte dos participantes também identifica cálculo eleitoral e cansaço com a guerra permanente de narrativas. Também criticam as falas “antiamericanistas” do presidente.

8

O afastamento segue bem avaliado; o abraço e o “irmão” reabrem ruído moral e suspeita de proteção.

9

A fala contra o voto feminino é vista como retrógrada; a reação tardia e protocolar de Flávio sugere concordância tácita ou incapacidade de ação.

10

Ao final, todos tendem a Lula “hoje”, mas permanecem altamente sensíveis à agenda factual.

11

Mesmo desconcertados, não descartam Flávio. Esperam que o senador dê explicações convincentes aos problemas, modere nas formas e se porte como um estadista e apresente propostas concretas para a população.

Mapa de percepções

Como os participantes organizam Lula, Flávio Bolsonaro e zonas de disputa

Achados qualitativos

Temas, interpretações e aspas selecionadas

1

Como nas rodadas anteriores, os participantes tendem a separar dois planos. De um lado, entendem que Trump já tinha restrições ao governo Lula e que as tarifas podem responder a uma lógica própria dos Estados Unidos. De outro, identificam a Família Bolsonaro como um grupo que tenta se beneficiar eleitoralmente da crise, aproximando-se de forma excessiva e dócil de Trump, mesmo quando isso compromete os interesses nacionais.

O ponto novo é que Flávio aparece cada vez menos como indivíduo autônomo e cada vez mais como parte indistinta da Família Bolsonaro. A categoria “Família Bolsonaro” passa a organizar a leitura do episódio, articulando Flávio, Eduardo, Jair, Michelle, Paulo Figueiredo e a relação com a Casa Branca.

“Acho que a Família Bolsonaro influiu um pouco. Mas o Trump tinha restrições com o governo Lula e o Trump gosta mais da direita. Foi um conjunto de fatores, né?  E ai o Flávio se beneficiou, né?”

“Acho que Trump quer ter poder sobre tudo, né? Quer manter tudo no poder e o Flávio com certeza se beneficia porque joga a favor dele, claro que isso me preocupa muito, com certeza, o que pode vir a acontecer aqui no Brasil, ele quer que os americanos se beneficiem da gente.”

“O Flávio se beneficia de tudo isso para posar de salvador da pátria.  E tem o irmão dele também nisso aí. Acho que o Trump já queria fazer isso porque ele só busca beneficiar o país dele, mas que a família Bolsonaro se beneficia porque eles foram sempre muito próximos do Trump, mas também meio demais, né? O Brasil é um país grande, soberano, não precisa disso, mas também não ser inimigos, claro”

A disputa sobre tarifas deixa de ser apenas uma controvérsia econômica e passa a funcionar como teste de soberania e lealdade nacional: quem está defendendo o Brasil e quem está instrumentalizando Trump para ganhar a eleição?

2

A carta é recebida de forma predominantemente negativa. O pedido de congelamento das tarifas por 180 dias, até depois das eleições, é interpretado como confissão involuntária: Flávio não estaria preocupado em impedir o prejuízo ao Brasil, mas em adiar seus efeitos para não pagar custo eleitoral antes da votação.

O gesto reforça a percepção de hipocrisia. Ao mesmo tempo em que se apresenta como patriota, Flávio aparece disposto a negociar com Trump uma medida prejudicial ao país, desde que isso o ajude a se colocar como “salvador da pátria” e a enquadrar Lula como vilão. Ainda assim, alguns participantes também cobram de Lula e do PT cuidado para não transformar a relação com os Estados Unidos em briga desnecessária.

“Ficou evidente que Flávio também teria solicitado o tarifaço e o Lula vai usar contra ele como arma. Essa carta é uma confissão, um tiro no pé. Como eu vou pedir para não dar o tarifaço agora e dar depois caso Lula venha ganhar? É uma confissão, tem que ser explicado isso. A gente fica pensando, né? A gente fica na dúvida. No meio dessa confusão ainda isso…a gente fica meio perdido.”

“Mas também o PT teria que se esforçar para ter melhor relacionamento com Trump, a gente não pode votar a culpa só num.”

“Acho que ele quis pedir o tarifaço para prejudicar o PT e o país em consequência e aí vendo que isso caiu mal para ele escreveu essa carta, ele viu que deu errado. Se Flávio ganhar e cair o tarifaço pode ser que resolva, mas hoje é muito prejudicial. E ele está preocupado por ganhar votos, por se colocar como salvador da pátria, se passar de bom mocinho, tipo sou patriota e a gente fica com pé atrás, né? Será que ele só quer mesmo o bem dele e da família ou vai querer o bem de Brasil? É uma briga de poder.”

