#09 Narrativas evangélicas e contexto eleitoral

Este relatório apresenta uma análise das principais narrativas em circulação nas redes sociais sobre as fronteiras entre religião e política, com foco no ecossistema evangélico.

Publicações realizadas entre 14 a 27 de setembro de 2026.

Highlights

Nossa Senhora vira centro de disputa eleitoral entre Lula e Flávio Bolsonaro

A controvérsia envolvendo Nossa Senhora mobiliza direita e esquerda e transforma um símbolo religioso em objeto de disputa eleitoral. De um lado, a direita denuncia uma suposta tentativa de associar Flávio Bolsonaro a ataques ao catolicismo; de outro, perfis da esquerda condenam supostos ataques e denunciam a instrumentalização política da religião.

Banco Master e Igreja Lagoinha ampliam disputa sobre religião e política

As críticas de Fábio Porchat às relações entre o Banco Master e a Igreja da Lagoinha provocam reação de diferentes setores do campo evangélico. O episódio alimenta uma disputa sobre os limites entre poder religioso, interesses econômicos e atuação política.

Caso Master transforma STF em eixo de mobilização contra Lula e reacende expectativa de escalada da crise institucional

O caso Master leva o STF ao centro da mobilização da extrema direita, com Nikolas Ferreira entre os conteúdos de maior engajamento. As publicações associam ministros, Lula e personagens do caso e convocam à mobilização nas ruas.

Nikolas chama Lula de “pai das Bets” e confunde regulamentação com autorização das apostas

Com 1,37 milhão de interações, vídeo transforma as Bets em argumento de ataque a Lula e mobilização eleitoral por Flávio. A publicação associa a regulamentação das apostas à ideia de que o governo teria autorizado sua expansão, confundindo regulação com criação ou autorização da atividade.

Extrema direita responde à campanha de Lula e mobiliza rejeição para fortalecer Flávio Bolsonaro

Lideranças da extrema direita têm que responder diretamente à agenda da campanha de Lula, com Nikolas Ferreira, Eduardo Bolsonaro, Gabriel Monteiro e Magno Malta convergindo em narrativas que associam o governo a problemas diversos e apresentam a rejeição a Lula como argumento para o voto em Flávio.

Esquerdas evangélicas intensificam mobilização eleitoral e disputam o significado político da fé

A campanha ganha centralidade entre perfis evangélicos de esquerda, com pedidos de voto, divulgação de eventos, críticas e estímulo ao compartilhamento. Ao mesmo tempo, lideranças contestam a ideia de um “voto evangélico” homogêneo e disputam as relações entre fé, democracia e política.

Temas em destaque no segmento evangélico

Controvérsias envolvendo o caso de Nossa Senhora Aparecida

A controvérsia envolvendo a retirada de Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira do Brasil ganhou repercussões significativas entre lideranças e influenciadores evangélicos. No campo da direita, aqueles que saíram em defesa de Flávio Bolsonaro defenderam a informação como falsa, atribuindo o episódio a um erro ou a uma ação política da “ala petista”, além de destacarem a negativa do próprio candidato. Os conteúdos de maior repercussão registrados são a publicação de Flávio Bolsonaro, com 857.402 interações, seguida por uma publicação do portal de notícias Pleno News, com 26.240 interações. 

A narrativa de desmentido se desdobrou nos últimos dias em diferentes enquadramentos. Enquanto Flávio Bolsonaro afirmou respeitar todas as religiões e também pessoas sem religião, portais de notícias evangélicos apresentaram a informação como falsa, destacando a retratação feita pela Globo News. Lideranças políticas como Sóstenes Cavalcante amplificaram o desmentido a partir de uma oposição entre a Globo e os evangélicos, a partir da seguinte legenda: “Globo pede desculpas por fake news com evangélicos”. Assim, a resposta não se limitou à defesa de Flávio, mas também desloca o foco para a imprensa e o PT e para a suposta circulação de “fake news” no contexto eleitoral.

