Painel Narrativo Semanal

Quarta rodada – 07 de junho de 2026

Investigação qualitativa sobre opinião pública, preferências eleitorais e percepção política de eleitores “pendulares”.

Método
Tríades etnográficas

Público
Eleitores Pendulares

Foco
Percepções Eleitorais

Escopo

A investigação se concentra em eleitoras e eleitores “pendulares”, ou seja, aqueles que oscilam entre Lula e Flávio Bolsonaro na disputa presidencial de 2026. A análise dialoga com a agenda factual, com os relatórios Semanais DX e com o Boletim Especial do DX sobre o Tarifaço, deslocando o foco do ambiente digital para a recepção qualitativa de temas políticos no eleitorado.

Nesta quarta rodada, foram contrastadas as hipóteses levantadas no acompanhamento do debate público digital sobre as medidas recentes do governo norte-americano com as percepções dos participantes. Foram aprofundados temas como grau de conhecimento do tarifaço, entendimento sobre eventuais implicações com o PIX, atribuição de responsabilidade, capacidade de resolução, impacto eleitoral sobre Lula e Flávio Bolsonaro e atualização da repercussão do caso Dark Horse.

De forma complementar foram utilizados dois estímulos audiovisuais: um vídeo de Lula com críticas a Flávio Bolsonaro pelo tarifaço e outro de Flávio Bolsonaro, ressaltando ter pedido aos EUA para não tarifar o país e sua tentativa de se apresentar como interlocutor capaz de evitar ou reduzir o tarifaço daqui para frente.

PERÍODO:
07 de junho de 2026

GRUPOS:
2 grupos focais em formato de grupos etnográficas

COMPOSIÇÃO:
Grupo 1: homens | Grupo 2: mulheres

PERFIL:
30-50 anos, ensino médio, renda familiar de 3 a 7 salários-mínimos

REGIÃO:
Preferencialmente eleitores das Regiões Metropolitanas de São Paulo,
Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador (“swing states”) 

TRAJETÓRIA ELEITORAL:
Votou em Jair Bolsonaro em 2018; votou em Lula em 2022; está indefinido para 2026.

CRITÉRIO POLÍTICO:
Não rejeita Lula nem Flávio Bolsonaro

CRITÉRIO INFORMACIONAL:
Grupos separados entre participantes que conheciam mais e participantes que conheciam
apenas superficialmente o tarifaço.

EIXOS TESTADOS:
Tarifaço; PIX; Trump; Lula; Flávio e Eduardo Bolsonaro; responsabilidade política; Dark Horse; impacto eleitoral.

Sumário executivo visual

Dez leituras estratégicas para decisão política e comunicação

1

Quem sabe pouco confunde tarifaço com dívida pública ou taxa das blusinhas; quem sabe mais conecta Casa Branca, Flávio, Eduardo, Trump, PIX e PCC/CV.

2

Independentemente do grau de informação, há consenso de que a tarifa de 25% é negativa para o país, com risco para comércio, preços, empregos e imagem internacional.

3

Entre menos informados, Trump aparece como ator autônomo. Entre mais informados, cresce a suspeita de participação ou benefício eleitoral de Flávio. Ambos vêm tentativa de ganhos eleitorais de Flávio, em que pese os danos ao país. 

4

A lembrança do tarifaço anterior associado a Eduardo reforça a leitura de continuidade de uma estratégia familiar de usar proximidade com Trump contra o Brasil.

5

Para uns, Lula aparece como injustiçado e defensor do país; para outros, seu tom é debochado, agressivo e pouco presidencial, o que afasta indecisos.

6

O tom sereno de Flávio convence parte dos menos predispostos contra ele, mas entre os mais críticos parece calculado, cínico e excessivamente articulado.

7

O PIX é percebido como patrimônio cotidiano. A hipótese de interferência externa é vista como improvável, mas, se ocorrer, seria inadmissível.

8

Participantes rejeitam usar PCC/CV ou lavagem de dinheiro como pretexto para prejudicar o sistema. Segurança e PIX devem ser tratados separadamente.

