Período da análise:
Publicações realizadas entre 20 de julho a 02 de agosto de 2026
Highlights
1. Bolsonarismo reativa narrativas sobre a pandemia no início da campanha eleitoral
As narrativas sobre a Covid-19 voltaram ao centro do debate político-religioso. Vídeos de Nikolas Ferreira e Eduardo Bolsonaro retomam desinformações já desmentidas para apresentar Jair Bolsonaro como vítima de perseguição e afirmar que o ex-presidente “sempre esteve certo” sobre vacinas, máscaras e medicamentos durante a pandemia.
2. Campanha eleitoral da extrema direita entra em ritmo acelerado
com forte discurso anti-Lula
O monitoramento identificou um crescimento expressivo de conteúdos que responsabilizam Lula e o PT pelos principais problemas estruturais do país. As publicações constroem a narrativa de que o Brasil atual seria consequência de cerca de vinte anos de governos petistas, antecipando o tom da disputa presidencial de 2026.
3. Segurança pública vira espetáculo digital na comunicação da extrema direita
Abordagens policiais, denúncias em comunidades, operações contra facções e resgates de pessoas em situação de vulnerabilidade tornaram-se alguns dos conteúdos de maior engajamento do período. O vídeo de Gabriel Monteiro liderou todo o ranking da quinzena com mais de 3,3 milhões de interações, ilustrando a centralidade do sensacionalismo policial como estratégia de mobilização política.
4. Esquerda evangélica aposta em outra agenda para disputar a audiência nas redes
Enquanto a extrema direita concentrou sua comunicação em segurança pública, agenda moral e ataques ao governo, os principais perfis da esquerda evangélica priorizaram democracia, justiça social, combate ao fundamentalismo religioso, justiça climática e formação cristã. Carlos Bezerra Jr., Marina Silva e Pastor Henrique Vieira lideraram essa estratégia, combinando linguagem digital contemporânea com valores democráticos e religiosos.
5. Narrativas de perseguição religiosa continuam sendo um dos principais motores
da mobilização evangélica
Além da retomada das narrativas sobre a pandemia, cresceram conteúdos que denunciam supostas ameaças à liberdade religiosa, envolvendo casos de pregações interrompidas, projetos de lei e conflitos entre Estado e igrejas. O tema permanece como um dos principais enquadramentos utilizados para mobilizar o eleitorado evangélico.
6. Campanhas de oração sinalizam início da mobilização religiosa para as eleições
No “Fique de Olho”, a convocação da pastora Valnice Milhomens para campanhas nacionais de oração aparece como um dos primeiros movimentos explícitos de mobilização religiosa no contexto eleitoral. O relatório indica que esse tipo de iniciativa tende a funcionar como mecanismo de ativação política das redes evangélicas durante a campanha.
7. Desinformação sobre pessoas trans ganha novo fôlego a partir do esporte
O principal caso de desinformação da quinzena envolveu a circulação de conteúdos sobre a jogadora norte-americana Sophie Cunningham. Publicações utilizaram imagens retiradas de outro contexto para reforçar discursos contra a participação de mulheres trans no esporte, exemplificando uma estratégia de desinformação baseada em falsa contextualização de imagens e na intensificação de discursos de ódio durante o período eleitoral.
Temas em destaque no segmento evangélico
Bolsonaro injustiçado: “a verdade” sobre a COVID
O segundo vídeo de maior alcance entre as lideranças políticas foi publicado pelo deputado Nikolas Ferreira, alcançando 1.196.624 interações. Na publicação, o parlamentar mobiliza a narrativa de que Jair Bolsonaro foi injustiçado durante a pandemia de Covid-19. O vídeo repercute uma audiência do médico e cientista Anthony Fauci no Senado dos Estados Unidos e a utiliza para sustentar que Bolsonaro teria tido razão em suas posições sobre o uso de máscaras, distanciamento social, vacinas e adoção de hidroxicloroquina e ivermectina no tratamento da Covid-19.
