Décima primeira rodada
Investigação qualitativa sobre opinião pública, preferências eleitorais e percepção política de eleitores “pendulares”.
Método
Tríades etnográficas
Público
Eleitores Pendulares
Foco
Percepções Eleitorais
Insights Centrais
A décima primeira rodada mostra uma inflexão importante: depois de semanas marcadas por escândalos, acusações e deslocamentos negativos, a agenda passa a testar a capacidade dos atores de reparar danos sem parecer encenação. A pergunta que organiza a rodada não é apenas “quem errou?”, mas “quem consegue se recompor com credibilidade?”.
A “reconciliação” entre Flávio e Michelle reduz momentaneamente a temperatura da crise familiar, mas não recompõe plenamente a confiança. Entre os homens, predomina a leitura de peça fabricada por cálculo eleitoral. Entre as mulheres, há mais abertura emocional para a ideia de entendimento familiar, não exatamente por convicção na sinceridade do gesto, mas porque a conciliação aparece como valor desejável e o apoio de Michelle é percebido como condição relevante para Flávio manter competitividade.
Na agenda do tarifaço, Lula encontra a formulação mais ajustada ao sentimento pendular quando afirma disposição de negociar até o fim. O eleitor quer soberania, mas não quer bravata; quer firmeza, mas teme agressividade; quer que o Brasil não se humilhe, mas exige que o governo evite escalada com Trump. A fórmula mais promissora é: negociação máxima, firmeza nos propósitos e suavidade na forma.
A decisão de Lula de não participar dos debates de primeiro turno divide leituras. Entre mulheres, aparece como sinal de falta de confiança, medo de ataques ou risco de descontrole. Entre homens, pode ser lida como estratégia inteligente de autopreservação diante de um ambiente hostil, desde que o presidente compareça aos debates decisivos do segundo turno. Em ambos os casos, há incômodo com a perda de oportunidade de ouvir propostas.
A volta da suspeição sobre as urnas é um ponto crítico para Flávio. Para a maioria, especialmente entre os que terminam inclinados a Lula, o discurso soa como repetição do roteiro do pai, conversa de perdedor e possível preparação para contestar o resultado. Para uma minoria inclinada a Flávio, aparecem desinformações sobre fraude remota, Defesa Civil e Venezuela. O efeito mais relevante é simbólico: Flávio fica cada vez mais Jair, isto é, menos autônomo, mais radical e mais associado ao golpismo.
O vídeo de Flávio na convenção, rodeado de mulheres e elogiando esposa e mãe, também divide reações. Para participantes já mais propensas a Flávio, o gesto abre esperança de mudança de postura. Para a maioria pró-Lula, soa teatral, excessivo e calculado, uma tentativa de limpar a imagem após Michelle e depois da sequência de falas machistas associadas ao bolsonarismo.
No voto, a lógica relacional aparece com força máxima. Primeiro o eleitor explica por que desconfia do outro candidato; só depois encontra razões positivas para sua inclinação. Flávio segue vivo pelo desejo de renovação, reforçado para algumas mulheres pelo retorno simbólico de Michelle. Lula segue favorecido pela perda de confiança em Flávio, pelas políticas sociais e, nesta rodada, também pela defesa da soberania. Nenhuma dessas inclinações é dura: o pêndulo segue brando, contingente e comandado pela agenda factual.
Escopo
Nesta rodada, as atenções se concentraram em cinco eixos da agenda factual recente: a “reconciliação” entre Flávio e Michelle Bolsonaro, a partir do intercâmbio de vídeos de desculpa e perdão; a fala de Lula sobre o tarifaço, afirmando que seguirá negociando até o fim; o anúncio da pré-campanha de Lula de que o presidente não pretende ir aos debates do primeiro turno; a fala de Flávio a embaixadores e a live de Eduardo Bolsonaro colocando em suspeição as urnas eletrônicas; e o vídeo de Flávio em sua convenção, rodeado de mulheres e elogiando sua esposa e sua mãe. Ao final, como em todas as semanas, foi testada a inclinação de voto entre os eleitores pendulares.
O objetivo foi observar como esses episódios reorganizam percepções sobre reconciliação familiar, cálculo político, soberania, negociação com Trump, transparência presidencial, debates, idade, confiança nas urnas, relação de Flávio com as mulheres e voto entre eleitores que continuam sem decisão consolidada para 2026.
A rodada aprofunda uma hipótese acumulada desde Dark Horse: o eleitor pendular decide menos por adesão ideológica estável e mais por comparação permanente entre proteção concreta, desejo de mudança, confiança moral, riscos percebidos, comportamento público e fatos da semana.