9

O tarifaço não apaga Vorcaro. Persistem cobranças por apresentação de documentos, assim como a suspeita de corrupção e ressignificação da biografia de Flávio.

10

Lula ganha por experiência e políticas sociais; Flávio por ventos de mudança. Ambos carregam custos, e o eleitor pendular segue sem definição estável.

Mapa de percepções

Como os participantes organizam Lula, Flávio e alternativas

Achados qualitativos

Temas, interpretações e aspas selecionadas

1

A quarta rodada mostrou uma diferença importante entre participantes mais e menos informados. Entre os menos informados, o tarifaço apareceu inicialmente de forma difusa, confundido com dívida pública, aumento geral de preços ou mesmo com a taxa das blusinhas. Entre os mais informados, houve maior capacidade de estabelecer conexões entre o tarifaço, a visita de Flávio à Casa Branca, a pauta do PIX, a classificação de PCC/CV como organizações terroristas e o cálculo eleitoral da família Bolsonaro.

Esse achado é metodologicamente relevante: o impacto político do episódio depende do grau de informação. A mesma pauta pode parecer técnica, distante ou confusa para parte do eleitorado, mas altamente sensível para quem consegue organizar os elementos em uma narrativa de soberania, economia e dependência externa.

“Que está tudo aumentando, o governo tem dívida, alguma coisa assim”

“Até ouvi alguma coisa, mas não sei, que eles estão querendo acabar com as tarifas das blusinhas”

“Fiquei sabendo que agora além do tema do PCC e do CV o Trump resolveu um tarifaço
para alguns itens de 25%”

A comunicação sobre o tarifaço precisa traduzir um tema técnico em consequências simples: preço, emprego, empresas brasileiras, PIX, soberania e relação Brasil-EUA. Sem essa tradução, a pauta pode não penetrar entre os menos informados.

2

Independentemente do nível de informação, houve convergência em torno da avaliação de que o tarifaço é prejudicial ao Brasil. A discordância aparece menos sobre o dano da medida e mais sobre quem é responsável por ela, quem a agravou, quem pode resolvê-la e quem está tentando explorá-la politicamente.

“Para o Brasil é bem negativo. A gente exporta e importa bastante coisa, é bem negativo”

“É algo extremamente prejudicial ao país, de forma alguma vai trazer benefício”

O ponto de partida comum é que a medida prejudica o país. A disputa central passa a ser a atribuição de responsabilidade: Trump como autor direto, Flávio/Eduardo como facilitadores ou beneficiários, Lula entre negociador e eventual provocador, e governo e empresários como possíveis apoios negociadores.

3

A atribuição de responsabilidade a Flávio Bolsonaro varia conforme predisposição e informação. Entre participantes menos informados ou menos predispostos contra ele, prevalece a ideia de que Trump age segundo seus próprios interesses e não se deixaria conduzir pelos Bolsonaro. Entre os mais informados, porém, aparece a leitura de que Flávio teve alguma participação, ainda que indireta, ou que buscou se beneficiar eleitoralmente da pressão norte-americana.

“Eles são do mesmo lado, mas Flávio não pediria, acho que Trump já tinha alguma intenção.
Eu acho que Trump não entraria nessa jogada mesmo sendo aliado do Bolsonaro. É tudo política, Trump joga com um, joga com outro, vai fazer o que for melhor para ele”

“Eu já acho que Flávio teve a ver. Foi uma vantagem para Trump e aí ele viu uma oportunidade, mas também não sei bem a vantagem, talvez como se Flávio tivesse influência com o Trump.”

“Não explicitamente, mas teve conversa, sim, pelo objetivo dele de ganhar a eleição, é jogada dele, sim”

A memória do tarifaço anterior, associado a Eduardo Bolsonaro, reforça a percepção de uma estratégia familiar. Para os participantes mais informados, o episódio atual não aparece isolado: ele é lido como possível repetição de um padrão de uso da proximidade com Trump para produzir pressão externa sobre o Brasil com fins políticos internos.