Por meio de uma sequência de recortes da audiência, na tentativa de passar fidelidade aos “fatos”, a publicação apresenta essas interpretações como “a verdade” sobre a pandemia, retomando narrativas já desmentidas por evidências científicas e órgãos de saúde. Em um dos trechos, o vídeo também afirma que tecidos de fetos abortados teriam sido utilizados no desenvolvimento das vacinas, mobilizando uma alegação recorrente em campanhas de desinformação sobre a imunização.
A mesma narrativa aparece em publicação de Eduardo Bolsonaro, alcançando 200.538 interações, com a legenda: “Os que criticaram ou de má-fé atrapalharam vão pedir desculpas?”. No vídeo, o deputado afirma que o mundo deveria pedir desculpas a Jair Bolsonaro, sustentando que o ex-presidente sempre esteve certo durante a pandemia. O conteúdo também defende que “genocidas” seriam aqueles que apoiaram a obrigatoriedade da vacinação, enquanto Bolsonaro teria defendido a liberdade de escolha. A publicação retoma narrativas antivacina e associa a revisão desse período à mobilização política do eleitorado bolsonarista, convocando os apoiadores a eleger Flávio Bolsonaro como forma de fazer justiça, viabilizando o retorno de Jair Bolsonaro ao poder.
Os dois conteúdos exemplificam a reativação de narrativas de desinformação sobre a pandemia de Covid-19, reinterpretando acontecimentos do período à luz da disputa política atual e buscando reconstruir a imagem de Jair Bolsonaro como vítima de perseguição e de injustiça histórica.
Radicalização do discurso da extrema direita:
do porte de armas à segurança das urnas
Com mais de 654 mil interações, o Pr. Anderson Silva, que ficou conhecido pelo movimento Machonaria e atualmente se apresenta como pré-candidato a deputado distrital pelo PSD no Distrito Federal, defende no post o porte e o uso de armas por homens cristãos, reforçando mensagem sobre masculinidade como capacidade de proteger a família e a disposição para enfrentar ameaças externas. O post, originalmente o corte de uma entrevista para o podcast Sem Limites, de Raul Ferreira Netto, tem esse alcance em uma collab com a página The Wise Man, que propaga conteúdos de teor masculinista cristão. A mesma gramática aparece em postagem do Pr. Teo Hayashi, onde afirma que “a masculinidade está sob ataque” e defende que ela teria sido “distorcida e enfraquecida” e que “o homem foi criado para ser forte, corajoso, provedor e protetor”.
O influenciador Ricardo Brasil, autodeclarado “profeta”, reforça a alegação de Flávio Bolsonaro de que as urnas brasileiras estariam sob escrutínio do governo dos EUA por suspeitas de fraude eleitoral, comandado pela China. Segundo Ricardo Brasil, a urna eletrônica seria “um sistema tecnológico comprovadamente vulnerável a invasões e manipulações por hackers”, e que o serviço de inteligência norte-americano estaria agindo para promover a alternância de poder, como tem acontecido na onda de candidatos de direita que vem sendo eleitos em outros países da América Latina.
Anti-lulismo em alta: a campanha começou
O aumento de publicações com ataques diretos ao governo Lula nos perfis de lideranças políticas da extrema direita dão o tom que a campanha eleitoral já começou nas redes.
Entre os conteúdos de maior repercussão, lideranças como Nikolas Ferreira, André Fernandes e Magno Malta concentram suas publicações na deslegitimação da gestão federal, mobilizando temas como pobreza, moradia, corrupção, endividamento da população e gastos públicos para reforçar uma imagem de fracasso do governo. Mais do que críticas à administração atual, os conteúdos constroem a ideia de que o Brasil de hoje seria resultado de aproximadamente vinte anos de governos liderados pelo PT, responsabilizando Lula por problemas estruturais como a precariedade da infraestrutura, a pobreza, a corrupção e a crise econômica.
