Período da análise:
Publicações realizadas entre 31 de agosto a 13 de setembro de 2026.
Highlights
Crise no STF coloca Mendonça e Moraes no centro das narrativas de fé bolsonaristas
A crise envolvendo os ministros é reinterpretada nas redes evangélicas bolsonaristas por meio de profecias, orações e referências bíblicas. Mendonça passa a ser apresentado como escolhido e instrumento de Deus, enquanto Moraes é associado ao campo do adversário espiritual.
Contra-campanha anti-Lula ganha força entre lideranças religiosas e se articula a novos apoios a Flávio Bolsonaro
A proximidade do primeiro turno amplia declarações explícitas de voto em Flávio Bolsonaro e mobilizações contra Lula. Pastores como Cláudio Duarte e Valnice Milhomens combinam voto, pautas morais e guerra espiritual na convocação do eleitorado evangélico.
André Janones amplia presença nas redes das esquerdas com comunicação marcada por confronto e urgência
Com 151 publicações e mais de 5 milhões de interações, Janones retorna às posições de destaque entre lideranças políticas evangélicas. Sua estratégia combina defesa de Lula, ataques ao bolsonarismo e mobilização em torno de pautas como o fim da escala 6×1.
Esquerdas evangélicas disputam o significado político da fé em meio à mobilização eleitoral
Henrique Vieira, Aava Santiago, Benedita da Silva e Marina Silva articulam religião, democracia, justiça social e proteção dos vulneráveis em contraposição ao uso eleitoral de símbolos cristãos pelo bolsonarismo.
Direita evangélica mantém predominância entre as lideranças de maior engajamento
Nikolas Ferreira, Flávio Bolsonaro e Magno Malta concentram os maiores volumes de interações no período, enquanto a presença de importantes lideranças religiosas como Cláudio Duarte amplia a circulação de conteúdos políticos no ecossistema evangélico.
“Modo Nepal” reaparece como referência de radicalização contra instituições
Perfis evangélicos alinhados à extrema direita recuperam imagens e discursos associados aos protestos que derrubaram o governo nepalês em 2025 para expressar insatisfação com instituições brasileiras. O STF aparece como principal alvo dessa mobilização.
Apoio a Augusto Cury sofre reação entre segmentos do eleitorado evangélico
Após declarações anteriores de apoio, parte dos perfis religiosos passa a manifestar arrependimento e associar Cury à esquerda. As críticas também recuperam a trajetória de Marina Silva como referência para questionar sua candidatura.
Temas em destaque no segmento evangélico
Crise no STF coloca conflito entre Mendonça e Moraes no centro das narrativas de fé bolsonaristas
Se, até este momento do monitoramento, vinham sendo observados discursos mais tímidos e posicionamentos eleitorais menos explicitamente articulados à fé em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro, a crise no STF envolvendo os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes no caso Master passou a mobilizar com mais intensidade narrativas que articulam política, religião e uma leitura espiritual dos acontecimentos entre lideranças políticas e religiosas alinhadas ao bolsonarismo. A partir desse episódio, a disputa institucional é reconfigurada nas redes por meio de uma gramática religiosa que mobiliza profecias de justiça divina, oração, providência, personagens bíblicos e a ideia de uma batalha entre o bem e o mal, atribuindo a Mendonça um papel providencial e posicionando Moraes no campo do adversário moral e espiritual. Entre as principais narrativas identificadas na quinzena, destacam-se:
Vínculos de Moraes no caso Master reacendem as profecias de justiça divina
As repercussões envolvendo Alexandre de Moraes no caso Master e os atos de 7 de setembro reativaram entre perfis bolsonaristas uma narrativa profética sobre os rumos do Brasil, colocando a disputa em torno do STF em diálogo com mensagens religiosas que já vinham sendo mobilizadas meses antes. Pastor Silas Malafaia, Bispa Sônia Hernandes e pastora Valnice Milhomens protagonizaram parte dessas repercussões, nas quais André Mendonça é apresentado como instrumento de Deus e símbolo de uma possível restauração da justiça, enquanto a queda de adversários políticos e institucionais é interpretada como resultado da ação divina. O movimento é particularmente relevante no contexto eleitoral porque transforma acontecimentos da conjuntura política em sinais de uma intervenção de Deus sobre os destinos da nação, reativando profecias sobre “justiça”, “queda dos ímpios” e um futuro de vitória para o campo identificado como cristão e conservador.
