Período da análise:
Publicações realizadas entre 24 de maio e 7 de junho de 2026.
Highlights
1. Violência contra mulheres emerge como pauta de disputa dentro do campo evangélico
Novas repercussões da pregação da pastora Helena Raquel no interior do campo evangélico mostrou que o enfrentamento à violência doméstica ainda ocupa espaço central no debate público, gerando divergências entre lideranças conservadoras e revelando tensões sobre gênero, autoridade pastoral e proteção às mulheres.
2. Marcha para Jesus reafirma seu papel como palco de legitimação eleitoral
Mais do que um evento religioso, a Marcha para Jesus consolidou-se como espaço estratégico de aproximação entre lideranças políticas e o eleitorado evangélico. A participação de Flávio Bolsonaro evidencia a disputa antecipada pelo segmento nas eleições de 2026.
3. Bolsonarismo domina o engajamento digital evangélico
Das 20 lideranças políticas e religiosas com maior engajamento no período, 17 pertencem ao campo bolsonarista, indicando a manutenção de sua capacidade de mobilização digital entre públicos evangélicos, mesmo fora do período oficial de campanha.
4. Narrativas de desinformação conectam esquerda, drogas e crime organizado
Conteúdo de alta circulação da deputada Ana Campagnolo associa governo Lula, esquerda e organizações criminosas por meio de conexões sem comprovação factual, explorando temas de segurança, drogas, família e religião para ampliar engajamento nas redes.
5. Lideranças evangélicas evitam falar em impostos ao defender PEC das Igrejas
Enquanto defensores apresentam a proposta como proteção à liberdade religiosa e às ações sociais das igrejas, críticos a enquadram como ampliação de privilégios fiscais para grandes organizações religiosas.
Fique de olho
PT lança carta aos evangélicos após encontro nacional
O IV Encontro Nacional de Evangélicos e Evangélicas do PT, ocorrido em 8 de junho em Brasília, reuniu lideranças evangélicas, pastores, parlamentares e representantes de movimentos sociais em torno do tema “Mishpat: Fé, Justiça, Democracia e as Eleições 2026”.
Durante o evento, foi assinada uma carta aberta direcionada aos evangélicos brasileiros, posteriormente divulgada pelo partido em suas redes sociais. O documento buscou aproximar a imagem dos governos anteriores do PT às igrejas evangélicas, além de reforçar a ação do partido em políticas públicas de base popular.
PEC das Igrejas
A aprovação da PEC 5/2023, conhecida como PEC das Igrejas, mobilizou narrativas divergentes entre parlamentares evangélicos e lideranças religiosas monitoradas. As publicações revelam uma disputa narrativa em torno do significado da proposta.
A PEC como proteção à missão social das igrejas (narrativa predominante)
Entre os defensores da proposta, predomina o argumento de que a ampliação da imunidade tributária representa um fortalecimento da liberdade religiosa e do papel social desempenhado pelas igrejas. As publicações apresentam templos religiosos como instituições que suprem lacunas deixadas pelo Estado, destacando sua atuação em creches, hospitais filantrópicos, comunidades terapêuticas, recuperação de dependentes químicos, distribuição de alimentos e acolhimento de pessoas em situação de vulnerabilidade.
Nesse enquadramento, a PEC não é apresentada como benefício fiscal, mas como um mecanismo de proteção às atividades sociais desenvolvidas pelas igrejas. Expressões como “igreja forte, comunidade forte”, “a igreja chega onde o Estado não chega”, “defender a fé é defender quem cuida das pessoas” e “mais recursos para transformar vidas” aparecem de forma recorrente, deslocando o debate tributário para uma dimensão moral e assistencial.
Também se observa a associação entre a aprovação da proposta e a defesa da liberdade religiosa, apresentada como um valor constitucional que estaria sendo fortalecido pela PEC.
