Período da análise:
Publicações realizadas entre 8 de junho a 21 de junho de 2026.
Highlights
1. Carta do PT inaugura nova fase da disputa pelo voto evangélico
A divulgação da Carta aos Evangélicos do PT desencadeou uma intensa reação de lideranças religiosas, parlamentares e influenciadores conservadores, que passaram a enquadrar a aproximação do governo Lula como uma estratégia eleitoral incompatível com os valores cristãos. O tema mobilizou narrativas sobre família, liberdade religiosa e perseguição às igrejas, com acusações importantes ao forte vínculo historicamente estabelecido do PT com o catolicismo e a teologia da libertação.
2. Parada LGBTQIA+ reativa narrativas morais centradas na proteção das crianças
A cobertura da Parada do Orgulho LGBTQIA+ foi marcada pela associação recorrente entre diversidade sexual, infância e moralidade. Lideranças políticas e religiosas utilizaram imagens do evento para reforçar discursos sobre proteção das crianças e intensificar ataques a pessoas trans e às pautas LGBTQIA+.
3. Aborto volta ao centro da mobilização moral nas redes evangélicas
Vídeos de grande alcance retomaram a pauta do aborto por meio de estratégias de forte apelo emocional, utilizando descrições de procedimentos abortivos, comparações com a escravidão e convocações ao engajamento em movimentos pró-vida. O tema reaparece como um dos principais marcadores de identidade política do campo conservador.
4. Homeschooling retorna como bandeira da direita cristã
A defesa da educação domiciliar volta a ganhar espaço nas redes evangélicas associada aos valores de liberdade das famílias, autonomia dos pais e redução da intervenção do Estado na educação dos filhos. O tema ressurge como parte do repertório conservador para as eleições de 2026.
5. IA generativa como ferramenta de desinformação no ecossistema evangélico
O monitoramento identificou a circulação de um vídeo produzido por inteligência artificial sem qualquer indicação de sua origem sintética. Compartilhado durante a semana da Parada LGBTQIA+, o conteúdo favoreceu interpretações enganosas ao ser apresentado como uma cena real.
6. Ataques à identidade de pessoas trans combinam desinformação e polarização
Vídeo de grande alcance mobilizaram acusações sem comprovação e ataques à identidade de gênero de Erika Hilton, articulando críticas políticas, discursos anti-trans e alegações falsas para produzir descrédito e ampliar a polarização entre públicos religiosos e conservadores.
Fique de olho
Aborto
Um vídeo publicado em colaboração pelo deputado Junio Amaral e por Marília Amaral, que registrou 335.723 interações, mostra a influenciadora católica e presidente do PL Mulher de Contagem entrevistando mulheres que inicialmente se declaram favoráveis à legalização do aborto. Em seguida, a influenciadora apresenta vídeos e descreve diferentes métodos de interrupção da gravidez (como dilatação e evacuação, parto parcial, uso de misoprostol, envenenamento e sucção), perguntando às entrevistadas qual deles elas prefeririam legalizar.
A estratégia busca provocar impacto emocional ao enfatizar descrições violentas dos procedimentos, resultando (como furar a cabeça do bêbe, por exemplo), nos trechos exibidos, em reações de constrangimento e mudança de posicionamento das entrevistadas. Na legenda, afirmam: “Defender o aborto como uma ideia abstrata é bem mais fácil do que defendê-lo quando você entende do que se trata. #AbortoNão”. Ao final do vídeo, Marília Amaral convoca o público a se engajar em movimentos pró-vida e a se posicionar contra o que denomina de “cultura da morte”.
Em outro vídeo postado por Lucas Pavanato, o tema do aborto também ganha repercussão. O vereador está em um suposto debate com pessoas de esquerda que o questionam se países que já legalizaram o aborto são genocidas, Pavanato responde comparando a defesa da legalização do aborto com a defesa da escravidão: “Até pouco tempo atrás muitos países defendiam a escravidão, estava certo?”. O vídeo é editado com vários cortes rápidos em tom de humor e teve um alcance de 114.769.
Homeschooling
O senador Magno Malta postou um vídeo em defesa do homeschooling repercutindo o depoimento de uma menina na Comissão de Direitos Humanos em um debate sobre a educação domiciliar com 166.364 de interações. No vídeo, a menina faz um depoimento emocionado e fervoroso em defesa dos seus pais a educarem em casa, compara com a experiência dos EUA que aprova bolsa escolar de incentivo ao governo nesses casos e grita ao final “O homeschooling é imparável”.