Há, inclusive, uma retomada explícita de uma profecia compartilhada por Valnice Milhomens cerca de cinco meses antes, durante a Vitoriosas Conference (publicação que foi excluída pelo perfil adoradores da net com alcance de 337.973), na qual a pastora apresentava Mendonça como alguém por meio de quem Deus estaria agindo, mesmo diante de seu suposto isolamento no Judiciário, como está explicitado na legenda: “a pastora Valnice Milhomens compartilhou uma revelação poderosa sobre o cenário espiritual que envolvia o Brasil. Ela destacou como Deus agia por meio do pastor presbiteriano e ministro do STF”. Na publicação que voltou a circular, a mensagem é reinterpretada à luz dos acontecimentos recentes e apresentada como confirmação de que Deus estaria conduzindo a história brasileira e de que a justiça divina poderia se traduzir também em restauração da “justiça dos homens”: “Diante de tudo o que se desenrolou na república em Brasília, tornou-se evidente que o Senhor permaneceu soberano sobre a história, conduzindo os destinos da nação, mesmo nas horas em que tudo parecia perdido. E agora, os últimos acontecimentos reacenderam a esperança dos brasileiros”.
Silas Malafaia, por sua vez, recupera uma mensagem profética dirigida a Alexandre de Moraes, publicada originalmente em 7 de setembro de 2025. No vídeo, o ministro é colocado em confronto direto com Deus através do pastor: “Tu vens a mim com a toga, o seu poder e a sua justiça. Porém, eu venho a ti em nome do Deus todo poderoso”, seguida da afirmação de que Deus o “derrotaria no tempo certo”. A mensagem associa ainda a queda de “homens injustos” à promessa de que “a justiça será feita” e afirma que “o Brasil não vai virar a Venezuela”. A circulação desse conteúdo no contexto atual reaproxima a conjuntura política de uma profecia anterior, reforçando a leitura de que acontecimentos recentes seriam evidências de seu cumprimento. Também vale mencionar que Malafaia aumentou seu alcance nas redes desde que voltou a atacar o ministro Alexandre de Moraes, e fazer mais publicações comentando a crise no STF em torno dos conflitos que envolvem Mendonça e Moraes.
Já a participação da Bispa Sônia Hernandes nos atos de 7 de setembro, na Avenida Paulista, acrescenta outra camada a essa narrativa, numa publicação também do perfil Adoradores na Net. Segundo a publicação que repercutiu o momento, a bispa realizou um ato profético pela nação, orou por André Mendonça e afirmou que, nas próximas eleições, “as trevas não vão ocupar nenhum cargo no país”. A manifestação conecta diretamente a disputa institucional no STF à disputa eleitoral, deslocando o conflito político para uma gramática espiritual de luz e trevas, na qual a eleição passa a ser apresentada também como espaço de enfrentamento entre forças espirituais.
André Mendonça como resposta de oração da igreja brasileira e instrumento de Deus
A ascensão de André Mendonça nas narrativas bolsonaristas também passa a ser interpretada a partir de uma gramática religiosa de oração, providência e intervenção divina. Em diferentes publicações, lideranças religiosas não apenas manifestam apoio ao ministro, mas o apresentam como alguém cuja atuação estaria relacionada à oração e à missão da igreja brasileira. O movimento ganha uma dimensão coletiva com publicações do apóstolo Estevam Hernandes, da bispa Sônia Hernandes que passam a mobilizar suas comunidades em torno de Mendonça. Em uma publicação, Estevam afirma que é amigo e irmão do ministro, destacando seu respeito por sua “fé, caráter e integridade” e pedindo que Deus lhe conceda “sabedoria, coragem e firmeza” para cumprir sua missão, também convocando uma corrente de oração por André Mendonça. Em outra, em colaboração com Sônia Hernandes, a mensagem é direta: “Ministro André, nós estamos com você!”, acompanhada de um vídeo de toda a igreja de mãos dadas durante o culto, reforçando visualmente a ideia de uma comunidade religiosa reunida em oração e apoio ao ministro.
