#06 Narrativas evangélicas e contexto eleitoral

Este relatório apresenta uma análise das principais narrativas em circulação nas redes sociais sobre as fronteiras entre religião e política, com foco no ecossistema evangélico.

Publicações realizadas entre 03 a 16 de agosto de 2026.

Casos de violência, segurança digital e proteção da infância mobilizaram fortemente perfis evangélicos de diferentes campos políticos. Embora exista convergência em torno da necessidade de proteção de crianças e adolescentes, os enquadramentos divergem: à esquerda, prevalecem abordagens ligadas a políticas públicas e direitos; à direita, episódios de grande repercussão são frequentemente associados à segurança pública, ao punitivismo e ao anti-lulismo. O período também registrou circulação de informação falsa relacionando um assassinato de duas crianças à “saidinha” de presos.

A impossibilidade de visitas dos filhos a Jair Bolsonaro foi amplamente mobilizada por perfis da direita evangélica para apresentá-lo como um pai injustiçado e vítima de abuso de poder. A narrativa aproximou linguagem familiar, referências à justiça divina e ataques ao ministro Alexandre de Moraes, chegando a comparar a situação de Bolsonaro à concessão de benefícios a pessoas privadas de liberdade.

A criação do movimento “Direita com Lula” transformou Otoni de Paula em alvo de forte reação dentro da própria direita evangélica. Acusações de apostasia, traição aos valores cristãos e associação ao socialismo mostram como divergências eleitorais passam a ser convertidas em julgamentos sobre a própria legitimidade religiosa dos atores. O episódio evidencia uma possível intensificação das disputas internas no campo conservador cristão.

Com o início oficial das campanhas, crescem os conteúdos que reivindicam a participação política das igrejas e, ao mesmo tempo, questionam a autenticidade religiosa de candidatos e figuras públicas. João Campos, Eliziane Gama e Kleber Lucas foram alvos de acusações de oportunismo ou de serem “falsos cristãos”, revelando que a identidade evangélica passa a funcionar também como mecanismo de legitimação — ou exclusão — na competição eleitoral.

As pautas de gênero e sexualidade seguem marcadas pela defesa de modelos tradicionais de família e moral sexual, mas o período mostra uma inflexão importante: lideranças evangélicas conservadoras passaram a estabelecer limites mais explícitos para ideias de submissão feminina e autoridade masculina. Falas de Ana Paula Valadão e Helena Raquel rejeitando violência e coerção dentro do casamento indicam uma crescente apropriação da linguagem de proteção das mulheres sem, necessariamente, abandonar referenciais tradicionais de gênero.

Os perfis da esquerda evangélica avançaram de uma atuação predominantemente voltada à interpretação da conjuntura para uma mobilização eleitoral mais explícita. As 50 publicações de maior alcance somaram 2,23 milhões de interações, com destaque para Benedita da Silva, Carlos Bezerra Jr., André Janones e Marina Silva. Fé, democracia, justiça social, proteção das famílias e combate ao fundamentalismo aparecem cada vez mais articulados às candidaturas e à reeleição de Lula.

O lançamento oficial das candidaturas elevou significativamente o volume de interações de atores políticos já consolidados no ecossistema monitorado. Flávio Bolsonaro alcançou 9,58 milhões de interações no período, enquanto uma única publicação de Nikolas Ferreira superou 3,2 milhões. Mesmo com a entrada de Benedita da Silva entre os principais nomes do ranking, a presença da direita permanece amplamente dominante entre as lideranças políticas de maior engajamento.

Narrativas conspiratórias sobre uma possível intervenção dos Estados Unidos nas eleições brasileiras foram alimentadas por uma imagem produzida por inteligência artificial e repercutidas por influenciadores evangélicos, enquanto conteúdos anti-Islã passaram a deslocar o foco da “perseguição aos cristãos” para a Europa e para uma suposta ameaça de “islamização” do Brasil. Nos dois casos, acontecimentos externos são incorporados a repertórios de medo, ameaça e conflito civilizacional que já circulam no ecossistema conservador religioso.