A PEC como privilégio fiscal (narrativa crítica)
Em sentido oposto, as publicações do Pastor Henrique Vieira enquadram a PEC como uma ampliação de privilégios tributários para grandes organizações religiosas. Em vez de discutir a atuação social das igrejas, seus conteúdos enfatizam os possíveis impactos fiscais da proposta, argumentando que ela pode beneficiar patrimônios de alto valor, simbolizados pela imagem de “helicópteros milionários”, enquanto a população continua submetida à elevada carga tributária.
Nesse enquadramento, a proposta é apresentada como uma distorção da imunidade religiosa prevista na Constituição, transformando um instrumento de proteção à liberdade de culto em um mecanismo de concentração patrimonial. A defesa do Estado laico, da justiça tributária e da transparência aparece como contraponto à narrativa predominante entre parlamentares evangélicos.
Temas em destaque no segmento evangélico
Violência contra a mulher
O nome da Pastora Helena Raquel voltou a se destacar ao longo desta quinzena. A viralização de trechos de sua pregação no 41º Congresso Internacional dos Gideões Missionários da Última Hora, realizado em Camboriú (SC) no início de maio deste ano, continuou a repercutir a partir de críticas recentes do Pastor Marco Feliciano. Na fala proferida em um dos principais congressos pentecostais brasileiros, a pastora pediu que mulheres evangélicas que sofrem violência “parassem de orar” por seus algozes e os denunciassem.
Helena Raquel é vinculada à Igreja Assembleia de Deus Vida na Palavra (ADVIP), em Queimados (RJ), e tem uma trajetória pública consolidada no campo evangélico, somando 1,9 milhões de seguidores no Instagram. O vídeo completo de sua pregação, com mais de 1 hora de duração, foi postado pelo canal oficial do Congresso Gideões, ultrapassando 1,6 milhões de visualizações.
As críticas de Marco Feliciano começaram a circular um mês após a viralização, através de cortes de sua participação em um podcast. Na ocasião, ele indicou que a pastora não teria feito uma denúncia, mas um “alerta”, pois denúncias precisam de nomes para serem formalmente encaminhadas ao Estado.
Helena Raquel rebateu as críticas em um vídeo postado no Instagram, intitulado “Não vou me calar!”. Nele, ela reforça seu respeito ao trabalho feito por Marco Feliciano, mas expressa descontentamento com as palavras do pastor. Dias depois, ambos gravaram uma conversa juntos, em tom pacificador, divulgada somente nas redes sociais de Feliciano.
A situação pode revelar uma manutenção em médio ou longo prazo desse debate, sobretudo nos segmentos pentecostais, e sua incidência em debates sobre políticas de proteção às mulheres.
Marcha pra Jesus 2026
O evento realizado no dia 4 de maio gerou grande engajamento, com cerca de 1 milhão de interações em diferentes perfis, especialmente políticos da extrema direita (Flávio Bolsonaro, Magno Malta, Cabo Gilberto Silva, Sóstenes Cavalcante), assim como lideranças e influenciadores evangélicos (Bispa Sonia, Apóstolo Estevam Hernandes, Pr. Juanribe Pagliarin, Ricardo Brasil, Adoradores na Net).
A Marcha pra Jesus é um evento realizado há mais de 3 décadas em São Paulo pelo casal Hernandes, reunindo multidões de evangélicos de diferentes denominações. Como parte de grandes eventos públicos consolidou-se como espaço de apresentação de grandes artistas da indústria cultural gospel, tornando-se ao mesmo tempo espaço para veiculação de mensagens não apenas religiosas, mas de forte teor político e eleitoral.
Nesse sentido, por estratégias de construção de alianças políticas, o palco da Marcha e seus trios elétricos são palanques importantes para políticos no executivo e legislativo das três esferas (município, estado e governo federal), como demonstram a presença assídua de políticos como o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o Prefeito da cidade de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB). A Marcha, que acontece em diferentes cidades brasileiras, une lideranças religiosas e políticas na mobilização de multidões numa performance pública que disputa a representatividade do “povo evangélico”, ao mesmo tempo que reivindica a política como um espaço privilegiado de “guerra espiritual”.