Outro enquadramento identificado é o de que a controvérsia faria parte de uma estratégia eleitoral para atingir Flávio Bolsonaro e seu eleitorado católico. A publicação do perfil Assembleianos de Valor Oficial, com 1.7 milhões de seguidores, afirma que a falsa informação buscaria fazer religiosos acreditarem que o candidato atacaria a religião católica e retirar votos destinados a ele. Já a publicação feita pelo portal Pleno News, anteriormente indicada com maior número de interações após a postagem de Flavio Bolsonaro, evidencia um desdobramento posterior ao caso, criticando a decisão do ministro Flávio Dino de anular a decisão feita por André Mendonça de remover um conteúdo veiculado por Antonio Tabet. 

As reações no campo evangélico vinculado a candidaturas da direita também incluíram reforços à associação da imagem de Flavio a aparições públicas ao lado da imagem de Nossa Senhora. Uma coalizão de lideranças de grandes igrejas culminou, ainda, na divulgação de uma carta de repúdio do Conselho Interdenominacional dos Ministros Evangélicos do Brasil (CIMEB), ao que chamaram de “utilização de fake news por Lula e seus seguidores” para promover uma “guerra religiosa entre católicos e evangélicos”. A carta foi assinada por lideranças evangélicas como Silas Malafaia, Cláudio Duarte, Téo Hayashi, Robson Rodovalho, entre outros. 

Em sentido oposto, perfis vinculados ao campo da esquerda, como Evangélicos com Lula, apresentaram a controvérsia como exemplo de instrumentalização política da religião, afirmando que a discussão deveria mobilizar tanto católicos quanto evangélicos. Parte da esquerda criticou as investidas de Flávio Bolsonaro em atacar a CNBB e relembrou ataques passados de lideranças vinculadas à direita, como Marco Feliciano e Nikolas Ferreira, à imagem de Nossa Senhora Aparecida. André Janones, por outro lado, lembrou que “o PT foi fundado dentro da Igreja Católica” e lembrou sobre o episódio conhecido como “chute na santa” que, segundo ele, teria sido realizado por um bispo ligado à família Bolsonaro. Dessa forma, o episódio passa a operar como uma disputa narrativa sobre religião, eleições e credibilidade da informação.

Reações às críticas envolvendo o Banco Master e a Igreja Lagoinha

As repercussões em torno do vídeo viral de Fabio Porchat, “Grandes Igrejas, Master Negócios”, em que são abordadas as relações entre o Banco Master e a Igreja Batista da Lagoinha, ocuparam as redes evangélicas com críticas de segmentos vinculados à direita. Grande parte dessas críticas mobilizaram o fato dessa igreja “alcançar milhares de vidas para Cristo”, como destacou Marco Feliciano em uma publicação intitulada “resposta para Fabio Porchat”. O pastor pontuou o problema em colocar a igreja no centro do problema de corrupção narrado na denúncia e, assim “tentar macular uma igreja inteira”, e lembrou sobre os episódios veiculados em anos anteriores pelo canal Porta dos Fundos, nos quais Porchat participa de sátiras envolvendo a imagem de Jesus Cristo. Em sentido similar, influenciadores como Rayan Santos, dono de um perfil com 790 mil seguidores, reagiu a trechos do vídeo de Porchat indicando a parcialidade do ator e humorista ao tratar do caso, além de não trazer “indícios concretos” contra Nikolas Ferreira, Flavio Bolsonaro e André Valadão. 

A posterior fala de Lula durante um comício em que chama André Valadão de 171 e critica a Igreja Lagoinha também repercutiu entre lideranças e influenciadores evangélicos. O pastor Silas Malafaia ponderou que responsabilidades individuais de lideranças possam ser analisadas de forma separada do papel da igreja, destacando que “quando Lula debocha e ataca uma igreja evangélica, ele ataca todas”. Malafaia considerou o ataque aos fiéis que tiveram “sua honra ofendida” por Lula, defendendo a integridade do Pastor Marcio Valadão, fundador da Lagoinha, que teria passado a liderança “há pouco tempo para o filho”. A associação entre Porchat e Lula após a fala do presidente da República também foi lembrada em portais de notícias como o Oficial Eu Acredito Podcast, que ressaltou que Lula e o PT não teriam moral para falar de André Valadão, devido aos inúmeros casos de corrupção em que estariam supostamente envolvidos. Também foram registradas reações do campo evangélico da esquerda, destacando apoios e a censura realizada pela Meta do vídeo de Porchat.