“Se ele ganhar tem o argumento de falar que ele tentou. É algo favorável a ele. Trump e Flávio já tem uma ligação, então ele utiliza o Trump como um ponto a favor, é uma estratégia política.”

“Eu acho que ele está sendo esperto, quer se aliar com Trump para enfraquecer o Lula, mas a taxação é ruim, né? Ele está usando a favor dele. Eu acho que ele está priorizando o que é bom para ele nesse momento e esquecendo do país.”

O pedido de 180 dias é o núcleo simbólico da carta: para o eleitor pendular, ele transforma patriotismo em cálculo eleitoral e revela uma política externa subordinada ao calendário da campanha.

3

A menção ao Pix é um dos pontos de maior sensibilidade. O sistema é percebido como uma conquista brasileira, útil, cotidiana e acima da disputa Lula versus Bolsonaro. Por isso, quando Flávio fala do Pix em sua carta a Trump, o gesto soa como defesa de empresas norte-americanas de cartão de crédito contra uma inovação nacional que beneficia a população.

A crítica não é antiamericana em sentido abstrato. Os participantes reconhecem a importância de boas relações com os Estados Unidos, ponto pelo qual criticam a Lula. O problema é a hierarquia percebida: Flávio parece mais preocupado em preservar seu vínculo com Trump e com empresas estrangeiras do que em proteger uma ferramenta brasileira valorizada pelo povo.

“O Pix concorre direto com a Visa e MasterdCard e se Lula ganhar os americanos alguma coisa farão e se o Flávio ganhar a gente fica pensando o que pode acontecer também? Trump pode pressionar, mas não sei, se o Flávio deveria se preocupar tanto com essas empresas estadunidenses, de novo parece uma coisa brasileira, o PIX não é nem de Bolsonaro nem de Lula é do Brasil  e é para estar orgulhoso. Se fosse uma startup americana estavam milionários quem inventou o PIX.”

“Se ele se diz patriota ele deveria dar ênfase ao PIX e não negociar isso, ele parece que está vendo mais lá fora do que aqui dentro. Esses cartões ganham muito dinheiro em cima do nosso. Deveria dar ênfase ao que é nosso, porque eles ganham muito dinheiro. Ele só quer ganhar voto. Quer abrir mão do que é nosso para beneficiar outros?”

“Parece que ele quer só favorecer os EUA, ele só fala nisso, e o Brasil?  Não sei ele acha que Trump vai ajudar ele nas eleições, não sei, mas o que me passa é que às vezes ele quer favorecer os EUA mais do que o Brasil.”

“É que ele não quer perder essa ligação com o Trump, mas o problema é que algo que favorece outro país. Eu não acho correto porque ele se preocupa mais com os outros. Tá, mas e o nosso? Se Flávio vencer acredito que Flávio poderia acabar com o PIX para preservar essa ligação com o Trump.”

O Pix transforma a soberania em experiência concreta. Quando o debate sai de “relações internacionais” e entra no aplicativo usado todos os dias, a acusação de submissão aos Estados Unidos ganha força emocional.

4

As críticas ao Mercosul também são recebidas negativamente. A percepção dominante é que o Brasil deve manter relações comerciais amplas: Estados Unidos, Europa, China e Mercosul. O acordo com a Europa é citado como exemplo de oportunidade que não deveria ser prejudicada por alinhamento automático a Trump.

A comparação com a Argentina aparece como alerta. Sair ou enfraquecer o Mercosul é associado a risco comercial, dívida, desemprego e perda de oportunidades. Mais uma vez, a ação de Flávio é interpretada como tentativa de prejudicar Lula mesmo que isso custe caro ao Brasil.

“Isso me deixa muito preocupado porque a Argentina não é um bom exemplo para nós. Estão soterrados de dívida e desemprego. Mercosul é importante com o Brasil inclusive porque já fechou parceria com Europa. É um caminho. Acho que ele fala isso porque isso beneficia a esquerda e ele tem medo disso.”

“Agora que a gente assinou esse tratado com Europa? A gente tem que abrir o leque, ter oportunidades. A China, a Europa, o Mercosul. Tem que negociar e abrir mercados…mas, não sei, acho que ele quer fazer qualquer coisa para a esquerda não ganhar. Mas acho que ele perde voto, né?”