Em um dos vídeos de maior alcance, Nikolas Ferreira utiliza um recorte de uma entrevista de Lula para questionar a situação da moradia popular, contrapondo a imagem histórica do presidente como “pai dos pobres” aos indicadores sociais de estados governados pelo PT. Em outra publicação, o deputado associa o programa de renegociação de dívidas do governo ao escândalo dos descontos indevidos em aposentadorias do INSS, combinando críticas ao endividamento da população com ataques aos gastos da Presidência e da primeira-dama, e finaliza provocando: “Você não odeia o Estado suficiente não”, ativando a narrativa anti-sistema.
O mesmo enquadramento aparece em diferentes perfis do campo bolsonarista. Magno Malta destaca na legenda que “o Brasil não aguenta mais quatro anos de Lula”, enquanto André Fernandes publica um vídeo intitulado “Minha resposta ao Lula”, repercutindo um trecho de uma entrevista de Lula em que debocha da imagem pública do deputado. Em sua resposta, menciona escândalos de corrupção e afirma que Lula está com medo do debate.
Em conjunto, as publicações analisadas mostram que o anti-lulismo permanece como um dos principais eixos de mobilização da direita evangélica nas redes, deslocando o debate eleitoral para um balanço retrospectivo dos governos petistas e atribuindo ao presidente a responsabilidade pelos principais problemas enfrentados pelo país.
Lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro
A reconciliação de Michelle e Flávio e a presença do presidente argentino Javier Milei na convenção do PL protagonizaram as narrativas sobre o lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro.
O vídeo de Michelle Bolsonaro aceitando as desculpas de Flávio ocupou o top 3 de maior engajamento com 932.757 de interações. No vídeo, ela reconhece a postura de um “homem de verdade”, convoca o exército de “pessoas de bem” para garantir sua candidatura e agradece nominalmente as amigas Damares Alves e Celina Leão, que trabalharam incansavelmente por essa reconciliação.
Outra publicação de Michelle, com 225.489 de interações, aparece com o mesmo conteúdo transcrito na legenda e com foto de Michelle e Flávio juntos. Somadas, as duas publicações registraram 1.158.246 interações, evidenciando a centralidade da reconciliação familiar como estratégia de mobilização da base bolsonarista.
A participação de Javier Milei no lançamento da campanha do Flávio foi destacada por perfis que mencionaram sua presença como um gesto de reconhecimento e apoio internacional ao projeto político de Flávio Bolsonaro. As publicações de Sandra Faraj, Cabo Gilberto Silva, Helio Fernando, Julia Zanatta e Eduardo Bolsonaro apresentam o evento como parte de uma articulação geopolítica da direita conservadora, associando a candidatura brasileira ao alinhamento com lideranças internacionais, mencionando, também, as manifestações de apoio atribuídas ao primeiro-ministro de Israel.
m uma publicação colaborativa, Sandra Faraj afirma que a repercussão internacional da candidatura demonstra que “o mundo enxerga uma disputa de ideias, valores e visões para o futuro”, reforçando a construção de uma narrativa que transcende o cenário político nacional.
Em menor proporção, também vale destacar a cena de Flávio Bolsonaro emocionado com o vídeo do irmão Carlos Bolsonaro, que repercutiu com mensagens de apoio e compromisso: “Estamos contigo futuro Presidente!”.
Sensacionalismo policial no debate sobre segurança pública da extrema direita
A segurança pública foi um dos principais temas mobilizados pelas lideranças da extrema direita no período, marcada por conteúdos de forte apelo sensacionalista que combinam denúncias, abordagens de rua e intervenções performáticas em territórios populares.
