Entre 20 e 22 de outubro, a três dias do segundo turno, a disputa presidencial nas redes sociais foi marcada pelo confronto direto entre Lula e Flávio Bolsonaro, com destaque para a cobrança pela abertura de sigilos, as acusações de corrupção e o debate sobre a manutenção de programas sociais.
Enquanto Lula buscou associar a candidatura adversária ao risco de perda de direitos e reforçar a defesa da transparência, Flávio concentrou parte de sua comunicação em críticas ao STF e em questionamentos sobre o governo. Entre os cabeças de rede, a disputa pela abertura dos sigilos ganhou novos desdobramentos com o caso Willer Tomaz, enquanto a repercussão do vídeo de Nikolas Ferreira sobre o Nordeste mobilizou perfis dos dois campos políticos. As narrativas também evidenciam estratégias de mobilização digital, com convocações para lives, participação de influenciadores e divulgação de atos de campanha nas ruas.
Corte de direitos: Lula concentrou suas mensagens no risco de cortes em programas sociais caso o adversário vença. Afirmou que, quando a família Bolsonaro governa, corta benefícios, como o Farmácia Popular e a merenda escolar. Lula também resgatou publicações antigas em que Flávio chamava o Bolsa Família de “bolsa-farelo” e questionou a promessa do adversário de manter o programa. Flávio, por sua vez, afirmou que a esquerda espalha informações falsas sobre o fim do benefício. No campo econômico, prometeu retomar o programa de incentivo ao setor de eventos, durante encontro com cantores sertanejos.
A abertura dos sigilos e o caso Richarlison: Nas redes de Lula, o desafio “Abre o sigilo, Flávio” (1) seguiu em evidência. Lula também convocou a militância digital, com menção ao canal de André Janones, e entrou na disputa envolvendo o jogador Richarlison em torno do caso da ilha. Flávio, por sua vez, seguiu afirmando que aceita abrir seus sigilos, desde que Lula amplie a abertura dos próprios.
STF e democracia: Flávio Bolsonaro voltou a colocar o Supremo Tribunal Federal no centro da campanha, com perguntas como “Já imaginou mais 4 Alexandres de Moraes no STF?”. Lula reforçou o discurso de frente ampla: ao lado de Alckmin e com o apoio de Fátima Bernardes, defendendo que não é preciso pensar igual para construir um país melhor.
Ruas e redes: Os dois candidatos divulgaram imagens de atos de campanha para demonstrar força e mobilização nas ruas. Lula publicou registros de comícios em diferentes cidades, com destaque para Minas Gerais (1; 2). Flávio também deu visibilidade aos atos de sua campanha em Fortaleza e Manaus (1; 2; 3).
Abertura dos sigilos como prova de transparência, enquanto a recusa de Flávio alimenta suspeitas: A narrativa procura transformar a abertura dos dados em um teste público de transparência entre os candidatos. O presidente afirmou que “quem não deve, não teme” e desafiou Flávio a apresentar os mesmos dados. O argumento ganhou força com a inclusão dos filhos, de Janja e das empresas vinculadas à família. A ausência de adesão de Flávio levou à cobrança “abre o sigilo, Flávio”. Perfis associaram sua resistência às investigações em curso. A entrada do caso Willer Tomaz no debate público impulsionou a narrativa, com publicações sustentando que a investigação por lavagem explicaria por que Flávio não aceitaria abrir seus dados bancários. Após Flávio apresentar lista de 19 condicionantes para abertura de sigilo, incluindo gastos em cartões corporativos, a narrativa reforçou a hesitação de Flávio e que Lula “dobrou a aposta”, após aceitar as novas condições apresentadas pelo adversário.
Caso Willer se funde à campanha pelo “abre o sigilo”: As duas pautas passaram a circular juntas. A investigação funcionou como resposta à pergunta sobre por que Flávio ainda não havia aderido ao desafio lançado por Lula. Um dos conteúdos de maior engajamento afirmou que a investigação explicaria a recusa em abrir o sigilo bancário. A campanha pela transparência deixou, assim, de ser uma provocação abstrata e passou a ser associada a um inquérito específico.
Convocação para live de Lula com Janones: Publicações de Janones convocando para lives do Exército do Lula. A primeira convocação, realizada no dia 21, chama apoiadores para acompanhar a live de 24 horas após o debate de sexta-feira, 23/10 na Globo. Segundo Janones, a live será iniciada assim que o debate acabar e só acabará depois de 24 horas, repercutindo em publicações de perfis de fofoca e influencers (1; 2; 3; 4). A segunda convocação, feita no mesmo dia, anuncia a participação de Lula em outra live nesta quinta-feira (22) às 19h, ao lado de Janones.
Críticas ao vídeo de Nikolas: Em resposta a vídeo de Nikolas sobre o Nordeste, o perfil do PT Brasil publicou vídeo em colaboração com o presidente Lula, com o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, e com os senadores Humberto Costa, Rui Costa e Camilo Santana, alguns dos principais nomes do partido da região. O vídeo relembra falas preconceituosas de Jair Bolsonaro sobre a região.
Abertura dos sigilos é questionada e cobrança por transparência se desloca para gastos públicos: Publicações buscaram relativizar o alcance da abertura dos sigilos bancário e telefônico de Lula, argumentando que investigações anteriores envolveram terceiros, imóveis e intermediários, de modo que a divulgação das contas pessoais não seria suficiente para afastar suspeitas de irregularidades. Esse argumento apareceu em conteúdos que afirmaram que os casos investigados na Lava Jato não teriam passado pelas contas pessoais de Lula. Publicações também tentaram inverter a cobrança por transparência, passando a exigir que Lula retirasse o suposto sigilo sobre despesas do cartão de Janja e recuperaram questionamentos sobre informações mantidas sob restrição de acesso pelo governo.
Corrupção atribuída a patrimônio oculto e intermediários: A direita retomou acusações históricas contra Lula para esvaziar o desafio. O argumento sustenta que dinheiro ilícito não apareceria necessariamente em nome do beneficiário e que a abertura de sigilos seria, por isso, insuficiente. Um conteúdo sintetizou essa reação afirmando que Lula teria sido condenado por ocultação de patrimônio. Outro ironizou que a medida não teria utilidade caso os recursos circulassem por “laranjas” e que Lula nunca usou seu próprio nome como beneficiário em institutos, por exemplo.
Vídeo de Nikolas sobre o nordeste é silenciado: Repercutindo a retirada do áudio de seu vídeo sobre o Nordeste, Nikolas Ferreira publicou outros quatro vídeos sobre o tema, nos quais acusa o músico Rubel de censura e de calar o povo nordestino (1; 2). O empresário Luciano Hang republicou o vídeo original de Nikolas que foi derrubado em sua própria conta. O vídeo foi silenciado por direitos autorais, ao utilizar música de Rubel sem autorização. Segundo Gustavo Gayer, a senhora que aparece no vídeo estaria sendo ameaçada. Cabeças de rede da direita, como Lucas Pavanato e Alfredo Gaspar publicaram vídeos em apoio a Nikolas utilizando a hashtag #NãoCalemosNordestinos.
Sigilos, direitos e Nordeste: as narrativas da reta final do 2º turno
22 de outubro de 2026
COMO CITAR ESSE DOCUMENTO:
Sigilos, direitos e Nordeste: as narrativas da reta final do 2º turno. Instituto Democracia em Xeque, 22 de outubro de 2026. Disponível em: <https://institutodx.org/eleições2026>
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