#03 Narrativas evangélicas e contexto eleitoral

Este relatório apresenta uma análise das principais narrativas em circulação nas redes sociais sobre as fronteiras entre religião e política, com foco no ecossistema evangélico.

Publicações realizadas entre 22 de junho a 05 de julho de 2026.

A repercussão do vídeo de Michelle Bolsonaro transformou o ecossistema evangélico em palco de uma disputa sobre quem deve representar o bolsonarismo nas eleições de 2026. Flávio Bolsonaro aparece como herdeiro político legitimado por Jair, enquanto Michelle mobiliza apoio religioso e feminino, abrindo fissuras entre lideranças conservadoras e alimentando críticas de machismo de parte da esquerda evangélica.

Perfis evangélicos ultraconservadores trataram o Projeto de Lei 896/2023 como ameaça direta à liberdade cristã, disseminando a ideia de que pastores e padres poderiam ser presos por citar passagens bíblicas sobre submissão feminina. O tema ativou uma narrativa de perseguição ao cristianismo e fortaleceu a associação entre defesa da fé, antifeminismo e alinhamento à direita.

Embora com menor volume de engajamento, as 15 publicações de maior destaque da esquerda evangélica somaram 325.929 interações e revelam uma agenda relativamente coesa. Pastor Henrique Vieira, Carlos Bezerra Jr., Marina Silva, Benedita da Silva, Eliziane Gama e Aava Santiago concentraram críticas ao bolsonarismo, defesa da democracia, combate à misoginia, denúncia do racismo religioso e questionamentos à mercantilização da fé.

O ranking de maior engajamento do período confirma a força de influenciadores e lideranças religiosas conservadoras. Ao mesmo tempo, a entrada de Michelle Bolsonaro entre os perfis de maior repercussão indica que a disputa interna pela representação do bolsonarismo se confirma como ativo digital relevante no campo evangélico.

Conteúdos de grande circulação distorceram um projeto de lei canadense para sustentar a falsa ideia de que opiniões baseadas na Bíblia poderiam ser criminalizadas como discurso de ódio. A narrativa reforça o repertório já mobilizado no Brasil em torno do “PL da misoginia” e mostra como notícias internacionais são apropriadas para alimentar o sentimento de perseguição religiosa entre evangélicos.

A tragédia na Venezuela gerou forte repercussão entre perfis evangélicos, que articularam pedidos de oração, leituras apocalípticas e disputas político-ideológicas sobre o país. Entre os conteúdos de maior alcance, destacaram-se interpretações do terremoto como evidência da volta iminente de Jesus e como alerta para arrependimento, vigilância espiritual e salvação. Além disso, houve associações negativas do terremoto com experiências relacionadas à religiões de matriz africana praticadas na Venezuela.

Houve ampliação da escalada de ataques contra pessoas LGBTQIA+ indicada em relatórios anteriores. Dois vídeos do pastor Matheus Alves somaram mais de 107 mil interações ao apresentar uma forma de evangelização voltada a pessoas LGBTQIA+ que se diferencia do ataque direto, mas mantém a condenação de identidades trans e da homossexualidade como pecado. A estratégia combina escuta, oração e linguagem de acolhimento com a reafirmação de uma pedagogia moral centrada na correção das dissidências sexuais e de gênero.

1) Michelle ou Flávio: quem é a voz do movimento?

Um vídeo publicado por Ricardo Brasil repercute a disputa em torno da sucessão de Jair Bolsonaro e formula, de modo explícito, a pergunta sobre quem deve ser a principal voz do bolsonarismo nas eleições de 2026: Michelle Bolsonaro ou Flávio Bolsonaro. A publicação, com 104.119 de interações, parte da ideia de que Jair Bolsonaro segue sendo o principal ativo político do campo, mesmo em um cenário de perseguição judicial e risco de prisão, e contrapõe esse quadro à suposta força estrutural da esquerda, descrita como apoiada pela “imprensa militante”, por “artistas engajados”, pelo aparato estatal e por políticas de caráter populista. Nesse contexto, Michelle é apresentada como uma liderança com forte apelo junto à base conservadora, mas ainda com pouca experiência no “jogo político”, enquanto Flávio aparece como o herdeiro mais preparado para vocalizar as decisões do ex-presidente e conduzir o movimento bolsonarista.

