Painel Narrativo Semanal

Segunda rodada – 24 de maio de 2026

Investigação qualitativa sobre opinião pública, preferências eleitorais e percepção política de eleitores “pendulares”.

Método
Tríades etnográficas

Público
Eleitores Pendulares

Foco
Percepções Eleitorais

Escopo

Este relatório integra o projeto de acompanhamento qualitativo permanente da opinião pública brasileira ao longo de 2026, articulando escuta em profundidade, análise política e leitura estratégica do debate público.

A investigação se concentra em eleitoras e eleitores “pendulares”, ou seja, aqueles que oscilam entre Lula e Flávio Bolsonaro na disputa presidencial de 2026. A análise dialoga com a agenda factual e com os relatórios semanais do DX sobre narrativas políticas e integridade democrática, deslocando o foco do ambiente digital para a recepção qualitativa de temas políticos no eleitorado.

Nesta segunda rodada buscou-se avaliar a continuidade do eventual impacto positivo do “pacote de bondades” de Lula, assim como a repercussão continuada do impacto negativo do áudio revelado pelo The Intercept Brasil para a pré-campanha de Flávio Bolsonaro, que poderiam estar entre as causas das mudanças identificadas no último DataFolha de 22 de maio, incorporando ainda os achados dos relatórios Semanais DX de 12 e 19 de maio de 2026 e do Boletim Especial #BolsoMaster.

PERÍODO:
24 de maio de 2026

GRUPOS:
2 grupos focais em formato de tríades etnográficas

COMPOSIÇÃO:
Grupo 1 e Grupo 2, com separação por grau de conhecimento do caso Dark Horse/Banco Master. A composição por gênero aparece com inconsistências no documento-base e deve ser validada.

PERFIL:
30-50 anos, ensino médio, renda familiar de 3 a 7 salários-mínimos

REGIÃO:
Preferencialmente eleitores das Regiões Metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador (“swing states”) 

TRAJETÓRIA ELEITORAL:
Votou em Jair Bolsonaro em 2018; votou em Lula em 2022; está indefinido para 2026

CRITÉRIO POLÍTICO:
Não rejeita Lula nem Flávio Bolsonaro

CRITÉRIO INFORMACIONAL:
Separação entre participantes com conhecimento superficial e participantes com conhecimento aprofundado sobre o caso Dark Horse/BolsoMaster

Sumário executivo visual

Oito leituras estratégicas para decisão política e comunicação

1

O dano do caso Dark Horse/BolsoMaster cresce conforme aumenta o grau de informação. Baixo conhecimento preserva benefício da dúvida; conhecimento aprofundado produz repúdio, frustração e queda de confiança.

2

Entre menos informados, ainda aparece a hipótese de “erro de comunicação”. Entre os mais informados, o problema se desloca para o “jeito de ser” de Flávio: ironia, manobra, omissão, mentira e falta de segurança.

3

Rachadinha, Queiroz, “Micheque”, Mansão e imóveis comprados em dinheiro, loja de chocolates e agora Banco Master passam a compor uma narrativa cumulativa. O caso atual reorganiza memórias anteriores e transforma episódios antes menores em traço biográfico.

4

O volume de recursos continua funcionando como prova moral. A justificativa do filme é recebida com descrença e ativa suspeitas de lavagem de dinheiro, troca de favores e financiamento político/familiar.

5

A crença de que “todos são corruptos” continua amortecendo o dano, mas Flávio perde legitimidade para liderar uma campanha centrada em corrupção do PT/Lula.

6

Há abertura para terceira via ou substituto de Flávio, desde que seja desvinculado de corrupção e ofereça respostas para segurança e custo de vida. Caiado, quando estimulado, gera alguma simpatia por sua agenda de segurança, mas nenhum nome entusiasma.

7

As medidas são vistas como positivas quando lembradas: escala 6×1, Desenrola, fim da taxa das blusinhas, gás, energia, supermercado popular e motoristas de aplicativo. O risco continua sendo a leitura eleitoreira e paliativa.