PERÍODO:
25 de julho de 2026 (campo) | 27 de julho de 2026 (relatório)
GRUPOS:
2 grupos focais em formato de tríades etnográficas
COMPOSIÇÃO:
Grupo 1: homens | Grupo 2: mulheres
PERFIL:
30-50 anos, ensino médio, renda familiar de 3 a 7 salários-mínimos
REGIÃO:
Preferencialmente eleitores das Regiões Metropolitanas de São Paulo,
Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador (“swing states”)
TRAJETÓRIA ELEITORAL:
Votou em Jair Bolsonaro em 2018; votou em Lula em 2022; está indefinido para 2026.
CRITÉRIO POLÍTICO:
Não rejeita Lula nem Flávio Bolsonaro
MATERIAL TESTADO:
Vídeos de desculpa de Flávio e perdão de Michelle; vídeo com fala de Lula sobre negociação do tarifaço; anúncio de ausência de Lula em debates do primeiro turno; vídeos com falas de Flávio/Eduardo sobre urnas eletrônicas; vídeo de Flávio na convenção com mulheres.
Sumário executivo visual
Doze leituras estratégicas para decisão política e comunicação
A rodada testa reparação sob suspeita
Depois de semanas de desgaste, os atores tentam recompor danos. O eleitor avalia menos a intenção declarada e mais se a reparação parece verdadeira ou fabricada.
A reconciliação Flávio-Michelle ameniza, mas não encerra a crise
Os vídeos reduzem o dano imediato, mas são percebidos como contingentes, eleitorais e incapazes de devolver a relação ao “normal”.
Mulheres leem a conciliação pela chave da família; homens, pela chave do cálculo
Entre mulheres, há desejo de que a família se entenda; entre homens, predomina a leitura de acordo público para evitar perda de votos.
Michelle continua sendo ativo indispensável para Flávio
Mesmo quando há ceticismo sobre a sinceridade da reconciliação, o apoio de Michelle é visto como necessário para a candidatura do enteado.
Lula acerta quando fala em negociar até o fim
A disposição negociadora é unanimemente positiva; o eleitor quer esforço máximo para evitar que o tarifaço pese no bolso.
A fórmula pendular é “altivez serena”
Homens demandam altivez e soberania; mulheres temem bravatas de Lula e a imprevisibilidade de Trump. A síntese é firmeza no propósito (defesa altiva da soberania) com serenidade na forma (sem arroubos nem bravatas).
Ausência nos debates divide, mas abre vulnerabilidade
Para alguns, é estratégia de proteção; para outros, sinal de insegurança. Em comum, permanece a demanda por ouvir propostas e ver capacidade de resposta.
A idade de Lula não incapacita, mas alimenta dúvida sobre controle
O problema não é a idade em si, mas a percepção de paciência, energia e capacidade de atravessar ataques sem se irritar ou desorganizar.
O ataque às urnas reconecta Flávio a Jair
A suspeição eleitoral faz Flávio parecer menos moderado e mais herdeiro do roteiro radical do pai.
Urna eletrônica aparece como tecnologia brasileira a ser defendida… ou fake news
Para parte dos participantes, atacar as urnas soa como atacar uma conquista tecnológica do país. Minoria alega dúvidas, reproduzindo desinformação (“Venezuela”) ou comparações sem fundamento, como no caso da Defesa Civil.
O vídeo pró-mulheres de Flávio melhora entre inclinadas, mas não convence céticos
A peça funciona para quem já deseja acreditar na mudança de postura; para os demais, parece maquiagem eleitoral.
O voto segue relacional, frágil e sem paixão
Primeiro se explica a desconfiança num candidato, só depois as razões de porque votar no outro: Flávio é mudança sem confiança consolidada; Lula é proteção com baixa emoção. Opção de voto segue sem convicção, pendulando em função da agenda factual.
Mapa de percepções
Como os participantes organizam Lula, Flávio Bolsonaro, Trump, a Família Bolsonaro e as zonas de disputa.

A décima primeira rodada mostra que a disputa entrou em uma fase de reparação sob suspeita. Michelle e Flávio tentam recompor a família, Lula tenta recompor a imagem de negociador responsável diante do tarifaço, e Flávio tenta recompor sua relação com as mulheres e sua imagem pública. Mas o eleitor pendular não aceita reparações de imediato: testa se há verdade, cálculo ou encenação. Lula ganha quando combina soberania, negociação e seriedade; perde quando parece bravateiro ou impaciente e irritadiço com risco de descontrole. Flávio segue vivo pela mudança, mas o ataque às urnas, a dependência do pai e a teatralização pró-mulheres dificultam que essa mudança pareça segura. O voto continua relacional, brando e comandado pelos fatos da semana.