Essa construção aparece de maneira ainda mais explícita nos conteúdos de Cláudio Duarte. Em vídeo com 1.049.813 de alcance, o pastor convoca os brasileiros a se posicionarem contra o governo Lula e afirma que a responsabilidade pelo futuro do país não deve ser depositada em um único indivíduo, citando André Mendonça entre as figuras que vêm ganhando projeção. Em outro vídeo, com 461.705 de alcance, ao responder às críticas de que estaria misturando religião e política, Cláudio afirma que fala “como cidadão” e defende que os brasileiros votem conscientemente contra Lula. Embora rejeite a ideia de “salvador da pátria”, a narrativa se articula à valorização de Mendonça como uma liderança cuja trajetória pode adquirir dimensão nacional.
Essa narrativa também aparece de forma particularmente explícita em uma publicação de Michelle Bolsonaro, que recupera o período da indicação de Mendonça ao STF para afirmar que, durante um retiro espiritual, orou por sua vida e recebeu de Deus a confirmação de que ele chegaria ao tribunal. Segundo seu relato, em uma “salinha de consagração”, teria tido uma visão de Mendonça entrando no STF “com uma nuvem branca sobre a sua cabeça” e interpretado a posterior confirmação da indicação como o cumprimento de uma palavra divina. Ao chamá-lo de “escolhido e ungido do Senhor” e afirmar que “a amada Igreja o ama”, Michelle amplia a narrativa para além da trajetória individual de Mendonça: sua presença no STF é apresentada como resultado da oração e da ação de Deus, enquanto a igreja é convocada como comunidade de intercessão e apoio.
Em outro conteúdo repercutido pela rede Adoradores na Net, Cláudio Duarte estabelece uma comparação direta entre Mendonça e Jair Bolsonaro, apresentada a partir do papel da oração da igreja na trajetória política de ambos. Ao mencionar que Mendonça pediu orações à igreja brasileira, o pastor afirma que é preciso observar “onde o nome desse moço vai chegar e o que será capaz de fazer”, dirigindo-se às pessoas que acreditam em Deus e no poder da oração. A própria legenda da publicação original sintetiza essa possibilidade ao questionar: “Estão criando outro mito?”. A narrativa desloca, assim, Mendonça de sua posição institucional no STF para o lugar de uma figura de potencial projeção política, cuja ascensão é interpretada como possível resultado da ação e da intercessão da igreja.
O conjunto das publicações sugere uma mudança importante na forma de enquadrar Mendonça: de ministro do STF associado a uma disputa institucional, ele passa a ser representado também como homem de fé, alvo da oração da igreja e potencial instrumento de uma intervenção divina sobre os rumos do país. A participação de comunidades religiosas nessa construção amplia o alcance da narrativa, transformando o apoio individual de lideranças em uma demonstração pública e coletiva de solidariedade, oração e identificação com o ministro.
Mendonça como Daniel na cova dos Leões
Personagens com papel público na história do Israel bíblico costumam ser lembrados por pastores evangélicos em analogias com acontecimentos políticos. O Ministro André Mendonça foi comparado a Daniel, cuja história mais emblemática foi ter sido jogado pelo rei Dario em uma cova de leões, por artimanha de seus opositores. O teólogo e apologeta presbiteriano Caio Modesto afirma que André Mendonça estaria vivendo dias de Daniel, e em forma de oração, pede “Que Deus o livre dos leões ferozes do STF“.
Mendonça, o escolhido versus Moraes, o pecador
O vídeo compartilhado por André Mendonça agradecendo pelas orações recebidas ao longo do período de intensificação da crise no STF recebeu diversas manifestações de apoio entre lideranças políticas evangélicas. Entre os posicionamentos favoráveis, predominou a onda de pedidos de continuidade nas orações pelo ministro. Os pedidos se dividiram entre dois lados: de um, a ideia de que André Mendonça estaria correndo risco de vida e, do outro, de que ele estaria sofrendo perseguição diante de seus posicionamentos contra “os abutres do supremo tribunal federal”. Especialmente no confronto com Alexandre de Moraes, lideranças políticas e religiosas, além de influenciadores evangélicos, recorreram ao repertório da batalha espiritual para sustentar posições que apresentavam Mendonça como escolhido de Deus, e Moraes como pecador.
