Highlights
A Copa como clickbait político
A cobertura esportiva dominou o volume, com 45% dos posts, mas respondeu por apenas 28% do alcance, sinal de que noticiar o jogo mobiliza menos do que usar a Copa como veículo de outras pautas.
A Copa como clickbait político 2
a Copa foi o eixo de maior alcance, com 38% do total a partir de apenas 23% dos posts, a maior distância entre volume e alcance do recorte, sinal de que o futebol convertido em pauta política repercute mais por post.
Dia de jogo, dia de click
O volume acompanhou o calendário da seleção, com picos em 20 de junho, na esteira da vitória contra o Haiti, 24 e 25 de junho, em torno da vitória sobre a Escócia, e 29 e 30 de junho, na classificação diante do Japão.
A Copa como extensão da campanha
Ao longo da segunda metade de junho, o futebol deixou de aparecer apenas como entretenimento e passou a servir de linguagem para as disputas políticas. A competição foi usada para denunciar privilégios parlamentares, como nas críticas às viagens e ao trabalho remoto durante a discussão da escala 6×1, responder a adversários, como no vídeo em que Flávio Bolsonaro aparece “resgatando” Neymar, e administrar crises internas, como na transmissão em que o senador afirmou que nada o aborreceria em dia de jogo. A presença de Romário na cobertura da CazéTV enquanto exercia o mandato e o debate sobre a publicidade de apostas nas transmissões ampliaram a politização da Copa para temas como trabalho, ética parlamentar, campanha eleitoral e regulação das bets.

Contexto
O relatório acompanha como a Copa do Mundo de 2026, sediada nos Estados Unidos, Canadá e México, repercutiu no ecossistema político brasileiro nas redes. Os dados vêm do datalake DX, uma lista fechada de mais de dezenove mil perfis ligados à política e à imprensa nacional, o que faz deste um retrato de como o campo político e o jornalismo trataram o torneio, e não da torcida geral. No período de recorte, a seleção de Carlo Ancelotti venceu o Haiti em 19 de junho, bateu a Escócia em 24 de junho e liderou o Grupo C, e venceu o Japão de virada em 29 de junho, na fase de mata-mata, seguindo na busca do hexacampeonato. É sobre esse pano de fundo esportivo que os perfis políticos projetaram suas próprias pautas, das apostas esportivas à escala de trabalho, transformando o torneio em palco de disputa.

Análise das métricas da lista fechada
Dados coletados pelo Data Lake DX
📊 Clusters de vocabulários mais utilizados por atores políticos
O acompanhamento registrou 18.806 posts e 199,2 milhões de alcance no período, distribuídos em quatro eixos temáticos. O debate opôs a cobertura do torneio em si à sua apropriação política. A distribuição por campo mostra maioria da imprensa, com 46% dos posts, concentrada na cobertura esportiva, enquanto direita e esquerda ganharam peso nos eixos em que a Copa vira veículo de pauta política.
Vista pela lente dos perfis políticos e da imprensa, a Copa do Mundo se dividiu em dois modos de existir nas redes. De um lado, a cobertura do torneio em si, quase metade dos posts, dominada pela imprensa e organizada pelo calendário dos jogos, com as fases, os craques e as lesões da seleção. De outro, a apropriação política do evento, que ocupou a outra metade e concentrou o maior alcance por post. O eixo da Copa como palco político é o centro deste relatório: com apenas 23% dos posts, respondeu por 38% do alcance, a maior distância entre volume e repercussão do recorte. Ali, o futebol foi veículo para pautas que pouco têm a ver com o jogo, as apostas esportivas e o endividamento, a escala de trabalho 6×1 e a PEC associada a Romário no Senado, a geopolítica em torno do Irã, e o comentário de figuras como Lula, Bolsonaro e Flávio sobre a seleção, em especial o retorno de Neymar aos gramados. É o eixo mais equilibrado entre os campos, com um empate praticamente triplo, o que confirma que a Copa funcionou como terreno comum de disputa, acionado por direita e esquerda para fins próprios.