Achados qualitativos
Temas, interpretações e aspas selecionadas
xxxxx
“Eu vi que o Trump estava querendo taxar o Brasil e isso é prejudicial, né? Porque vai aumentar o preço e tem ainda a coisa do PIX que também queria aumentar”
PARTICIPANTE T, GRUPO 1
“Ah, é muito ruim porque os preços vão aumentar e as coisas já estão muito caras”
PARTICIPANTE A, GRUPO 2
Leitura estratégica
“Reconciliação” Michelle-Flávio: trégua útil, mas confiança parcial
A reconciliação entre Flávio e Michelle é recebida como gesto de redução de dano, mas não como recomposição plena de confiança. Todos reconhecem a presença de cálculo político, próprio do período eleitoral. A diferença aparece no modo como homens e mulheres organizam essa leitura.
Entre os homens, os vídeos soam mais fabricados e orientados pela necessidade de preservar votos, sobretudo porque o apoio de Michelle é visto como fundamental para a candidatura de Flávio. Entre as mulheres, a presença do cálculo não elimina uma abertura emocional: aparece o desejo de que famílias se entendam, não por defesa específica da Família Bolsonaro, mas porque conciliação familiar é percebida como valor moral em si.
Essa abertura, porém, é contingente. As participantes têm “um pé atrás”, imaginam que o conflito pode voltar e indicam que a relação dificilmente voltará a ser “como antes”. A reconciliação ameniza, mas não apaga a memória da briga.
“Parece que eles se entenderam, com certeza tem situação política, tentaram entrar num acordo para apoiar e o Flavio se beneficia por esse apoio da Michelle. Parece que eles se resolveram para a eleição, vão tentar se controlar para não dar mais nada errada. Eu, não sei se vai dar certo, é normal um escândalo e treta em família, mas espero que se resolvam”
PARTICIPANTE F, GRUPO 1
“Acabaram de se entender ou pelos menos agir com mais inteligência. É uma família e teria que se apoiar. É também uma jogada política e sim, sim, Flávio se beneficia disso e ele voltou atrás corretamente porque ele tinha dado um passo errado, porque as mulheres ficamos mal com isso. Eu não sei uma desculpa total, eu ainda estou com pé atrás. É válido, mas ainda fico na dúvida com tudo isso”
PARTICIPANTE S, GRUPO 1
“Eu acredito que ele fica em vantagem ainda. Eu vejo com algo de perdão, todo o mundo comete erros. Tem a parte política, claro, mas também a familiar, mas acho que pode vir alguma outra coisa por aí. Pelo menos deu uma amenizada, mas as coisas nunca voltarão ao normal entre eles, eles só resolveram momentaneamente”
PARTICIPANTE C, GRUPO 1
“Eu acho que é mais algo político para poder não distanciar os votos que poderiam ser direcionado ao Flávio, não acho genuíno. Por ser mulher de Bolsonaro é melhor ter o apoio dela”
PARTICIPANTE R, GRUPO 1
“Acho que deve ser algo mais político, eles se resolveram para ganhar as eleições porque o apoio dela é importante, conflito de família interfere negativamente para Flávio na eleição”
PARTICIPANTE A, GRUPO 1
“Sendo bem honesto acho que eles se resolveram perante o publico, mas não no interno deles. Acho que no interno nem se falam mais, mas o Flávio estava perdendo apoiadores por conta disso então eles chegaram a esse acordo político”
PARTICIPANTE E, GRUPO 1
Leitura estratégica
A reconciliação é funcional para Flávio, mas não é transformadora. Ela pode reabrir alguma boa vontade entre eleitores que desejam acreditar na harmonia familiar, especialmente mulheres inclinadas ao senador, mas continua sob suspeita de cálculo e não elimina a marca de confusão do clã.
Tarifaço: Lula melhora quando promete negociar até o fim
A fala de Lula sobre o tarifaço é avaliada positivamente de forma unânime quando o presidente afirma disposição de continuar negociando. A palavra “negociação” segue funcionando como eixo organizador da percepção pendular. O eleitor não quer rendição nem enfrentamento performático; quer esforço, seriedade e proteção material.
A diferença entre homens e mulheres, novamente, é relevante. Entre as mulheres, embora diga que vai negociar, aparece maior desconfiança sobre a capacidade de Lula manter serenidade diante de Trump. O medo é que o presidente se altere, fique agressivo e falastrão e comprometa uma negociação percebida como vital. Entre homens, há maior valorização da altivez: Lula deve negociar, mas sem abaixar a cabeça e sem permitir que o Brasil pareça humilhado.