Ao compartilhar o conteúdo, Magno Malta reforça a legitimidade do depoimento como expressão da defesa da liberdade das famílias na educação dos filhos e encerra a publicação convocando seus seguidores com a frase “Homeschooling vive”, e escreve na legenda: “Uma criança que aprende a raciocinar, questionar e formar suas próprias convicções não se torna massa de manobra. Por isso combatem tanto modelos de ensino que fortalecem a família e a independência do pensamento”. A postagem insere a educação domiciliar no repertório de pautas associadas à defesa da família, da liberdade de escolha e da autonomia dos pais frente ao Estado.
Temas em destaque no segmento evangélico
Carta do PT aos Evangélicos
O documento divulgado em 8 de junho pelo Partido dos Trabalhadores após o IV Encontro Nacional de Evangélicos e Evangélicas do PT se tornou alvo de intensas disputas dentro do campo evangélico.
A deputada Ana Campagnolo postou um vídeo em colab com a vereadora Manu Vieira com alcance de 69.792 de interações, o conteúdo apresenta uma leitura crítica da aproximação do governo Lula com o eleitorado evangélico, tomando como ponto de partida a divulgação da “Carta aos Evangélicos” elaborada pelo PT. A publicação enquadra a iniciativa como parte de uma estratégia de “caça ao voto evangélico”, argumentando que, apesar dos gestos de diálogo como a carta, encontros de Janja com mulheres evangélicas e a participação de representantes do governo na Marcha para Jesus, o partido manteria posições incompatíveis com valores considerados centrais para esse segmento, como família, liberdade religiosa, oposição ao aborto e à chamada “ideologia de gênero”. Para sustentar essa narrativa, o vídeo recupera declarações de Márcia Tiburi (apresentada como uma ideóloga da esquerda) sobre tributação de igrejas, apresentando-as como evidência de uma suposta ameaça da esquerda às igrejas e aos cristãos. O conteúdo também mobiliza a narrativa de que os evangélicos estariam sendo alvo de perseguição política e menciona o debate sobre “abuso de poder religioso”, reforçando um enquadramento de conflito entre o campo evangélico e a esquerda.
Embora em menor quantidade se comparada à repercussão entre lideranças políticas, o dissenso pôde ser observado entre lideranças religiosas com posicionamentos vinculados à extrema-direita. Em um vídeo postado em seu canal do YouTube, Silas Malafaia associou as origens do PT ao catolicismo, exibindo recortes de um diálogo entre Lula e Leonardo Boff em que Lula elogia a atuação de padres progressistas vinculados à teologia da libertação.
A crítica de Malafaia de que “o PT começou com a fé a com a religião” buscou descredibilizar a carta do PT aos evangélicos em vínculo direto com a ligação feita por Lula ao Apóstolo Estevam Hernandes durante a Marcha pra Jesus 2026, em que o presidente indicou não misturar fé e política em ano eleitoral. Malafaia argumentou, ainda, sobre as relações de Lula em temas como aborto e falta de liberdade religiosa para cristãos em países comunistas.
No campo de influenciadores evangélicos e portais de notícias gospel também associados ao campo da direita, multiplicaram-se “alertas aos cristãos” sobre a carta aos evangélicos como estratégia adotada pelo PT durante o período eleitoral, repercutindo associações do evento com a imagem da primeira-dama, Janja. Manifestações minoritárias, como a do perfil Fuxico Gospel, exibiu recortes em vídeo do culto realizado pelo PT durante o Encontro Nacional em Brasília, acusando o partido de utilizar as mesmas estratégias da direita evangélica em campanhas eleitorais.
Parada LGBTQIA+ e escalada de discursos de ódio contra pessoas trans
A repercussão no campo evangélico em torno da 30ª edição da Parada do Orgulho LGBTQIA +, ocorrida no último 7 de junho na Avenida Paulista, trouxe dois temas como destaque principal: a crítica à presença de crianças no evento e análises sobre a queda de patrocínios e de frequentadores. Perfis de influenciadores e portais de notícias gospel, a exemplo do Pleno News, que em postagens anteriores já haviam celebrado a aprovação na câmara de São Paulo de projeto de lei que vetava a presença de crianças na parada LGBTQIA+, desta vez destacou a perda de metade do público da parada.
O enfoque prioritário nas crianças também esteve presente em vídeos postados no canal do YouTube de influenciadores evangélicos, que criticaram imagens de sexualização às quais menores de idade estariam expostos ao participar do evento.
A vinculação do discurso de proteção à infância com ataques às pessoas trans aparece de forma reiterada em postagens feitas por influenciadores e lideranças evangélicas que fizeram parte da análise durante o período em questão. Exemplos como o do Pastor Junior Tércio, que compartilhou em suas redes sociais diferentes imagens que produzem associações entre os temas, aponta para uma escalada de violência que reverberou também entre as lideranças políticas analisadas.