A repercussão da presença do pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro na Marcha pra Jesus de São Paulo, na esteira do que Jair Bolsonaro construiu ao longo dos últimos anos com as lideranças que a promovem, é por isso bastante significativa. Ela serve para operar, num evento multitudinário com evangélicos de muitas igrejas, a legitimação e pertencimento de Flávio Bolsonaro a um dos segmentos mais disputados eleitoralmente. Não à toa, ele escolhe demonstrar esse pertencimento cantando um dos hinos mais populares do cancioneiro gospel, Hino da Vitória, de Cassiane, que dramatiza a fé e a travessia do crente pentecostal pelas mais terríveis adversidades cotidianas, conduzido por Deus, que vai à frente abrindo o seu caminho e conduzindo-o à vitória final.
Embora a ligação de Lula para o Apóstolo Estevam Hernandes, por meio de Jorge Messias, tenha repercutido entre perfis evangélicos à esquerda (Evangélicos com Lula) de modo positivo, ressaltando seu espírito público (“para não tirar proveito político da fé”), também foi criticado por não ter ido à Marcha por saber que seria hostilizado: “Se Lula tivesse a convicção de que não seria hostilizado publicamente pelos defensores da verdadeira fé cristã, mesmo odiando cristãos, como ele já provou diversas vezes odiar, sim, com total certeza ele teria ido à Marcha pra Jesus.” (Ricardo Brasil)
Vale destacar a presença inédita na Marcha pra Jesus de André Mendonça, Ministro do Supremo Tribunal Federal, pastor presbiteriano indicado à suprema corte pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
Análise sobre o ranking de lideranças políticas e religiosas
No ranking de lideranças políticas e religiosas com maior engajamento, observa-se predominância de atores vinculados ao bolsonarismo, que ocupam 17 das 20 posições. Destacam-se André Fernandes e Nikolas Ferreira, responsáveis pelos maiores volumes de interação no período analisado. Ainda entre as lideranças de direita, Kim Kataguiri ocupa a terceira posição em engajamento. Já no campo associado à base do governo Lula, destacam-se André Janones, Pastor Henrique Vieira e Carlos Bezerra Jr.
Análise sobre o ranking geral
As postagens com maior engajamento no campo evangélico nesta quinzena se dividem entre perfis pertencentes à categoria liderança religiosa (Bruno Leonardo, Raquel Lima de Carvalho e Deive Leonardo) e à categoria influenciadores e mídias (Rayssa Buq e News Gospel). A metade dos perfis que receberam maior engajamento em suas postagens faz parte da categoria liderança política e está vinculado ao campo bolsonarista (André Fernandes, Nikolas Ferreira e Cabo Gilberto Silva), sendo somente André Janones vinculado ao campo do atual presidente Lula. Destacamos duas dessas postagens, todas publicadas em formato de vídeo no Instagram.
Estratégias narrativas de desinformação
Associação entre drogas, crime organizado e esquerda
A deputada Ana Campagnolo publica um vídeo em que associa o governo Lula, o Partido dos Trabalhadores e a esquerda brasileira às FARC, articulando esse argumento ao debate sobre descriminalização das drogas e à recente classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos.
Estratégias narrativas:
Associação enganosa; Falsa causalidade; Pânico moral; Polarização política.
Análise:
O conteúdo combina acontecimentos distintos, o debate sobre política de drogas, relações históricas do Foro de São Paulo, a classificação de facções criminosas pelos Estados Unidos e críticas ao governo federal, para construir a narrativa de que a esquerda brasileira mantém proximidade ideológica ou política com organizações criminosas. Embora utilize fatos reais como ponto de partida, o vídeo estabelece conexões que não são demonstradas por evidências, reforçando uma associação entre adversários políticos, criminalidade e ameaça à família brasileira.