“Ai acho que novo que está errado, está querendo prejudicar o Brasil porque vai ficar mais caro exportar nossas mercadorias, então outro ponto negativo, ele está sempre querendo prejudicar o Brasil? Ele só pensa nos EUA.”

A demanda do eleitor pendular não é isolamento, mas autonomia pragmática: negociar com todos, sem submissão exclusiva a ninguém.

5

Apesar da avaliação negativa, os participantes resistem a fechar completamente a porta para Flávio. O sentimento dominante é de confusão: não sabem se a carta expressa convicção, estratégia, cortina de fumaça ou improviso. Essa incerteza mantém o eleitor em suspensão.

Há uma demanda explícita para ouvir Flávio de outra forma: mais serena, mais clara e mais propositiva. É como se o eleitor pendular ainda esperasse que o senador o ajudasse a lhe dar uma chance, explicando melhor seus pontos, demonstrando que favorece o Brasil e apresentando algo concreto para a vida das pessoas.

“Mas não sei se é cortina de fumaça, não se é realmente o que ele pensa, vai ser isso? É uma incógnita. Acho que deveria priorizar o que é nosso, sim, mas não dá para saber realmente. Não sei, eles podem ser independentes do partido e eles utilizam suas armas.”

“Fico meio confuso também. Será que é estratégia ou será que ele pensa isso? Será que ele chegando lá vai fazer tudo isso? Na realidade é muito conteúdo.”

“Eu preciso ouvir mais a proposta dele de outra forma, não de outra forma tão agressiva, ele falando de uma forma humanizada. Eu ainda daria uma chance se ele se colocasse de forma aberta explicando estes pontos.”

“Para mim ele já está deixando um ponto negativo. Teria que escutar de outra forma da parte dele. Ele teria que se explicar e ver que ele favorece o Brasil e que não esquece a gente, tem que oferecer mais coisas para a gente.”

A confusão não absolve Flávio, mas posterga a rejeição final. O eleitor ainda aguarda mudança de postura e explicações, porque precisa de uma razão plausível para manter viva a hipótese de mudança.

6

Pela terceira semana consecutiva, os participantes demonstram incômodo com o fato de a agenda de Flávio ser ocupada por escândalos, polêmicas e explicações incompletas. A sequência Dark Horse, Michelle, carta a Trump e Paulo Figueiredo começa a formar uma narrativa pessoal e como candidato muito negativa.

O problema deixa de ser apenas uma crise pontual. Flávio é visto como alguém que perde postura presidenciável porque vive “metido em rolo”, parece esconder algo e repete o padrão da própria família. Parece preocupado com seu cálculo eleitoral e não com o país ou com o povo. O candidato que poderia representar novidade passa a ser percebido como continuidade dos vícios e confusões do clã.

“Me preocupa muito que tudo seja polêmico. Como é que a gente vai votar, decidir se já está aparecendo tanto escândalo e tanta coisa ruim, mas que são verdade meses antes? Mas o eleitor está meio desprotegido de informações, meio confuso.”

“Não me sinto confiante porque onde há tanta fumaça há fogo. Ele perdeu muita confiança com esses escândalos. Os indecisos que pensávamos que era uma cara nova, e agora não me sinto confiante.”

“Sim, me parece que ele se envolve em muita polêmica negativa, para ele mudar vai ser bem difícil. Eu sinto que talvez não seja uma pessoa para exercer o cargo porque talvez ele pensa muito nele e na família mas não pensa na gente.”

“A família Bolsonaro no geral ela se envolve em polêmica, mas nunca de lado positivo, né?  E o filho que parecia que era diferente  segue na mesma linhagem, não tem uma postura para o cargo então não passa confiança.”

A agenda defensiva corrói o atributo mais necessário para Flávio: ser uma mudança segura.

7

Os participantes divergem sobre o que Flávio pretendia ganhar com a carta. Para parte deles, a intenção é, ainda que de forma subordinada, manter o vínculo com Trump e transformar a proximidade com a Casa Branca em capital eleitoral. Para outros, o gesto parece mais uma ação confusa, resultado de uma campanha que perdeu rumo depois do caso Dark Horse e da crise com Michelle.