A cobertura esportiva do torneio foi o maior eixo, com 8.454 dos 18.806 posts, quase metade do total. Os três eixos restantes, que tratam da apropriação política da Copa, somam a outra metade e revelam o que interessa a este relatório: como o campo político e a imprensa converteram o torneio em assunto próprio, da pauta econômica à torcida e à comunicação de gestão.
A imprensa dominou a cobertura esportiva, com 65% da audiência, coerente com seu papel de noticiar o torneio. Os outros três eixos inverteram esse quadro: a Copa como palco político dividiu-se de forma quase igual entre os três campos, com 32%, 33% e 35%, e a torcida e o poder público foram puxados pela direita, com 41% e 40%. Onde a Copa deixa de ser notícia e vira veículo de pauta, direita e esquerda ocupam o espaço.
Dentro de cada campo, a imprensa concentrou 64% de seus posts na cobertura esportiva, enquanto direita e esquerda distribuíram sua atenção de forma parecida entre a torcida, com 33% e 32%, e o palco político, com 26% e 30%. A simetria entre os dois campos no uso político da Copa mostra que o futebol funcionou como veículo comum, acionado pelos dois lados para pautas distintas.
O volume acompanhou o calendário da seleção, com picos em 20 de junho, após a vitória sobre o Haiti, 24 e 25 de junho, em torno da vitória sobre a Escócia, e 29 e 30 de junho, na classificação diante do Japão. A cobertura esportiva subiu nos dias de jogo, enquanto a Copa como palco político manteve volume estável ao longo de todo o período, sinal de que a apropriação política independe do calendário esportivo.
A imprensa predominou na maioria dos dias, com pico de 61% em 3 de julho, ao fim do recorte. A direita atingiu seu ponto mais alto em 29 de junho, com 39%, no dia da vitória de virada sobre o Japão e de maior volume do recorte, único dia em que liderou a audiência. A esquerda manteve presença estável, com o pico de 33% em 24 de junho, dia da vitória sobre a Escócia, com destaque para a memeficação do debate em alusão aos números das camisas dos jogadores brasileiros: o autor do gol da virada, Martinelli, com a camisa 22, número do PL, partido de Flávio Bolsonaro, e o 13, número do partido de Lula e da camisa do lateral direito Danilo, responsável pelo erro de passe que possibilitou o gol japonês.
A dinâmica temporal reforça a distinção. A cobertura esportiva oscilou com o calendário, subindo nos dias de jogo do Brasil, enquanto o eixo político manteve volume estável ao longo de todo o período, sinal de que a apropriação da Copa como pauta não depende do que acontece em campo. O contraste de perfil completa a leitura: a imprensa noticia o torneio, e é maioria absoluta na cobertura esportiva, mas são a direita e a esquerda que ocupam os eixos de torcida, gestão e política, cada uma projetando sua mensagem sobre o evento. A torcida e o uso institucional, ambos puxados pela direita, mostram o campo conservador associando-se ao clima cívico da Copa e à comunicação de gestão, enquanto a esquerda teve sua maior presença relativa no eixo político, ao levar ao debate pautas como a escala 6×1 e as apostas. O retrato final é o de um evento esportivo que, no ecossistema político, serviu menos como assunto em si e mais como palco onde cada campo encenou suas próprias prioridades.

Narrativas mobilizadas
A Copa expôs privilégios políticos
Em 18 de junho, a competição entrou no debate político por meio da comparação entre a rotina dos trabalhadores e as condições oferecidas aos parlamentares. A adoção do trabalho remoto no Senado, as viagens de congressistas aos Estados Unidos e a presença de Romário como comentarista esportivo foram associadas à demora na votação do fim da escala 6×1. A leitura foi condensada na oposição entre a jornada enfrentada pela população e a possibilidade de políticos acompanharem a Copa sem se afastar dos mandatos. Circularam críticas a Nikolas Ferreira por viajar durante a discussão da jornada de trabalho e publicações que resumiram o contraste como “escala 6×1 para o trabalhador” e “camarote, viagens e home office” para os parlamentares.
