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Flávio Bolsonaro ataca as urnas – Relatório Especial DX

1. Volume do período: A busca por termos relacionados ao ataque às urnas registrou 95.155 menções entre 16 e 22 de julho de 2026, com 62% de sentimento negativo e 94,5% das publicações originadas em redes sociais.

2. Duas ondas de autoria oposta: O primeiro momento de alta, em 17 de julho, com 19.641 menções, foi construído pela direita a partir dos documentos da CIA sobre a Venezuela divulgados pelo governo Trump.

3. O pico da semana: O segundo momento começou na noite de 21 de julho, após a exibição do discurso de Flávio pela GloboNews, e alcançou 20.474 menções em 22 de julho, contabilizadas até o meio-dia. O ápice da série ocorreu às 9h daquele dia, com 2.845 menções.

4. A inversão do vocabulário: O nome de Flávio Bolsonaro obteve um salto de menções, passando de  21% para 68% de presença nas publicações entre as duas fases, enquanto Trump recuou de 34% para 9% e Maduro, também em queda, teve recuo de 16% para 1%.

5. O paralelo com 2022: A comparação com a reunião de Jair Bolsonaro com embaixadores em 18 de julho de 2022 estruturou a crítica às declarações de Flávio, com parlamentares do PT afirmando que o senador repetiu o ato que levou o pai à inelegibilidade.

6. A recusa do PT: O partido anunciou que não pediria a inelegibilidade de Flávio no TSE, avaliando que a fala buscava provocar reação judicial para sustentar posição de vítima.

7. A leitura do tribunal: A avaliação nos bastidores do TSE foi de que as declarações não configuraram ataque grave ao sistema eleitoral, e nenhum procedimento foi aberto até o fim do período monitorado.

8. A surpresa dos aliados: A apuração jornalística registrou que a declaração não havia sido discutida internamente no PL e provocou dúvidas entre parlamentares sobre a estratégia da pré-campanha.

9. A inversão nos perfis monitorados: Entre os perfis políticos acompanhados pelo Data Lake do DX, a extrema-direita respondeu por 92% das publicações em 17 de julho e caiu a 12% em 22 de julho, enquanto a esquerda passou de 3% a 70% no mesmo intervalo.

10. Territórios sem sobreposição: O eixo da fraude venezuelana reuniu 86% de presença de perfis da extrema-direita e o da repetição do roteiro paterno, 86% de presença de perfis de esquerda. A imprensa foi maioria apenas no eixo do desmentido, com 52%.

Em 21 de julho de 2026, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro discursou no encontro “Debatendo o Brasil”, promovido pelo portal The Brazilian Report e pela agência Novo Selo Comunicação, diante de representantes diplomáticos de 42 países. Em sua fala, afirmou que muitas das urnas usadas nas eleições brasileiras teriam a mesma origem da empresa venezuelana Smartmatic e pediu que os países enviassem a maior quantidade possível de observadores para o pleito de outubro, incluindo especialistas em tecnologia.

A alegação já havia sido desmentida pelo Tribunal Superior Eleitoral em nota de 2020, atualizada em 8 de julho de 2026, segundo a qual a empresa nunca forneceu urnas nem desenvolveu o software dos equipamentos brasileiros, tendo prestado apenas serviços de conexão de dados e voz. O episódio foi comparado à reunião que Jair Bolsonaro promoveu com embaixadores em 18 de julho de 2022, no Palácio da Alvorada, e que resultou em sua condenação por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, com inelegibilidade de oito anos.

Após a repercussão, Flávio divulgou nota afirmando ter “integral confiança” no sistema eleitoral, sem explicar a menção à empresa venezuelana.

Fonte: Instituto Democracia em Xeque, via Talkwalker.