8

Escala 6×1, creches, escola integral, Bets, ECA Digital e proteção contra violência machista podem organizar uma narrativa de “defesa da família” por meio de políticas públicas concretas: tempo, cuidado, renda, infância e segurança das mulheres.

9

Os participantes cobram que Lula fale mais de segurança e conhecem pouco suas medidas. Integração federativa entre polícias entusiasma; Ministério da Segurança divide, mas pode sinalizar prioridade.

10

A continuidade de Lula é debatida de forma inconclusiva. Há reconhecimento de experiência e oratória, mas também desejo de sucessão, união partidária, resultados nos estados e projeto de longo prazo.

Mapa de percepções

Como os participantes organizam Lula, Flávio e alternativas

Achados qualitativos

Temas, interpretações e aspas selecionadas

1

O principal achado da rodada é que o impacto do escândalo é diretamente proporcional ao grau de conhecimento do caso. Participantes com conhecimento superficial ainda tendem a enquadrar parte do episódio como erro de comunicação ou gestão de crise. Já entre os participantes mais informados, o caso aparece como “coisa grande”, com forte potencial de inviabilizar ou pelo menos fragilizar a candidatura de Flávio Bolsonaro.

Quando estimulados com mais informações, participantes inicialmente menos informados passam a considerar o tema altamente problemático, admitem a possibilidade de corrupção e demonstram preocupação com o que ainda pode aparecer. A crise, portanto, tem efeito pedagógico: quanto mais detalhes circulam, maior o risco de erosão da confiança.

“Acredito que tenha sido erro de comunicação que ele se equivocou ao dizer que não conhecia o Vorcaro.”

“Eu acho que é coisa grande o tema do Master. Sujou total para ele. Não tem como agora, a candidatura dele está acabada.”

Quanto mais o caso é conhecido, menos ele é percebido como ruído episódico e mais como evidência de padrão. A exposição informacional do caso é, por si só, uma variável de impacto eleitoral prejudicial para Flávio Bolsonaro.

2

A ressignificação observada na primeira rodada permanece. Episódios antes tratados como menores ou difusos — rachadinha, Queiroz, loja de chocolates, imóveis, “Micheque” — são reorganizados à luz do caso Banco Master/Dark Horse. O que antes poderia parecer disperso passa a compor uma narrativa cumulativa de corrupção familiar e, mais especificamente, de biografia corrupta de Flávio.

Nos grupos mais informados, a referência aos casos antigos aparece de forma mais automática e intensa. Nos grupos de menor conhecimento, ela aparece de forma mais hesitante, mas ainda assim vinculada à ideia de que a família Bolsonaro estaria dentro de práticas ilícitas próprias da política.

“Do Flávio tem bastante coisa, eu acho que é uma família de corruptos, teve aquela situação da Michelle, da loja de chocolate, do apartamento, eu acho que este escândalo é grande.”

“A questão da rachadinha, não sei, eu não sabia antes, mas acho que é um pé na corrupção.”

“Eu acho que é coisa grande porque na rachadinha agora lembro que eram várias pessoas envolvidas e envolvia muito dinheiro e essa aqui do Master é bem maior.”

O caso atual não apenas adiciona uma acusação: ele reorganiza retrospectivamente a memória sobre Flávio e a família Bolsonaro.

3

Em ambos os grupos, as quantias elevadas associadas ao filme continuam gerando descrença. A narrativa defensiva de que se trataria de financiamento privado de uma produção audiovisual não elimina a suspeita, porque o valor mobilizado é percebido como desproporcional. O montante funciona como prova moral: mesmo sem dominar detalhes jurídicos, os participantes concluem que “tem algo mais”.

“Não, eu acho que tem um fundo de verdade e o filme deve ser um disfarce e acho que vai aparecer muito mais gente.”

