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Ataque ao voto feminino – Relatório Especial DX

Michelle como gatilho do Projeto Misógino

A escalada do debate sobre o voto feminino cruza com a disputa pelo espólio de Jair Bolsonaro entre seu primogênito e esposa. O tema do voto feminino ganhou tração nas redes sociais entre 30 de junho e 1º de julho de 2026, com o pico de repercussão coincidindo exatamente com a saída de Michelle Bolsonaro do comando do PL Mulher. A defesa da misoginia, que  começou como “projeto eleitoral” (“mulheres votam mal”), chegou a deslizar para um “projeto político”  (“mulheres não deveriam votar”)

Figueiredo une Manosfera e Gabinete do ódio

A análise do debate digital demonstra que a fala de Paulo Figueiredo sobre mulheres voltarem mal não circulou de forma isolada, ganhando alcance, por um lado, com a ativação de segmentos misóginos e machistas nas redes, importando debate já existente nos setores MAGA nos EUA. Por outro lado, se misturou com a crise interna do bolsonarismo desencadeada a partir do vídeo publicado pela ex-primeira-dama, ativando influenciadores, blogueiros e subcelebridades afins aos filhos do ex-presidente com críticas e ataques a Michelle e suas aliadas mulheres, em especial a senadora Damares Alves.

Pseudo-Estatística medievalesca versus Defesa Civilizatória

O cluster de maior volume (38% do debate) focou na declaração de que “mulheres votam mal”, operando como o principal terreno de disputa, seguido por Voto feminino como direito (30% do debate). Enquanto a extrema-direita tentou emplacar como constatação “estatística” um posicionamento crítico ao voto feminino sob justificativas obscurantistas sem fundamentos científicos e com dados distorcidos, a esquerda e a imprensa enquadraram o sufrágio feminino não como uma variável de campanha, mas como um direito democrático histórico e inegociável.

O “Voto da Família” como projeto político de subordinação feminina

As métricas e narrativas apontam para uma tentativa articulada de transformar em promover a subordinação política das mulheres por meio da ideia do “voto da família”, culpabilizando o feminismo por afastar as mulheres solteiras da direita. Entre as “justificativas” foram resgatadas falas da própria Michelle Bolsonaro, em novembro de 2025, defendendo “submissão saudável” das esposas aos seus maridos.

Confusão e contradição na direita

O episódio expôs um racha no interior da extrema-direita. Enquanto influenciadores radicais hostilizavam o eleitorado feminino e questionavam o sufrágio universal, a classe política, representada por Flávio Bolsonaro, foi forçada a acenar para o eleitorado feminino, com mea-culpas e críticas tardias e suaves ao posicionamento de seus colegas. Parte da discussão também especulou sobre o fato de Flávio e Figueiredo terem atuado de forma combinada.

A esquerda liderou a defesa do voto feminino

Ao contrário do padrão dos temas do bolsonarismo, a esquerda foi maioria do debate, com 42% dos posts contra 36% da direita, mobilizada pela defesa do voto feminino diante de uma fala vinda do próprio campo conservador.

Contexto

O relatório acompanha a repercussão da fala do influenciador Paulo Figueiredo, que afirmou em transmissão de 25 de junho que mulheres votam mal, sobretudo as solteiras, e que as casadas tendem a acompanhar o voto do marido. A declaração ampliou o atrito que já corria entre Michelle Bolsonaro e o enteado Flávio, pré-candidato do PL à Presidência, ao atingir o capital político que a ex-primeira-dama construiu no PL Mulher e entre eleitoras conservadoras. A fala ganhou tração nas redes a partir de 29 de junho e se conectou à saída de Michelle do comando do PL Mulher, transformando uma declaração isolada em disputa sobre o voto feminino às vésperas do ano eleitoral. Flávio repudiou a fala e afirmou que Figueiredo não integra sua campanha.

Dados, métricas e narrativas mobilizadas

Considerando as postagens que mencionam o termo voto feminino, a busca livre no Talkwalker registrou 23.351 menções entre 27 de junho e 3 de julho de 2026. O gráfico abaixo apresenta a quantidade de menções por hora, com o tema quase ausente até 28 de junho e uma virada a partir de 29 de junho, quando a fala de Figueiredo entra em circulação ligada à crise no PL Mulher.

Menções por hora ao termo “voto feminino”, de 27/06/2026 a 03/07/2026.
Fonte: Instituto Democracia em Xeque, via Talkwalker.