A narrativa sugere que sua escolha como porta-voz teria sido “instituída” pelo próprio Jair Bolsonaro, atribuindo ao senador a função de traduzir politicamente a vontade do ex-presidente diante do STF, do Centrão e do governo Lula. Mais do que um debate sobre nomes, a repercussão do vídeo evidencia uma disputa sobre quem poderá representar legitimamente o bolsonarismo e sustentar sua identidade política em um cenário de restrição à participação direta de Jair Bolsonaro. Na legenda, Ricardo Brasil demarca sua posição eleitoral: “Flávio Bolsonaro presidente 🇧🇷22”. 

Outra publicação que corrobora essa narrativa foi o vídeo de resposta de Flávio à Michelle, repostado integralmente pelo pastor Silas Malafaia com a seguinte legenda: “Flávio Bolsonaro dá um show”, com 54.008 de interações. 

2) Damares Alves traidora?

Movimentos críticos direcionados à Senadora Damares Alves, que emitiu apoio à Michelle Bolsonaro após divulgação do vídeo, destacaram-se em conteúdos postados durante o período analisado por perfis de identidade evangélica nas redes. Entre perfis com alinhamento conservador, houve avaliações negativas ao alinhamento de Damares à recusa de Michelle de estar presente no encontro de mulheres do PL organizado por Flávio Bolsonaro.

A posição da senadora recebeu comentários que associavam seu distanciamento de Flávio à figura de traidora da direita bolsonarista. As justificativas repercutiam tanto o apoio à Michelle quanto menções às manifestações públicas de apoio de Damares a outras colegas evangélicas alinhadas ao campo da esquerda, como Eliziane Gama e Marina Silva. Diferentes perfis resgataram imagens em que Damares e Eliziane se abraçam, registradas no fim do ano passado, combinando às declarações mais recentes em que Damares chama Marina Silva de “irmã em Cristo”. A imagem da senadora como traidora circulou acompanhada de frases que a associam ao feminismo e ao suposto vínculo com valores defendidos pela “esquerda petista“.

3) Gestão do conflito familiar: tom pacificador na direita, acusações de machismo pela esquerda

Lideranças políticas evangélicas repercutiram o vídeo postado por Michelle Bolsonaro em caminhos opostos. No campo da direita, houve homenagens de mulheres conservadoras à Michelle e emprego de tom apaziguador sobre a situação, recorrentemente descrita como um “conflito familiar” que deve ser minimizado em busca do objetivo maior de “tirar o PT do poder”. Em um vídeo postado em suas redes sociais, Magno Malta destacou que haveria união entre as vontades de Michelle e de Flavio sobre os rumos do Brasil, argumentando sobre o propósito divino em torno da situação a partir de citação livre da passagem bíblica de 1 Coríntios 1:27-29: ”Deus age para confundir os sábios”. Malta também fez elogios à Michelle como “mulher de oração” que merece respeito por ser esposa de seu “líder”, Jair Bolsonaro, tom similar ao utilizado por Marco Feliciano em defesa da ex-primeira dama

Em meio às avaliações sobre um possível “racha” no campo bolsonarista evangélico, denúncias do machismo que Michelle Bolsonaro teria visibilizado em seu vídeo se destacaram no campo da esquerda. Aava Santiago e Henrique Vieira apontaram para como a situação expõe as hipocrisias do uso bolsonarista da pauta da família. Aava realçou o caráter machista do “desprezo por mulheres” presente no projeto de poder de Bolsonaro, que rapidamente transformou Michelle e suas apoiadoras em inimigas do povo. Carlos Bezerra Jr. também chamou a atenção para o machismo repercutido na situação ao citar o trecho do vídeo em que Paulo Figueiredo afirma que “mulher não sabe votar”. O parlamentar comparou a distorção dessa fala como “um ataque à democracia” que também se faz presente no machismo que acomete membros de igrejas evangélicas brasileiras. Em tom similar, representantes evangélicos do campo de centro-direita, como Otoni de Paula, também manifestaram apoio e elogiaram a coragem de Michelle, enfatizando a ampliação da fragilidade da candidatura de Flávio Bolsonaro. 