“É claro que tem corrupção envolvida aí, imagina se é normal pedir essa grana para um banqueiro para fazer um filme, tem troca de favor, toma-lá-dá-cá.”

A defesa “não teve dinheiro público” pode funcionar no núcleo bolsonarista, mas não resolve a pergunta que organiza o eleitor pendular: por que tanto dinheiro para um filme?

4

Na rodada anterior, o incômodo principal estava no jeito de Flávio se comunicar. Nesta rodada, especialmente entre os mais informados, o desconforto se desloca para seu “jeito de ser”. O tom irônico, as versões, a omissão e a percepção de manobra são interpretados como sinais de caráter político.

Entre participantes menos informados, ainda existe espaço para a explicação de erro de assessoria, problema de comunicação ou falta de advogado. Entre os mais informados, aparecem termos mais duros: despreparado, mentiroso, enganador, corrupto, truculento e, pela primeira vez no documento-base, “miliciano”.

“Acho que ele mentiu, sim, teve erro na comunicação, ele deveria ter sido melhor assessorado, não sei, um advogado.”

“Então, o Flávio é mais cauteloso, a forma dele falar é meio irônica, tudo conversa fiada, manobra, omite. Ele não transmite segurança na forma dele falar.”

“Sombrio, miliciano, já deu para provar que ele é meio ligado à milícia e despreparado, o primeiro problema que veio antes de ser presidente se mostrou despreparado nas respostas.”

O problema deixa de ser apenas reputacional e passa a ser de confiança pessoal: se ele age assim antes de governar, como agiria no poder?

5

A narrativa “todos são corruptos” permanece como amortecedor do dano. Ela impede que o escândalo se converta automaticamente em abandono de Flávio, especialmente entre participantes menos informados ou mais desejosos de mudança. Mas a rodada confirma um efeito estratégico relevante: Flávio perde legitimidade para empunhar a bandeira anticorrupção contra Lula e o PT.

Entre os mais informados, a rejeição pessoal a Flávio é maior em virtude de seu envolvimento direto. Lula continua vulnerável ao fantasma histórico da corrupção, mas sua imagem é parcialmente atenuada pela associação com políticas para os pobres.

“Eu acho que a corrupção está espalhada por todo lugar, não gosto de generalizar, mas não boto a mão no fogo, todos esses partidos não trabalham em prol do povo, eles não querem largar o osso.”

“Não existe partido político sem corrupção, mas se é para votar num partido que rouba, que pelo menos favoreça algo aos pobres…”

“Estavam falando muito do filho do Lula, Lulinha, ouvi reportagens, mas é fake news.”

A corrupção deixa de ser diferencial competitivo de Flávio e volta a ser um terreno pantanoso para todos — com desvantagem maior para quem pretendia se apresentar como alternativa moral.

6

Os participantes demonstram abertura a um nome de terceira via ou substituto de Flávio, mas apresentam baixo conhecimento sobre quase todos os nomes testados. Espontaneamente surgem Marçal e Tarcísio, mas ambos são descritos como inviáveis no contexto indicado pelo documento-base. Quando estimulados, Caiado, Zema, Michelle, Joaquim Barbosa e Aécio Neves não geram entusiasmo.

Michelle volta a ser percebida como marionete do marido. Caiado, associado à segurança pública, desperta alguma empatia. A demanda espontânea por um novo candidato é clara: desvinculação completa de corrupção, solução para segurança pública e resposta ao custo de vida.

“Queria muito uma mulher na Presidência, mas não seria ela e acreditoque o Bolsonaro estaria por trás.”

“Acho que Caiado e Zema seriam bons candidatos. Caiado tem uma questão de segurança pública muito forte.”

A crise de Flávio abre espaço, mas a direita ainda não tem, neste público, um nome que organize desejo de mudança, limpeza moral e capacidade de entrega.