“Com certeza Flávio poderia prejudicar o povo para ele ganhar as eleições, já tentaram a vez passada com o Eduardo”

“Eu creio que na época o Eduardo tentou fazer isso, sim, foi uma primeira investida, tentando forçar para o pai não ir em cana”

“Sim, esse primeiro tarifaço já foi para livrar a cara do pai e utilizou a coisa das tarifas para isso”

A responsabilização de Flávio não é automática, mas cresce quando o eleitor conecta episódios. A memória de Eduardo funciona como prova narrativa: transforma um fato novo em modus operandi familiar.

4

Mesmo entre participantes que não atribuem a Flávio a autoria direta do tarifaço, aparece a ideia de que ele facilitaria o caminho para Trump por sua posição de subordinação ou proximidade. A relação com o ex-presidente norte-americano pode ser percebida como canal de influência, mas também como vulnerabilidade: Flávio tenta usar a proximidade como ativo eleitoral, ainda que numa posição inferior.

“O tarifaço é jogo dele (Trump). Ele está lutando pelo país dele no fundo. Trump tem muita jogada, né? Ele não prejudicaria ele mesmo ou os EUA para ajudar os Bolsonaro”

“No caso poderia ser uma estratégia, tipo ter o apoio do Trump, e aí como muita gente sabe que Lula não tem esse apoio, talvez tenha feito por isso”

“Eu acho que deve ter alguma coisa aí, sim, ele tem esse jeito igual ao pai dele, talvez tenha tido alguma conversa. Talvez ele faria isso para tentar prejudicar o Lula, né? E aí despois sendo eleito ele meio que tentaria resolver”

“Há uma aliança desde o tempo do pai com o Trump, mas também se ele ganhar será bom para Brasil, então poderia ser ruim para Brasil agora, mas ele resolveria, agora se o PT ganhar não vai resolver”

A proximidade com Trump opera como ativo ambivalente. Para alguns, abre portas; para outros, indica submissão. Mas o interesse eleitoral, ainda que contra os interesses nacionais, é percebido pela maioria. O risco para Flávio é que a promessa de influência se converta em cobrança: se ele tem acesso, por que não resolve? Se não resolve, sua influência parece superestimada.

5

O vídeo de Lula produziu leituras opostas. Para os mais predispostos a responsabilizar Flávio, Lula aparece indignado diante de uma injustiça. Para os menos convencidos dessa responsabilidade, o presidente soa debochado e agressivo. A crítica ao tom apareceu com força: esperam de Lula uma postura mais institucional: mais palácio e menos palanque.

“Não gostei de nada, da postura, ele está muito mal nessa fala. E essa coisa de que teriam sido enforcados, ameaçando…E ele tem esse tom muito debochado, gritar, tem que ficar mais sereno”

“Como presidente não poderia estar incentivando um crime”

“Ele ficou indignado só que ele acha, mas não tem certeza do envolvimento dos Bolsonaro. E a gente sabe que Trump nunca foi muito amigável a ele. Não sei, parece jogo político, um falar do outro. Lula aproveitou o momento para falar do Flávio e a gente fica na dúvida, a gente não sabe se Trump já estava com esse plano ou o Flávio foi lá e pediu”

“Eu senti a forma de se sentir injustiçado, ele tinha tentado um acordo com Trump e o comparativo com o país cabe, né?”

Perguntados como Lula deveria agir, todos convergiram na defesa de apaziguamento, negociação e recomposição de canais diplomáticos. A ideia de que o Brasil precisa manter uma boa relação com os EUA apareceu de forma recorrente.

“Ele deveria tentar apaziguar, não atacar, EUA é um país importante e tem que negociar, com linguagem mais ponderada, fazer o melhor pelo Brasil, trazer o Trump para perto. Teria que enviar alguém diferente, empresários, alguém do governo”

“E não atacando, tentar negociando sempre”

“Lula teria que estar voltando e tentar entrar num acordo novamente e ver se consegue retirar, como ele tem um bom relacionamento ele teria que entrar num acordo e teria que ser o Lula né? Ele é o presidente”

“Mas de repente ir o Alckmin junto, que tem uma experiência grande, tem outro jeito de conversar também, não sei se vai adiantar porque o Trump, faz o que é bom para ele, faz parte do jogo, é tudo política. Ou talvez o ministro da Fazenda”

Lula pode ganhar no enquadramento da soberania, mas perde se o tom for percebido como bravata. O eleitor quer defesa do Brasil com firmeza, mas também com serenidade, negociação e capacidade institucional.