A síntese transversal é uma fórmula de alta potência comunicacional: pré-disposição total à negociação, firmeza nos propósitos e suavidade na forma.
“Acho que ele não vai conseguir negociar porque afronta muito o Trump, que é perigoso, ele (Lula) teria que tentar mais humildemente e não tão agressivo. Tá melhor que antes, mas ainda precisa ser menos agressivo”
PARTICIPANTE F, GRUPO 1
“É o mínimo. Ele tem que tentar negociar, claro. É o mínimo que a gente espera de um presidente. Mas tenho muito medo de piorar a situação e o Lula ficar mais agressivo e também tenho medo de Flávio ficar cutucando e o Trump é complicado”
PARTICIPANTE S, GRUPO 1
“Tá certo, tem que ter cautela mesmo e negociar, para a gente isso é vantajoso e a gente depende deles. Qualquer coisa agressiva do Lula seria perigosa, mas, não sei, nesse caso não confio muito no Lula, não acho que teria uma conversa amigável com Trump”
PARTICIPANTE C, GRUPO 1
“Eu confio no Lula, sim, está certo. Essas tarifas vêm por conta de que Trump não apoia Lula. Eu confio e acho que Lula deva negociar, mas também a gente tem que se manter soberano, né? A gente não precisa tanto deles”
PARTICIPANTE E, GRUPO 2
“Acredito que ele sabe negociar e tem que continuar negociando porque as taxas são ruins para o povo, vai aumentar o preço de tudo e eu acho que Lula pode negociar, sim, confio”
PARTICIPANTE A, GRUPO 2
“Acho que nesse momento Lula tem que negociar, sim, apoio isso, mas sempre com essa perspetiva de Brasil ser soberano, negociar, mas se curvar ao EUA, tentar dialogar sem humilhação”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
Leitura estratégica
A soberania que convence o eleitor pendular não é grito, nem submissão. É uma soberania negociadora: altiva o suficiente para não humilhar o Brasil, prudente o suficiente para não provocar Trump, concreta o suficiente para proteger preços, empregos e cotidiano.
Lula fora dos debates: estratégia para alguns, insegurança para outros
O anúncio de que Lula não pretende participar dos debates de primeiro turno produz leituras ambivalentes. Entre as mulheres, predomina a percepção negativa: a ausência sugere falta de confiança, medo de ataques ou risco de descontrole. O debate é visto como espaço de prestação de contas ao eleitor e a ausência do candidato gera frustração.
Entre homens, a ausência pode ser compreendida como cálculo defensivo: Lula seria alvo preferencial e não teria motivo para se expor desnecessariamente em um debate de primeiro turno. Ainda assim, mesmo nessa leitura mais estratégica, aparece a expectativa de que o presidente participe dos debates do segundo turno.
O ponto comum é que a ausência tem custo democrático e comunicacional: limita a possibilidade de o eleitor conhecer melhor propostas, testar postura e comparar candidatos em situação de pressão.
“Acho que ele está errando logo no começo. Se ele tem confiança tem que ir, independentemente de quem tenha de direita ou de esquerda. Está dando mais força para os outros. Se ele tem confiança, precisa estar lá. Eu estou achando que ele não está confiante dele mesmo, para ele recuar dessa forma. Ele tem que encarar a população de frente”
PARTICIPANTE C, GRUPO 1
“Isso não vai beneficiar. Eu estou esperando debate, parece que ele está se ausentando com medo de brigar, isso aí a política perde a credibilidade, eles não pensam no que realmente o povo precisa. Será que ele não vai aguentar críticas e vai ter bate boca? Eu fico na dúvida com isso. Com certeza ele teria que ir”
PARTICIPANTE S, GRUPO 1
“Acho que está dando um tiro no pé. Era a oportunidade dele se mostrar e apresentar propostas. Acho que ele faz isso porque não vai saber enfrentar todos eles, é falta de confiança nele mesmo. Ele não sabe debater, né? Ele não tem confiança se ele vai estar preparado.”
