Período da análise: 27 de abril a 04 de maio de 2026
Highlights
Síntese dos principais eventos, métricas e dinâmicas relevantes do debate político digital nas redes sociais no Brasil na semana.
I – O debate nas redes nesta semana esteve concentrado em custo de vida e agenda externa (29% dos posts) e na rejeição de Jorge Messias ao STF (26% dos posts), que juntos responderam por 55% das publicações e cerca 52% das interações. A direita foi predominante nesses dois eixos, articulando críticas ao cenário econômico e enquadrando a rejeição de Messias como derrota do governo federal. A esquerda concentrou-se na defesa de programas sociais, na crítica ao Senado pela rejeição da indicação de Jorge Messias e ao Congresso por usar o PL da Dosimetria como mecanismo de anistia, enquanto sustentou pautas ligadas a trabalho, renda e serviços públicos.
II – A esquerda esteve concentrada na promoção da agenda social e trabalhista e na crítica ao Legislativo diante da derrubada do veto presidencial ao PL da Dosimetria e da rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF, resultando no reforço das campanhas “Congresso Inimigo do Povo” e “Sem Anistia para Golpistas”. O segmento denunciou a atuação do Congresso como uma busca por blindar investigações e reduzir a pena de envolvidos na tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023.
III – A direita se mobilizou em torno dos últimos acontecimentos envolvendo o Senado Federal, com a rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF e com a derrubada do veto ao PL da Dosimetria, ambas as decisões lidas como derrota do governo Lula. Narrativas sobre custo de vida e impactos do cenário externo na política doméstica permanecem sendo articuladas pelo segmento. A presença de Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas no Agrishow gerou publicações entre políticos e mídias ligadas à direita.
IV – Presidenciáveis: Na última semana, Lula obteve alcance em reels com recortes de seu pronunciamento realizado no Dia do Trabalhador, 01 de maio, quando tratou da proposta de redução da Escala 6×1 e anunciou o Novo Desenrola Brasil para renegociação de dívidas. Já Flávio Bolsonaro obteve maior alcance em vídeo sobre suas visitas ao seu pai, que segue em prisão domiciliar, anunciando que o ex-presidente teria lhe dado a missão de mudar o país. Com menor volume de visualizações em seus reels, Ronaldo Caiado segue mobilizando a agenda de segurança pública.
V – A imprensa destacou a rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF e à derrubada do veto do presidente Lula ao PL da Dosimetria, consideradas derrotas do governo federal, a primeira sendo uma “derrota histórica”. Além disso, setores da imprensa especularem sobre a existência de um acordão para evitar a instalação da CPI do Banco Master, onde a derrubada do veto ao PL da Dosimetria teria sido uma moeda de troca envolvendo o presidente do senado, Davi Alcolumbre, o senador Flávio Bolsonaro e o ministro do STF, Alexandre de Moraes, relator do processo sobre os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 que levou à condenação de Jair Bolsonaro.
Ameaças à integridade democrática
A rejeição pela maioria do Senado da indicação de Jorge Messias ao STF deu força à pauta do impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal, contribuindo para o acirramento do conflito institucional entre estes dois poderes da república. A agenda foi promovida por políticos como Cleitinho Azevedo e Bibo Nunes, sendo também noticiada por veículos da mídia, como a Folha de S. Paulo, que tratou de possível sinalização de Davi Alcolumbre à oposição para pautar o tema em 2027 em troca de sua reeleição à presidência do Senado.
A atuação do Congresso, com a rejeição de Messias e a derrubada do veto da dosimetria, levantou a esquerda a alertar o caso como uma ameaça à democracia e ao equilíbrio entre poderes, sendo as ações consideradas chantagem política e rompimento com o pacto democrático, com o objetivo de frear investigações e anistiar golpistas. O fato foi comparado com os acordos realizados em torno do impeachment de Dilma Rousseff.
O uso de um dos fatos mais importantes para a democracia brasileira na últimas décadas, que foi o julgamento e condenação dos responsáveis pela tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, como moeda de troca para abafar investigações, é apontado pelos críticos como um gesto que encoraja futuros movimentos golpistas e despreza a democracia.