6

O vídeo de Flávio teve efeito distinto conforme a predisposição dos participantes. Para os mais em dúvida, o senador pareceu mais sereno, disposto a apaziguar e a tentar resolver. Para os mais informados ou críticos, a serenidade soou como cálculo: Flávio aparece como jogador, soberbo e excessivamente articulado, diferente de Jair Bolsonaro, percebido por alguns como mais espontâneo.

“O Flávio poderia atacar e aqui está tentando apaziguar, é sereno, fala com propriedade e fala que vai tentar pelo povo mesmo não tendo essa responsabilidade…e, sim, estão tentando tirar proveito eleitoral, mas se conseguir seria bom para o povo”

“Eu gostei porque ele disse que vai tentar algo que seja bom para conversar e resolver da melhor maneira, porque tudo se resolve sentando, ouvindo, não impondo, não com ironia como Lula, incentivando a violência”

“Então agora assistindo esse vídeo a gente fica confusa. Não dá para saber. Não tem convicção dos dois, não tem como escolher ou um ou outro. Sobre o tom, me pareceu que passou confiança, o jeito mais sereno de falar”

“Eu achei excessivamente articulado, não me passou confiança, ele me parece um cara jogador e meio soberbo, né? É um jeito que não gosto. Ele sabe onde quer chegar e está jogando”

A capacidade de Flávio para negociar com Trump também divide. Alguns acreditam que a proximidade abriria portas; outros relativizam a influência, lembrando que Trump age segundo seus próprios interesses.

“Eu acho que ele teria essa capacidade, sim, porque eles conversam muito, tem contato, uma certa amizade”

“Eu já acho que Flávio não sendo presidente ele não conseguiria tão fácil porque Trump joga nos dois lados, o que é a favor dele. Ele não tem tanto amor assim por Bolsonaro, ele faz só o que é melhor para ele, ele nem deixou de receber o Lula mesmo não gostando dele”

“Ele teria uma abertura maior pela proximidade deles, né? Só por esse fato já tem uma dinâmica melhor”

O contraste de tom beneficiou Flávio em parte do grupo: sereno contra um Lula percebido como agressivo. Mas a serenidade só convence quando não há suspeita prévia. Entre os mais informados, ela pode reforçar a imagem de cálculo e cinismo.

7

O PIX voltou a aparecer como tema de altíssima sensibilidade. Os participantes resistem a acreditar que Trump tenha poder para acabar com o sistema, por considerá-lo consolidado e central para a economia cotidiana. No entanto, quando estimulados a imaginar um cenário em que Flávio, como presidente, pudesse ajudar Trump a interferir no PIX, a reação foi de preocupação e reprovação.

“Eu acho que o Pix ajuda muito, facilita muito, mas eu acho que Trump não tenha esse poder de acabar com PIX, quem pode é só o presidente de Brasil. Ele não gostar não quer dizer que ele não vai acabar com o PIX”

“É uma dúvida que eu tenho porque o governo nacional diz que é uma coisa ganha nossa, que jamais vão mexer nem Trump nem ninguém, mas a gente não sabe da regra do jogo”

“Independentemente de quem fosse presidente, acho que o Trump não teria essa capacidade, o PIX movimenta a economia de nosso país”

“Flávio já sendo presidente ele poderia talvez ajudar Trump a acabar com o PIX, e acho que Flavio seria capaz de prejudicar Brasil, sim”

“Acho que ele até poderia porque ele quer fazer o estilo do Trump, são meio fanáticos do Trump, para poder ter essa aliança com ele porque os Bolsonaro gostam desse estilo que o Trump governa, mas não pode ser tão dependente deles, né?”

“Isso afetaria todo e vai trazer danos irreversíveis para o país. De todas é a pior jogada e é um tiro no pé porque ele prejudica o próprio eleitorado”

“O PIX é do pai dele, então por que ele iria querer acabar com o PIX?”