PARTICIPANTE F, GRUPO 1
“De certa forma acho negativa, sim, ficaria se defendendo, mas não é positivo porque ele é candidato, né? Não vai estar dando respostas para os eleitores dele. Mas acredito que ele não queira ser tão atacado, ele será o alvo, mas ele me parece que está se protegendo, e tem o segundo turno que é o que vale”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
“Acho negativo porque parece que ele meio que está se escondendo. Tem cálculo porque em todo o debate vão ficar atacando ele. Ele deveria ir para debater, mas vai deixar pro segundo turno, não sei”
PARTICIPANTE A, GRUPO 2
“Pode ser também uma estratégia porque vai ser uma farsa então talvez seja só para ele se proteger. Acho que é bom se reservar. Ele se preserva para o segundo turno que é quando é importante o debate”
PARTICIPANTE E, GRUPO 2
Leitura estratégica
A ausência de Lula dos debates pode reduzir risco tático, mas amplia uma vulnerabilidade simbólica: parecer protegido demais, pouco disponível ao confronto público e menos disposto a explicar diretamente suas propostas ao eleitor.
Idade: não incapacita, mas pode alimentar dúvidas sobre paciência e controle
Os participantes não tratam a idade de Lula como fator automaticamente incapacitante. Há reconhecimento de que políticos mais velhos podem exercer funções públicas, têm mais experiência e de que idade, por si só, não explica a decisão de evitar debates.
A dúvida aparece em outro plano: a idade pode reforçar a percepção de menor paciência, maior irritabilidade ou menor disposição para enfrentar ataques em ambiente de alta tensão. Assim, o problema não é cronológico, mas performativo: indisposição de Lula em se expor publicamente sob pressão.
“Isso não impossibilita, mas pode estar acontecendo que pela idade mais avançada sinta menos capacidade, mas ai então teria que escolher outra pessoa no lugar dele”
PARTICIPANTE F, GRUPO 1
“Eu não acho que tem a ver com a idade porque faz tempo que ele não sabe debater, ele não tem essa confiança e não quer se meter em mais um escândalo porque pode acontecer o mesmo que com relação a Trump e ele não tenha paciência para debater e fique irritado”
PARTICIPANTE C, GRUPO 1
“Acho que a idade não tem nada a ver é só estar se reservando de ataques desnecessários”
PARTICIPANTE E, GRUPO 1
“Não, porque hoje tem muitos políticos com mais idade, não interfere tanto”
PARTICIPANTE A, GRUPO 2
“Eu já acho que sim, a idade é um fator, ele quer evitar esse estres por ser um idoso não ficaria legal receber tantas críticas de pessoas mais novas”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
Leitura estratégica
A idade de Lula não aparece como veto, mas pode funcionar como lente para interpretar ausências, irritações e recuos. Quanto menos o presidente se expõe em contextos controlados de explicação, mais abre espaço para que idade seja lida como falta de paciência ou controle.
Urnas eletrônicas: Flávio fica cada vez mais Jair
A volta da suspeição sobre as urnas eletrônicas aparece como um dos pontos politicamente mais sensíveis da rodada. A maioria, especialmente entre participantes que terminam inclinados a Lula, interpreta o discurso como conversa de perdedor, repetição do pai e possível preparação para contestar o resultado. Em alguns casos, aparece explicitamente o medo de golpe. Destaque para a defesa da urna como uma “tecnologia brasileira”.
Ao mesmo tempo, uma minoria inclinada a Flávio reproduz desconfianças baseadas em desinformações: possibilidade de fraude remota, em analogia com mensagens falsas da Defesa Civil, e alegação de vínculo com a Venezuela na produção das urnas. Isso mostra que o discurso golpista não precisa convencer a maioria para gerar ruído; basta permanecer disponível como repertório para parte do eleitorado.
O achado central é que Flávio perde autonomia e moderação quando entra nesse terreno. A suspeição das urnas o aproxima do discurso de Jair e Eduardo, reforçando uma imagem simultaneamente imatura, por depender do pai, e radical, por flertar com contestação institucional.
“Eu acho Flávio bem insensato com isso. Já foi comprovado a confiabilidade das urnas. É um avanço tecnológico gigante de Brasil. Aí eu tenho medo dele, parece que ele está indo anti-Brasil. Às vezes eu acho que é meio desespero. O pai preso ele mal nas pesquisas… Ele volta contra nossa tecnologia? Uma coisa nossa? Ele parece sensato algumas horas e daqui a pouco coloca todo a perder. Fico desapontada. Eu me decepcionei com isso”
PARTICIPANTE S, GRUPO 1
“Eu não confio totalmente na urna. Por exemplo, os EUA fazem de outra forma. Assim como recentemente entraram na Defesa Civil e deu aquela mensagem no meio da noite, quem disse que não poderia acontecer também nas urnas? Hoje eu confio menos do que anos atrás”
PARTICIPANTE C, GRUPO 1
“Eu acredito também que a urna pode ser fraudada, ainda mais tendo essa coisa com a Venezuela que é um país totalmente descredibilizado. Brasil não tem estrutura para ser blindado.”