A curva do período desenha dois picos separados por três dias de baixa. O primeiro se forma na manhã de 17 de julho e se mantém até o fim do dia 18, com máximas de 1.362 menções às 12h, sustentado pela circulação dos documentos da CIA sobre o sistema eleitoral venezuelano. Entre 19 e 21 de julho o volume recua até patamares abaixo de 600 menções por hora. A segunda subida começa por volta das 21h de 21 de julho, poucas horas depois da exibição do discurso pela GloboNews, alcança 2.023 menções às 22h e retoma força na manhã seguinte, com 2.845 menções às 9h, o maior valor de toda a série. A distância entre os dois picos mostra que a fala aos diplomatas não deu continuidade ao debate anterior, e sim inaugurou um segundo ciclo com dinâmica própria.

Laranja: período em que a tese circulava pela direita. Vermelho: após a fala aos diplomatas. 22/07 contabilizado até o meio-dia.

Fonte: Instituto Democracia em Xeque, via Talkwalker.

O contraste entre os dois blocos da semana fica visível na comparação diária. O primeiro bloco reúne 19.641 menções em 17 de julho e 16.912 em 18 de julho, com queda progressiva até 7.013 em 20 de julho, o menor volume do período. O segundo bloco começa em 21 de julho, com 13.226 menções, e alcança 20.474 em 22 de julho, o maior número da série, ainda que a contagem daquele dia tenha sido interrompida ao meio-dia. Projetado para o dia completo, o volume superaria com folga o pico de 17 de julho, o que indica que a repercussão da fala mobilizou mais do que a tese que a originou.

Fonte: Instituto Democracia em Xeque, via Talkwalker.

A comparação entre as duas fases registra a substituição quase completa do repertório da conversa. O nome de Flávio Bolsonaro salta de 21% para 68% das publicações, e os termos da denúncia acompanham o movimento, com mentira e fake passando de 1% para 22%, golpe de 1% para 14% e inelegibilidade de 1% para 12%. No sentido inverso, o vocabulário que sustentava a tese original perde presença, com Trump caindo de 34% para 9% e Maduro reduzido a 1%, ante os 16% anteriores. A menção a embaixadores e diplomatas, presente em 2% das publicações da primeira fase, chega a 32% na segunda. A permanência da CIA em 45% e a subida da Venezuela para 32% mostram que os elementos originais continuaram em circulação, agora como objeto da checagem alheia.

A divulgação, pelo governo Trump, de documentos de inteligência sobre o sistema eleitoral venezuelano foi apresentada por canais bolsonaristas como a confirmação de uma suspeita que vinha sendo desqualificada. Um vídeo de grande circulação afirmou que o que era chamado de teoria da conspiração acabara de ser destruído, e outros perfis registraram a leitura de que as urnas eletrônicas podem ser violadas, conforme teria sido confirmado pela CIA no pronunciamento de Trump. Essa foi a narrativa que sustentou o primeiro pico da semana, em 17 de julho.

A operação central da primeira fase consistiu em mover a suspeita venezuelana para o caso brasileiro por analogia, sem apresentar qualquer vínculo entre os dois sistemas. O argumento mais difundido sustentou que se a CIA afirma que Maduro fraudou o sistema mesmo com voto impresso, a situação brasileira seria pior por não utilizar este método. Outra formulação observou que Maduro dizia que o esquema venezuelano era infalível, assim como se diz das urnas brasileiras.

Junto à Venezuela, circulou a tese de interferência chinesa nas eleições norte-americanas, com a afirmação direta de que teria ocorrido fraude em 2020 nas urnas americanas e a responsável teria sido a China. Outra publicação sustentou que a CIA, o FBI e a NSA sabiam em 2020 que a China tentava fabricar urnas falsas e esconderam a informação de Trump. As publicações se constroem a partir de  um repertório internacional de fraude, com alegações de que o Brasil seria o próximo caso.

Uma linha secundária retomou a rejeição do voto impresso como evidência de má-fé institucional, questionando por que o ministro Barroso teria ido ao Congresso impedir a aprovação do voto impresso se não houvesse como adulterar as urnas. O argumento reaparece como peça de longa duração do repertório bolsonarista, reativada pelo contexto dos documentos da CIA.