Fique de olho
A reunião entre Lula e Donald Trump, prevista para esta quinta-feira em Washington, ocorre sob expectativa elevada, mas com baixa previsibilidade. O governo brasileiro tende a enquadrar o encontro como uma iniciativa pragmática de defesa dos interesses nacionais, centrada na recomposição da relação bilateral após tensões comerciais — especialmente tarifas — e na abertura de negociações em áreas estratégicas como minerais críticos, regulação de plataformas digitais e segurança regional.
No plano geopolítico, a narrativa oficial deve enfatizar a capacidade de Lula de dialogar com diferentes pólos de poder sem abdicar da autonomia estratégica, projetando o Brasil como ator relevante e não alinhado automaticamente.
No plano doméstico, o encontro pode amplificar a polarização. A provável estratégia do governo será apresentar eventuais avanços — como redução de tarifas ou ganhos econômicos concretos — como evidência de eficácia diplomática e de compromisso com a soberania e o desenvolvimento nacional. Em contrapartida, a extrema direita tende a explorar a reunião para apontar inconsistências ou oportunismo político, sobretudo diante da aproximação com Trump após histórico de críticas.
Métricas e eixos de vocabulários mais utilizados
Foram coletadas por meio do Data Lake do Instituto Democracia em Xeque 172.909 publicações que somam 260.871.620 interações, compondo a base empírica desta análise. A partir desse conjunto, os vocabulários mais recorrentes foram processados com base na ocorrência de termos nos conteúdos [2]Clusterização hierárquica descendente com método Reinert., o que permitiu identificar padrões discursivos e organizar os dados em eixos de discussão. Esse procedimento resultou na delimitação de seis eixos narrativos, que estruturam o debate e expressam diferentes formas de enquadramento do tema.Nota da tabela: O termo extrema-direita utilizado no relatório comporta e subordina também os perfis de direita, tendo em vista a participação amplamente minoritária da direita neste campo quando se trata de audiência digital.


O debate digital desta amostra concentrou-se em seis eixos, com Custo de vida, agenda externa e rejeição de Jorge Messias ao STF respondendo juntos por 55% dos posts e 52% das interações. O eixo de custo de vida liderou em volume, com 2.476 publicações, 29% do total, e 40,1 milhões de interações. A circulação foi puxada pela extrema-direita, com 63%, seguida pela esquerda, com 25%, e pela imprensa, com 12%.
A rejeição de Jorge Messias ao STF foi o segundo eixo em volume, com 2.193 publicações, 26% do total, e registrou o maior engajamento da amostra, com 51,3 milhões de interações. A extrema-direita respondeu por 53% das publicações, enquanto a imprensa teve presença de 31% e a esquerda de 15%. O debate girou em torno da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal e de sua rejeição no Senado, com leitura do episódio como revés político do governo e disputa entre STF, Planalto e Congresso.
Programas sociais do Governo Federal aparece como terceiro eixo, com 1.938 publicações, 23% do total, e 45,4 milhões de interações. Diferente dos dois eixos anteriores, a esquerda predominou, com 54% das publicações, contra 38% da extrema-direita e 8% da imprensa. O eixo reuniu temas ligados à saúde, trabalho, educação, dívidas, escala 6×1 e programas sociais, articulando políticas públicas, renda e condições de vida.
Flávio Bolsonaro e Tarcísio no Agrishow concentrou 801 publicações, 9% do total, e 9,7 milhões de interações, com domínio da extrema-direita, responsável por 62% do volume. A pauta reuniu menções a Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Agrishow, agronegócio, pré-candidatura e articulação política, indicando uso do evento como espaço de projeção eleitoral e reorganização da direita em torno de nomes competitivos para 2026.
Os dois eixos sobre o PL da Dosimetria somaram 1.174 publicações, 14% do total, e cerca de 15,9 milhões de interações, mas expressaram disputas distintas. Congresso derruba veto presidencial do PL da Dosimetria teve 559 publicações e 8,8 milhões de interações, com maior presença da extrema-direita, que respondeu por 51% do volume. Já o enquadramento de que o PL da Dosimetria é anistia para Bolsonaro e crimes hediondos registrou 615 publicações e 7 milhões de interações, com predomínio da esquerda, responsável por 74% dos posts. A primeira abordagem concentrou-se na tramitação legislativa, na derrubada do veto e na contagem de votos, enquanto a segunda enquadrou a proposta como mecanismo de anistia e proteção aos envolvidos em atos antidemocráticos.