Caso Master transforma STF em eixo de mobilização contra Lula e reacende expectativa de escalada da crise institucional

O caso Master e suas repercussões no STF ocuparam lugar central entre os conteúdos de maior alcance da extrema direita na quinzena. Os três vídeos de Nikolas Ferreira sobre o tema aparecem no topo do ranking das lideranças políticas monitoradas. Em suas publicações, o deputado constrói uma associação entre ministros do STF, Lula, Lulinha e Daniel Vorcaro, apresentando o episódio como evidência de uma crise institucional e financeira mais ampla. A construção, porém, é marcada por associações pouco claras entre personagens, fatos e responsabilidades, que aproximam diferentes episódios sem apresentar necessariamente as conexões que os sustentariam, produzindo um enquadramento propício à desinformação. Também chama atenção a seleção dos personagens mencionados. Enquanto Moraes, Dino, Fachin, Gilmar, Toffoli e Gonet aparecem associados ao caso e às críticas, Nikolas omite Nunes Marques, Mendonça ou Fux. 

O tom adotado por Nikolas também se intensifica diante das recentes exposições sobre as suas relações com Vorcaro. Em um dos vídeos, passa a chamá-lo diretamente de “criminoso” e eleva a agressividade da crítica, retomando de maneira recorrente as referências às “prostitutas” para caracterizar o escândalo. A estratégia combina indignação moral, personalização do conflito e linguagem sensacionalista, enquanto amplia o caso para uma narrativa de corrupção e impunidade envolvendo STF, governo e sistema financeiro. Em outro vídeo, Nikolas afirma que “só Deus” poderia intervir para ajudar o país, conectando a crise institucional à gramática religiosa que já vinha sendo mobilizada em torno do STF.

Além da denúncia e da deslegitimação das instituições, os conteúdos indicam uma expectativa de que a crise continue se aprofundando nos dias seguintes. Em um dos vídeos, Nikolas afirma que o Brasil deveria “parar” na próxima sessão do STF e convoca as pessoas a irem às ruas em repúdio ao que chama de “maior escândalo financeiro do país”. Lucas Pavanato adota discurso semelhante: diante da decisão de Dino (chamando-o de vagabundo) no processo envolvendo Moraes, afirma estar “desesperançoso e triste” com o país, mas anuncia que irá às ruas e convoca seus seguidores a fazerem o mesmo, também publica outro conteúdo fazendo chacota com os Ministros do STF, associando drogas e transfobia com uso de IA. A combinação entre os dois conteúdos sugere que a repercussão do caso era acompanhada de uma expectativa de escalada do conflito institucional, com a possibilidade de transbordamento das redes para mobilizações presenciais. O chamado para “parar tudo” amplia a narrativa de crise para uma lógica de pressão popular sobre o STF.

Essa construção aparece também em outros atores do campo. Deltan Dallagnol retoma a associação direta entre Moraes e Lula e recupera a memória da Lava Jato como período de enfrentamento à impunidade. Magno Malta descreve o país como submetido ao “silêncio de uma Justiça cega” e responsabiliza os ministros do STF, enquanto Eduardo Bolsonaro e Filipe Barros apresentam decisões judiciais como evidências de perseguição política e ameaça às instituições democráticas. Apesar das diferenças entre os conteúdos, há uma convergência no enquadramento: o caso Master deixa de ser tratado como um episódio isolado e passa a funcionar como evidência de uma crise sistêmica envolvendo STF, governo Lula, corrupção e impunidade.

O elemento religioso aparece quando essa crise é apresentada como algo que ultrapassaria a capacidade ordinária da política. A afirmação de Nikolas de que “só Deus” pode intervir se conecta às narrativas observadas no período anterior, nas quais André Mendonça é apresentado por lideranças religiosas e políticas como uma figura salvadora/messiânica, capaz de responder à crise. 

Nikolas chama Lula de “pai das Bets” e confunde regulamentação com autorização das apostas

Com 1.4 milhão de alcance, um único vídeo de Nikolas Ferreira transforma a proibição das Bets em argumento de ataque a Lula e de mobilização eleitoral por Flávio Bolsonaro: “Se você é contra as Bets, você é contra o Lula”. A narrativa apresenta Lula como “pai das Bets” e associa a regulamentação promovida pelo governo, mencionando também Haddad como Ministro da Fazenda, à ideia de que o governo teria comemorado e autorizado a expansão das apostas no país. O enquadramento confunde a regulamentação de uma atividade já existente com sua criação ou autorização pelo governo, deslocando o debate sobre as medidas adotadas pelo Executivo para uma acusação de que Lula seria responsável pela existência das Bets.