Ao mobilizar simultaneamente temas de segurança pública, drogas, valores familiares e disputa ideológica, a publicação potencializa o engajamento emocional e reforça enquadramentos já consolidados entre públicos conservadores e evangélicos.
O conteúdo também mobiliza referências ao campo religioso ao mencionar Frei Betto, apresentado como integrante de uma suposta articulação entre o Partido dos Trabalhadores, movimentos sociais e as FARC durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. A inserção de uma liderança católica reconhecida por sua atuação na Teologia da Libertação amplia a narrativa para além da disputa partidária, atribuindo legitimidade religiosa à associação construída entre a esquerda e grupos armados. Dessa forma, o conteúdo desloca o debate do campo estritamente político para o religioso, reforçando uma leitura segundo a qual determinadas expressões do cristianismo estariam historicamente comprometidas com projetos políticos considerados incompatíveis com os valores defendidos pelo campo conservador.
Notas metodológicas
A análise baseia-se nas publicações de maior engajamento digital de uma amostra composta por 469 perfis de lideranças religiosas e políticas, organizações, mídia e influenciadores de maior relevância no ambiente digital (Instagram, YouTube, X, TikTok e Facebook), a partir de busca realizada no Data Lake do Instituto Democracia em Xeque, que gerou 16.888 resultados, concentrando 109.883.160 de interações, com postagens publicadas no ecossistema evangélico.
O critério utilizado para a coleta de dados relativos aos temas de destaque no ecossistema evangélico foi baseado em análise qualitativa das 100 (cem) postagens com maior número de interações durante o período selecionado, dos respectivos perfis funcionais: lideranças políticas, lideranças religiosas, outros perfis (influenciadores, artistas, mídia evangélica e igrejas e iniciativas), totalizando 300 (trezentas) postagens analisadas.
A classificação funcional dos perfis considera sua principal atuação nas redes sociais, reconhecendo que muitos dos atores monitorados exercem múltiplas funções e ocupam diferentes espaços de influência.
Com base na análise das narrativas presentes nas publicações de maior engajamento, foram identificados os principais temas situados nas fronteiras entre religião e política, foco central deste relatório. A partir desses resultados, foram realizadas buscas complementares no Data Lake do Instituto Democracia em Xeque, utilizando-se palavras-chaves relacionadas às narrativas identificadas, ampliando a compreensão sobre sua circulação no ecossistema monitorado.
Por fim, as análises apresentadas também incorporam a leitura contextual e analítica sobre o campo evangélico, articulando dados do monitoramento com a análise ampliada das narrativas em circulação.
A seção Fique de Olho não segue, necessariamente, os mesmos critérios metodológicos adotados no monitoramento. Trata-se de um espaço destinado a destacar temas que estejam repercutindo nas redes sociais e na imprensa às vésperas da publicação do relatório, bem como assuntos que, embora apresentem menor engajamento no monitoramento, revelem alta relevância narrativa para compreender as dinâmicas entre religião e política ou potencial de impacto no debate público.
Expediente
Narrativas evangélicas e contexto eleitoral (07.06.2026)
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TEXTO DA LICENÇA: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/legalcode
Como citar este relatório:
SOUZA, Leon; CONRADO, Flávio; LAÍS, Andréa; MOCHEL, Lorena; CAPONE, Letícia; ALVES, Marcelo. Casa Galileia; Instituto Democracia em Xeque. Narrativas evangélicas e contexto eleitoral (07.06.2026). Disponível em: <https://institutodx.org/narrativasreligiosas/07062026>.
Equipe do relatório | Casa Galileia
Diretor Executivo: Leon Souza
Diretor de Campanhas: Flávio Conrado.
Coordenação e pesquisa: Andréa Laís.
Pesquisa: Lorena Mochel.
Parceria Democracia em Xeque | Monitoramento Data Lake do DX
Direção de Pesquisa: Letícia Capone.
Direção de Metodologia e Inovação: Marcelo Alves.
Projeto gráfico: Moara Juliana e Júlia Cristofi