Enquanto Mendonça é apresentado a partir de qualificações como herói nacional, pastor levantado por Deus, cristão fervoroso, homem de Deus, perseguido e injustiçado, Moraes recebe a alcunha de autoritário e corrupto, e esteve associado em diversas imagens que ilustram vídeos a favor de Mendonça como figura demoníaca. Na personificação da luta do bem contra o mal, Moraes é acusado de agir com mentira e falsidade, enquanto André Mendonça é descrito como um homem solitário e acuado, que tenta defender o bem. Entre os pedidos de oração mobilizados a favor de Mendonça nas narrativas evangélicas, prevalece a narrativa de que Moraes sofrerá sanções de um Deus vingativo. A batalha espiritual, nesse sentido, situa a crise no STF como ataque ao povo de Deus.
Ao ser exaltado como herói nacional por lideranças políticas evangélicas, Mendonça teve sua atuação no STF associada à passagens bíblicas por Magno Malta, que proferiu uma citação adaptada do Livro de Ester: “Quem sabe, para este tempo, foste colocado aí neste lugar”. Outras lideranças evangélicas, como Lucas Pavanato, alertaram para a necessidade da oração pelos riscos de vida que o ministro estaria sofrendo, citando casos como os de Celso Daniel e Teori Zavascki para ilustrar possíveis atentados políticos que Mendonça poderia vir a sofrer nos próximos dias.
A atribuição de “cristão autêntico e verdadeiro” para Mendonça foi defendida por Marco Feliciano, que também ressaltou sua coragem para reagir às injustiças e perseguições. O deputado relembrou acusações que o ministro teria sofrido ao ser chamado de “terrivelmente evangélico”, atribuindo-as à “esquerda intelectualizada” e à grande imprensa. Feliciano indica que, desta vez, a perseguição estaria ocorrendo devido à oposição de Mendonça a Alexandre de Moraes. A defesa do ministro é classificada pelo deputado como um apelo à democracia e à ideia de que a oração pode ser praticada por todos, pois “oração não tem partido”.
Alexandre de Moraes é evocado também a partir da história do rei Belsazar, da Babilônia, no livro de Daniel, capítulo 5, onde uma mão escreve uma frase na parede, que só Daniel consegue decifrar: Mene, mene, Tequel, Parsim (“Pesado foste na balança, e foste achado em falta”). O pastor Anderson Silva menciona essa passagem numa analogia a uma suposta embriaguez do poder do ministro do STF, razão pela qual estaria sendo “interditado em suas sandices”. Já Israel Santos, pregador pentecostal, lembra a imagem dos ministros rindo para afirmar sobre Alexandre de Moraes: “nenhuma cadeira torna alguém intocável diante de Deus.”
Contra-campanha intensifica discurso anti-Lula entre lideranças religiosas e fortalece apoios a Flávio Bolsonaro
Há poucas semanas do primeiro turno das eleições, aumenta a quantidade de lideranças evangélicas que passaram a tornar explícito seu alinhamento eleitoral com candidatos. Esse foi o caso do Apóstolo Estevam Hernandes, que declarou seu voto em Flávio Bolsonaro em duas postagens compartilhadas nos últimos dias. Além de Hernandes, a presença de Flávio na Igreja Celeiro, liderada pelo Pastor André Fernandes, e na Igreja Mundial do Poder de Deus, liderada pelo Apóstolo Valdemiro Santiago, também se destacaram entre apoios públicos em direção à sua candidatura presidencial.
A página de notícias Pleno News também se destacou na campanha pró Flávio Bolsonaro numa publicação que mostra Flávio atendendo ligações por vídeo de apoiadores, em clima descontraído, após vazamento do seu número de celular por conta da quebra de sigilo do caso Master. A publicação chama atenção por transformar os vínculos do presidenciável com Vorcaro em uma pauta positiva de campanha.