A operação narrativa ganha uma segunda camada ao apresentar Flávio Bolsonaro como contrário às Bets e como aquele que irá “acabar” com elas. Ao chamar Lula de “pai da mentira”, “pai das Bets” e “pai dos pobres”, Nikolas transforma diferentes agendas de governo em atributos negativos do presidente. Com isso, a crítica à política do governo é convertida diretamente em argumento eleitoral: se Lula é responsabilizado pela existência das apostas, Flávio aparece como solução para o problema. Há, nesse sentido, uma inversão do significado da regulamentação: uma política apresentada pelo governo como forma de estabelecer regras e controle sobre o setor é enquadrada como evidência de que Lula teria criado ou autorizado as Bets, enquanto a promessa de eliminá-las funciona como resposta eleitoreira.

Extrema direita responde campanha de Lula: voto nulo é voto em Lula

Pela primeira vez no monitoramento, lideranças políticas da extrema direita mantêm níveis relevantes de alcance ao responder diretamente a pautas e movimentos da campanha de reeleição de Lula. Nos períodos anteriores, a dinâmica observada era predominantemente inversa: a extrema direita pautava temas, enquadramentos e antagonismos que posteriormente eram repercutidos. Neste momento, entretanto, conteúdos de Nikolas Ferreira, Eduardo Bolsonaro, Gabriel Monteiro e Magno Malta aparecem também como resposta à agendas da esquerda, sinalizando uma disputa mais direta pelo enquadramento das pautas eleitorais. A estratégia comum é deslocar diferentes temas da campanha ou do governo Lula para uma narrativa de responsabilização pessoal do presidente e, a partir dela, reforçar a necessidade de votar em Flávio Bolsonaro.

Em Nikolas Ferreira, essa resposta assume a forma de uma narrativa de “problemas criados pelo governo para depois serem apresentados como solução”. Em um dos conteúdos, o deputado reúne Bets, taxação das blusinhas, Bolsa Família, STF, drogas e regulamentação das apostas para sustentar que Lula produziria deliberadamente os problemas que depois promete resolver. Em outra publicação, amplia a operação para oito temas — Bets, taxação das blusinhas, canetas emagrecedoras, aposentadorias, terras raras, Banco Master, endividamento e juros — apresentados como “8 propostas do Lula” que seriam, na verdade, “8 problemas que ele criou”. A multiplicidade de temas é articulada em uma única chave narrativa: a de que diferentes problemas econômicos e sociais teriam uma mesma origem política e deveriam ser respondidos eleitoralmente pela rejeição a Lula. O ataque também busca alcançar o eleitor “em cima do muro”, convocado a votar “no 22”, sem mencionar Flávio Bolsonaro diretamente.

Eduardo Bolsonaro acrescenta a essa narrativa uma dimensão de polarização e voto útil. Ao responder a uma declaração de Lula sobre a prisão de Jair Bolsonaro, apresenta a eleição como uma disputa entre dois projetos de poder: de um lado, Lula, que estaria interessado em prender e exilar opositores; de outro, Flávio, cuja vitória permitiria retirar o pai da prisão. O conteúdo combina ainda criminalidade, preços dos supermercados, atuação do STF, situação de brasileiros no exterior e críticas à elite política, antes de fazer uma convocação explícita: “voto nulo é voto no Lula”. A defesa do voto em Flávio aparece, portanto, não apenas como apoio à candidatura, mas como consequência lógica da rejeição a Lula.

Em Gabriel Monteiro, a estratégia é baseada na acumulação de escândalos de corrupção atribuídos ao governo Lula. Mensalão, Lava Jato, INSS, Banco Master, Correios e gastos de Janja são colocados em sequência, produzindo uma associação recorrente entre Lula, escândalos de corrupção e deterioração da gestão. Magno Malta, por sua vez, responde diretamente ao reajuste do Bolsa Família, apresentado como uma tentativa de Lula de “comprar o voto do pobre”, com um vídeo de Flávio Bolsonaro. O benefício é contraposto aos gastos atribuídos ao governo e à Janja, enquanto o slogan “pai dos pobres” é invertido para caracterizar Lula como “pai dos ricos”. A medida social, assim, é deslocada para uma narrativa de uso eleitoral da pobreza.