“Não foi o Jair Bolsonaro quem inventou o PIX?”

A hipótese de que o PIX pudesse ser usado pelo crime organizado para lavagem de dinheiro não convenceu como justificativa para restringir ou enfraquecer o sistema. Os participantes tendem a separar o problema criminal do benefício cotidiano do PIX.

“Não acho que Flávio faria isso com o povo, aí sim ele estaria sendo um traidor”

“Ah, se tiver envolvido na criminalidade, e aí o povo que precisa do PIX? Não é certo fazer isso, a criminalidade tem que ser cuidada a parte do problema do PIX, não pode utilizar uma coisa para prejudicar a outra”

O PIX é mais forte do que o tarifaço como gatilho emocional. Ele transforma soberania em vida diária. Quem for percebido como ameaça ao PIX corre risco de atravessar uma linha vermelha com o eleitor pendular.

8

O caso Dark Horse segue ativo. Houve acordo, como nas rodadas anteriores, em torno de três pontos: o recurso não parecia ser apenas para o filme; Flávio ainda precisa apresentar documentação e explicar melhor; e o episódio mancha sua imagem no tema corrupção. Entre os mais informados, reaparece a crítica ao cinismo de Flávio e à diferença entre sua postura pública e privada, além da ressignificação de episódios anteriores de sua biografia.

“Eu não concordei com o filme, foi errado, ele tem que explicar, devolver o dinheiro. Mas também não tinha dinheiro público envolvido e ele não sabia bem do Vorcaro na época, mas também político nenhum é santo, mas se for provado tem que ser punido, claro, como essa coisa da rachadinha se for comprovado”

“Eu achei uma pouca vergonha, o batom na cueca, era Rachadinha, é tudo esquece disso, o cara é corrupto, está claro e teve essa coisa da Cacau Show”

“Ele só fala um pouco mais bonito do que o pai, mas não muda muita coisa, não”

“Eu já acho que ele é diferente do pai, ele tem mais coisa que desabone ele que o pai, tem coisa mais errada. Entre os dois, ele transmite menos confiança que o pai, o falar do pai era mais direto, mais honesto, que falava o que vem na cabeça dele, acho que Flávio fala umas coisas mais cinicamente”

O tarifaço não apagou Vorcaro. Ao contrário, pode se somar a ele como sequência de dúvidas sobre Flávio: dinheiro, Trump, PIX, tarifa, família e explicações insuficientes.

9

Um achado importante é que os participantes não desejam ruptura com os Estados Unidos. A crítica à subordinação aos interesses de Trump convive com a ideia de que o Brasil precisa manter relação amistosa, pragmática e negociadora com os EUA. O problema não é ter relação; é parecer dependente, submisso ou incapaz de defender o interesse brasileiro.

“É melhor ser amigo do EUA, do que inimigo”

“E aí o Lula que não é amigo dos EUA vai fazer o que, com vai negociar? A gente tem que se aliar a eles, não podemos ser inimigos”

O eleitor pendular não quer antiamericanismo. Quer autonomia. A linguagem mais promissora não é “romper com os EUA”, mas “negociar com respeito, sem entregar o Brasil”.

10

A rodada termina sem definição estável de voto. Lula aparece associado à experiência, políticas sociais, escala 6×1 e maior proximidade com o povo. Flávio aparece como possibilidade de mudança e alternância, mas carrega o peso de Vorcaro, rachadinha, postura sobre 6×1 e dúvida sobre sua capacidade de defender o país sem subordinação a Trump.

“Eu não sei ainda se votaria no Flávio porque teve aquela coisa da rachadinha e também a do Vorcaro, então mesmo gostando desta coisa dos EUA. Eu não sei se votaria e Lula, não sei ele já teve muita coisa boa nos dos primeiros mandatos, mas não neste aqui e agora parece que o presidente é Alexandre de Moraes”

“Se fosse para escolher um como Lula já esteve 4 anos seria Flávio”

“Eu não tenho ainda muito posicionamento, mas acho que iria no Lula em questão de ter mais experiencia, o estilo do Flávio não agrada, ele era contra o fim da escala 6×1, ele não está vendo o lado dos trabalhadores”

O eleitor pendular continua avaliando custos relativos. Lula não mobiliza entusiasmo amplo, mas oferece experiência e políticas sociais. Flávio representa mudança, mas a mudança aparece cercada de risco moral, familiar e geopolítico.