Além das declarações de apoio, também se intensificou uma campanha contra o voto em Lula, com mensagens diretas de “LULA NÃO”, tendo o pastor Cláudio Duarte como um dos expoentes dessa contra-campanha nas redes. Nesse vídeo, que alcançou 1.049.813 pessoas, o pastor convoca o público a se posicionar sem medo contra o atual governo. Vale destacar uma mudança na narrativa em comparação a 2022: enquanto naquele contexto Cláudio Duarte afirmava a vitória bolsonarista, neste pleito convoca o eleitorado a assumir a responsabilidade e se posicionar por meio do voto, sem fazer promessas ou previsões sobre o resultado: “Se vamos vencer ou não, não é relevante, o importante é se posicionar”.
O pastor também recorre à Bíblia para exortar os fiéis, citando: “Aquele que sabe fazer o bem e não faz, comete pecado”, e afirma que o futuro da nação está em jogo, em referência também aos escândalos envolvendo o STF. Em outro vídeo, já citado neste relatório, Cláudio Duarte encerra a fala recorrendo a uma alegação não comprovada sobre a fé religiosa do atual presidente, ao afirmar: “E que Deus abençoe a nossa nação, já que nosso presidente sequer acredita em Deus”.
Como parte dessa contra-campanha, Valnice Milhomens também se destacou com um vídeo gravado durante uma pregação, no qual exorta fiéis que frequentam a igreja, mas votam em um governo que ela caracteriza como comunista e associado ao apoio ao aborto e às drogas. Vestida com uma camisa com a frase “Ore pelo Brasil”, a pastora afirma que “a Bíblia não mudou”, critica o que considera uma aproximação dos crentes aos “padrões do mundo” e sustenta que não adianta orar quando “Satanás tem trunfo na nossa vida”. A fala articula, assim, voto, guerra espiritual e pautas morais como elementos de mobilização política do eleitorado religioso, retomando uma narrativa já presente no campo evangélico que questiona a possibilidade de conciliação entre a identidade cristã e o voto em candidaturas de esquerda. Essa construção aparece de forma explícita quando afirma “você vê que o povo que diz que é crente e vota em governo comunista” e se aprofunda ao questionar se esses fiéis “nasceram de novo”, mobilizando a experiência de conversão como critério para colocar em dúvida a autenticidade da identidade cristã daqueles que fazem essa escolha eleitoral.
André Janones entra na guerra eleitoral e agita esquerdas evangélicas
O fenômeno quantitativamente mais importante da quinzena é André Janones, candidato a deputado federal pela Rede, em Minas Gerais. Foram 151 posts, acumulando 5 milhões de interações. Sua comunicação se radicaliza em torno de uma gramática de guerra, urgência e convocação: “PRA CIMA DELES PORRA! É GUERRA!”, “EXPLODAM PRO BRASIL INTEIRO”, “tô disposto matar ou morrer”. O conteúdo circula entre ataques a Flávio Bolsonaro, André Mendonça e Nikolas Ferreira, defesa de Lula e exploração intensa da crise envolvendo o Banco Master, o STF e a Polícia Federal. Só o post “PRA CIMA DELES PORRA! É GUERRA!” alcançou 382,6 mil interações, e sua publicação sobre a escala 6×1 chegou a 336,8 mil.
Um caso revelador é a sequência envolvendo Nikolas Ferreira. Janones publicou um “direito de resposta” e depois uma “retratação”, ambos altamente viralizados, após reconhecer informações inverídicas que havia divulgado sobre Nikolas e Daniel Vorcaro. A própria retratação virou novo conteúdo de disputa política, mostrando como correção, erro e confronto são incorporados à lógica de engajamento capitaneado por Janones.