A distribuição diária dos clusters mostra predomínio de Custo de vida e agenda externa em quase toda a série, com 50% em 27/4, 43% em 28/4, queda para 21% em 29/4 e 16% em 30/4, seguida de retomada em 1/5, 2/5 e 3/5, quando voltou a alcançar 25%, 41% e 48%. O único dia em que esse eixo perdeu a liderança foi 29/4, quando a rejeição de Jorge Messias ao STF chegou a 50% da distribuição diária, indicando um pico concentrado em torno da indicação, da rejeição no Senado e da disputa entre governo, Congresso e Supremo.
O eixo Programas sociais do Governo Federal manteve presença em todos os dias, com avanço em 1/5, quando atingiu 39%, seu maior patamar na semana, em sintonia com a maior circulação de temas ligados a trabalho, renda, saúde, dívidas e escala 6×1. Flávio Bolsonaro e Tarcísio no Agrishow teve maior peso em 27/4, com 20%, e seguiu com presença relevante em 28/4 e 2/5, quando marcou 13% e 15%, sugerindo ativação da agenda de lideranças da direita no agronegócio e na disputa eleitoral.
O PL da Dosimetria é anistia para Bolsonaro e crimes hediondos ganhou destaque em 30/4, com 14%, e voltou a aparecer com 10% em 3/5, o que indica reativação pontual da crítica à proposta como mecanismo de impunidade. Já o Congresso derruba veto presidencial do PL da Dosimetria teve seu maior peso também em 30/4, com 16%, concentrando a repercussão sobre a votação no Congresso e seus efeitos sobre condenados. Com isso, 30/4 aparece como o dia de maior dispersão temática da série, pois reuniu queda do custo de vida, presença expressiva do Judiciário e avanço simultâneo dos dois eixos ligados à dosimetria.
A distribuição dos posts por segmento mostra predominância da extrema-direita, que aparece como campo majoritário em quatro dos seis eixos. Essa presença é mais forte em Custo de vida e agenda externa, com 63%, e em Flávio Bolsonaro e Tarcísio no Agrishow, com 62%, indicando maior ativação desse campo em debates que conectam economia, política externa, agronegócio e projeção eleitoral de lideranças da direita. A extrema-direita também lidera em Rejeição de Jorge Messias ao STF, com 53%, e em Congresso derruba veto presidencial da PL da Dosimetria, com 51%, dois eixos marcados por disputa institucional e reação a decisões ou articulações envolvendo governo, STF e Congresso.
A esquerda aparece como campo majoritário em dois eixos. Em PL da Dosimetria é anistia para Bolsonaro e crimes hediondos, concentra 73% das publicações, o que mostra atuação voltada a enquadrar a proposta como mecanismo de proteção a Bolsonaro e a envolvidos nos atos antidemocráticos. Em Programas sociais do Governo Federal, a esquerda responde por 54%, sustentando a circulação de pautas ligadas à saúde, trabalho, renda, dívidas, escala 6×1 e políticas sociais. Esse eixo também registra presença relevante da extrema-direita, com 38%, sugerindo disputa sobre a agenda social do governo e seus efeitos sobre o cotidiano.
A imprensa tem maior peso em Rejeição de Jorge Messias ao STF, com 31%, e em Congresso derruba veto presidencial do PL da Dosimetria, com 26%. Nos dois casos, a cobertura jornalística acompanha temas de tramitação institucional, votação, sabatina, Senado, Supremo e Congresso. Já em Custo de vida e agenda externa, a imprensa responde por 12%, enquanto em Programas sociais do Governo Federal fica em 8%.