Triangulação metodológica

Qualitativo, debate digital e pesquisas quantitativas

Esta rodada reforça a leitura do Painel Narrativo Semanal DX como produto de inteligência em três camadas: a escuta qualitativa dos grupos; o acompanhamento do debate público digital nos relatórios Semanais DX e boletins especiais; e a leitura quantitativa das pesquisas de opinião.

Fique de olho

Pontos de atenção para as próximas semanas.

👉 Defender soberania sem soar anti-EUA: Os participantes querem relação amistosa e pragmática com os Estados Unidos. A crítica a Trump deve ser acompanhada de mensagem de negociação e defesa do interesse brasileiro.

👉 Baixar o tom e elevar a institucionalidade: O tom agressivo ou debochado de Lula pode afastar indecisos. A presença de Alckmin, Fazenda, Itamaraty e empresários pode reforçar imagem de seriedade.

👉 Traduzir tarifaço em vida real: Explicar efeitos sobre preços, empregos, empresas, exportações e custo de vida. Sem tradução concreta, o tema fica técnico e confuso.

👉 Transformar PIX em soberania cotidiana: O PIX é mais compreensível que tarifa. Defender o sistema pode conectar soberania, economia doméstica e rotina popular.

👉 Separar parceria de submissão: O governo deve mostrar que negociar com os EUA é necessário, mas sem aceitar imposições que prejudiquem o Brasil.

👉 Apresentar iniciativa na segurança: A pauta econômica não elimina a demanda por segurança. O governo segue vulnerável se parecer incapaz de enfrentar crime organizado. Precisa apresentar uma alternativa.

👉 Empurrar 6×1 no Senado: As pautas social e laboral continuam como pontos fortes da imagem de Lula. E a aprovação do fim da escala 6×1 na Câmara continua gerando expectativas nos eleitores. Garantir sua aprovação célere é fundamental para o Presidente anteder as expectativas e não gerar frustração. 

👉 Influência vira cobrança: Se Flávio tem acesso a Trump, precisa demonstrar resultado. Se não reduz o tarifaço, sua influência pode parecer simbólica ou falsa.

👉 Serenidade não basta: O tom calmo convence parte dos indecisos, mas pode ser lido como cálculo entre os mais informados. A prova de compromisso com o Brasil será mais importante que a performance.

👉 Eduardo é memória negativa: O tarifaço anterior associado a Eduardo Bolsonaro reativa a suspeita de ação familiar contra o país por interesse político. A grandiloquência de Eduardo também afeta negativamente as pretensões do irmão.

👉 PIX é linha vermelha: Qualquer ambiguidade sobre o PIX pode produzir dano amplo. Usar crime organizado como pretexto para mexer no sistema tende a ser percebido como traição.

👉 Vorcaro segue pendente: Dark Horse não foi apagado. O eleitor ainda cobra explicações, documentos e coerência.

👉 Escala 6×1 segue sensível: A percepção de que Flávio não está ao lado dos trabalhadores pode pesar entre eleitores de renda média e baixa, especialmente quando combinada com tarifaço e PIX.

Nota metodológica

Tríades etnográficas e deep stories

Esta rodada foi realizada por meio de dois grupos focais qualitativos no formato de tríades etnográficas. O desenho amostral buscou observar eleitores e eleitoras em situação de indefinição eleitoral, definidos aqui como “pendulares”, com trajetória de voto cruzada entre os campos políticos ao longo dos últimos oito anos.

As tríades etnográficas são conversas qualitativas em pequenos grupos, conduzidas por moderação especializada. Diferenciam-se de grupos focais tradicionais maiores porque favorecem maior intimidade, maior tempo de fala por participante e maior possibilidade de observar narrativas pessoais, hesitações, contradições e deslocamentos de opinião.