PARTICIPANTE F, GRUPO 1
“Acredito que seja o mesmo discurso do pai, acho que está indo no mesmo propósito, é muito do pessoal da direita. E são confiáveis sim, elas já elegeram Lula e Bolsonaro”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
“Também acho que são confiáveis, nada a ver. Acho que ele tem esse discurso do pai dele, pode ser um pouco de desespero pensando que pode perder, né? E aí falar que foi fraude”
PARTICIPANTE A, GRUPO 2
“Conversa fiada de perdedor. Nossa urna é mais eficiente do mundo e a empresa de Venezuela, não tem nada a ver. Ele acabou inventando isso porque provavelmente vai perder e já deve estar querendo dar um golpe como o pai dele”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
Leitura estratégica
O ataque às urnas é duplamente arriscado para Flávio: reacende memórias de 2022 e impede que ele se apresente como renovação moderada. A urna aparece, para parte dos pendulares, como tecnologia brasileira; atacá-la pode soar não apenas golpista, mas anti-Brasil.
Flávio e as mulheres: reparação que convence quem já queria acreditar
O vídeo de Flávio na convenção, rodeado de mulheres e elogiando esposa e mãe, produz reação dividida. Entre participantes mais propensas ao senador, o gesto parece positivo, autêntico e capaz de “ganhar um ponto”. Nesse grupo, a nova postura pró-mulheres mistura convicção com desejo: querem acreditar que a reconciliação e o vídeo expressem mudança real.
Entre participantes mais inclinados a Lula, o gesto é lido como teatral, excessivo e calculado. A sequência recente — conflito com Michelle, histórico familiar de falas machistas e desgaste com mulheres — faz com que a peça seja percebida como tentativa de “limpar a imagem” ou de “fazer média” com o público feminino.
Assim, a imagem da convenção não reorganiza sozinha a percepção sobre Flávio. Ela reforça posições prévias: melhora onde já havia abertura e intensifica ceticismo onde a confiança já estava rompida.
“Achei interessante por honrar a mãe, é um vídeo positivo. Acho que é genuíno, sim, parece sinceridade entre a mulher e a mãe”
PARTICIPANTE C, GRUPO 1
“Achei que foi tranquilo, autêntico, achei legal, bacana, reconhecer o papel delas, ganhou um ponto com isso”
PARTICIPANTE F, GRUPO 1
“Não achei tão louvável, acho o mínimo, meio apelativo depois da coisa da Michele, agora é o admirador das mulheres? Ele viu que queimou o filme dele. Os assessores deveram avisar que está perdendo o público feminino e agora está dando forçada de barra. Vejo uma sequência disso depois do problema com a Michelle. Não achei genuíno”
PARTICIPANTE S, GRUPO 1
“Na verdade, pode ser que com a mãe e a esposa seja bem, mas as mulheres no geral, as falas deles anteriores condizem mais do que um vídeo armado de candidatura. Não me passou confiança, tive até vontade de rir”
PARTICIPANTE E, GRUPO 2
“Acho que foi genuíno falando da mulher dele, mas no fundo teve um pouco para cutucar a Michelle, por conta das brigas”
PARTICIPANTE A, GRUPO 2
“Acho que é uma coisa eleitoral no contexto geral Ele utiliza isso genuíno da mãe e da esposa para se aproximar das mulheres, como para limpar a imagem dele, como se não fosse machista. Não me passa confiança a relação dele com as mulheres”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
Leitura estratégica
A comunicação pró-mulheres de Flávio enfrenta o mesmo problema estrutural de outras reparações recentes: se parece peça de campanha, não repara, mas atenua, sobretudo nas franjas mais disponíveis. Somada aos vídeos de reconciliação com Michelle, pelo menos, estanca a sangria.
Inclinação de voto: voto relacional em estado puro
A inclinação de voto confirma, mais uma vez, a força da lógica relacional. O eleitor começa sua justificativa pelo negativo do outro candidato e só depois procura o positivo do escolhido. Quem se inclina a Flávio o faz pelo desejo de mudança, pela fadiga com Lula e, nesta rodada, pelo efeito emocional da recomposição com Michelle. Quem se inclina a Lula o faz pela perda de confiança em Flávio, pelas políticas sociais do presidente e pela percepção de defesa da soberania.