Temas relevantes por eixo ideológico
ESQUERDA
Agenda social e direitos trabalhistas (jornada 6×1 e 1º de maio)
Conforme já observado em semanas anteriores, um dos eixos narrativos centrais da esquerda foi a promoção da agenda e conquistas do governo Lula. Foram comemorados avanços em políticas como o PL 90/2020, que proíbe a produção e comercialização de produtos alimentícios provenientes de alimentação forçada de animais, e a inclusão do financiamento do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) na Constituição. O Dia do Trabalhador (1º de maio) deu destaque para o segmento, com a divulgação do pronunciamento do presidente por perfis como de Janja e do PT, além do destaque para agendas como o fim da escala 6×1 (considerada urgente para os brasileiros) e o novo programa Desenrola Brasil. Outros destaques incluem a suspensão de mais de 3 milhões de multas do free flow e novas linhas de financiamento para caminhoneiros.
Derrubada do Veto da Dosimetria
A derrubada do veto presidencial do “PL da Dosimetria” gerou uma campanha contrária e revolta com o resultado da votação. A narrativa central foi a de que o projeto beneficia criminosos e favorece o crime organizado, como membros de milícias e um dos assassinos de Marielle Franco, inclusive com pontos contraditórios à Lei Antifacção sancionada por Lula. A publicação com maior engajamento entre a esquerda foi sobre o tema, da deputada Erika Hilton afirmando que, diferente do que é defendido pela direita,o projeto não beneficia idosos presos no 8 de janeiro, e sim “assassinos, corruptos e ladrões”. O projeto foi destacado como um acordo entre o bolsonarismo e o Centrão para barrar a CPI do Banco Master e anistiar envolvidos na tentativa de golpe de Estado. A segunda narrativa principal esteve em torno da campanha “Sem Anistia para Golpistas”, criticando o projeto pela tentativa de aliviar a pena de Jair Bolsonaro e seu apoio como golpismo, com a derrubada do veto sendo considerada “golpe” e retrocesso da democracia. Foi destacado que 63% dos brasileiros são contra o projeto.
Rejeição à indicação de Messias
Houve indignação entre o segmento sobre a rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF. A derrota foi retratada com uma injustiça contra Messias e uma perda para o Supremo, devido à sua qualificação e preenchimento dos requisitos para o cargo, sendo destacadas as prerrogativas da presidência para indicação do ministro. Foi considerado preocupante ser a primeira rejeição do Senado a uma indicação ao STF em 130 anos. Semelhante ao tema anterior, o segmento apontou que a aliança entre Centrão e oposição busca anistiar golpistas e blindagem contra investigações, protegendo interesses próprios e gerando uma crise institucional. Circularam críticas a Davi Alcolumbre, repercutindo que o senador já previa o resultado final.
Conflito com o Legislativo
A rejeição do nome de Messias para o STF e, especialmente, a derrubada do veto presidencial ao PL da Dosimetria, levaram à esquerda a um conflito aberto com a maioria do Legislativo. A narrativa central girou em torno da campanha “Congresso inimigo do povo”, como em publicações da Mídia Ninja e Lindbergh Farias, considerando as ações como uma “sabotagem contra o Brasil”. A principal publicação foi do influenciador Henrico Barboza, que promoveu ação de ruptura de Lula com Davi Alcolumbre e retirada de cargos ligados ao Senador como uma “jogada de mestre”, considerando a rejeição do nome de Messias como traição e “derrota das instituições democráticas”. A atuação do Congresso foi retratada como vergonhosa, de rompimento com o pacto democrático, e as decisões como politicamente motivadas, sendo destacada a rejeição a Hugo Motta e Davi Alcolumbre na pesquisa AtlasIntel/Bloomberg. Ademais, percebidas como chantagem política, as ações foram consideradas prejudiciais para o equilíbrio entre poderes. Algumas figuras, como Fernanda Melchionna, Rogério Correia e Thiago dos Reis, defenderam a necessidade de mobilização nas ruas, contudo a pauta não teve ampla adesão entre o segmento. Além disso, figuras como Túlio Gadêlha e Tatiana Roque destacaram a necessidade de renovação da composição do Senado com as eleições de outubro.