O volume diário atingiu o maior valor em 30 de junho, com 9.552 menções, e o pico por hora ocorreu às 16h deste dia, com 786 menções. Em 1º de julho o tema mantém força, com 5.912 menções, e recua ao longo de 2 e 3 de julho. Os dois dias de maior repercussão, 30 de junho e 1º de julho, coincidem com a saída de Michelle do comando do PL Mulher, sinal de que a fala sobre o voto feminino ganhou escala ao se enredar com a crise interna do bolsonarismo.

Análise das métricas da lista fechada

Dados coletados pelo Data Lake DX

A base classificada registrou 263 posts e 2,3 milhões de interações no período, distribuídos em quatro eixos temáticos. O debate opôs o eixo “Mulheres votam mal”, o maior, ao eixo Voto feminino como direito. A distribuição por campo mostra maioria da esquerda, com 42% dos posts, padrão distinto do observado em outros temas do bolsonarismo, em que a direita costuma predominar.

A tabela distribui os 263 posts em quatro eixos temáticos, do maior ao menor volume. O eixo “Mulheres votam mal”, que reúne a frase de Paulo Figueiredo e sua defesa como suposta constatação estatística, foi o maior, com 38% do total, e é o único em que a direita aparece à frente, com 45%, ainda que quase empatada com a esquerda, em 41%, o que faz dele o terreno de disputa direta sobre a declaração. Os outros três eixos têm a esquerda ou a imprensa na dianteira. Voto feminino como direito, com 30% do total, trata a fala como ataque ao sufrágio universal e à autonomia das mulheres, e é majoritariamente de esquerda, com 54%. Repercussão no PL, com 22%, reúne a reação de Flávio e o repúdio dentro do partido, e é o único eixo com imprensa majoritária, em 43%, coerente com seu caráter de cobertura política. Violência política de gênero, o menor, com 10%, agrega a crítica de figuras públicas ao teor da fala e a menção à atuação da PGR, puxado pela esquerda, com 52%. Percebe-se um debate em que a direita se concentra em sustentar a declaração enquanto os demais campos se distribuem entre a defesa do voto feminino, a repercussão partidária e a crítica institucional.

O gráfico mostra que a repercussão se concentrou em dois eixos. “Mulheres votam mal” reuniu 99 posts, 38% do total, e foi o principal foco do debate, seguido por “Voto feminino como direito”, com 79 publicações e 30%. Juntos, os dois clusters somaram 178 posts, o equivalente a 68% da amostra, o que indica que a controvérsia foi disputada entre a reprodução da fala de Paulo Figueiredo e sua interpretação como ataque à autonomia política das mulheres. A repercussão no PL apareceu em seguida, com 58 posts e 22%, conectando a declaração à reação de Flávio Bolsonaro e à saída de Michelle do PL Mulher. Já a violência política de gênero teve menor volume, com 27 posts e 10%, funcionando como uma leitura mais específica dentro do debate.

A distribuição por campo mostra que a extrema-direita concentrou sua atuação na repercussão da frase “mulheres votam mal”, responsável por 48% de seus posts, enquanto a esquerda dividiu o debate entre esse eixo, com 37%, e a defesa do voto feminino como direito, com 39%. Na imprensa, o foco principal foi a repercussão no PL, que reuniu 43% das publicações e relacionou a controvérsia à reação de Flávio Bolsonaro e à saída de Michelle do comando do PL Mulher. A violência política de gênero teve peso menor nos três campos, embora tenha alcançado sua maior participação na imprensa, com 13%, seguida pela esquerda, com 12%, e pela extrema-direita, com 7%.

A curva mostra que o debate ganhou tração a partir de 29 de junho, quando o volume saltou para 33 posts, e atingiu o pico em 1º de julho, com 90 publicações. A frase “mulheres votam mal” liderou a expansão, passando de 26 posts no dia 29 para 31 no dia 30 e 36 no pico, enquanto a repercussão no PL cresceu de 16 para 30 publicações entre 30 de junho e 1º de julho. A defesa do voto feminino como direito ganhou espaço nesses dois dias, com 22 e 19 posts, e a violência política de gênero teve maior presença em 30 de junho, quando somou 13 publicações. Em 2 de julho, o volume caiu para 37 posts, mas o debate permaneceu distribuído entre os quatro eixos, com maior peso para o voto feminino como direito, que reuniu 19 publicações.