No conjunto, os conteúdos revelam uma forte convergência narrativa entre diferentes lideranças políticas da extrema direita, que respondem a pautas distintas da campanha de Lula, mobilizando estruturas argumentativas semelhantes: transformar medidas e problemas de governo em responsabilidade direta do presidente, associá-lo à corrupção, incompetência ou manipulação eleitoral e converter a rejeição em voto contra o PT. Embora o monitoramento não permita afirmar uma coordenação deliberada entre os perfis, a recorrência dos mesmos enquadramentos, antagonismos e chamadas ao voto sugere uma atuação convergente nas redes, que passa a responder de forma mais sistemática à agenda da esquerda.

Temas relevantes para a esquerda evangélica

A principal característica da quinzena no ecossistema da esquerda evangélica é a transformação da campanha em mobilização de reta final. Pedidos de voto, números de urna, pesquisas, eventos, ataques a adversários e chamadas para compartilhamento passaram a dominar o ambiente monitorado. Um dos posts mais expressivos, da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, com 277 mil interações, questiona a ideia de um “voto evangélico” homogêneo e enfatiza a autonomia da consciência dos eleitores. A própria Frente formalizou apoio a Lula no primeiro turno.

O maior fenômeno quantitativo continua sendo André Janones, com 3,74 milhões de interações em 100 publicações. Sua comunicação combina urgência permanente, polarização e convocação direta da audiência para distribuir o conteúdo. Posts como “PRECISAMOS VIRAR O JOGO NAS REDES!” e “ME AJUDEM A FAZER VÍDEO CHEGAR NO BRASIL INTEIRO!” exemplificam uma lógica na qual o público é convocado a ser agente de circulação da campanha.

Uma das principais novidades temáticas é a emergência do caso Banco Master–Igreja Batista da Lagoinha como narrativa de articulação entre religião, dinheiro e política. O episódio da série Revelando, apresentado por Fábio Porchat, tornou-se objeto de intensa circulação e mobilização. Henrique Vieira utiliza o episódio para convocar sua audiência a “furar a bolha”, enquanto Evangélicos com Lula estimula a circulação dos conteúdos. A repercussão também foi ampliada pela retirada temporária do perfil da série pela Meta, posteriormente restaurado.

A disputa eleitoral ganha, ao mesmo tempo, uma dimensão explicitamente religiosa e teológica: não se trata apenas de conquistar o voto de evangélicos, mas também de disputar quais posições podem ser apresentadas como cristãs. Antonio Carlos Costa, com 164 mil interações, questiona a compatibilidade entre uma declaração de voto em Flávio Bolsonaro e o silêncio diante de posições que considera incompatíveis com o Evangelho. Já Cristãs e Cristãos Contra o Fascismo, com 127 mil interações, reafirma que ser cristão e ser de esquerda não são posições incompatíveis. Aava Santiago desloca a discussão para a crítica ao “uso da fé” na disputa eleitoral.

Mulheres, gênero e políticas sociais também entram fortemente na mobilização eleitoral. Henrique Vieira critica modelos de masculinidade baseados na superioridade sobre as mulheres; Marina Silva associa sua candidatura à representação feminina e aos direitos das trabalhadoras; e Carlos Bezerra Jr. reage à circulação de discursos que questionam o direito das mulheres ao voto. Aava Santiago também aborda aborto, violência sexual e o paradoxo de discursos que dizem defender “a vida”, mas, segundo ela, abandonam mulheres e crianças depois do nascimento. Paralelamente, o reajuste do Bolsa Família transforma uma política social em importante objeto de disputa eleitoral, com Janones explorando o tema em sucessivas peças de mobilização. O governo anunciou aumento do piso de R$ 600 para R$ 691 e do benefício médio de R$ 675 para R$ 777.