A repercussão nacional de casos envolvendo crianças e adolescentes provocou intensas disputas nas redes evangélicas, recebendo grande quantidade de interações tanto à direita como à esquerda ao longo do período analisado. Ao mobilizarem diferentes pautas em torno da proteção à infância, lideranças políticas intensificaram seus conteúdos a respeito e demarcaram defesas por pautas opostas umas às outras, mesmo se tratando de um mesmo grupo.

Perfis vinculados ao campo da esquerda, como o de Benedita da Silva, repercutiram a pauta do endurecimento de leis pelo Presidente Lula que tratam de violência sexual contra crianças e adolescentes nas redes. Já Carlos Bezerra Jr. abordou a pauta em caminho semelhante, manifestando-se contra o caso noticiado em diversos jornais de um “ex-ator da Globo” que havia abusado sexualmente de uma criança autista

No campo da direita evangélica, as manifestações sobre a proteção de crianças e adolescentes tomaram outros caminhos. Um vídeo compartilhado por Robson Calabianqui, mais conhecido como Fuinha, recebeu 992 mil interações e ocupou o terceiro lugar no ranking de perfis monitorados no período. O influenciador e candidato a Deputado Federal por São Paulo mostrou seu relato indignado como pai ao receber uma mensagem direta no Instagram de um seguidor anônimo que proferiu palavras de cunho sexual contra a filha recém-nascida de Robson.

A maior parte dos conteúdos sobre a pauta da proteção de crianças e adolescentes estavam, no entanto, relacionados à chamada “saidinha dos presos” no Dia dos Pais. Os perfis associaram o evento à situações de violência doméstica envolvendo o caso de um assassinato cometido por um pai contra suas duas filhas em São Paulo. Em vídeo postado por Pablo Marçal, um homem desconhecido demonstra sua indignação com a situação, citando que o crime teria ocorrido após a “saidinha” do pai. Como já noticiado pelo UOL, trata-se de uma associação inverídica, já que o pai em questão não estava preso, mas em liberdade condicional desde 2025. A notícia, no entanto, não foi desmentida nos perfis em que circulou e produziu vínculos diretos com o anti-lulismo, além de defesas de mudanças na constituição brasileira para a inclusão de prisão perpétua e pena de morte.

Houve, ainda, ampla repercussão nas redes evangélicas envolvendo o caso de suicídio de uma menina de 13 anos no Discord, o que ocupou perfis à direita, com manifestações de repúdio de Kim Kataguiri contra Janja e seu pedido de banimento da rede social. Ainda no campo da direita, a pastora e candidata a Deputada Federal Sandra Faraj se posicionou a favor da segurança digital de crianças e adolescentes nas redes e mencionou o mesmo caso, mas sem citar o Discord. Essa evidência demonstra não haver homogeneidade interna no debate sobre a pauta da segurança digital entre esses grupos no campo evangélico.

As menções a Jair Bolsonaro na ocasião do último Dia dos Pais ocuparam espaço significativo entre perfis vinculados à direita. Junto ao vídeo de Flavio Bolsonaro escrevendo uma carta ao pai, a repercussão nas redes de lideranças evangélicas enfocou a injustiça do impedimento de visitas dos filhos de Bolsonaro. Os relatos de que Bolsonaro estaria sendo injustiçado se aproximaram de narrativas de fé sobre a justiça divina e manifestações de apoio à união da família Bolsonaro.

Houve, ainda, associações entre o “abuso de poder” cometido contra Jair Bolsonaro com eventos como a “saidinha” dos presídios no Dia dos Pais, o que gerou manifestações de indignação sobre Bolsonaro ter menos direitos que presos que haviam cometido crimes graves.

As acusações tiveram como alvo principal o Ministro Alexandre de Moraes, do STF, indicado como liderança de um “complexo industrial de censura” no Brasil.