O principal destaque foi o vídeo de Gabriel Monteiro, que liderou o ranking geral de engajamento da quinzena com 3.331.840 interações. Na publicação, o influenciador acompanha uma abordagem policial a um homem em situação de rua, que relata ter atuado no filme Cidade de Deus e afirma enfrentar dependência de crack. Ao longo do vídeo, Gabriel assume o papel de mediador entre a polícia e o personagem, promete encaminhá-lo para uma clínica de reabilitação após “salvar três bebês” na maternidade que estão em frente e depois registra todo o deslocamento até a instituição. A narrativa é construída como uma história de redenção pessoal, combinando imagens emocionais, trilha sonora de louvor gospel e mensagens de superação e fé. O desfecho, marcado pela frase “Deus te abençoe”, reforça a associação entre assistência social, fé e protagonismo individual, produzindo um conteúdo que oscila entre reportagem policial, testemunho cristão e campanha política.
O mesmo enquadramento aparece em diferentes publicações de André Fernandes, que transforma ações de fiscalização e segurança em espetáculos de denúncia. Em um dos vídeos, o deputado afirma ter “desvendado” uma boca de fumo funcionando em uma banca da CEASA, aparece revistando um suspeito ao lado de policiais, dá voz de prisão e declara: “Se o governador não faz, eu vou fazer”, vinculando o episódio ao combate ao Comando Vermelho e responsabilizando diretamente o governo estadual.
Em outras publicações, denuncia supostas cidades controladas por facções criminosas, registra a localização de restos mortais em uma praia do Ceará e associa o avanço da criminalidade à omissão do poder público. Gabriel Monteiro também repercute operações contra ambulantes, questionando apreensões de mercadorias e apresentando-se como defensor dos trabalhadores informais diante da ação do Estado. Em conjunto, essas publicações evidenciam uma estratégia narrativa que desloca lideranças políticas para o centro de cenas de policiamento, fiscalização e resgate social, reforçando uma imagem de ação direta e imediata no enfrentamento ao crime e produzindo alto engajamento por meio da dramatização da violência urbana e da insegurança pública.
Temas relevantes para a esquerda evangélica
Entre os 50 posts de maior engajamento, que somaram 1.685.887 interações, observa-se uma agenda bastante distinta daquela predominante entre os perfis da extrema direita. Em vez de concentrar a mobilização em pautas de segurança pública, agenda moral e denúncias de perseguição religiosa, a esquerda evangélica distribuiu seu engajamento entre conteúdos de campanha eleitoral, formação cristã, justiça social, democracia, combate ao fundamentalismo religioso e temas do cotidiano.
O principal destaque do período foi Carlos Bezerra Jr., responsável por 750.637 interações, o equivalente a cerca de 44,5% de todo o engajamento do ranking. Sua comunicação combina referências à cultura digital, ao futebol e à linguagem dos reels com temas políticos, como o combate às apostas esportivas, participação em debates públicos e o lançamento de sua candidatura à Câmara Federal. Em seguida aparece Marina Silva, com 241.222 interações, concentradas na oficialização de sua candidatura ao Senado por São Paulo, na defesa da reeleição do presidente Lula, da democracia, da justiça climática e de uma compreensão da fé desvinculada da instrumentalização político-partidária.
Também se destacam Pastor Henrique Vieira (109.477 interações), que articula sua campanha eleitoral à defesa do Estado laico, dos direitos trabalhistas, da democracia e ao enfrentamento do fundamentalismo religioso; Aava Santiago (120.718 interações), com críticas à misoginia e à extrema direita; e Caio Fábio (92.624 interações), que mantém uma agenda crítica à instrumentalização política da religião, ao neopentecostalismo e ao bolsonarismo religioso, fazendo críticas diretas a Flávio Bolsonaro e lançando mão de sua autoridade espiritual como destaca a legenda: “Minha resposta não é política partidária. É uma reação de repúdio espiritual. Essa casa já caiu. Assista as consequências”.
De maneira geral, o ranking evidencia que a esquerda evangélica disputa o espaço público por meio de uma combinação entre valores democráticos, justiça social, formação teológica e comunicação digital contemporânea.