DIREITA
A derrota de Lula
A rejeição do nome de Jorge Messias pelo Senado foi celebrada por perfis da direita como uma vitória política contra o presidente Lula, sendo enquadrada como um marco de enfraquecimento do governo federal. Parlamentares como o deputado Nikolas Ferreira destacaram o episódio como um feito inédito do Senado, afirmando que o principal beneficiado seria o Brasil. Na mesma linha, o pré-candidato Flávio Bolsonaro interpretou a rejeição como evidência de perda de força política do governo. A deputada Bia Kicis afirmou que essa seria apenas uma entre várias derrotas futuras do governo Lula, enquanto o deputado Paulo Bilynskyj atribuiu a rejeição a uma vitória política de Flávio Bolsonaro. O governador e pré-candidato Romeu Zema classificou o episódio como um dia histórico para o país, e o senador Cleitinho Azevedo defendeu que o próximo passo seria o impeachment de ministros. Outros atores reforçaram e ampliaram a narrativa de que o principal derrotado é o presidente Lula, reforçando a ideia de desgaste político do governo (1, 2, 3, 4).
A busca pela Anistia de Bolsonaro e aliados
A derrubada do veto do presidente Lula ao PL da Dosimetria foi amplamente comemorada por parlamentares de direita, que se manifestaram nas redes sociais celebrando a decisão. O deputado Marcel van Hattem afirmou que a medida representaria “o início do fim de uma perseguição política” e declarou que o resultado da derrubada demonstrou que o Brasil quer liberdade e justiça. Ele também afirmou que caiu a narrativa da esquerda de que a derrubada do veto beneficiaria criminosos, destacando que o Congresso manteve os avanços do PL anti facção, voltado ao endurecimento do combate ao crime organizado, sem “prejudicar” os envolvidos nos atos de 8 de janeiro. Na mesma linha, o vereador Pablo Almeida classificou a derrubada como mais uma derrota do governo Lula, afirmando que o próximo revés virá nas eleições presidenciais e defendendo ainda a busca por uma anistia ampla, geral e irrestrita. Já o deputado Mário Frias comemorou ao lado de Flávio Bolsonaro, entoando gritos de liberdade. O senador Eduardo Girão destacou a presença de familiares dos presos pelos atos de 8 de janeiro e reforçou que a oposição seguirá atuando pela aprovação de uma anistia. A Jovem Pan News divulgou a comemoração de familiares dos condenados e ressaltou que o Davi Alcolumbre realizou uma manobra técnica para viabilizar a votação, reiterando trechos que poderiam flexibilizar penas para crimes hediondos, milícias e feminicídio.
Custo de vida é responsabilidade do Governo Federal
A narrativa sobre custo de vida passa a incorporar a ideia de que a alta de preços decorre de decisões do próprio governo federal. O eixo sustenta que a perda de poder de compra resulta de políticas adotadas pelo Planalto, sobretudo na tributação e na área de combustíveis. A elevação da mistura de etanol e biodiesel é visto como fator de pressão sobre os preços, enquanto a reforma tributária é associada ao encarecimento de serviços como passagens aéreas. A alta do gás de cozinha e dos alimentos é mobilizada como evidência desse processo, reforçando a leitura de que o governo teria falhado na contenção de custos básicos e contribuído para agravá-los. O crescimento do endividamento sustenta a ideia de que o modelo econômico atual penaliza o trabalhador, que paga mais para viver e perde capacidade de consumo. A narrativa busca atribuir responsabilidade ao governo pela elevação dos preços, transformando o custo de vida em vetor de desgaste da gestão Lula.
Cenário externo repercute na política doméstica
Houve mobilização do debate internacional para enquadrar o governo Lula como isolado, pressionado e incapaz de conduzir a política externa sem gerar desgaste interno. A relação com o presidente Donald Trump apareceu como principal eixo da narrativa, com publicações sugerindo que Lula teria buscado confronto com os Estados Unidos para explorar o discurso de soberania nacional e compensar perdas de popularidade. O conflito entre Estados Unidos e Irã foi usado para conectar geopolítica e custo de vida, sobretudo pela possibilidade de impacto no preço do petróleo e dos combustíveis. A viagem de Lula à Alemanha e os gastos da comitiva reforçaram a narrativa de desconexão entre a agenda internacional do governo e a realidade econômica da população.