  • PL da Misoginia como risco de criminalização da fé cristã

A tramitação em regime de urgência do Projeto de Lei 896/2023, conhecido como “PL da Misoginia”, ganhou repercussão central entre perfis evangélicos alinhados aos campos ultraconservadores. Entre lideranças alinhadas ao campo da direita, circularam narrativas de desinformação que associavam o PL à censura contra a liberdade religiosa. Entre lideranças e influenciadores evangélicos, houve amplo compartilhamento e formato “react” de uma entrevista do advogado criminalista e pré-candidato bolsonarista a Deputado Federal pelo Paraná, Jeffrey Chiquini, durante participação em um podcast. Em sua fala, o advogado profere um “alerta aos evangélicos” contra a tramitação do PL, associando-o ao presidente Lula, indicando que “pastores serão algemados em cima dos púlpitos” por terem suas pregações interpretadas como machistas e “associadas ao crime de racismo”. A fala emite uma alusão ao texto do projeto, que equipara os crimes de machismo e racismo. 

Em uma publicação que alcançou 55.964 interações, Ricardo Brasil repercute um vídeo do pastor Junior Trovão e trechos de um pronunciamento do deputado Mauricio Marcon (PL-RS) para afirmar que o “PL da misoginia” representaria uma ameaça direta à liberdade religiosa no Brasil. O conteúdo sustenta que a eventual aprovação do projeto poderia criminalizar padres e pastores que utilizassem, em pregações, passagens bíblicas como Efésios 5:22: “vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos”, mencionando como exemplo o frei Gilson e a possibilidade de punições de até cinco anos de prisão. 

A partir dessa interpretação, a publicação constrói uma narrativa de perseguição ao cristianismo, enquadrando o debate legislativo como uma tentativa da esquerda e do feminismo de silenciar líderes religiosos e atacar os fundamentos da família cristã. Ao final, Ricardo Brasil amplia o enquadramento ao afirmar que “cristãos verdadeiros não são de esquerda” e que apenas a direita representaria os valores ligados ao criador, convertendo a defesa da liberdade religiosa em argumento de identificação política e reforçando a oposição entre cristianismo, feminismo e campo progressista.

De modo geral, diferentes perfis do campo conservador propagaram a união entre  católicos e evangélicos para fortalecer bases populares contra a aprovação do projeto. Embora em menor participação, lideranças evangélicas do campo da esquerda destacaram a importância de não tratar “misoginia como liberdade de expressão”. 

No campo da esquerda evangélica, foram analisadas 15 publicações que somam 325.929 interações no período. Embora com menor volume de engajamento em comparação ao campo da direita, esse conjunto de postagens evidencia uma agenda relativamente coesa, centrada na crítica à extrema direita, na defesa da democracia, dos direitos das mulheres, da justiça social e da laicidade do Estado.

Entre os perfis vinculados à esquerda evangélica e ao campo cristão progressista, destacam-se sobretudo Pastor Henrique Vieira, Marina Silva, Carlos Bezerra Jr., Benedita da Silva, Eliziane Gama e Aava Santiago. O perfil de maior repercussão foi o de Carlos Bezerra Jr., com 62.262 interações em publicação sobre autonomia política das mulheres e crítica à ideia de que o voto feminino deva seguir a orientação do marido. Na publicação, ele defende que esse debate sobre o voto feminino não é político-ideológico, não é sobre direita e esquerda, mas sobre respeito e atraso. 