A análise também se apoia na perspectiva de deep stories, isto é, na reconstrução das narrativas profundas pelas quais os participantes organizam sua experiência política. Uma deep story não é apenas uma opinião sobre candidato ou tema; é uma história moral sobre justiça, merecimento, traição, esforço, família, corrupção, soberania, dinheiro, crime, medo e esperança.

O método permite observar sentimentos, percepções, raciocínios, afetos, justificativas morais, ambivalências, linguagem espontânea, mudanças sutis de posição e conexões entre escândalos, políticas públicas, economia, segurança e soberania.

O método não permite afirmar representatividade estatística nem estimar proporções populacionais. As falas citadas expressam percepções situadas dos participantes e não verificação factual dos eventos mencionados.

Limite desta rodada: o roteiro previa múltiplos estímulos audiovisuais, mas, por limitação de tempo, foram utilizados apenas os vídeos iniciais de Lula e Flávio Bolsonaro. A análise preserva esse limite e não infere reações a estímulos que não foram efetivamente exibidos.

Síntese estratégica final

A quarta rodada mostra que o tarifaço e a discussão sobre o PIX têm potencial para reorganizar a leitura do eleitor pendular sobre a aproximação entre Flávio/Eduardo Bolsonaro e Trump.

O tema deixa de ser apenas segurança pública ou política externa e passa a tocar dimensões concretas: preço, comércio, empresas brasileiras, relação com os EUA, soberania e sistema de pagamentos usado no cotidiano.

O nível de conhecimento é decisivo. Entre os menos informados, o episódio ainda aparece confuso, técnico e pouco organizado. Entre os mais informados, cresce a percepção de conexão entre tarifaço, PIX, Casa Branca, Flávio, Eduardo e estratégia eleitoral. A lembrança do tarifaço anterior associado a Eduardo Bolsonaro é especialmente importante porque transforma o episódio atual em possível continuidade de uma ação familiar.

Lula tem oportunidade de ocupar a defesa da soberania e do PIX, mas enfrenta risco de tom. O eleitor quer firmeza, mas também serenidade, negociação e institucionalidade. A indignação pode ser lida como legítima por alguns, mas como deboche ou agressividade por outros. A melhor narrativa para o governo parece ser menos confronto pessoal com Trump e mais defesa concreta do Brasil, com negociação e apoio institucional.

Flávio preserva espaço entre eleitores que valorizam mudança e se impressionam com seu tom sereno. Mas sua proximidade com Trump se torna ambivalente: pode sugerir acesso e capacidade de negociação, mas também subordinação, cálculo eleitoral e risco ao interesse nacional. Quanto maior a informação, maior a suspeita de que ele ou o clã possam ter participado, facilitado ou se beneficiado da pressão externa.

O PIX surge como ponto de maior sensibilidade. O eleitor pode não compreender completamente uma tarifa comercial, mas entende o PIX. A hipótese de interferência externa no sistema é vista como improvável; caso se torne crível, porém, aparece como inadmissível. Usar crime organizado como justificativa para mexer no PIX seria percebido como traição, não como política de segurança.

Por fim, Dark Horse continua vivo. O tarifaço não apaga Vorcaro; pode se somar a ele. A percepção sobre Flávio passa a acumular camadas: corrupção, cinismo, proximidade com Trump, risco ao PIX e dúvida sobre sua real capacidade de defender o Brasil.

Quem está defendendo o Brasil e quem está usando a crise para eleição?

Quem consegue negociar com os EUA sem se submeter?

Quem protege o PIX, o emprego, o preço e a vida cotidiana?

Flávio tem influência real com Trump ou apenas proximidade simbólica?

Lula consegue defender a soberania sem parecer agressivo ou isolado?

O tarifaço é um episódio isolado ou parte de uma sequência
envolvendo Eduardo, Flávio e Trump?

O caso Vorcaro ficou para trás ou se soma ao tarifaço como mais uma suspeita?

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Diretores Participantes:

Direção de Relações Institucionais

Conselheiros Participantes:

Professora da UNIFESP e pesquisadora em Ciências Sociais

Pesquisadores Participantes:

Coordenação de Arte e Comunicação
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