Antes mesmo da fala aos diplomatas, circulava a tese de que o Judiciário atuaria para inviabilizar Flávio, com a afirmação de que Alexandre de Moraes acionaria todos os mecanismos para impedir que o nome do senador aparecesse nas urnas. Outra publicação relacionou as restrições impostas a Jair Bolsonaro às declarações de Trump sobre fraudes, sugerindo que as medidas seriam resposta à repercussão internacional do tema.

A virada da conversa ocorreu quando a imprensa noticiou o discurso de Flávio Bolsonaro. A Folha de S.Paulo publicou que o senador levou informações falsas sobre urnas à reunião com embaixadores e repetiu o episódio mobilizado por pai em 2022. Na mesma linha, o Blog do Noblat registrou o episódio sob a chave tal pai, tal filho. O momento em que o senador associa o sistema eleitoral brasileiro a uma empresa venezuelana circulou como peça central da denúncia, e o enquadramento da repetição estruturou toda a segunda onda.

Parlamentares e perfis do campo progressista converteram a denúncia em pressão institucional. A formulação mais difundida sustentou que Jair Bolsonaro reuniu embaixadores, mentiu sobre urnas e foi condenado, e que Flávio repetiu o ato diante de diplomatas, enquanto outras publicações interpelavam diretamente o tribunal, perguntando o que faria o TSE diante da repetição e se ministros indicados por Bolsonaro tomariam alguma providência.

Uma linha de crítica tratou o episódio como sintoma de esgotamento político. Guilherme Boulos produziu a formulação de maior alcance da manhã de 22 de julho ao afirmar que Flávio tenta se vender como um Bolsonaro 2.0, mas não passa de uma cópia mal acabada do pai. Na Globonews, Julia Duailibi afirma que os ataques às urnas se somam a fatores anteriores que fragilizaram a campanha, entre eles as críticas de Michelle Bolsonaro.

O campo governista sustentou que a fala prepara a contestação do resultado do pleito de 2026. Lindbergh Farias apresentou o movimento como construção de uma desculpa prévia para a derrota de Flávio Bolsonaro e anunciou que o PT não pediria a inelegibilidade, para não conceder ao senador a posição de vítima. Outros perfis previram desdobramento mais grave, afirmando que o discurso de fraude seria a base de um novo movimento contra o resultado, e a leitura de que a versão está sendo plantada porque sabem que vão perder circulou desde as primeiras horas.

A última linha de crítica explorou o fato de o questionamento partir de quem se elegeu pelo sistema questionado, apontando que Flávio Bolsonaro contesta o sistema eleitoral que elegeu sua família ao longo de toda a carreira e que as urnas supostamente fraudadas foram as mesmas que elegeram os candidatos bolsonaristas.

No campo da direita, a repercussão após a fala foi contida. A cobertura de veículos alinhados descreveu o episódio pela chave da transparência, noticiando que Flávio citou as urnas e pediu observadores internacionais, sem retomar a associação com a Smartmatic que originara a tese. A ausência de mobilização coordenada em defesa do argumento contrasta com o entusiasmo da primeira fase, quando a mesma direita celebrava os documentos da CIA.

Enquanto o monitoramento de menções abrange a conversa aberta nas redes, esta seção analisa o comportamento dos perfis políticos e de imprensa acompanhados pelo Data Lake do DX. Foram 332 publicações e 2.628.767 interações no período de 15 a 22 de julho de 2026. A base menor permite observar como os atores organizados trataram o tema, com a ressalva de que eixos com poucas publicações devem ser lidos pela direção que indicam, não pela precisão do percentual.