Em seguida, Pastor Henrique Vieira concentrou o maior volume de postagens e interações do campo, articulando temas como crítica ao bolsonarismo, combate às bets e seus impactos sobre famílias endividadas, defesa do fim da escala 6×1, denúncia de racismo religioso e críticas à financeirização de grandes igrejas e lideranças religiosas. Marina Silva aparece principalmente vinculada à sua pré-candidatura ao Senado e à valorização de agendas de democracia, justiça social, meio ambiente e cooperação internacional, enquanto Benedita da Silva e Eliziane Gama reforçam o alinhamento ao governo Lula e uma identidade cristã associada à defesa da vida, da democracia e da justiça social. Já Aava Santiago mobiliza uma crítica feminista ao bolsonarismo, destacando a misoginia e a desvalorização da participação política das mulheres como elementos estruturantes da extrema direita.

De modo geral, as postagens desse campo se organizam em torno de uma agenda que combina crítica à extrema direita e ao bolsonarismo com pautas de justiça social, defesa da democracia, direitos das mulheres, combate ao racismo religioso, regulação das apostas e denúncia da mercantilização da fé. Diferentemente do repertório moral conservador predominante entre as lideranças evangélicas de direita, a esquerda evangélica mobiliza a linguagem religiosa sobretudo para legitimar pautas de proteção social, justiça econômica, laicidade do Estado e defesa de grupos historicamente vulnerabilizados.

🔎 Análise sobre o ranking das lideranças políticas:

Com exceção do vídeo de resposta à Michelle postado nas redes de Flávio Bolsonaro, as postagens que receberam mais interações entre lideranças políticas de identidade evangélica não mencionaram a situação familiar recentemente exposta por Michelle Bolsonaro. O ecossistema evangélico apresentou diversidade tanto em torno de temas sociais mais amplos, como a participação da seleção brasileira na copa do mundo, quanto sobre assuntos mais corriqueiros de suas agendas políticas – caso de Ana Campagnolo, com críticas ao feminismo, Nikolas Ferreira e Cabo Gilberto Silva, com vídeos de grande alcance apresentando críticas ao governo petista. 

A repercussão do vídeo de Michelle também não ocupou lugar no ranking das lideranças evangélicas alinhadas ao campo da esquerda. Há destaque para a posição ocupada por Marina Silva pela primeira vez no ranking de interações desde o início da produção dos relatórios, com o anúncio de sua presença na chapa junto à Simone Tebet para concorrer ao Senado em São Paulo.

🔎 Análise sobre o ranking geral

Entre os nomes que mais se destacaram nas redes evangélicas, sobressaíram-se interações comandadas por influenciadores e lideranças religiosas. Durante o período analisado, Bruno Leonardo reuniu 1.468.879 interações e Rayssa Buq contou com 1.342.602 interações. Nomes que ainda não haviam aparecido nas listas anteriores destes relatórios receberam destaque, caso de Michelle Bolsonaro, dos influenciadores Rayan Santos (563.689 interações) e Lucas Krammer (362.758 interações), e da cantora Julliany Souza (529.519 interações). Raquel Lima de Carvalho, liderança religiosa recorrente nos rankings, exibiu 331.792 interações por postagem única. Os influenciadores citados foram recentemente adicionados ao Data Lake (ver nota metodológica). 

Influenciadores e portais de notícias gospel circularam desinformação sobre um Projeto de Lei canadense, conhecido como Bill C-9. A “Lei do Combate ao Ódio” tramita atualmente no Senado canadense e propõe a proibição de opiniões baseadas em textos religiosos para promover discursos de ódio como a islamofobia, transfobia e antissemitismo. Embora a checagem dessa notícia já esteja amplamente disponível em diversas matérias de jornais de circulação nacional, a manipulação dessa notícia falsa continua gerando novos conteúdos em mídias evangélicas.

Estratégia de desinformação: A notícia utiliza associação enganosa para fortalecer a conhecida narrativa de perseguição religiosa aos cristãos. Embora cite projetos de lei que efetivamente tramitam nas esferas parlamentares canadenses, incita discursos que vinculam a liberdade religiosa no cristianismo à prática de infrações criminais relacionadas à propaganda de ódio. Nesse caso, a estratégia de desinformação opera via similaridade com referências familiares ao campo evangélico que também podem ser encontradas ao longo do período a respeito do PL da misoginia. Nesse sentido, o conteúdo apresenta relações com outras formas de circular notícias falsas que associam a criminalização de textos bíblicos e projetos de lei que combatem o ódio contra minorias políticas.