Após inaugurar o que chamou de “movimento nacional Direita com Lula”, o candidato a deputado federal e pastor Otoni de Paula passou a ser alvo de uma escalada de críticas do campo evangélico vinculado à direita. Nota-se o crescimento de discursos que acusam Otoni de “trair os valores cristãos” e “fazer aliança com o socialismo”. Ricardo Brasil, por exemplo, acusa Otoni de Paula de “apóstata” e “um dos políticos mais canalhas que já transitou pela direita brasileira“, e que ele estaria sendo “conduzido por Lula direto para o inferno”. 

Estas rupturas internas entre lideranças políticas e religiosas expõe fissuras nos usos da categoria “conservadorismo” como autodefinição política na direita cristã. Tal demonização, antes apenas dirigida a “cristãos progressistas”, mostra indícios de uma possível nova escalada de radicalização na extrema direita.

Com o lançamento oficial das campanhas eleitorais, lideranças políticas e religiosas de identidade evangélica passaram a compartilhar conteúdos em suas redes mais diretamente relacionados aos pleitos. A importância do chamado “voto cristão” e da ideia de que “igreja se envolve com política” acompanhou os debates direcionados à legitimidade religiosa de políticos e artistas que se apresentam como evangélicos. 

Entre os exemplos mais citados, estiveram João Campos, Eliziane Gama e Kleber Lucas. A repercussão para o atual candidato ao governo em Pernambuco questionou sua presença durante um culto na Assembleia de Deus, no Recife. As postagens a respeito ressaltam que João Campos seria católico e não compartilharia as pautas morais de evangélicos, configurando-se como mais um “político oportunista” em busca de votos. Eliziane Gama, por sua vez, teve o vídeo de um discurso recente divulgado em que afirma ter frequentemente sua identidade religiosa questionada. A reação veio do campo católico, com o ex-deputado estadual de SP, Douglas Garcia, acusando Eliziane de ser “evangélica dos petistas” por supostamente defender pautas como aborto e “ideologia de gênero”.

Os ataques ao cantor Kleber Lucas, atual candidato à suplência do senado na chapa de Benedita da Silva, estiveram diretamente relacionados à sua participação no primeiro ato de campanha de Lula. Acompanhado da primeira-dama, Kleber Lucas cantou “Tapete vermelho”, jingle gospel da campanha do atual presidente, o que ocasionou reações à direita de que o cantor seria um “falso cristão” que teria transformado Lula em uma espécie de Messias. Além disso, o evento gerou acusações sobre o caráter de “showmício”, o que estaria proibido pelo TSE.

Em menor proporção, também vale destacar a cena de Flávio Bolsonaro emocionado com o vídeo do irmão Carlos Bolsonaro, que repercutiu com mensagens de apoio e compromisso: “Estamos contigo futuro Presidente!”.

As disputas em torno das pautas das mulheres e das relações de gênero ganharam destaque na quinzena, articulando moral sexual conservadora, defesa da família e uma crescente apropriação da linguagem da proteção das mulheres.

Entre os conteúdos de maior repercussão, Junia Hayashi criticou Erika Hilton ao associar dignidade das mulheres à rejeição da mercantilização do corpo e da prostituição. Já o Pr. Matheus Alves voltou a abordar a diversidade sexual em suas evangelizações de rua, apresentando o encontro com uma mulher lésbica e cristã sob a expectativa de que ela reconhecesse sua sexualidade como incompatível com a fé e retornasse à igreja.

Ao mesmo tempo, o próprio campo evangélico apresentou nuances importantes sobre os limites da chamada “autoridade masculina” e da preservação do casamento. Ana Paula Valadão afirmou que “submissão não silencia mulher nem exige que ela permaneça em uma situação de violência”, aceitação de abuso ou obediência contra a própria “consciência diante de Deus”, enquanto a Pra. Helena Raquel destacou que lutar pelo casamento não pode significar suportar violência ou esconder feridas para preservar aparências religiosas.

O conjunto revela um campo majoritariamente orientado por concepções tradicionais de família, gênero e sexualidade, mas no qual cresce a necessidade de diferenciar “complementaridade de gênero” e “submissão conjugal” de coerção, abuso e violência, ao mesmo tempo em que a defesa das mulheres passa a ser incorporada às disputas políticas e morais do conservadorismo religioso.