O debate concentrou-se na suposta Fraude na Venezuela, que reuniu 36% das publicações, sustentada pelos documentos da CIA e conduzida quase inteiramente pela extrema-direita, com 86% do eixo. A Integridade do voto apareceu em segundo, com 29% das publicações e o maior alcance do período, 36% das interações, e foi o eixo mais disputado entre os campos. A repetição do pai respondeu por 19% e concentrou a denúncia do campo governista, com 86% de esquerda, o maior índice do período. O desmentido reuniu 10% e foi o único eixo de maioria da imprensa, com 52%. A Convocação ao voto somou 6%, com 85% de extrema-direita.

A análise diária dos clusters aponta que o eixo da Fraude na Venezuela concentra 42 publicações em 17 de julho e 33 em 18 de julho, e desce a 13 no dia 22. A repetição do pai percorre o caminho oposto, com nenhuma publicação entre 19 e 20 de julho, 17 em 21 de julho e 43 em 22 de julho, quando assume a liderança do dia. O desmentido acompanha o mesmo movimento em escala menor, de 1 publicação em 20 de julho para 17 em 22 de julho, quando a imprensa passou a checar a afirmação. A Integridade do voto mantém presença constante ao longo de todo o período, entre 6 e 19 publicações diárias, por ser o único eixo que não depende de um evento específico.

Os eixos se distribuem entre os campos com pouca sobreposição, o que indica territórios discursivos bem delimitados. A extrema-direita responde por 86% da Fraude na Venezuela e 85% da Convocação ao voto, enquanto a esquerda ocupa 86% de A repetição do pai, o maior índice de um campo em um eixo no período. O desmentido é o único terreno de maioria da imprensa, com 52%, coerente com um eixo formado pela verificação factual da afirmação. A Integridade do voto é o único espaço genuinamente compartilhado, com 53% de direita e 35% de esquerda, o que se explica por comportar tanto a demanda por auditoria quanto a defesa do sistema.

A leitura por campo mostra que a extrema-direita destinou 56% de suas publicações à Fraude na Venezuela, mais da metade de todo o seu esforço no período, e apenas 2% ao eixo da repetição, o que confirma que o campo não disputou a narrativa que o atingia. A esquerda concentrou metade de suas publicações em A repetição do pai e 31% na Integridade do voto. A imprensa dividiu-se entre O desmentido, com 42%, e a Integridade do voto, com 30%, distribuição condizente com as funções de checar a afirmação e contextualizar o debate sobre o sistema eleitoral.

O cruzamento das linhas entre 20 e 21 de julho é o dado mais expressivo do relatório. A extrema-direita responde por 92% das publicações em 17 de julho e 88% em 18 de julho, período em que o assunto era a fraude venezuelana. Em 21 de julho, a esquerda assume a maioria com 50%, e em 22 de julho chega a 70%, com a direita reduzida a 12%. Em cinco dias, os dois campos trocaram de posição no mesmo assunto, sem que o tema mudasse. A imprensa manteve-se estável entre 4% e 23% ao longo de todo o período, com leve alta nos dias de checagem da afirmação.

Para a realização desta pesquisa, foi utilizado o Talkwalker e o DataLake do Instituto Democracia em Xeque, com dados coletados e armazenados utilizando APIs públicas das plataformas Facebook, Instagram, YouTube, X/Twitter e TikTok.

A base de observação do Instituto é composta por uma lista de atores ligados ao debate político, entre eles políticos, influenciadores, mídia de referência e mídia partidária. A coleta de conteúdos é realizada a partir de perfis no Facebook e Instagram, canais do YouTube, perfis no X e no TikTok, com no total mais de 16 mil perfis.

Em 04/09/25, os dados quantitativos passaram a contabilizar como interações a soma de curtidas, comentários, compartilhamentos e visualizações das postagens em todas as redes sociais. A inclusão da quantidade de views nos vídeos do Instagram resultou no aumento significativo deste total.

Diretores Participantes:

Direção de Pesquisa
Direção de Metodologia
e Inovação

Pesquisadores Participantes:

Coordenação de Relatórios
Coordenação de Arte e Comunicação

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