Temas relevantes para a esquerda evangélica
No recorte das lideranças identificadas com as esquerdas, André Janones concentra os maiores alcances da quinzena, com uma comunicação marcada pelo confronto direto com o bolsonarismo e pela mobilização em torno da reeleição de Lula. Entre suas publicações de maior alcance estão conteúdos sobre o fim da escala 6×1, críticas a Flávio Bolsonaro, embates com Nikolas Ferreira e a disputa envolvendo André Mendonça, além de uma publicação que anuncia a reeleição de Lula, com 298.356 interações. O perfil também recorre de forma recorrente a uma linguagem de urgência, conflito e polarização — “É guerra”, “Explodam”, “Urgente” – aproximando a comunicação eleitoral de uma lógica de enfrentamento permanente. Benedita da Silva e Marina Silva aparecem em seguida entre os perfis com maior alcance, concentrando conteúdos de mobilização eleitoral, apoio a Lula e divulgação de suas candidaturas ao Senado.
Entre os temas em circulação, a disputa eleitoral é atravessada por pautas sociais e institucionais, com destaque para o fim da escala 6×1, investigações envolvendo figuras do campo bolsonarista, atuação do STF e defesa da democracia. A escala 6×1 aparece como uma pauta de mobilização particularmente relevante para Janones, enquanto Henrique Vieira explora denúncias e questionamentos sobre Flávio Bolsonaro, André Mendonça e Alexandre de Moraes. Nesse último caso, o pastor defende que “se há indícios, tem que investigar. Se houver crime, tem que responsabilizar”, construindo uma narrativa de responsabilização que, em princípio, busca aplicar o mesmo critério a atores de diferentes campos políticos.
No eixo propriamente religião e política, a principal disputa aparece na tentativa de reivindicar uma leitura cristã alternativa à mobilizada pelo bolsonarismo. Henrique Vieira utiliza referências a Jesus e à tradição cristã para questionar a coerência entre o discurso religioso e as práticas políticas de seus adversários. Em um dos conteúdos, ao criticar Flávio Bolsonaro, recupera a passagem sobre aqueles que “devoram a casa das viúvas enquanto fazem longas orações.” e complementa: “Quem pede voto em nome de Deus e da família tem obrigação de explicar isso. Aava Santiago, por sua vez, questiona diretamente o uso eleitoral do lema “Deus, Pátria e Família”, argumentando que a fé das comunidades evangélicas estaria sendo transformada em capital eleitoral.
Assim, a comunicação das esquerdas evangélicas no período combina forte mobilização eleitoral e confronto direto com o bolsonarismo com uma disputa pelo significado político da fé. Enquanto Janones concentra o maior volume de conteúdos de enfrentamento e mobilização, Benedita e Marina investem em uma comunicação eleitoral mais diretamente vinculada às candidaturas, e Henrique Vieira e Aava Santiago ocupam um espaço importante na disputa de narrativas sobre religião, democracia e valores. O conjunto revela uma estratégia narrativa que não abandona o campo religioso, mas procura disputar sua legitimidade a partir de outros referenciais — justiça, proteção dos vulneráveis, democracia e coerência entre fé e ação pública.
20 lideranças políticas com identidade evangélica com maior engajamento no período
| Ranking de lideranças políticas por engajamento | |||
|---|---|---|---|
| # | Liderança Política | Partido político | Interação |
| 1 | Nikolas Ferreira | PL | 2.976.723 |
| 2 | Flávio Bolsonaro | PL | 983.178 |
| 3 | Magno Malta | PL | 980.319 |
| 4 | Eduardo Bolsonaro | PL | 724.160 |
| 5 | André Janones | REDE | 382.603 |
| 6 | Gabriel Monteiro | PL | 373.827 |
| 7 | Lucas Pavanato | PL | 330.254 |
| 8 | Carlos Bezerra Jr. | PSD | 311.817 |
| 9 | Michelle Bolsonaro | PL | 260.778 |
| 10 | André Fernandes | PL | 257.382 |
| 11 | Abílio Brunini | PL | 227.077 |