Na última quinzena, perfis da esquerda evangélica articularam fé, democracia e direitos sociais na disputa eleitoral. Com protagonismo de lideranças políticas, boa parte das narrativas de grande alcance giraram em torno dos lançamentos oficiais das candidaturas, com destaque à campanha para reeleição de Lula. Há uma mudança clara de tom: vários perfis deixam de apenas comentar a conjuntura e passam a convocar diretamente para a disputa eleitoral. Benedita apresenta número de urna e pede apoio a Lula. Marina associa sua candidatura ao Senado à reeleição de Lula e à candidatura de Haddad; Janones adota uma linguagem muito mais combativa, chegando a afirmar que “vai começar” e que a disputa será uma “guerra”.

As 50 publicações com maior engajamento somaram 2,23 milhões de interações. Benedita da Silva concentrou o maior volume, com 853,7 mil interações em 11 publicações, seguida por Carlos Bezerra Jr., com 625,5 mil em 12 publicações, André Janones, com 312 mil interações em 7 publicações, Marina Silva com 252 mil interações em 12 publicações, Henrique Vieira com 134 mil interações em 5 publicações e Aava Santiago com 55 mil interações em 3 publicações. 

As narrativas combinam mobilização eleitoral, defesa da democracia, proteção de crianças e famílias, justiça social e disputa pelo significado político da fé. Pastor Henrique Vieira explicita esse movimento ao defender uma fé comprometida com “a vida, a democracia, os direitos humanos e a dignidade de todas as pessoas”, o pastor e deputado aparece também associando diretamente a defesa da democracia à sua identidade cristã e política. Em uma das publicações, afirma que sua candidatura pretende defender “o povo, o Estado laico, o enfrentamento ao fundamentalismo religioso, a democracia e um Brasil com justiça racial e social”. 

Carlos Bezerra Jr. mobiliza a ideia de “humanidade” e cuidado em temas como proteção infantil, apostas e violência, seguindo uma estratégia de disputar temas tradicionalmente associados à direita religiosa a partir de uma linguagem de cuidado e proteção, em vez de uma abordagem moralizante. Benedita, por sua vez, articula identidade negra, memória e trajetória política à campanha de Lula e à sua própria candidatura.

20 lideranças políticas com identidade evangélica
com maior engajamento no período

(por postagem única)

Liderança Política Partido político Interação
1Nikolas FerreiraPL3.211.886
2Robson CalabianquiUNIÃO992.191
3Flávio BolsonaroPL601.098
4Gabriel MonteiroPL512.333
5Junio AmaralPL509.613
6Benedita da SilvaPT438.070
7Lucas PavanatoPL339.384
8Fred RodriguesPL325.833
9Cabo Gilberto SilvaPL297.600
10Pablo MarçalUNIÃO289.514
11Eduardo BolsonaroPL285.304
12Michelle BolsonaroPL255.302
13André FernandesPL173.051
14Helio LopesPL160.959
15Marcel Van HattemPL151.990
16Ana CampagnoloPL143.216
17Clarissa TércioPP142.537
18Carlos Bezerra Jr.PSD125.791
19Magno MaltaPL125.187
20Rodrigo ValadaresPL120.434

20 lideranças políticas com identidade evangélica
com maior engajamento no período

(por número total de interações)

Liderança Política Partido político Interação
1Flavio BolsonaroPL9.580.342
2Nikolas FerreiraPL6.024.368
3Eduardo BolsonaroPL2.898.723
4Kim KataguiriMISSÃO2.416.047
5Helio LopesPL1.908.278
6Cabo Gilberto SilvaPL1.788.378
7Lucas PavanatoPL1.780.555
8Pablo MarçalUNIÃO1.753.883
9Deltan DallagnolNOVO1.695.803
10Gabriel MonteiroPL1.351.137
11Robson CalabianquiPL1.203.835
12Marcel Van HattemPL1.012.726
13Benedita da SilvaPT992.094
14Michelle BolsonaroPL800.275
15Magno MaltaPL717.766
16Junio AmaralPL642.414
17Carlos Bezerra Jr.PSD635.442
18Clarissa TércioPP553.875
19Ana CampagnoloPL496.021
20Fred RodriguesPL451.650