20 lideranças políticas com identidade evangélica
com maior engajamento no período
(por postagem única)
| Liderança Política | Partido político | Interação | |
|---|---|---|---|
| 1 | Gabriel Monteiro | PL | 3.331.840 |
| 2 | Nikolas Ferreira | PL | 1.196.624 |
| 3 | Michelle Bolsonaro | PL | 932.757 |
| 4 | Flávio Bolsonaro | PL | 665.096 |
| 5 | André Fernandes | PL | 551.276 |
| 6 | Carlos Bezerra Jr. | PSD | 311.285 |
| 7 | Robson Calabianqui | PL | 245.243 |
| 8 | Kim Kataguiri | MISSÃO | 213.934 |
| 11 | Eduardo Bolsonaro | PL | 200.538 |
| 12 | Sandra Faraj | PL | 180.459 |
| 13 | Cabo Daciolo | MOBILIZA | 174.376 |
| 14 | Pablo Marçal | UNIÃO | 161.602 |
| 15 | Abilio Brunini | PL | 158.181 |
| 16 | Cabo Gilberto Silva | PL | 136.731 |
| 17 | Maguinha Malta | PL | 130.052 |
| 18 | Helio Fernando Barbosa Lopes | PL | 126.081 |
| 19 | Ana Campagnolo | PL | 119.576 |
| 20 | Magno Malta | PL | 107.333 |
20 lideranças políticas com identidade evangélica
com maior engajamento no período
(por número total de interações)
| Liderança Política | Partido político | Interação | |
|---|---|---|---|
| 1 | Flavio Bolsonaro | PL | 5.587.072 |
| 2 | Gabriel Monteiro | PL | 4.048.228 |
| 3 | Nikolas Ferreira | PL | 3.741.601 |
| 4 | Eduardo Bolsonaro | PL | 2.754.860 |
| 5 | Cabo Gilberto Silva | PL | 1.935.788 |
| 6 | Kim Kataguiri | MISSÃO | 1.611.716 |
| 7 | Deltan Dallagnol | NOVO | 1.576.147 |
| 8 | Helio Fernando Barbosa Lopes | PL | 1.502.075 |
| 9 | Pablo Marçal | UNIÃO | 1.488.073 |
| 10 | Michelle Bolsonaro | PL | 1.284.415 |
| 11 | André Fernandes | PL | 1.256.526 |
| 12 | Carlos Bezerra Jr. | PSD | 1.020.363 |
| 13 | Magno Malta | PL | 919.993 |
| 14 | João Henrique Campos | PSB | 686.791 |
| 15 | Julia Zanatta | PL | 620.326 |
| 16 | Marcel Van Hattem | PL | 510.050 |
| 17 | Ana Campagnolo | PL | 506.933 |
| 18 | Abilio Brunini | PL | 499.489 |
| 19 | Marina Silva | REDE | 418.361 |
| 20 | Robson Calabianqui | PL | 363.635 |
🔎 Análise sobre os rankings das lideranças políticas
Diferente de semanas anteriores, nos rankings deste período houve predominância de lideranças vinculadas ao campo da direita. Os conteúdos das postagens que reuniram as maiores métricas se tratam majoritariamente de críticas ao presidente Lula, dividindo-se com postagens relacionadas à campanhas divulgadas pelos próprios candidatos aos pleitos nos quais concorrem.
Ranking de perfis evangélicos
🔎 Análise sobre os rankings gerais
Conteúdos sobre a copa do mundo tomaram diferentes caminhos entre influenciadores e portais de notícias gospel. De um lado, houve postagens sugerindo possíveis vínculos entre casas de apostas e jogadores da seleção brasileira. Pela primeira vez, perfis de influenciadores como Jonathan Nemer, Fabiola Melo e Missionária Edméia Williams apareceram. O caso da Missionária é o único que não esteve relacionado ao tema do futebol, trazendo um vídeo em que ela realiza uma pregação no púlpito de uma igreja sobre a relação de fé entre mães e filhos. Durante esse período, houve maior equilíbrio entre os engajamentos registrados para lideranças políticas e influenciadores evangélicos.