A recente tragédia que acometeu a Venezuela repercutiu nas redes evangélicas através de pedidos de orações em diferentes campos político-ideológicos. Perfis mais alinhados à direita indicaram a “ditadura política” e “chaga socialista” vivida atualmente no país, enquanto perfis à esquerda destacaram o apoio humanitário oferecido pelo governo Lula. Entre as postagens com maior alcance (278.709 interações), no entanto, estiveram interpretações de lideranças políticas evangélicas sobre terremoto como sinal do fim dos tempos. 

Um vídeo publicado no Instagram pelo pastor Renato Cardoso, com imagens de cenas cotidianas interrompidas pelo momento do terremoto, alcançou 68.174 interações no período analisado. Na publicação, o pastor mobiliza uma narrativa apocalíptica ao conclamar o público a apressar sua salvação diante da proximidade do fim dos tempos, fazendo referência, na legenda, ao texto bíblico de Lucas 21:11-12: “E haverá em vários lugares grandes terremotos, e fomes e pestilências; haverá também coisas espantosas, e grandes sinais do céu. Mas antes de todas estas coisas lançarão mão de vós, e vos perseguirão”. Vale destacar que a legenda também informa que a Igreja Universal está mobilizada para prestar ajuda às vítimas do desastre.

Uma publicação do Portal Gospel Mais, que alcançou 137.502 interações, repercutiu a circulação de um vídeo antigo da pastora Camila Barros após o terremoto que atingiu a Venezuela. No conteúdo, a pastora afirma que “não é tempo de trocar o culto pela série” e que a igreja estaria vivendo seus “últimos momentos na Terra”, convocando os fiéis à vigilância espiritual, ao arrependimento e à busca por uma vida mais próxima de Deus. A legenda enquadra a repercussão do vídeo como um sinal dos “tempos atuais”, sugerindo que acontecimentos recentes, como o terremoto, reforçariam a atualidade de mensagens proféticas sobre a volta de Jesus, a pastora fala no vídeo “O noivo está voltando”. 

Conteúdos semelhantes sobre a catástrofe circularam como alerta para a iminência do apocalipse, recebendo grandes alcances nas métricas registradas para o período. Houve, ainda, lideranças religiosas que enfatizaram a “forte idolatria venezuelana” como justificativa para que a justiça divina fosse cumprida no país. O acionamento de imagens de pessoas negras em cerimônias religiosas de matriz africana, como a Santería e a celebração de San Juán, evoca discursos condizentes com a prática de racismo religioso.

Pastor Jack postou um vídeo com imagens de uma suposta festa de Cosme e Damião, descrito como um culto religioso de matriz africana de brancos. O pastor afirma que as pessoas estão fingindo ser crianças e estão no meio de um espaço cheio de cocô: “Eles oferecem doces, alguém comeu ali e se cagou porque eles estão “recebendo” espíritos de crianças”. Jack diz que esse tipo de ritual não pode ser chamado de nojento, mas pessoas podem enfiar uma cruz no anus. 

Além do discurso violento que busca confundir a prática de racismo religioso quando afirma “não tem nenhum negro aqui”, o pastor afirma que a maior religião de matriz africana é o cristianismo, seguida do islamismo. O vídeo postado no Instagram estava com interação de 39.691 na data da coleta dos dados, Pastor Jack atualmente tem 275 mil seguidores nesta mesma rede social.

Dois vídeos do pastor Matheus Alves, que juntos somam 107.194 interações, destacam a circulação de conteúdos de evangelização voltados a pessoas LGBTQIA+ no período analisado. Em ambos, o pastor entrevista uma mulher trans e uma mulher lésbica, adotando uma linguagem de acolhimento e escuta, mas reafirmando que identidades trans e práticas homossexuais configurariam pecado diante de Deus. Nos vídeos, Matheus equipara a transexualidade e a homossexualidade a outros pecados, como roubar, e sustenta que a definição do sexo biológico corresponderia à vontade divina estabelecida “no ventre da mãe”. Ao final, ora pelas entrevistadas e pede que o Espírito Santo as convença “do pecado, da justiça e do juízo”, reforçando a ideia de que a transformação de suas identidades e sexualidades seria desejável e possível no futuro.