Em ambos os casos, a leitura é desfavorável. Ou Flávio tenta instrumentalizar Trump para enfraquecer Lula, ou está improvisando cortinas de fumaça para escapar de crises anteriores. A ação não parece trazer votos; ao contrário, reforça teimosia, confusão e afastamento dos eleitores.

“Eu acho que isso não beneficia nele. Eu acho que a campanha foi para um rumo errado. Foi tiro no pé, mas eles continuam batendo na tecla. Parece um pouco de, não sei, de teimosia, eles não mudarem de rumo. Parece que só querem fazer o contrário da esquerda e só acabar com eles se estão dando tiro no pé.”

“Acho que também pode ser para desviar de outras coisas que estão acontecendo. Os escândalos do Banco Master que pegou muito mal porque ele chamou o outro de amigo e não se sabe se o dinheiro para o filme foi desviado…é muita coisa negativa e estão se confundindo e enrolando muito.”

“Ele faz isso para não perder o vínculo com Trump.”

A carta pode ter sido pensada como movimento ofensivo, mas é recebida como sintoma defensivo: Flávio parece reagir à própria perda de controle narrativo.

8

A resposta de Lula à carta, chamando o gesto da Família Bolsonaro de “entreguismo”, é bem recebida. Os participantes reconhecem que a frase dialoga com o sentimento de que o Brasil deve vir em primeiro lugar e que não pode se submeter aos interesses dos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, o eleitor pendular está saturado de cálculo eleitoral. Mesmo quando avaliam que Lula tem razão, alguns participantes percebem tentativa de tirar vantagem política. A fórmula dominante é ambivalente: Lula diz o que deveria ser dito, mas também busca voto com isso.

“Um patriotismo entregando para outro país, vejo do Lula falando o que o povo quer ouvir. Acho certo, mas aí também o Lula puxa voto para ele. Mas essa frase é certa, sim, a gente tem que priorizar o país, mas sempre tudo eleitoreiro. Então é um “certo-errado.”

“Lula está certo, mas quer tirar vantagem e isso aí está chato, está esgotando.”

“Acho coerente porque Lula ele fala de forma humanizada, coloca Brasil como prioridade, isso que faz a diferença, porque ele defende o Brasil.”

“Também tive uma boa impressão dessa frase, ele falou o que eu imaginei do Flávio e tem que por em primeiro lugar o brasileiro.”

Lula ganha quando fala como chefe de Estado em defesa do país; perde força quando o eleitor interpreta a mesma fala como mais um lance da guerra eleitoral. Uma oportunidade para gerar contraste com Flávio e avançar na dinâmica de voto relacional: mostrar serenidade onde seu adversário mostra confusão.

9

O afastamento de Jaques Wagner da liderança do governo continua sendo visto como gesto correto. Os participantes valorizam a ideia de que a investigação deve correr independentemente de partido, proximidade pessoal ou amizade.

O problema aparece no gesto posterior de Lula em abraçar Wagner e chamá-lo de “irmão”. Para esse eleitor, a cena enfraquece a mensagem institucional e reabre suspeitas: Lula sabia? Está protegendo? O afastamento preserva Lula; a intimidade pública recoloca o presidente dentro do problema.

“Eu acho que independente de ser a A o B tem que ser investigado, então abraçar ele e chamar de irmão, não, errado.  Ele fez bem em afastá-lo, porque tem que ser investigado a fundo, mas esse gesto não achei bom.”

“Esse afastamento foi um arranjo entre eles, né? Tipo afasta agora, mas adiante eu te retorno. Mas abraçar, ai eu achei errado, ai acho que ele perdeu voto.”

“No afastamento Lula agiu corretamente, e a parte do abraço não precisaria ser em publico isso apesar de ter uma amizade, teria que abalar um pouco a amizade dos dois, acho que aí ele foi errado.”

“Ele pecou nessa parte aí porque ele demonstra ao eleitor que ele não se importa. E fica a dúvida porque fez isso. Sabe algo? Quer abafar? Não adianta afastar do cargo e seguir com esse vínculo porque aí parece hipócrita, foi inadequado, não faz sentido.”

No caso Wagner, Lula precisa sustentar uma linha estreita: afastar, deixar investigar e, sem negar sua relação com o senador, evitar qualquer gesto que pareça solidariedade corporativa.

10

A briga entre Michelle e Flávio mantém a leitura da sétima rodada. Os participantes reconhecem cálculo político dos dois lados, mas continuam atribuindo mais veracidade à fala de Michelle do que à resposta de Flávio. Ela é vista como alguém que pode estar usando o episódio para se proteger e se posicionar, mas que denuncia algo compatível com a trajetória da Família Bolsonaro.