A memória democrática e a crítica à instrumentalização da religião continuam funcionando como importantes gramáticas do campo monitorado. O post de Cristãs e Cristãos Contra o Fascismo sobre bispos católicos cantando Bella Ciao alcançou 112,8 mil interações e associa o episódio a resistência antifascista e democracia. Em paralelo, Antonio Carlos Costa, Caio Fábio, Hermes Fernandes e Henrique Vieira convergem, por caminhos diferentes, em críticas à transformação da autoridade religiosa em poder econômico, político ou eleitoral.

A pauta ambiental permanece presente, sobretudo através de Marina Silva, mas perde centralidade relativa diante da mobilização eleitoral, da disputa pelo voto evangélico, do caso Banco Master/Lagoinha e da guerra digital. Entre os conteúdos do período, Marina associa sua candidatura à proteção ambiental e, em outro post, aborda diretamente os efeitos da mudança do clima, a prevenção de queimadas, a redução do desmatamento e a adaptação das cidades.

No final do período surge, como explicitado a frente de disputa simbólica sobre a alegação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil. O tema aparece em um post de Janones, que alcançou 161,7 mil interações. Ele mostra a expansão da disputa religiosa para além do universo evangélico, alcançando símbolos católicos e a relação entre religião e identidade nacional.

20 lideranças políticas com identidade evangélica com maior engajamento no período (por postagem única)

# Liderança Política Partido político Interação
1Nikolas FerreiraPL3.592.685
2Flávio BolsonaroPL944.530
3Michelle BolsonaroPL636.172
4Eduardo BolsonaroPL632.005
5Lucas PavanatoPL620.407
6Gabriel MonteiroPL523.020
7Magno MaltaPL497.912
8Pablo MarçalUNIÃO442.051
9Deltan DallagnolNOVO383.396
10André JanonesREDE231.006
11André FernandesPL216.712
12Marco FelicianoPL204.363
13Abílio BruniniPL187.165
14Carlos Bezerra Jr.PSD182.801
15Marcel Van HattemPL176.532
16Filipe BarrosPL167.173
17Davi SacerPP166.028
18Robson CalabianquiUNIÃO163.507
19Rafael SatiePL163.467
20Benedita da SilvaPT156.940

20 lideranças políticas com identidade evangélica com maior engajamento no período

(por número total de interações)

# Liderança Política Partido político Interação
1 Nikolas Ferreira PL 13.608.648
2 Flavio Bolsonaro PL 13.301.326
3 Deltan Dallagnol NOVO 4.908.725
4 Eduardo Bolsonaro PL 4.534.634
5 André Janones REDE 3.744.698
6 André Fernandes PL 3.519.269
7 Magno Malta PL 2.498.284
8 Lucas Pavanato PL 2.242.759
9 Marcel Van Hattem PL 2.200.834
10 Pablo Marçal UNIÃO 1.958.327
11 Benedita da Silva PT 1.858.861
12 Kim Kataguiri MISSÃO 1.600.618
13 Marina Silva REDE 1.458.229
14 Michelle Bolsonaro PL 1.371.287
15 Pastor Henrique Vieira PSOL 1.307.979
16 Damares Alves REPUBLICANOS 1.081.164
17 Rafael Satie PL 1.078.072
18 Gabriel Monteiro PL 939.056
19 Pastor Marco Feliciano PL 786.345
20 Carlos Bezerra Jr. PSD 784.602

• Observações sobre os rankings:

As métricas por postagem única se referem a publicações individuais com maior número de interações durante o período. Os destaques em vermelho trazem lideranças que apresentam maior diálogo com o campo político da esquerda no atual contexto eleitoral. Para os casos de lideranças políticas que se apresentam atualmente sem partido, foi considerado o último registro de filiação.

Análise sobre os rankings das lideranças políticas

O crescimento da presença de lideranças políticas da esquerda foi mais expressivo no ranking por número total de interações do que na lista que considerou engajamentos por postagem única, o que indica ampliação da esquerda evangélica nas redes durante o período analisado. A manutenção de André Janones em ambos demonstra a relevância de seu papel como um dos principais porta-vozes evangélicos a favor do presidente Lula nas redes sociais. Por outro lado, a permanência do PL como partido com maior alcance aponta continuidade do monopólio dos debates da direita evangélica nas redes em torno desse partido.