🔎 Análise sobre os rankings das lideranças políticas

Os conteúdos com maior repercussão entre lideranças políticas estiveram relacionados ao lançamento de suas próprias candidaturas em pleitos aos quais concorrem. O destaque para engajamento por postagem única para Nikolas Ferreira se aplica a este caso, cuja divulgação de seu vídeo como candidato a deputado federal atingiu a marca de mais de 3 milhões de interações até o fechamento deste relatório. 

Assim, o lançamento oficial de campanhas dos candidatos à esquerda e à direita inaugurou uma nova fase para as métricas, com Flavio Bolsonaro quase dobrando as métricas de interações totais em relação ao ranking publicado no relatório anterior. A comparação mostra, ainda, uma leve queda do número de candidatos à esquerda nos rankings, somada ao destaque para a presença, pela primeira vez, de Benedita da Silva.

Ranking de perfis evangélicos

🔎 Análise sobre os rankings gerais

Entre os novos perfis que se destacaram, o pastor Matheus Alves e a nutricionista Ana Caroline Motta foram presenças inéditas em relação aos rankings anteriores. Os conteúdos de ambos estiveram relacionados ao entretenimento no campo evangélico. Enquanto o pastor trouxe uma entrevista realizada com um gari que se autodefine cristão e cita trechos bíblicos com facilidade, a nutricionista aparece em um vídeo, em formato “react”, em que comenta sobre uma peça realizada em uma igreja. A quantidade de interações registradas para lideranças políticas e outras lideranças (religiosas e influenciadores) se mantiveram equilibradas.

No início de agosto, o congressista norte-americano Carlos Giménez, representante republicano do Estado da Flórida, divulgou uma imagem criada por IA com o presidente Lula preso como Nicolás Maduro, ex-presidente da Venezuela. A partir dessa imagem, Ricardo Brasil especula em vídeo com mais de 445 mil interações que ações dos Estados Unidos levarão Lula à prisão. Utilizando-se fartamente de fantasias conspiracionistas, o vídeo manipula a ideia de que Trump, a inteligência do governo dos EUA e atores políticos norte-americanos já estariam mobilizados para uma intervenção militar nas próximas eleições.

Estratégia de desinformação: Postagem de congressista norte-americano republicano com IA alimenta teorias da conspiração, inicialmente disseminadas à esquerda, de que haverá intervenção do governo Trump nas eleições brasileiras. A imagem reproduz a captura de Nicolás Maduro por forças americanas, sugerindo que o mesmo acontecerá no Brasil caso Lula seja reeleito.

A recente recusa da deputada Ana Campagnolo em apoiar Carlos Bolsonaro ao senado em Santa Catarina despertou reações negativas de Flavio Bolsonaro. Em um comentário público escrito no instagram de Campagnolo, o candidato à presidência pediu que, em caso de persistência à recusa no apoio à Carlos, a deputada não deveria mais associar sua imagem nem à dele, nem a de Jair Bolsonaro. Em seu retorno ao comentário de Flavio Bolsonaro, ela indicou que não houve orientação de seu partido, o PL, para a manifestação de apoio a Carlos Bolsonaro. A repercussão nas redes bolsonaristas foram de apoio à Flavio, apontado como liderança a ser seguida, indicando que Campagnolo teria desobedecido a ordem de seu líder político.

Os discursos sobre perseguição religiosa, já registrados em relatórios anteriores, apresentaram novos desdobramentos durante o período analisado. Registros em vídeo de evangelistas cristãos pregando para mulheres muçulmanas em locais públicos passaram a circular a partir de locais como Alemanha, Holanda e Reino Unido, acompanhados de denúncias de que cristãos estariam sofrendo com o “extremismo islâmico” nesses países.