Agrishow
Diversos perfis destacaram a presença do pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro e do governador de São Paulo Tarcísio de Freitas durante a Agrishow 2026, em Ribeirão Preto. Conexão Política e Jovem Pan News veicularam vídeos de ambos e destacaram à aproximação dos políticos. Enquanto Tarcísio declarou apoio à candidatura do senador, Flávio reforçou que o ex-ministro da Infraestrutura durante o governo de seu pai teria “plena capacidade” de assumir a Presidência da República e que isso acontecerá no futuro. O pré-candidato à presidência também criticou o atual governo, salientando que o agro seria tratado como “lixo”, se posicionando como o candidato do setor. Políticos como o deputado Carlos Jordy, e os vereadores Rubinho Nunes, Lucas Pavanato e Thomaz Henrique abordaram em suas redes sociais a participação de Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas no evento.
Presidenciáveis
Análise de narrativas dos presidenciáveis e parlamentares segundo campo ideológico e com maior relevância no Instagram ao longo da semana.
As métrica desta seção são relativas ao dia do fechamento do relatório (05/05 às 07h)
Na última semana, o reel de maior alcance publicado pelo perfil do presidente Lula no Instagram, com mais de 4,7 milhões de visualizações, foi o pronunciamento realizado pelo presidente e veiculado em rede nacional sobre o Dia do Trabalhador, em 01 de maio. Na ocasião, Lula defendeu a aprovação da Escala 6×1, argumentando que o trabalhador precisa de mais tempo “para viver, descansar e estar com suas famílias”.
Os dois outros reels de maior alcance, com respectivamente 3,3 e 2,7 milhões de visualizações, são derivações do pronunciamento oficial, com recortes específicos. Um deles trata dos desafios dos trabalhadores e da dificuldade de transpor modelos que beneficiam elites em detrimento do povo. Lula aponta que “se dependesse do sistema, nem a escravidão teria sido abolida”. O outro aborda o lançamento do Novo Desenrola Brasil para renegociação de dívidas com juros mais baixos.
Flávio Bolsonaro obteve mais de 5,3 milhões de visualizações na última semana em vídeo em que comenta sobre suas visitas ao pai, que segue em prisão domiciliar. O senador relata que por ser advogado habilitado nos autos pode comparecer à residência do ex-presidente com maior frequência e também afirmou que seu pai teria dado a missão de mudar o país. Flávio Bolsonaro alega, ainda, que cada escândalo na “mais alta corte” faz as pessoas perceberem que a prisão de Jair Bolsonaro e demais réus do 8 de janeiro seria injusta e perseguição política.
No segundo reel de maior alcance, com 4,5 milhões de visualizações, o pré-candidato defende a redução da maioridade penal, ao comentar sobre o caso de estupro coletivo de duas crianças, em São Paulo, praticado por cinco homens, entre eles 4 menores de idade.
O terceiro reel com maior número de visualizações publicado por Flávio Bolsonaro, com 3,5 milhões de visualizações, trata da rejeição, no Senado, da indicação de Jorge Messias ao STF por Lula, sob alegações de que o “governo Lula acabou”.
Ronaldo Caiado publicou reel que somou mais de 539 mil visualizações, salientando que, se for presidente, bandidos não andarão armados na rua, nem queimarão ônibus, pois terá “mão pesada contra o crime”. No segundo reel, com 295 mil visualizações, a abordagem também é sobre segurança, com afirmações de que Goiás lidera o ranking nacional de segurança pública no Brasil, com 84,1% de aprovação, de acordo com dados do Instituto Veritá.
No terceiro reel de maior alcance da última semana, Caiado alega que Lula incentivou endividamento e consumo e “agora quer culpar os outros”, salientando que o Banco Central não pode ser responsabilizado por má gestão do governo.
Imprensa
Monitoramento da cobertura dos principais veículos de imprensa, mídias alternativas (reframe) e influenciadores por campo ideológico.
Rejeição de Jorge Messias ao STF
As postagens com mais engajamento sobre a rejeição da indicação por Lula de Jorge Messias no Senado compuseram uma narrativa que destacou o fato como uma derrota política histórica do governo Lula. As mensagens mais informativas do InfoMoney e BBC Brasil destacaram o placar de 42 votos contrários contra 34 favoráveis à indicação, o que gerou a primeira rejeição em 132 anos. A GloboNews publicou o pronunciamento de Messias logo após a decisão, quando afirmou que sabia “quem promoveu tudo isso” com desgaste da sua imagem nos últimos meses.