A dinâmica temporal mostra que a fala, dita em 25 de junho, teve pouca circulação isolada e ganhou escala ao se conectar à crise entre Michelle e Flávio. O volume se concentrou em 30 de junho e 1º de julho, os mesmos dias em que a saída de Michelle do comando do PL Mulher dominou a repercussão do caso Bolsonaro. A leitura que atravessou o debate foi a de uma contradição no campo conservador: o bolsonarismo depende do voto feminino para disputar a eleição, mas abrigou em seu entorno digital uma fala que trata esse mesmo eleitorado como problema. A defesa do voto feminino, puxada pela esquerda, e a tentativa de Flávio de conter o desgaste operaram sobre essa contradição, uma para expô-la, outra para reduzir seus danos junto a mulheres e evangélicos. O tamanho reduzido da base classificada pede cautela na leitura dos eixos menores, mas a série do Talkwalker, com mais de vinte mil menções ao termo, confirma que a repercussão do voto feminino ultrapassou o volume da amostra e alcançou o debate público mais amplo.

Narrativas mobilizadas

Paulo Figueiredo afirmou que mulheres votam mal, com ênfase nas solteiras, e atribuiu esse comportamento ao avanço do feminismo. Após a repercussão inicial, ele agravou a declaração intensificando seus argumentos e apresentou a tese de que mulheres votariam mal como “estatisticamente indiscutível”⁠. O argumento associou casamento à orientação política do marido e autonomia feminina ao apoio à esquerda, convertendo a misoginia em explicação para as dificuldades eleitorais da extrema-direita. A fala foi mobilizada como defesa indireta do chamado “voto da família”, no qual a vontade do homem da casa substitui a decisão individual das mulheres⁠.

Alguns conteúdos sustentaram que Paulo Figueiredo teria provocado a crise de propósito para criar uma oportunidade de Flávio Bolsonaro repudiá-lo e se apresentar como defensor das mulheres. A reação do senador foi tratada como encenação ou cálculo eleitoral, sobretudo após circular a afirmação de que Figueiredo teria sugerido que Flávio o desautorizasse publicamente⁠. A hipótese apareceu em publicações que descreveram o episódio como um plano combinado para melhorar a imagem de Flávio junto ao eleitorado feminino⁠ e em análises que perguntaram se o ataque ao voto feminino havia sido articulado com a campanha⁠.

Outra leitura associou as falas de Paulo Figueiredo e Pietra Bertolazzi a movimentos dos Estados Unidos ligados ao nacionalismo cristão, ao trumpismo e à defesa do chamado voto familiar, no qual o marido concentraria a decisão política do domicílio. O tema apareceu em análises sobre a importação de ideias de grupos radicais da direita americana⁠ e em conteúdos que aproximaram o bolsonarismo de movimentos que questionam o voto feminino nos Estados Unidos⁠. Nesse enquadramento, a fala deixou de ser tratada como provocação isolada e passou a integrar uma agenda transnacional de restrição da autonomia feminina.

A declaração de Paulo Figueiredo foi tratada como expressão de uma visão segundo a qual mulheres possuem menor capacidade de decisão política e deveriam seguir a orientação masculina. A distinção entre solteiras e casadas reforçou essa leitura, pois atribuiu às primeiras um comportamento eleitoral inadequado e às segundas uma tendência a acompanhar o marido. A fala foi associada à defesa do chamado “voto da família”, entendido como redução da autonomia feminina em favor da autoridade do homem. Circularam alertas de que a proposta de substituir o voto individual pela vontade do “homem da casa”⁠ representaria a importação de uma agenda da extrema-direita dos Estados Unidos.

As críticas ultrapassaram a declaração específica sobre voto de mulheres e enquadraram o episódio como parte de uma ofensiva contra o sufrágio universal. A leitura foi que ataques ao voto feminino, ao voto de beneficiários de programas sociais e ao peso eleitoral dos trabalhadores partiam da mesma premissa, segundo a qual determinados grupos não estariam aptos a escolher os rumos do país. Nesse eixo, a afirmação de que mulheres votam mal foi tratada como tentativa de hierarquizar cidadãos e limitar a participação de quem não acompanha as preferências da extrema-direita. A reação destacou que a mulher solteira foi descrita como alguém sem legitimidade política própria⁠, enquanto a casada apareceu subordinada ao voto do marido.

A repercussão foi ligada à saída de Michelle Bolsonaro do PL Mulher e ao conflito com Flávio Bolsonaro. As publicações aproximaram a afirmação de que Michelle “não entende de política” da declaração de que mulheres votam mal, apresentando os dois episódios como manifestações da mesma estrutura. O resultado foi enquadrado como demonstração de que as mulheres eram valorizadas enquanto mobilizavam eleitoras, mas perdiam espaço quando disputavam decisões dentro do partido. Essa leitura apareceu em conteúdos que reuniram os ataques a Michelle, Damares e ao eleitorado feminino para afirmar que a extrema-direita não respeita nem as mulheres do próprio campo⁠.