O deslocamento do enfoque dos ataques aos cristãos de países como Nigéria, China e Venezuela, para a Europa esteve acompanhado de discursos anti-Islã por influenciadores, pastores e teólogos evangélicos brasileiros, que acusam muçulmanos de professarem uma fé contrária à liberdade religiosa. Uma série de estereótipos circulam, sobretudo, sobre as mulheres, que teriam perdido direitos básicos após a “volta do Talibã ao poder” em países como o Afeganistão.

Ataques como o do  teólogo Caio Modesto, com um perfil que soma 376 mil seguidores no Instagram e um dos principais porta-vozes das movimentações evangélicas anti-Islã, estiveram acompanhados de constantes alertas sobre o Brasil estar sendo “invadido pelo islamismo”. Além de comercializar um e-book chamado “A face oculta do islamismo”, Modesto tem compartilhado em suas redes sobre estratégias adotadas pelo governo brasileiro de favorecimento de “projetos de islamização” através do turismo religioso. Tais alertas, segundo ele, têm ocasionado denúncias de muçulmanos pela derrubada dos perfis do teólogo nas redes sociais.

A pesquisa foi realizada em 573 perfis (Instagram, YouTube, X, TikTok e Facebook) de lideranças religiosas e políticas, organizações, mídia e influenciadores evangélicos, a partir de busca no Data Lake do Instituto Democracia em Xeque. Foram gerados 19.429 resultados, concentrando 135.400.574 de interações durante o período analisado para o ecossistema evangélico até o fechamento deste relatório. 

O critério utilizado para a coleta de dados relativos aos temas de destaque no ecossistema evangélico foi baseado em análise qualitativa das 50 (cinquenta) postagens com maior número de interações durante o período selecionado, dos respectivos perfis funcionais: lideranças políticas, lideranças religiosas, outros perfis (influenciadores, artistas, mídia evangélica e igrejas e iniciativas), e uma busca por lideranças religiosas e políticas do campo da esquerda, totalizando 200 (duzentas) postagens analisadas. A classificação funcional dos perfis considera sua principal atuação nas redes sociais, reconhecendo que muitos dos atores monitorados exercem múltiplas funções e ocupam diferentes espaços de influência. 

Com base na análise das narrativas presentes nas publicações de maior engajamento, foram identificados os principais temas situados nas fronteiras entre religião e política, foco central deste relatório. A partir desses resultados, foram realizadas buscas complementares no Data Lake do Instituto Democracia em Xeque, utilizando-se palavras-chaves relacionadas às narrativas identificadas, ampliando a compreensão sobre sua circulação no ecossistema monitorado. Como critério adicional, também foi realizada pesquisa por menções de temas em destaque através de hashtags postadas por perfis públicos, ocasionando em achados de perfis de identidade evangélica não previamente listados no Data Lake ou, ainda, perfis de identidade católica que compartilham informações relevantes sobre lideranças evangélicas durante o período.

As lideranças religiosas foram mantidas junto a influenciadores, artistas, igrejas e portais de notícias gospel em ranking separado, seguindo modelo adotado para os outros relatórios. Por fim, as análises apresentadas também incorporam a leitura contextual e analítica sobre o campo evangélico, articulando dados do monitoramento com a análise ampliada das narrativas em circulação. Considerou-se evidenciar o destaque sobre as atuações entre lideranças políticas e religiosas alinhadas ao campo da esquerda evangélica, além de critérios duplos para ranqueamento de lideranças políticas e influenciadores, baseados em métricas por postagem única e número total de interações.

A seção Fique de Olho não segue, necessariamente, os mesmos critérios metodológicos adotados no monitoramento. Trata-se de um espaço destinado a destacar temas que estejam repercutindo nas redes sociais e na imprensa às vésperas da publicação do relatório, bem como assuntos que, embora apresentem menor engajamento no monitoramento, revelem alta relevância narrativa para compreender as dinâmicas entre religião e política ou potencial de impacto no debate público.

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