10 perfis evangélicos com maior engajamento no período
(métrica por postagem única)
Casa Galileia e Instituto Democracia em Xeque

Análise sobre os rankings gerais

Em ambos os rankings, observa-se a predominância de lideranças evangélicas diretamente relacionadas às candidaturas que concorrem atualmente nessas eleições. Influenciadores com significativa relevância nas redes, como Bruno Leonardo e Rayssa Buq, se mantiveram entre os perfis com maior engajamento e não abordaram assuntos relacionados à política partidária. Do lado oposto, portais de notícias que se destacaram, como Pleno News, Adoradores na Net e Gospel Mais, ganharam repercussão principalmente a partir de notícias relacionadas aos pleitos eleitorais. No caso do Adoradores na Net, uma profecia dita por um pastor angolano durante participação em um podcast sobre as eleições brasileiras recebeu um engajamento de 567.286 interações no período analisado. Os números apontam, nesse sentido, que perfis evangélicos de diferentes campos políticos ampliaram seus engajamentos durante o período eleitoral.

10 perfis evangélicos com maior engajamento no período
(por número total de interações)
Casa Galileia e Instituto Democracia em Xeque
Narrativas de desinformação
Lula e o Hamas
Publicação sobre Lula e o Hamas

Uma publicação do perfil Assembleianos de Valor afirma que “membros do Hamas agradecem a Lula” por seu discurso na Assembleia Geral da ONU. O conteúdo é baseado em uma manifestação de Khaled Qaddoumi, representante político do Hamas no Irã, que classificou como “positiva” a posição de Lula e afirmou que o presidente havia “escolhido estar do lado certo da história”. A informação sobre a manifestação é verdadeira e foi originalmente publicada pelo Metrópoles.

Estratégia de desinformação: A publicação parte de um fato verdadeiro, mas o apresenta de maneira a produzir uma associação mais ampla entre Lula e o Hamas do que aquela comprovada pela declaração. O card do perfil Assembleianos de Valor utiliza uma fotografia de Lula ao lado de uma imagem de integrantes armados do Hamas e afirma que “membros do Hamas” agradeceram ao presidente, embora a manifestação citada seja de um representante político específico do grupo.

Além disso, a postagem não informa que, no mesmo discurso, Lula também condenou os “atos terroristas do Hamas” e afirmou que civis israelenses pagaram o preço dessas ações. O mecanismo narrativo consiste, portanto, em combinar fato verdadeiro, omissão de contexto e associação visual para induzir a interpretação de que o elogio do representante do Hamas comprovaria alinhamento político entre Lula e a organização. A declaração de Qaddoumi efetivamente ocorreu; o que não é demonstrado pela declaração é que Lula apoie o Hamas ou que seu discurso tenha sido uma defesa da organização.

Fique de olho
Lideranças evangélicas repercutem negativamente a fala de Lula sobre toque íntimo em meninas

Nos últimos dias, uma fala do presidente Lula sobre o toque íntimo em meninas se tornou alvo de críticas por parte de lideranças evangélicas vinculadas ao campo da direita. A controvérsia surgiu após um comentário do presidente durante um comício em Belém (PA), em que ele defendeu a importância da prevenção e do tratamento do câncer de próstata. Ao comparar a resistência masculina ao exame de toque retal com a relação das mulheres com exames ginecológicos, Lula afirmou que “as mulheres aprendem a tomar toque desde quando é pequena”.

A frase foi recortada e passou a circular em perfis nas redes sociais, como a do Pastor Josué Valandro, como se Lula estivesse se referindo a toques vaginais realizados em meninas. Dentre as acusações, a principal era de que ele estaria promovendo “abuso sexual contra meninas”. A fala de Nikolas Ferreira criticando a declaração de Lula foi a que recebeu o maior número de reações, afirmando que “meninas não são […] tocadas desde cedo” e associando-a à possibilidade de interpretação por pedófilos. Outras lideranças evangélicas, como a atual senadora Damares Alves, também se posicionaram relacionando a declaração a abuso sexual de menores.

Lula e sua campanha, por sua vez, sustentaram que a referência era aos exames ginecológicos preventivos e que o trecho havia sido retirado de contexto. A coligação acionou o TSE contra publicações de Nikolas, alegando distorção da fala e suas tentativas de descontextualização política. A controvérsia ultrapassou a questão médica e tornou-se mais um episódio da disputa eleitoral em torno de gênero, sexualidade, infância e moralidade.