| 12 | Helio Lopes | PL | 222.969 |
| 13 | Benedita da Silva | PT | 194.898 |
| 14 | Pablo Marçal | UNIÃO | 189.823 |
| 15 | Deltan Dallagnol | NOVO | 181.563 |
| 16 | Damares Alves | REPUBLICANOS | 160.767 |
| 17 | Davi Sacer | PP | 151.878 |
| 18 | Marcel Van Hattem | PL | 141.071 |
| 19 | Ana Campagnolo | PL | 138.873 |
| 20 | Kim Kataguiri | MISSÃO | 135.346 |
20 lideranças políticas com identidade evangélica com maior engajamento no período
(por número total de interações)
| Ranking de lideranças políticas por engajamento | |||
|---|---|---|---|
| # | Liderança Política | Partido político | Interação |
| 1 | Nikolas Ferreira | PL | 18.789.154 |
| 2 | Flavio Bolsonaro | PL | 9.344.921 |
| 3 | Magno Malta | PL | 5.574.465 |
| 4 | André Janones | REDE | 5.102.681 |
| 5 | Eduardo Bolsonaro | PL | 5.069.370 |
| 6 | Deltan Dallagnol | NOVO | 4.275.406 |
| 7 | Pablo Marçal | UNIÃO | 3.820.801 |
| 8 | Marcel Van Hattem | PL | 3.143.694 |
| 9 | Kim Kataguiri | MISSÃO | 2.648.321 |
| 10 | Lucas Pavanato | PL | 2.374.740 |
| 11 | André Fernandes | PL | 2.253.787 |
| 12 | Carlos Bezerra Jr. | PSD | 1.184.098 |
| 13 | Pastor Henrique Vieira | PSOL | 1.107.927 |
| 14 | Sóstenes Cavalcante | PL | 936.087 |
| 15 | Damares Alves | REPUBLICANOS | 925.717 |
| 16 | Marina Silva | REDE | 881.901 |
| 17 | Michelle Bolsonaro | PL | 857.171 |
| 18 | Cabo Gilberto Silva | PL | 690.687 |
| 19 | Gabriel Monteiro | PL | 688.897 |
| 20 | Pastor Marco Feliciano | PL | 675.760 |
• Observações sobre os rankings:
As métricas por postagem única se referem a publicações individuais com maior número de interações durante o período.
Os destaques em vermelho trazem lideranças que apresentam maior diálogo com o campo político da esquerda no atual contexto eleitoral.
Para os casos de lideranças políticas que se apresentam atualmente sem partido, foi considerado o último registro de filiação.
Análise sobre os rankings das lideranças políticas
Lideranças políticas vinculadas ao campo da esquerda mantiveram número de interações semelhantes aos dois rankings anteriores. Desde o início do período de campanhas, houve discreto crescimento nas métricas de alcance entre lideranças da esquerda, além da continuidade do predomínio da direita evangélica. O retorno de André Janones para posições de destaque indica resultados positivos para a relevância de suas estratégias como um dos principais porta-vozes evangélicos da campanha a favor do presidente Lula nas redes. Já os números ocupados por Nikolas Ferreira alcançaram novos recordes neste período, aumentando exponencialmente desde o início da produção dos relatórios.
Análise sobre os rankings gerais
A presença de lideranças importantes no campo evangélico brasileiro foi registrada pela primeira vez desde o início do monitoramento, casos do Pastor Claudio Duarte e da cantora Fernanda Brum. O conteúdo compartilhado por Brum não apresenta narrativas políticas vinculadas a candidatos ou partidos. Também de modo inédito, influenciadores e portais de notícias evangélicos marcaram presença em menor quantidade quando comparados às lideranças políticas para o segundo ranking. O dado aponta, por sua vez, para maior quantidade de narrativas políticas em circulação no ecossistema evangélico no atual momento eleitoral.
“Modo Nepal” em resposta à crise no STF
Voltou a circular, no contexto de fortes críticas ao STF, uma expressão que se refere às grandes manifestações e à derrubada do governo no Nepal em 2025, especialmente aos protestos liderados por jovens da geração Z local. No contexto brasileiro, o “Modo Nepal” já havia sido reconhecido por autoridades públicas como parte de circuitos de imageradicalização nas redes digitais, tendo sido alvo de investigações no ano passado, a pedido do ministro Flávio Dino.