Estratégias narrativas de desinformação
Transfobia no esporte
Notícias sobre a jogadora de basquete estadunidense Sophie Cunningham repercutiram após suas falas públicas durante uma entrevista sobre a participação de mulheres trans no esporte. A atleta, que indicou ser a favor de que competições femininas sejam apenas para “mulheres biológicas”, associou a presença de mulheres trans nos vestiários à falta de segurança para mulheres cisgênero.
O pertencimento religioso alinhado ao cristianismo evangélico de Cunningham foi lembrado por portais de notícias gospel como o Adoradores na Net, que soma mais de 2,7 milhões de seguidores em seu perfil do Instagram, que também elogiou o posicionamento da jogadora e sua manutenção mesmo após críticas da opinião pública.
Estratégia de desinformação: notícias divulgadas em favor de Sophie Cunningham estiveram acompanhadas da imagem de seu dedo em riste, retirada de um vídeo que mostra a atleta interagindo com oponentes em quadra. O gesto corporal de Cunningham esteve direcionado a duas atletas negras cisgênero, e circula amplamente como recorte de uma interação que não se relaciona ao comentário contra mulheres trans feito pela atleta em entrevista. A falsa atribuição parte de associações enganosas relacionadas à radicalização de discursos de ódio contra pessoas trans que circulam nas redes evangélicas durante o contexto eleitoral.
Fique de olho
Campanhas de Oração pelas Eleições
A chamada por uma campanha de oração, feita pela Pastora Valnice Milhomens em suas redes sociais, marca o início de um posicionamento mais explícito de lideranças religiosas no período eleitoral. Embora já tenha indicado em entrevistas seu apoio a Flávio Bolsonaro, sua posição nas redes sociais a partir da chamada indica a continuidade de sua presença em amplas mobilizações eleitorais, como já registrado em campanhas de oração anteriores “pela nação” e em apoio a Jair Bolsonaro.
A mensagem deixada pela pastora convoca seus seguidores a acompanhá-la em oração em uma live no instagram. Sua combinação entre narrativas de fé e o campo da política se expressa em aparições recorrentes da pastora vestindo cores da bandeira do Brasil em suas pregações no púlpito de diversos eventos evangélicos, repercutindo sua convocação pela “união da igreja” e “discernimento aos eleitores”.
Escalada de discursos sobre perseguição religiosa
Vídeos exibindo momentos de interrupção de uma pregação por agentes da Guarda Civil Municipal, repercutiram através de perfis de influenciadores e mídias evangélicas como o Portal Gospel Mais Brasil, com 755 mil seguidores. O episódio, envolvendo um pastor e um pequeno grupo de fiéis em uma praça no centro de São Paulo, gerou debates sobre liberdade religiosa e os limites da atuação do Estado em espaços públicos, ocasionando críticas divididas entre o governo “de esquerda” de Lula e, em menor medida, cobranças ao prefeito e ao governador de São Paulo.
A discussão mobilizou lideranças em defesa da liberdade religiosa, como os pastores Marco Feliciano e Junior Trovão, que manifestaram apoio junto a outras denúncias. As mobilizações ocorreram em continuidade às narrativas de “perseguição aos cristãos” na Nigéria registradas em relatório anterior, bem como relativas ao caso de um empresário que foi processado pelo Ministério Público por “permitir oração em sua empresa”.
Racismo religioso contra imigrantes
A circulação de imagens de centenas de marroquinos adentrando a cidade de Ceuta, fronteira entre Marrocos e Espanha, ocupou diferentes perfis de lideranças evangélicas nos últimos dias. Análises em formato “react” sobre o evento indicaram opiniões contrárias ao que chamaram de “invasão muçulmana” e as “ameaças à segurança mundial” geradas pelo ocorrido. As mensagens acompanharam críticas ao “financiamento da esquerda à invasão da Europa” e associaram o contexto à batalha espiritual travada contra cristãos, além de propagar “alertas para a perda de controle das fronteiras do Estado”.