A inclinação pró-Flávio segue frágil porque depende quase exclusivamente da renovação: “dar uma oportunidade para outro”, “mudar o Brasil”, “não ficar no mesmo”. Mas essa renovação aparece condicionada a uma mudança de postura que ainda não se consolidou. A inclinação pró-Lula tampouco é apaixonada: aparece como escolha mais segura diante de um Flávio visto como problemático.
A rodada, portanto, não fecha a disputa. Mostra um eleitor ainda disponível, mas cada vez mais exigente: quer mudança, mas não a qualquer preço; quer proteção, mas não apenas repetição; quer soberania, mas sem aventura; quer família, mas sem encenação.
“Hoje no Lula, devido às últimas confusões, não acho o Flávio preparado para ser presidente, não. Quando veio o nome dele (Flávio) não tinha nada contra, mas agora eu não vejo confiança. Queria um outro nome, mas ficaria com Lula e ainda acho que vai sair mais confusão com o caso Master. O Flávio está com muito problema.”
PARTICIPANTE S, GRUPO 1
“Com essa informação da Michelle apoiando ele, a gente como mulher eu acho que votaria no Flávio. Para mim essa melhoria na relação com ela conta, sim, como importante”
PARTICIPANTE C, GRUPO 1
“No Flávio possivelmente, porque eu quero uma mudança de Brasil e eu prefiro briga de família do que corrupção. Eu acho bom a Michelle apoiar e agora ele estar em harmonia”
PARTICIPANTE F, GRUPO 1
“Não me sinto seguro em votar no Flávio, não acho que ele esteja propondo algo legal e ele está amarrado no pai não tem ideias próprias, e acredito que Lula seria mais compatível por conta das políticas públicas dele para a população”
PARTICIPANTE R, GRUPO 2
“Eu votaria no Lula por causa de que o Flávio já tem um histórico meio ruim, de muito problema, já tem um rastro ruim. Lula pelo menos defende o país e ajuda o povo”
PARTICIPANTE A, GRUPO 2
“Iria no Lula porque o Flávio tem muitos problemas e ainda não vi nenhuma proposta e tem as políticas públicas de Lula para a população de baixa renda e para não baixar a guarda para os EUA, nós somos um país soberano.”
PARTICIPANTE E, GRUPO 2
Leitura estratégica
O voto pendular é menos uma declaração de amor e mais um teste semanal de confiança. Flávio mantém a potência abstrata da mudança; Lula mantém a vantagem comparativa da proteção. Mas ambos continuam dependentes de como os próximos fatos reorganizarão risco, confiança e futuro.
Integração analítica
A décima rodada aprofunda a série pós-Dark Horse, mas acrescenta um elemento decisivo: a disputa de responsabilidades. O eleitor pendular não está apenas perguntando em quem votar; está tentando ordenar quem é responsável por cada risco que entra em sua vida — Trump pelo tarifaço, Lula pela insuficiência em negociar com a Casa Branca e não informar e tranquilizar a população a contento; Flávio por não utilizar sua proximidade com Trump para ajudar o país, dando sinais de que seus interesses eleitorais parecem se sobrepor ao país.
No tema da soberania, a fórmula fica mais sofisticada. O eleitor não quer submissão aos Estados Unidos, mas tampouco quer provocação imprudente. A referência a Trump como ator “descontrolado” e poderoso reforça a demanda por uma diplomacia de firmeza prudente: negociar até o fim, informar a população, preparar medidas emergenciais e só retaliar quando todas as alternativas estiverem esgotadas.
Para Lula, isso representa oportunidade e risco. A oportunidade está em se apresentar como defensor do país e do bolso das pessoas. O risco está em parecer brincalhão ou excessivamente voltado ao cálculo eleitoral quando o tema é percebido como grave. O eleitor cobra “mais palácio e menos palanque”: explicação, sobriedade, negociação e proteção concreta.
Para Flávio, a rodada é especialmente problemática porque várias linhas de desgaste convergem. O senador já vinha enfrentando a perda da bandeira anticorrupção, a crise de autonomia diante do pai, a disputa com Michelle e a ausência de propostas. Agora, a foto com o “sicário” do Vorcaro abre uma camada de ressignificação biográfica potencialmente mais severa, que pode comprometer sua tentativa de migrar para o tema da segurança pública.
A briga com Michelle e a fala no Flow Podcast reforçam outro traço: a comunicação reparadora de Flávio parece não reparar. Ao negar, relativizar, atribuir a Deus ou tentar escapar da controvérsia, o senador não constrói serenidade. Para esse eleitor, ele segue parecendo alguém que precisa explicar demais e convence de menos.