Lula entrou no debate sobre a Seleção
Em 19 de junho, a Copa passou a integrar a comunicação presidencial após Lula chamar Neymar de “primeiro convocado home office do mundo”. A fala, feita durante uma agenda de governo, circulou como comentário sobre a ausência do atacante nos primeiros jogos e sobre a qualidade da Seleção. A imprensa destacou o tom bem-humorado da declaração, enquanto perfis de extrema-direita a enquadraram como deboche contra Neymar e contra um símbolo do futebol brasileiro. O episódio também abriu espaço para respostas de adversários eleitorais, transformando uma avaliação esportiva em disputa sobre patriotismo, respeito aos jogadores e uso político da Seleção.
Flávio disputou Neymar com Lula
A reação bolsonarista ganhou forma mais definida em 24 de junho, quando Flávio Bolsonaro publicou um vídeo produzido com inteligência artificial no qual aparecia vestido como militar e “resgatava” Neymar. A publicação foi apresentada como resposta às declarações de Lula e buscou associar o pré-candidato à defesa do jogador. O conteúdo foi descrito como uma peça em que Flávio salvava Neymar das críticas do presidente, inserindo a Copa na polarização eleitoral. A Seleção passou a funcionar como cenário para diferenciar os dois projetos, com Lula relacionado à ironia sobre o desempenho esportivo e Flávio tentando assumir o papel de defensor do camisa 10.
Depois de Lula e Flávio, entra Michelle “entra em campo”
Ainda em 24 de junho, a partida entre Brasil e Escócia coincidiu com a publicação do vídeo em que Michelle Bolsonaro acusa Flávio de humilhação e desrespeito. Pouco depois, o senador iniciou uma transmissão sobre a Copa e afirmou que, em dia de jogo, “nada nem ninguém” o aborreceria. A declaração foi tratada como uma resposta indireta à madrasta, pois evitava o conteúdo das acusações e substituía a crise política pelo comentário esportivo. A leitura foi que Flávio tentou usar o jogo para reduzir a repercussão do conflito, preservar um tom leve e reforçar sua imagem familiar, mas a coincidência produziu o efeito oposto e vinculou a Copa à exposição pública do racha bolsonarista, o que se mostrou infrutífero no tempo.
Senador Romário virou símbolo da dupla jornada parlamentar
A partir de 25 de junho, às críticas ao funcionamento remoto do Senado ganharam um personagem central. Romário foi questionado por permanecer nos Estados Unidos como comentarista da CazéTV sem pedir licença do mandato e continuar recebendo o salário de senador. As publicações associaram sua atuação privada à ausência das atividades presenciais no Congresso e ao atraso de pautas legislativas. O caso retomou a narrativa aberta no início da Copa sobre privilégios, agora com a imagem de um parlamentar que conciliava o mandato, as transmissões esportivas e eventos nos Estados Unidos.
CazéTV coloca bets em pauta
No mesmo período, a cobertura da CazéTV abriu um debate sobre a presença de casas de apostas nas transmissões. Parlamentares, vereadores e perfis políticos afirmaram que milhões de espectadores estavam submetidos a uma publicidade contínua de bets durante os jogos. A crítica apresentou as apostas como problema de saúde pública, fonte de endividamento e atividade promovida por influenciadores que não sofreriam suas consequências. Ana Júlia Ribeiro responsabilizou os grandes canais pelo alcance desses anúncios, enquanto William Siri destacou o volume de pessoas expostas às propagandas. A investigação citada contra a CazéTV ampliou o tema para a regulação estatal e vinculou o modelo comercial da Copa à discussão sobre proteção de consumidores e responsabilidade das plataformas.
Expediente
A Copa como palco político
06 de julho de 2026
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Como citar este relatório: Chiodi, Alexsander.; Vasques, Beto.Como a Copa repercutiu no cenário político. Instituto Democracia em Xeque, 2026. Disponível em: <https://institutodx.org/publicacoes/copadomundo/>
Equipe do relatório
Alexsander Chiodi, Letícia Capone e Beto Vasques.
Dados: Marcelo Alves
Projeto gráfico e diagramação: Moara Juliana e Júlia Cristofi