7

A agenda positiva de Lula segue bem recebida quando é conhecida ou estimulada. Escala 6×1, Desenrola, fim da taxa das blusinhas, gás, energia, supermercado popular e medidas para motoristas de aplicativo aparecem como políticas capazes de melhorar a vida das famílias.

O problema continua sendo duplo: baixo conhecimento espontâneo e suspeita de timing eleitoral. Os participantes avaliam positivamente o conteúdo, mas questionam se as medidas são estruturais ou apenas paliativas e eleitoreiras.

“Essas medidas de Lula me fazem olhar positivamente para ele.”

“Eu acho que pode resolver um pouco sim a vida das pessoas, mas podem ser só paliativas, tipo o Desenrola, agora paga dívida e depois? E são políticas, eleitorais. Lula teria que trazer medidas ao longo prazo.”

“Acho todas as medidas super positivas, eu mesmo trabalho 6×1 e não dá mais.”

A comunicação governista precisa mostrar continuidade, permanência e projeto de longo prazo. Sem isso, a agenda positiva corre o risco de ser vista como alívio real, mas cálculo eleitoral.

8

Quando apresentadas, as políticas voltadas a mulheres, crianças e proteção familiar têm boa recepção. A escala 6×1 é associada a mais tempo das mães com os filhos, embora exista receio de demissões ou reação empresarial. O tema das Bets, vinculado ao Desenrola, aparece como especialmente impactante: há consenso de que o governo deveria limitar ou mesmo acabar com as casas de aposta, sobretudo para beneficiários de programas sociais ou seguro-desemprego. O ECA Digital é visto como muito positivo.

“Existem outras formas de ajudar as famílias, como as creches, as escolas integrais.”

“Com certeza o governo deveria limitar as Bets, limitar o número de apostas ou então, não sei, de acordo com a renda, e ninguém que recebeu bolsas, seguro-desemprego, nada disso poderia apostar.”

“Acho ótimo isso, super positivo porque vem garantir o direito das crianças, porque com certeza a Internet é um perigo para elas.”

Existe uma avenida comunicacional para Lula disputar “família” não como valor abstrato, mas como proteção concreta: tempo, renda, infância, mulheres, creche, escola e orçamento doméstico.

9

A segurança pública aparece como cobrança insistente. Os participantes querem que Lula trate mais do tema na campanha e que o governo anuncie ou comunique melhor suas medidas. A percepção é que Lula olha muito para economia e social, mas pouco para segurança.

As medidas do governo são pouco conhecidas. Quando estimuladas, a integração policial entre estados e governo federal tem recepção muito positiva e chega a entusiasmar. A criação de um Ministério da Segurança Pública divide opiniões: alguns não veem como essencial, outros consideram importante para sinalizar prioridade. O endurecimento contra facções é bem recebido.

“Mas não sei se precisa de um Ministério específico para isso. Mas essa coisa da integração dos estados ao governo federal é interessante, sim.”

“Parece que aumentar a pena para quem tem ligação com facção, quer pegar pesado, é bom, bandido tem que estar preso.”

“Essa coisa de união com os estados é ótimo, tem que ter união porque é uma engrenagem.”

Segurança pública pode ser ameaça ou oportunidade para o Governo. A oportunidade está menos em slogans e mais em mostrar suas iniciativas e na aposta por integração policial, firmeza no combate às facções e proteção das famílias.

10

O debate sobre Lula é inconclusivo. Parte dos participantes reconhece experiência, oratória, preparo e capacidade de articulação; parte considera que o governo “já deu o que tinha que dar” ou que seria necessário preparar uma pessoa mais nova. A idade aparece, mas não define sozinha a avaliação. O desejo mais consistente é que Lula prepare sucessor, una partidos e apresente resultados de longo prazo.

“Não vejo trabalho dele no longo prazo, também não vejo o Flávio capaz de fazer essas medidas ao longo prazo… teria que mostrar resultados em diferentes estados e com certeza que demonstre unidade com outros partidos.”