A estratégia narrativa dos vídeos combina acolhimento pastoral, reconhecimento parcial da dignidade das entrevistadas, inclusive com o uso do nome social da mulher trans, e reafirmação de um enquadramento moral que posiciona identidades LGBTQIA+ como desvios a serem corrigidos. Ao mesmo tempo, as respostas das entrevistadas introduzem tensionamentos: a mulher trans afirma acreditar que Deus já sabia de sua identidade e lhe concedeu livre-arbítrio, enquanto a mulher lésbica expressa conflito entre sua experiência e os ensinamentos religiosos que frequenta. Os vídeos evidenciam, assim, uma modalidade de evangelização que busca se diferenciar de discursos abertamente hostis, mas mantém a condenação moral das dissidências sexuais e de gênero como parte central de sua mensagem pública.

A pesquisa foi realizada em 573 perfis (Instagram, YouTube, X, TikTok e Facebook) de lideranças religiosas e políticas, organizações, mídia e influenciadores evangélicos, a partir de busca no Data Lake do Instituto Democracia em Xeque. Foram gerados 17.178 resultados, concentrando 105.647.504 de interações durante o período analisado para o ecossistema evangélico até o fechamento deste relatório. 

O critério utilizado para a coleta de dados relativos aos temas de destaque no ecossistema evangélico foi baseado em análise qualitativa das 50 (cinquenta) postagens com maior número de interações durante o período selecionado, dos respectivos perfis funcionais: lideranças políticas, lideranças religiosas, outros perfis (influenciadores, artistas, mídia evangélica e igrejas e iniciativas), e uma busca por lideranças religiosas e políticas do campo da esquerda, totalizando 200 (duzentas) postagens analisadas. A classificação funcional dos perfis considera sua principal atuação nas redes sociais, reconhecendo que muitos dos atores monitorados exercem múltiplas funções e ocupam diferentes espaços de influência. 

Com base na análise das narrativas presentes nas publicações de maior engajamento, foram identificados os principais temas situados nas fronteiras entre religião e política, foco central deste relatório. A partir desses resultados, foram realizadas buscas complementares no Data Lake do Instituto Democracia em Xeque, utilizando-se palavras-chaves relacionadas às narrativas identificadas, ampliando a compreensão sobre sua circulação no ecossistema monitorado. Como critério adicional, também foi realizada pesquisa por menções de temas em destaque através de hashtags postadas por perfis públicos, ocasionando em achados de perfis de identidade evangélica não previamente listados no Data Lake.

A versão atual do relatório contou com novo critério para ranqueamento de lideranças políticas. Diferente dos dois últimos relatórios, em que lideranças políticas e religiosas estiveram presentes, neste foram priorizados somente lideranças políticas com identidade evangélica autodeclarada, acrescidas de seus devidos partidos políticos. Para os  efeitos analisados no período em questão, consideramos a inserção do perfil do candidato presidenciável Flávio Bolsonaro, antes mantido em análises isoladas neste monitoramento. 

As lideranças religiosas foram mantidas junto a influenciadores, artistas, igrejas e portais de notícias gospel em ranking separado, seguindo modelo adotado para os outros relatórios. Por fim, as análises apresentadas também incorporam a leitura contextual e analítica sobre o campo evangélico, articulando dados do monitoramento com a análise ampliada das narrativas em circulação. Considerou-se, nesse sentido, fornecer maiores informações nas análises adotadas sobre as atuações presentes entre lideranças políticas e religiosas alinhadas ao campo da esquerda evangélica. 

A seção Fique de Olho não segue, necessariamente, os mesmos critérios metodológicos adotados no monitoramento. Trata-se de um espaço destinado a destacar temas que estejam repercutindo nas redes sociais e na imprensa às vésperas da publicação do relatório, bem como assuntos que, embora apresentem menor engajamento no monitoramento, revelem alta relevância narrativa para compreender as dinâmicas entre religião e política ou potencial de impacto no debate público.

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