Os veículos de imprensa destacaram conteúdos de seus principais jornalistas e analistas sobre os acordos nos bastidores político-institucionais que teriam levado à rejeição da indicação de Messias: a mensagem com mais engajamento foi publicada por Malu Gaspar que afirmou que Lula fora derrotado por uma improvável aliança entre Flávio Bolsonaro e Alexandre de Moraes por diversos interesses pessoais que tinham como ponto em comum o bloqueio de Messias, assim como o presidente do Senado, Davi Alcolumbre que, como antecipado por Natuza Nery, articulou a derrota do governo Lula e, assim, como destacou Andréia Sadi, tornou-se o grande protagonista da rejeição.
O protagonismo e as articulações de Alcolumbre teriam diversos motivos que, segundo Leonardo Sakamoto, o caso Banco Master seria o principal, seguido da vontade do senador pelo Amapá, por um “representante do Congresso” no STF, que seria o seu antecessor Rodrigo Pacheco. Em suma, como resumiu Julia Dualibi, um suposto “racha no STF” e o caso Master geraram a articulação entre Moraes, Centrão e família Bolsonaro para barrar a indicação de Pacheco.
PL da Dosimetria
Outra derrota política do governo Lula gerou alto engajamento na última semana: a derrubada do veto presidencial ao projeto de lei 2162/23, o “PL da Dosimetria”, que reduzirá as penas das pessoas condenadas pela tentativa de Golpe de Estado ocorrida em 8 de janeiro de 2023, inclusive a do ex-presidente Jair Bolsonaro. G1 e Exame relataram o fato também como uma grande vitória da oposição tanto na Câmara quanto no Senado.
Nota metodológica
Os dados apresentados neste relatório foram coletados por meio do Data Lake do Instituto Democracia em Xeque, que realiza acompanhamento contínuo do debate público digital em plataformas como Facebook, Instagram, X, YouTube e TikTok. Para o período analisado, foram identificados 172.909 publicações que somam 260.871.620 interações, considerando métricas como curtidas, comentários, compartilhamentos e visualizações.
A partir desse conjunto, foi conduzido um processamento textual com base nos vocabulários mais recorrentes nos conteúdos coletados. Essa etapa permitiu identificar padrões de co-ocorrência entre termos, resultando na delimitação de eixos narrativos que organizam o debate em torno de temas e enquadramentos específicos.
Do total de posts analisados, 8.582 foram classificados nesses eixos narrativos, concentrando 162.642.119 interações. A diferença entre o volume total e o subconjunto clusterizado decorre da aplicação de critérios de consistência semântica, que priorizam conteúdos com densidade temática suficiente para compor agrupamentos interpretáveis.
A seção de presidenciáveis foi construída a partir do monitoramento de conteúdos em formato Reels no Instagram. A base de dados foi extraída em 27/04/26 às 10h, e reúne os conteúdos com maior volume de interações publicados por presidenciáveis e parlamentares com projeção nacional, organizados por campo ideológico. A análise não busca representar a totalidade da atuação digital dos atores, mas capturar os conteúdos que alcançaram maior visibilidade e impacto no ecossistema do Instagram ao longo da semana.
Expediente
Semanal DX (05.05.2026) – Período da análise: 27 de abril a 04 de maio de 2026
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Como citar este relatório: ABRANTES, Natália; BERNARDI, Ana Julia; CAPONE, Letícia; CHIODI, Alexander Dugno; COSTA, Andressa Liegi; GARRIDO, Fabiano; SANTOS, João Guilherme dos; SOUZA, Paulo Roberto de. Instituto Democracia em Xeque (DX). Semanal DX, 05 mai. 2026. Período da análise: 27 de abril a 04 de maio de 2026.
Equipe do relatório
Diretores: Ana Julia Bernardi, Fabiano Garrido, João Guilherme dos Santos e Letícia Capone.
Coordenadores: Alexsander Dugno Chiodi e Paulo Roberto de Souza.
Pesquisadores: Andressa Liegi Costa e Natália Abrantes.
Projeto gráfico: Moara Juliana e Júlia Cristofi