“Eu acho que o governo dele já deu o que tinha que dar, não vai resolver o que não resolveu ainda.”

“A idade não define não, o velho sabe trabalhar, já está há um tempo, ele tem muito contato, igual o Trump. Tem que ser uma pessoa preparada, uma pessoa com experiência, tem que ser uma pessoa que não tenha medo, de punho forte.”

O governo precisa falar de futuro, não apenas de continuidade: quem vem depois, qual projeto sustenta o país e como a experiência de Lula prepara renovação sem risco.

Fique de olho

Pontos de atenção para as próximas semanas.

👉 Comunicação das medidas: reduzir o desconhecimento da agenda positiva. O eleitor só reage bem às políticas quando elas chegam com clareza.

👉 Timing eleitoral: responder à pergunta “por que só agora?” com narrativa de continuidade, permanência e projeto de longo prazo.

👉 Família concreta: conectar escala 6×1, creches, escola integral, Bets, ECA Digital, combate à violência contra mulheres e proteção do orçamento familiar.

👉 Segurança pública: transformar medidas pouco conhecidas em uma narrativa de firmeza, integração federativa e combate às facções.

👉 Custo de vida: mostrar que Desenrola, gás, energia, supermercado popular e renda familiar fazem parte de uma estratégia, não de medidas isoladas.

👉 Estadista: a atuação internacional positiva pode ajudar, desde que seja traduzida em ganhos concretos para o Brasil e não apenas em prestígio abstrato.

👉 Futuro e sucessão: Lula precisa responder ao desejo de renovação, preparando sucessor, unindo partidos e apresentando resultados para além do curto prazo.

👉 Flávio na defensiva: quanto mais o caso é conhecido, maior o dano. A tese de erro de comunicação é frágil diante da leitura de mentira, manobra e “jeito de ser”.

👉 Anticorrupção enfraquecida: a candidatura perde legitimidade para usar corrupção como principal arma contra Lula/PT.

👉 “Todos são corruptos”: essa crença ainda salva parcialmente Flávio, mas também impede que ele se apresente como alternativa moral superior.

👉 Filme/lavanderia: o montante segue sendo a prova moral mais simples para o eleitor. Se não houver explicação convincente, a suspeita permanece.

👉 Plano B sem consenso: uma boa notícia para Flávio é que, embora haja desejo de substituição, nenhum nome entusiasma. Isso preserva Flávio, mas também mantém a direita vulnerável.

👉 Segurança pública: Caiado e outros nomes podem crescer se ocuparem a lacuna percebida em Lula. Flávio também poderia tentar, mas precisará superar o dano de credibilidade.

👉 Mulheres e família: Michelle desperta simpatia como figura feminina, mas continua vista como marionete de Jair Bolsonaro.👉 Mudar Pauta e/ou Enquadramento. O pré-candidato do PL tem duas tarefas tão urgentes como difíceis: a) tentar, por mérito próprio ou por sorte do acaso, conseguir mudar a pauta, diminuendo a exposição do debate sobre sua ligação com Vorcaro do noticiário; b) encontrar um enquadramento narrativo minimamente plausível para sua relação com Vorcaro, justificando tanto as diversas versões e inconsistências expostas anteriormente, como o porquê dos valores tão elevados investidos no filme e o fluxo desses recursos.

Nota metodológica

Tríades etnográficas e deep stories

Esta rodada foi realizada por meio de dois grupos focais qualitativos no formato de tríades etnográficas. O desenho amostral buscou observar eleitores e eleitoras em situação de indefinição eleitoral, definidos aqui como “pendulares”, com trajetória de voto cruzada entre os campos políticos ao longo dos últimos oito anos.

As tríades etnográficas são conversas qualitativas em pequenos grupos, geralmente compostas por três participantes, conduzidas por moderação especializada. Diferenciam-se de grupos focais tradicionais maiores porque favorecem maior intimidade, maior tempo de fala por participante e maior possibilidade de observação de narrativas pessoais, hesitações, contradições e deslocamentos de opinião.