No voto, a dinâmica permanece relacional e situacional. Flávio resiste pelo desejo de mudança que permanece nos eleitores pendulares; Lula se sustenta pela comparação e entregas sociais. Nenhum dos dois fecha o circuito emocional desse eleitor. A agenda factual segue mandando no pêndulo, que evita mover-se de forma definitiva para nenhum dos lados.

Fique de olho
💸 Se o novo tarifaço continuará sendo traduzido como custo de vida e encarecimento cotidiano, ampliando a pressão sobre quem parecer menos capaz de negociar e proteger o país.
🗣 ️ A capacidade de Lula de comunicar a negociação com Trump com sobriedade, transparência e frequência, evitando a percepção de que deixa a população “às cegas”.
🤝 O limite entre reciprocidade e escalada: o eleitor quer altivez, mas teme retaliação de Trump. A ordem esperada é negociar, negociar e só depois responder.
🔒 A possibilidade de Flávio converter sua proximidade com Trump em ativo ou, ao contrário, consolidá-la como prova de cálculo eleitoral e submissão externa.
📷 A evolução da foto com o “sicário”: se permanecer como episódio isolado, desgasta; se entrar em série com milícia, Marielle, Queiroz, Adriano da Nóbrega e Escritório do Crime, pode abrir uma camada demolidora da biografia do senador.
⛓️ Os riscos à sustentabilidade do discurso de segurança pública de Flávio, caso a percepção de vínculos seus com personagens criminosas se consolide.
👩🏻 A reação de mulheres pendulares à forma como Flávio trata Michelle e à redução de seu papel político à condição de “esposa de Bolsonaro”.
✝️ O efeito da retórica religiosa de Flávio: a “missão de Deus” pode funcionar em bases mais fiéis, mas entre pendulares soa cínica quando confrontada com polêmicas e contradições.
🗳️ A persistência da demanda por mudança como ativo de Flávio, mesmo quando o senador acumula rejeição moral e falta de propostas.
⭐ A necessidade de Lula renovar a oferta de futuro, para não depender apenas da comparação com a confusão adversária.
CONCLUSÃO
A décima rodada indica que o eleitor pendular continua distante de uma decisão definitiva, mas cada vez mais atento à capacidade dos candidatos de responder a fatos concretos com responsabilidade. O novo tarifaço torna a soberania uma questão de bolso. A população quer que o Brasil seja respeitado, mas exige negociação até o fim. Quer firmeza, mas teme provocação. Quer proteção, mas não aceita opacidade. Entende mas não concorda que cálculo eleitoral pareça mediar decisões dos pré-candidatos em tema tão sério para o país.
Lula aparece como opção mais administrável quando fala em defesa do país, negocia e oferece proteção concreta. Mas perde parte dessa vantagem quando não informa o andamento das negociações, quando parece brincar com tema grave ou quando sua comunicação soa calculada eleitoralmente. A cobrança sobre ele é de chefe de Estado: explicar, negociar, proteger e evitar bravatas.
Flávio, em que pese a sequência de más notícias, continua vivo porque o desejo de mudança segue presente. Essa é sua principal reserva eleitoral, por não dizer única até este momento, junto aos pendulares. Mas a cada rodada essa mudança fica mais difícil de se converter em confiança. A sequência de escândalos e polêmicas, a briga familiar, a entrevista no Flow, a relação com Trump e agora a foto com o “sicário” reforçam a pergunta central: que tipo de mudança ele representa? Uma mudança segura, limpa e orientada ao povo, ou o retorno a um passado marcado por confusão, polêmica, briga e tensão?
O achado central é que a disputa segue organizada por biografias morais em teste permanente. Lula precisa provar que ainda oferece futuro, e não apenas continuidade e proteção. Flávio precisa provar que é mais do que rolo, família, Trump, mentira e promessa abstrata de renovação. Neste eleitorado, a mudança segue desejada. Mas, para vencer, terá que parecer não apenas nova: terá que parecer confiável, soberana, concreta e segura.
Expediente
Painel Narrativo Semanal: Percepções Qualitativas e Estratégicas
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Como citar este documento
VASQUES, Beto; SOLANO, Esther. Instituto Democracia em Xeque (DX). Painel Narrativo Semanal: Percepções Qualitativas e Estratégicas DX, 20 jul. 2026. Período de campo: 18 de julho de 2026. Disponível em: <https://institutodx.org/semanaldx/painel/paineldx-rodada10/>.
Equipe do relatório
Beto Vasques
Diretor de Relações Institucionais do Instituto DX
Esther Solano
Professora da UNIFESP, pesquisadora em Ciências Sociais e conselheira do Instituto DX
Projeto gráfico: Moara Juliana e Júlia Cristofi