O termo passou a ser usado no campo evangélico vinculado a setores da extrema-direita, a exemplo do pastor Wesley Ros, com alcance de 687 mil seguidores no Instagram. Nas diferentes manifestações, prevalece o sentimento de mobilização popular contra autoridades políticas, combate à corrupção e insatisfação contra instituições. A recuperação de imagens do Nepal é frequentemente utilizada como referência visual para defender manifestações populares que envolvam ataques diretos à suprema corte em Brasília.
O candidato à presidência Augusto Cury voltou a movimentar as redes evangélicas ao receber uma onda de críticas de parte desse público que o havia apoiado nas semanas anteriores. Narrativas de arrependimento por declarações anteriores de apoio a Cury partiram de lideranças religiosas que destacaram a suposta “tendência esquerdista” do candidato como desmotivadora para o voto.
Outros se manifestaram associando o candidato à figura de Marina Silva, compartilhando impressões negativas sobre possíveis oportunidades que Cury teria caso o governo eleito seja de esquerda. A comparação também remete ao fato de Marina ter se candidatado como a terceira via nas eleições de 2014.
Notas metodológicas
A pesquisa foi realizada em 573 perfis (Instagram, YouTube, X, TikTok e Facebook) de lideranças religiosas e políticas, organizações, mídia e influenciadores evangélicos, a partir de busca no Data Lake do Instituto Democracia em Xeque. Foram gerados 26.762 resultados, concentrando 189.019.518 de interações durante o período analisado para o ecossistema evangélico até o fechamento deste relatório.
O critério utilizado para a coleta de dados relativos aos temas de destaque no ecossistema evangélico foi baseado em análise qualitativa das 50 (cinquenta) postagens com maior número de interações durante o período selecionado, dos respectivos perfis funcionais: lideranças políticas, lideranças religiosas, outros perfis (influenciadores, artistas, mídia evangélica e igrejas e iniciativas), e uma busca por lideranças religiosas e políticas do campo da esquerda, totalizando 200 (duzentas) postagens analisadas. A classificação funcional dos perfis considera sua principal atuação nas redes sociais, reconhecendo que muitos dos atores monitorados exercem múltiplas funções e ocupam diferentes espaços de influência.
Com base na análise das narrativas presentes nas publicações de maior engajamento, foram identificados os principais temas situados nas fronteiras entre religião e política, foco central deste relatório. A partir desses resultados, foram realizadas buscas complementares no Data Lake do Instituto Democracia em Xeque, utilizando-se palavras-chaves relacionadas às narrativas identificadas, ampliando a compreensão sobre sua circulação no ecossistema monitorado. Como critério adicional, também foi realizada pesquisa por menções de temas em destaque através de hashtags postadas por perfis públicos, ocasionando em achados de perfis de identidade evangélica não previamente listados no Data Lake ou, ainda, perfis de identidade católica que compartilham informações relevantes sobre lideranças evangélicas durante o período.
As lideranças religiosas foram mantidas junto a influenciadores, artistas, igrejas e portais de notícias gospel em ranking separado, seguindo modelo adotado para os outros relatórios. Por fim, as análises apresentadas também incorporam a leitura contextual e analítica sobre o campo evangélico, articulando dados do monitoramento com a análise ampliada das narrativas em circulação. Considerou-se evidenciar o destaque sobre as atuações entre lideranças políticas e religiosas alinhadas ao campo da esquerda evangélica, além de critérios duplos para ranqueamento de lideranças políticas e influenciadores, baseados em métricas por postagem única e número total de interações.
A seção Fique de Olho não segue, necessariamente, os mesmos critérios metodológicos adotados no monitoramento. Trata-se de um espaço destinado a destacar temas que estejam repercutindo nas redes sociais e na imprensa às vésperas da publicação do relatório, bem como assuntos que, embora apresentem menor engajamento no monitoramento, revelem alta relevância narrativa para compreender as dinâmicas entre religião e política ou potencial de impacto no debate público.
Expediente
Pesquisa
Direção Executiva: Fabiano Garrido.
Direção de Pesquisa: Letícia Capone.
Direção de Metodologia e Inovação: Marcelo Alves.
Projeto gráfico: Moara Juliana e Júlia Cristofi