A análise também se apoia na perspectiva de deep stories, isto é, na reconstrução das narrativas profundas pelas quais os participantes organizam sua experiência política. Uma deep story não é apenas uma opinião sobre um candidato ou tema; é uma história moral sobre justiça, merecimento, traição, esforço, família, corrupção, mudança, medo e esperança.

📌 O que o método permite observar: Sentimentos, percepções, raciocínios, afetos, justificativas morais, ambivalências, linguagem espontânea, mudanças sutis de posição e como o eleitor conecta escândalos, políticas públicas e expectativas de futuro.

📌 O que o método não permite afirmar: Não produz representatividade estatística nem estima proporções populacionais. As falas citadas expressam percepções situadas dos participantes e não verificação factual dos eventos mencionados.

Síntese estratégica final

A segunda rodada confirma e aprofunda o achado central da primeira: o eleitor pendular não está plenamente resolvido, mas sua leitura sobre Flávio Bolsonaro se torna mais negativa quanto maior é seu conhecimento do caso Dark Horse/BolsoMaster.

O escândalo deixa de ser apenas um problema de comunicação e passa a ser percebido como uma crise de credibilidade, preparo e caráter. A associação com Daniel Vorcaro, o valor do financiamento, a justificativa do filme e as versões públicas de Flávio produzem um dano biográfico cumulativo, que reativa rachadinha, Queiroz, loja de chocolates, imóveis e suspeitas antigas sobre a família Bolsonaro.

Ainda assim, Flávio não perde automaticamente todos os eleitores pendulares. A crença de que “todos são corruptos” e o desejo de mudança continuam funcionando como amortecedores. O eleitor pode reconhecer o dano moral e, mesmo assim, manter a hipótese caso o caso não continue escalando e Flávio apresente propostas atrativas nas áreas de segurança, saúde, e custo de vida.

Lula, por sua vez, se beneficia de uma agenda social e econômica bem avaliada quando conhecida. Mas a falta de conhecimento espontâneo, a suspeita de eleitoralismo e a cobrança por medidas de longo prazo reduzem a conversão automática dessa agenda em voto. O governo tem uma avenida promissora em se apresentar como “defensor da família” a partir de políticas públicas concretas (Enfrentamento a violência machista, contra  Bets e endividamento, fim da escala 6×1, promoção do ECA Digital e propostas para segurança pública), mas precisa organizar essas iniciativas em narrativa simples, permanente e crível e conseguir comunicá-las.

A segurança pública se consolida como tema de fronteira. O eleitor percebe Lula como forte no social e na economia, mas insuficientemente firme na segurança. Ao mesmo tempo, demonstra boa receptividade a integração federativa da polícias presente na PEC da Segurança, assim como ao combate às facções e proteção das famílias. Esse é um terreno em disputa: pode favorecer Caiado ou a direita, mas também pode ser apropriado por Lula se comunicado com firmeza e entrega concreta.

O debate sobre a continuidade de Lula revela outra tensão: experiência versus renovação. A idade não é obstáculo definitivo, mas aparece associada ao desejo de sucessão, unidade partidária e projeto de futuro. Para esse eleitor, a pergunta não é apenas se Lula deve ficar; é se ele consegue preparar o país para depois dele.

Quem melhora minha vida sem parecer que está me enganando?

Quem tem coragem e preparo para enfrentar o crime?

Quem realmente está preocupado com a minha família?

Quem não rouba ou rouba menos? Ou não está diretamente envolvido?

Quem representa a mudança sem colocar o país em risco?

Quem tem projeto para além da próxima eleição?

Baixe a versão em PDF:

Diretores Participantes:

Direção de Relações Institucionais

Conselheiros Participantes:

Professora da UNIFESP e pesquisadora em Ciências Sociais

Pesquisadores Participantes:

Coordenação de Arte e Comunicação
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