A pesquisa foi realizada em 573 perfis (Instagram, YouTube, X, TikTok e Facebook) de lideranças religiosas e políticas, organizações, mídia e influenciadores evangélicos, a partir de busca no Data Lake do Instituto Democracia em Xeque. Foram gerados 27.131 resultados, concentrando 171.622.541 de interações durante o período analisado para o ecossistema evangélico até o fechamento deste relatório. 

O critério utilizado para a coleta de dados relativos aos temas de destaque no ecossistema evangélico foi baseado em análise qualitativa das 50 (cinquenta) postagens com maior número de interações durante o período selecionado, dos respectivos perfis funcionais: lideranças políticas, lideranças religiosas, outros perfis (influenciadores, artistas, mídia evangélica e igrejas e iniciativas), e uma busca por lideranças religiosas e políticas do campo da esquerda, totalizando 200 (duzentas) postagens analisadas. A classificação funcional dos perfis considera sua principal atuação nas redes sociais, reconhecendo que muitos dos atores monitorados exercem múltiplas funções e ocupam diferentes espaços de influência. 

Com base na análise das narrativas presentes nas publicações de maior engajamento, foram identificados os principais temas situados nas fronteiras entre religião e política, foco central deste relatório. A partir desses resultados, foram realizadas buscas complementares no Data Lake do Instituto Democracia em Xeque, utilizando-se palavras-chaves relacionadas às narrativas identificadas, ampliando a compreensão sobre sua circulação no ecossistema monitorado. Como critério adicional, também foi realizada pesquisa por menções de temas em destaque através de hashtags postadas por perfis públicos, ocasionando em achados de perfis de identidade evangélica não previamente listados no Data Lake ou, ainda, perfis de identidade católica que compartilham informações relevantes sobre lideranças evangélicas durante o período.

As lideranças religiosas foram mantidas junto a influenciadores, artistas, igrejas e portais de notícias gospel em ranking separado, seguindo modelo adotado para os outros relatórios. Por fim, as análises apresentadas também incorporam a leitura contextual e analítica sobre o campo evangélico, articulando dados do monitoramento com a análise ampliada das narrativas em circulação. Considerou-se evidenciar o destaque sobre as atuações entre lideranças políticas e religiosas alinhadas ao campo da esquerda evangélica, além de critérios duplos para ranqueamento de lideranças políticas e influenciadores, baseados em métricas por postagem única e número total de interações.

A seção Fique de Olho não segue, necessariamente, os mesmos critérios metodológicos adotados no monitoramento. Trata-se de um espaço destinado a destacar temas que estejam repercutindo nas redes sociais e na imprensa às vésperas da publicação do relatório, bem como assuntos que, embora apresentem menor engajamento no monitoramento, revelem alta relevância narrativa para compreender as dinâmicas entre religião e política ou potencial de impacto no debate público.

Expediente
Narrativas evangélicas e contexto eleitoral (30.09.2026)
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Como citar este relatório:
SOUZA, Leon; CONRADO, Flávio; LAÍS, Andréa; MOCHEL, Lorena; CAPONE, Letícia; ALVES, Marcelo. Casa Galileia; Instituto Democracia em Xeque. Narrativas evangélicas e contexto eleitoral (30.09.2026). Disponível em: <https://institutodx.org/narrativasreligiosas>.
Equipe do relatório | Casa Galileia
Leon Souza

Diretor Executivo

Flávio Conrado

Diretor de Campanhas

Andréa Laís

Coordenação e pesquisa

Lorena Mochel
Lorena Mochel

Pesquisa

Parceria Democracia em Xeque | Monitoramento Data Lake do DX

Direção Executiva: Fabiano Garrido.

Direção de Pesquisa: Letícia Capone.

Direção de Metodologia e Inovação: Marcelo Alves.

Projeto gráfico: Moara Juliana e Júlia Cristofi

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Diretores Participantes:

Direção Executiva
Direção de Pesquisa

Pesquisadores Participantes:

Bacharel em Design Gráfico (Anhembi Morumbi) e em Pedagogia (UNIVESP)
Coordenação de Arte e Comunicação
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