Flávio, por sua vez, segue associado a cinismo, mentira e machismo. Entre as mulheres, a pergunta ganha força: se ele trata assim a esposa do pai, o que faria com as demais? A comparação relacional também favorece Lula e o PT: embora tenham muitos problemas, não são percebidos como campo que trata mulheres como inferiores.

“Acho que o que ela falou não digo na totalidade, mas tem verdade naquilo ali, ela está se protegendo e aí eles querem falar que não foi, quem ela estaria estressada, mas não, ela está expondo mais um podre dele, que ele é um cara agressivo, que ele se passa por bom moço e ele não seria isso.”

“E eu acho que ainda ela sabe mais coisa. Talvez tiveram que dar uma segurada nela, porque ela deve ter um arsenal muito forte, acho se afastou do PL mulher por conta disso. Acho que ela até queria ser vice, aí que está na briga e sim, eu acho que tem mais podre sobre o Flávio, aí talvez o Bolsonaro deu uma segurada.”

“Em relação ao Flávio e a família, sempre são assim, a mulher é diminuída. A família tradicional deles quem manda é um homem, e o Jair Bolsonaro teme um monte de frases polêmicas dessas e o filho vai na mesma linha do que o pai. Com certeza ela expôs porque ela quer ter o posicionamento político dela, ser uma voz ativa.”

“É certo o que ela fez de expor ele, pelo que vejo da trajetória dele eu acredito que é verdade, parece o que ele faria e a família dele é muito machista. Se ela que é a esposa do pai dele fala isso com a gente confia? ainda mais a gente que é mulher?”

“Ela deve ter saído porque ficaram com medo de falar muita coisa ruim sobre Flávio, devem ter forçado ela a sair.”

“É muito conservador essa coisa da família tradicional, não dá. O PT não cita a mulher como inferior, né? Tem problemas, mas não faz isso.”

A crise com Michelle transforma o tema da família em vulnerabilidade para Flávio: a retórica da família tradicional passa a ser julgada pelas práticas internas do próprio clã.

11

A fala de Paulo Figueiredo sobre voto feminino é recebida como absurdo completo, tanto por homens quanto por mulheres. O influenciador é descrito como retrógrado, ridículo e portador de ideias do passado. O episódio aciona a memória negativa das falas machistas de Jair Bolsonaro e recoloca Flávio dentro dessa linhagem familiar.

A resposta de Flávio é considerada tardia, protocolar e insuficiente. A demora sugere duas hipóteses ruins: ou ele concorda no fundo, ou só reagiu quando a campanha percebeu o dano. Para mulheres pendulares, o uso de esposa e filhas como “escudo” não recompõe a confiança.

“Foi uma coisa muito ruim para a campanha do Flávio, demorou muito e não se manifestou com aquela força que as mulheres esperavam. Já tem a memória do pai dele, da Michele, pegou muito muito mal, indignante. Eu, mesmo sendo homem, acho que ele deveria ter agido rápido e tentar combater essa fala desastrosa.”

“Na realidade acho que essa fala concorda com o pensamento do Flávio porque se não ele teria saído rapidamente a criticar a fala. Alguém dentro da campanha falou para ele sair, mas o pensamento dele é esse? Que não o pai. Acho muito retrógrado. Isso já deveria ter ficado para atrás há muitas décadas.”

“Desde lá atrás, quando a gente vê a família Bolsonaro, essas brincadeiras machistas do pai, a mulher não é inteligente para eles. Não vou falar que o Flávio pensa exatamente isso, mas ele forma parte da família Bolsonaro e eles são isso. Honestamente não me espanta porque sempre é uma frase machista, exaltando o homem. É errado, as mulheres lutaram muito para chegar aonde estamos e temos a mesma capacidade de um homem. Totalmente desrespeitoso.”

“Acho que ele usa a mulher e as filhas como escudo mas e dentro de casa? Imagina como ele é. Ele que manda, tem que fazer o que ele quer. Ele me passa uma pessoa péssima, para mim como mulher tudo de errado, porque claro que temos capacidade, não precisamos um homem de nosso lado.”

O problema de Flávio não se resolve apenas com reposicionamento comunicacional. Se a mudança parecer maquiagem, ela pode reforçar a imagem de encenação.