O vereador Lucas Pavanato publicou um vídeo gravado durante a Parada do Orgulho LGBTQIA+ em que entrevista participantes e condena a presença de crianças no evento. Por meio da edição das imagens, o conteúdo constrói um enquadramento da Parada como um ambiente inadequado para menores de idade, enfatizando cenas de nudez e performances de caráter sexual. Ao longo do vídeo, Pavanato afirma que a homossexualidade é pecado e defende que pais e mães que levem seus filhos ao evento deveriam perder a guarda das crianças. Em outro trecho, o vereador debate com uma mulher evangélica presente na Parada, que manifesta posição divergente da sua. Durante a discussão, afirma que Deus não estaria presente naquele ambiente, afirma que homossexualidade é pecado e acusa a interlocutora de rasgar a Bíblia.
Análise sobre o ranking de lideranças políticas e religiosas
Durante o período analisado, observa-se somente atores evangélicos vinculados ao campo bolsonarista com métricas que ocupam os primeiros lugares do ranking. Diferente da lista indicada no relatório anterior, em que houve predominância de 17 dos 20 perfis aliados ao bolsonarismo, desta vez o número subiu para 18 perfis vinculados ao campo bolsonarista. O ranking conta somente com dois aliados ao governo Lula, Pastor Henrique Vieira e Carlos Bezerra Jr. As postagens com maior interação são orações e mensagens de fé compartilhadas por lideranças religiosas (Bruno Leonardo e Raquel Lima de Carvalho).
No caso de lideranças políticas, as postagens que reuniram maior quantidade de interações apresentaram conteúdos relacionados à torcida pela seleção brasileira na copa do mundo, com destaque para a replicação de discursos de jogadores de outras seleções que se declaram cristãos e a prática de orações em campo. Houve repercussão de temas como aborto (Junio Amaral), aprovação da redução da maioridade penal pelo CCJ (Nikolas Ferreira), críticas à Erika Hilton (Julia Zanatta e Kim Kataguiri), defesa do homeschooling (Magno Malta), repercussões da parada do orgulho LGBTQIA+ ocorrida em São Paulo (Lucas Pavanatto), além de apoio ao ministro André Mendonça por suas recentes decisões sobre o caso de Daniel Vorcaro (Ricardo Brasil).
Análise sobre o ranking geral
O ranking deste período manteve divisão equilibrada em relação às posições funcionais ocupadas pelos perfis. 30% das postagens com maior engajamento no campo evangélico deste período se localizam no campo de influenciadores e portais de notícias gospel. 40% são lideranças políticas, casos de Nikolas Ferreira, Junio Amaral, Gabriel Monteiro e Magno Malta, e outros 30% são lideranças religiosas.
Vale destacar que as métricas observadas para o Bispo Bruno Leonardo foram compostas somente por conteúdos relacionados às orações, ocupando 59% do total das 100 (cem) primeiras postagens com maior número de interações durante o período. Na análise qualitativa das orações, não foram observados conteúdos que expressassem relevância para o contexto eleitoral do campo evangélico, o que se assemelha aos casos de posicionamentos públicos de outros perfis em permanente destaque, a exemplo de Rayssa Buq e Raquel Lima de Carvalho.
Estratégias narrativas de desinformação
Viralização de vídeo produzido por IA generativa
Um vídeo gerado por inteligência artificial obteve grande circulação em perfis vinculados à extrema-direita evangélica. Com menos de um minuto de duração, as imagens mostram uma mãe oferecendo a bandeira LGBTQIA+ para uma criança, que a recebe e logo depois joga em uma lixeira. Entre os perfis que compartilharam o vídeo, a proximidade com a parada da diversidade LGBTQIA+, ocorrida na mesma semana em São Paulo, foi citada em comentários que produziam vínculos diretos com o evento.
Observou-se, entre esses comentários, alguns perfis que indicavam em tom jocoso que o vídeo não seria uma cena real, mas produzida por IA. No entanto, não havia menções sobre ser uma produção gerada por inteligência artificial em nenhum dos perfis que o compartilharam. Legendas compartilhadas junto ao vídeo destacavam a educação e valores fornecidos pelos pais na criação de novas gerações críticas às “influências de ideologias”.
🔎 Estratégia de desinformação: o conteúdo utiliza um vídeo produzido por inteligência artificial sem informar sua natureza sintética, permitindo que a peça circule como se retratasse uma situação real. A ausência de identificação da mídia gerada por IA, somada à sua circulação durante a semana da Parada do Orgulho LGBTQIA+ e aos comentários que estabeleciam relações diretas com o evento, favorece interpretações enganosas sobre comportamentos e reações sociais. Nesse caso, o potencial de desinformação decorre menos do conteúdo em si do que da omissão de informações essenciais sobre sua origem e contexto de produção.