Notas metodológicas
A pesquisa foi realizada em 573 perfis (Instagram, YouTube, X, TikTok e Facebook) de lideranças religiosas e políticas, organizações, mídia e influenciadores evangélicos, a partir de busca no Data Lake do Instituto Democracia em Xeque. Foram gerados 18.231 resultados, concentrando 101.728.004 de interações durante o período analisado para o ecossistema evangélico até o fechamento deste relatório.
O critério utilizado para a coleta de dados relativos aos temas de destaque no ecossistema evangélico foi baseado em análise qualitativa das 50 (cinquenta) postagens com maior número de interações durante o período selecionado, dos respectivos perfis funcionais: lideranças políticas, lideranças religiosas, outros perfis (influenciadores, artistas, mídia evangélica e igrejas e iniciativas), e uma busca por lideranças religiosas e políticas do campo da esquerda, totalizando 200 (duzentas) postagens analisadas. A classificação funcional dos perfis considera sua principal atuação nas redes sociais, reconhecendo que muitos dos atores monitorados exercem múltiplas funções e ocupam diferentes espaços de influência.
Com base na análise das narrativas presentes nas publicações de maior engajamento, foram identificados os principais temas situados nas fronteiras entre religião e política, foco central deste relatório. A partir desses resultados, foram realizadas buscas complementares no Data Lake do Instituto Democracia em Xeque, utilizando-se palavras-chaves relacionadas às narrativas identificadas, ampliando a compreensão sobre sua circulação no ecossistema monitorado. Como critério adicional, também foi realizada pesquisa por menções de temas em destaque através de hashtags postadas por perfis públicos, ocasionando em achados de perfis de identidade evangélica não previamente listados no Data Lake.
As lideranças religiosas foram mantidas junto a influenciadores, artistas, igrejas e portais de notícias gospel em ranking separado, seguindo modelo adotado para os outros relatórios. Por fim, as análises apresentadas também incorporam a leitura contextual e analítica sobre o campo evangélico, articulando dados do monitoramento com a análise ampliada das narrativas em circulação. Considerou-se, nesse sentido, manter o destaque fornecido a partir do último relatório sobre as atuações entre lideranças políticas e religiosas alinhadas ao campo da esquerda evangélica, além do novo critério para ranqueamento de lideranças políticas também modificado a partir da última versão.
A seção Fique de Olho não segue, necessariamente, os mesmos critérios metodológicos adotados no monitoramento. Trata-se de um espaço destinado a destacar temas que estejam repercutindo nas redes sociais e na imprensa às vésperas da publicação do relatório, bem como assuntos que, embora apresentem menor engajamento no monitoramento, revelem alta relevância narrativa para compreender as dinâmicas entre religião e política ou potencial de impacto no debate público.
Expediente
Narrativas evangélicas e contexto eleitoral (08.07.2026)
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TEXTO DA LICENÇA: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/legalcode
Como citar este relatório:
SOUZA, Leon; CONRADO, Flávio; LAÍS, Andréa; MOCHEL, Lorena; CAPONE, Letícia; ALVES, Marcelo. Casa Galileia; Instituto Democracia em Xeque. Narrativas evangélicas e contexto eleitoral (05.08.2026). Disponível em: <https://institutodx.org/narrativasreligiosas/nreligiosas5>.
Equipe do relatório | Casa Galileia
Diretor Executivo: Leon Souza
Diretor de Campanhas: Flávio Conrado.
Coordenação e pesquisa: Andréa Laís.
Pesquisa: Lorena Mochel.
Parceria Democracia em Xeque | Monitoramento Data Lake do DX
Direção Executiva: Fabiano Garrido.
Direção de Pesquisa: Letícia Capone.
Direção de Metodologia e Inovação: Marcelo Alves.
Projeto gráfico: Moara Juliana e Júlia Cristofi