12

Ao final, todos os participantes voltam a expressar disposição de votar em Lula “hoje”. A lógica é relacional: votariam em Lula sobretudo pelo que vem acontecendo com Flávio. O presidente é lembrado por políticas sociais e por uma postura mais favorável ao Brasil, mesmo com críticas aos seus erros e ao gesto com Jaques Wagner.

Flávio segue vivo apenas como possibilidade condicionada. Os participantes ainda esperam que ele atue de forma mais presidenciável, dê explicações convincentes sobre as polêmicas, esclareça o que pensa sobre Estados Unidos, Pix, tarifas e soberania, e apresente propostas concretas para o povo.

“Hoje votaria no Lula por tudo o que está acontecendo com o Flávio. Vejo o lado de Lula com erros grandes, mas ele vê mais o povo..”

“Hoje, digo hoje, eu escolheria o Lula porque, pelas ideias que ele sempre teve de ações sociais, Minha Casa Minha Vida, Pé de Media, Bolsa Família…pensando nisso.”

“Depois de todas as polêmicas de Flávio eu votaria no Lula, mas tenho
ue ouvir coisas da parte de Lula.”

“Até momento ele fala sobre igualdade, escola integral, as falas de Lula e programas seguem positivas. Gostei da coisa de abraçar o Jaques Wagner? Não! Mas o posicionamento a favor do Brasil, por um tudo, é bom, e não tem essa desigualdade entre homem e mulher então seria o Lula.”

A inclinação pró-Lula é frágil e contingente, mas real. Ela não nasce de paixão; nasce da comparação entre um presidente com erros, mas associado a políticas sociais e defesa do Brasil, e um adversário cada vez mais associado a confusão, família, Trump e ausência de propostas.

Integração analítica

A oitava rodada aprofunda a hipótese acumulada desde Dark Horse: o principal problema de Flávio Bolsonaro não é apenas um escândalo específico, mas a formação de uma matriz interpretativa negativa. Cada novo fato – Banco Master, Michelle, carta a Trump, Paulo Figueiredo, Pix, Mercosul – passa a ser lido como confirmação de uma biografia em crise.

A carta a Trump acrescenta uma dimensão decisiva: soberania. Até aqui, a deterioração de Flávio se organizava sobretudo em torno de honestidade, mentira, contradição, família e ausência de propostas. Agora, o vínculo com Trump e a defesa percebida de interesses norte-americanos contra o Pix, o Mercosul e o calendário eleitoral brasileiro fazem emergir a pergunta: Flávio governaria para o Brasil ou para preservar sua aliança com a Casa Branca?

A noção de “Família Bolsonaro” ganha centralidade. Flávio deixa de ser visto como o filho moderado, técnico ou autônomo e passa a ser absorvido pelas dinâmicas do clã: machismo, confusão, ressentimento, disputa interna, dependência de Trump, cálculo eleitoral e polêmica permanente. A tentativa de diferenciação que poderia sustentar sua candidatura vai se desfazendo no olhar do eleitor pendular.

Do lado de Lula, a rodada mostra uma vantagem pragmática, mas vulnerável. O presidente ganha quando encarna defesa do Brasil e políticas sociais concretas; perde quando volta ao palanque, quando parece usar tudo eleitoralmente ou quando gestos pessoais, como abraçar Jaques Wagner e chamá-lo de “irmão”, reabrem suspeitas sobre proteção a aliados. A vantagem de Lula depende de ser mais institucional, mais concreto e menos bravateiro. Relacionalmente, teria uma oportunidade, dados os erros seguidos de Flávio, para se posicionar como o “adulto na sala” e consolidar esse eleitorado, mas suas escorregadas verbais mantém a disputa aberta.

A dinâmica de voto segue relacional. Flávio, neste momento, é um dos maiores promotores indiretos da escuta de Lula entre pendulares: quanto mais se envolve em polêmicas, mais o eleitor procura justificativas para aceitar a continuidade. Mas esse movimento não é consolidado. O eleitor segue esperando debates, propostas, explicações e novos fatos.

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Diretores Participantes:

Direção de Relações Institucionais

Conselheiros Participantes:

Professora da UNIFESP e pesquisadora em Ciências Sociais

Pesquisadores Participantes:

Bacharel em Design Gráfico (Anhembi Morumbi) e em Pedagogia (UNIVESP)
Coordenação de Arte e Comunicação
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