Transfobia e desinformação
Em um vídeo publicado pela deputada Julia Zanatta em resposta ao direito de resposta da deputada Erika Hilton no programa do Ratinho, a parlamentar constrói uma narrativa de deslegitimação da atuação política e da identidade de gênero de Hilton. O conteúdo alterna críticas às pautas dos movimentos trans e “woke” com ataques pessoais, afirmando que a deputada buscaria “negar” a identidade de mulheres cisgênero (que no vídeo são chamadas de mulheres biológicas) ao defender o uso de expressões inclusivas, como “pessoas que gestam” e “pessoas que menstruam”. O vídeo também associa Erika Hilton à perseguição de opositores, alegando, sem apresentar evidências, que uma mulher (Isabella Cêpa) estaria vivendo no exílio fora do país em decorrência de ações da deputada, além de sugerir que ela teria abandonado sua identidade racial ao exibir fotografias antigas e recentes de sua aparência. Ao final, Julia Zanatta anuncia a intenção de divulgar “a verdade sobre Erika Hilton”, reforçando uma estratégia de deslegitimação pessoal baseada em acusações sem comprovação.
🔎 Estratégia de desinformação: o vídeo combina críticas políticas com afirmações não comprovadas sobre perseguição a opositores e sobre a trajetória pessoal de Erika Hilton, utilizando ataques à identidade de gênero e à identidade racial da parlamentar para construir uma narrativa de descrédito. A publicação recorre a enquadramentos enganosos e alegações sem comprovação factual, mobilizando temas de gênero e direitos LGBTQIA+ para intensificar a polarização política.
Notas metodológicas
A pesquisa foi realizada em 469 perfis (Instagram, YouTube, X, TikTok e Facebook) de lideranças religiosas e políticas, organizações, mídia e influenciadores evangélicos, a partir de busca no Data Lake do Instituto Democracia em Xeque. Foram gerados 15.620 resultados, concentrando 89.311.376 de interações durante o período analisado para o ecossistema evangélico até o fechamento deste relatório. Seguindo a metodologia adotada para análise das postagens, optou-se por não inserir o perfil do candidato presidenciável Flávio Bolsonaro.
O critério utilizado para a coleta de dados relativos aos temas de destaque no ecossistema evangélico foi baseado em análise qualitativa das 100 (cem) postagens com maior número de interações durante o período selecionado, dos respectivos perfis funcionais: lideranças políticas, lideranças religiosas, outros perfis (influenciadores, artistas, mídia evangélica e igrejas e iniciativas), totalizando 300 (trezentas) postagens analisadas. A classificação funcional dos perfis considera sua principal atuação nas redes sociais, reconhecendo que muitos dos atores monitorados exercem múltiplas funções e ocupam diferentes espaços de influência.
As métricas de interações citadas ao longo deste relatório correspondem à quantidade registrada até o dia de fechamento da análise.
Com base na análise das narrativas presentes nas publicações de maior engajamento, foram identificados os principais temas situados nas fronteiras entre religião e política, foco central deste relatório. A partir desses resultados, foram realizadas buscas complementares no Data Lake do Instituto Democracia em Xeque, utilizando-se palavras-chaves relacionadas às narrativas identificadas, ampliando a compreensão sobre sua circulação no ecossistema monitorado.
Por fim, as análises apresentadas também incorporam a leitura contextual e analítica sobre o campo evangélico, articulando dados do monitoramento com a análise ampliada das narrativas em circulação.
A seção Fique de Olho não segue, necessariamente, os mesmos critérios metodológicos adotados no monitoramento. Trata-se de um espaço destinado a destacar temas que estejam repercutindo nas redes sociais e na imprensa às vésperas da publicação do relatório, bem como assuntos que, embora apresentem menor engajamento no monitoramento, revelem alta relevância narrativa para compreender as dinâmicas entre religião e política ou potencial de impacto no debate público.
Expediente
Narrativas evangélicas e contexto eleitoral (07.06.2026)
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TEXTO DA LICENÇA: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/legalcode
Como citar este relatório:
SOUZA, Leon; CONRADO, Flávio; LAÍS, Andréa; MOCHEL, Lorena; CAPONE, Letícia; ALVES, Marcelo. Casa Galileia; Instituto Democracia em Xeque. Narrativas evangélicas e contexto eleitoral (07.06.2026). Disponível em: <https://institutodx.org/narrativasreligiosas/07062026>.
Equipe do relatório | Casa Galileia
Diretor Executivo: Leon Souza
Diretor de Campanhas: Flávio Conrado.
Coordenação e pesquisa: Andréa Laís.
Pesquisa: Lorena Mochel.
Parceria Democracia em Xeque | Monitoramento Data Lake do DX
Direção de Pesquisa: Letícia Capone.
Direção de Metodologia e Inovação: Marcelo Alves.
Projeto gráfico: Moara Juliana e Júlia Cristofi