A defesa de Paulo Figueiredo afirmou que existiriam diferenças mensuráveis entre o comportamento eleitoral de homens e mulheres. De acordo com este enquadramento, mulheres, sobretudo as solteiras, tenderiam a apoiar mais a esquerda, políticas sociais e maior intervenção do Estado. A declaração foi apresentada pelos defensores do posicionamento como descrição de um padrão eleitoral, enquanto as críticas foram tratadas como censura ou recusa em discutir dados. O vídeo gravado posteriormente ao início da polêmica, no qual Figueiredo reforçou e intensificou seus argumentos, circulou acompanhado da afirmação de que a tese seria “estatisticamente indiscutível”⁠. Outros conteúdos elogiaram o influenciador por apresentar “fatos” e criticaram Flávio Bolsonaro por discordar publicamente da interpretação⁠.

Pietra Bertolazzi mobilizou uma defesa explícita da restrição do voto feminino ao se declarar contra o sufrágio das mulheres em um vídeo de perguntas rápidas publicado pelo Canal Foco⁠. A fala foi associada a outras posições antifeministas, como a rejeição à distribuição gratuita de absorventes, e ampliou a controvérsia aberta por Paulo Figueiredo. A leitura crítica ao posicionamento de Bertolazzi foi a de que a influenciadora teria transformado a autonomia eleitoral das mulheres em ameaça à ordem conservadora, ao mesmo tempo em que utilizava os espaços políticos e digitais conquistados pelos direitos das mulheres.

Outro eixo associou o comportamento eleitoral feminino à expansão do feminismo. A leitura foi que essa ideologia teria afastado mulheres de valores familiares, religiosos e conservadores, conduzindo-as ao voto em partidos de esquerda. Mulheres solteiras apareceram como o grupo mais influenciado por esse processo, enquanto o casamento foi descrito como fator de aproximação com posições políticas masculinas. Assim, a crítica ao voto feminino funcionou como crítica à autonomia das mulheres e à sua presença fora de estruturas familiares tradicionais. O feminismo foi chamado de força que estaria “destruindo a vida das mulheres”⁠, justificando a necessidade de reconduzi-las ao campo conservador.

A reação de Flávio Bolsonaro foi enquadrada como tentativa de impedir que a fala contaminasse sua candidatura e aprofundasse a rejeição entre mulheres. O senador repudiou o posicionamento de Paulo Figueiredo, destacou sua condição de marido e pai e defendeu que o problema da direita estava na comunicação com o eleitorado feminino. A manifestação buscou preservar a relação com o PL Mulher após a saída de Michelle e demonstrar que Figueiredo não falava em nome de sua campanha. Aliados celebraram o momento em que Flávio rejeitou a ideia de que mulheres votam mal⁠, enquanto apoiadores de Figueiredo aceitaram o afastamento eleitoral, mas mantiveram a defesa do conteúdo da fala do influenciador.

O episódio foi tratado como conflito entre duas estratégias dentro da extrema-direita. Michelle havia construído sua influência por meio da mobilização de mulheres conservadoras e evangélicas, enquanto Paulo Figueiredo e seus apoiadores reduziram esse eleitorado a um problema político causado pelo feminismo. A saída do PL Mulher tornou a contradição mais visível, pois Flávio Bolsonaro precisava recuperar um público que aliados próximos passaram a hostilizar. A leitura foi que o bolsonarismo dependia do voto feminino para vencer a eleição, mas mantinha em seu entorno discursos que negavam autonomia às próprias eleitoras. A controvérsia colocou em choque a tentativa de atrair mulheres para a candidatura⁠ e a defesa de que elas deveriam orientar suas escolhas pela autoridade masculina.

Diretores Participantes:

Direção de Relações Institucionais
Direção de Pesquisa
Direção de Metodologia
e Inovação

Pesquisadores Participantes:

Coordenação de Relatórios
Bacharel em Design Gráfico (Anhembi Morumbi) e em Pedagogia (UNIVESP)
Coordenação de Arte e Comunicação

ESTE RELATÓRIO ESTÁ LICENCIADO SOB A LICENÇA CREATIVE COMMONS CC BY-SA 4.0 BR.
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